Nietzsche

Jean Granier · Capítulo 22 de 32

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Nietzsche

A arte, protetora da vida

Dois conceitos ajudam a articular as duas partes (pragmatismo vital e integridade filológica) que formam a experiência concreta do conhecimento, e ressaltam a influência de Heráclito na reflexão nietzschiana. O primeiro deles é o conceito de “combate”. A ilusão e a verdade estão engajadas numa luta fraterna, e esta competição se inscreve na linha da vontade de potência. “Mesmo que fôssemos insensatos a ponto de considerar verdadeiras todas as nossas opiniões, não desejaríamos, porém, que fossem as únicas a existir: não sei por que haveria de se desejar a onipotência e a tirania da verdade, basta-me saber que a verdade possui um grande poder. Mas é preciso que ela possa lutar, e que ela tenha uma oposição, e que se possa de tempos em tempos descansar dela no não-verdadeiro” (Aurora). A seguir, o conceito de “véu”: ele sugere que a verdade requer a ilusão para se ocultar a uma curiosidade demasiado sôfrega, a essa “familiaridade no toque” cuja trivialidade escandalizava Nietzsche no plano das relações humanas. A verdade gosta de se ocultar, porque ela quer se reservar como exceção. O segredo não é amigo do raro? Portanto, “dever-se-ia honrar mais o pudor com que a natureza se oculta atrás do enigma e das incertezas. Não será a natureza, talvez, uma mulher que tem suas razões para não mostrar suas razões?” (A gaia ciência).

A arte, protetora da vida

Por uma dessas amplificações em que se manifesta a profundidade do pensamento (pois as aproximações que ele supõe elucidam a própria essência daquilo que ele aborda), Nietzsche confere à arte uma extensão tão grande que pode reunir, sob esse conceito, todas as atividades criadoras de formas e, com isso, matrizes de ilusões. Que elevado entendimento, em comparação às análises correntes, em que a arte fica confinada ao domínio das belas-artes e alimenta apenas os raciocínios dos especialistas em “Estética”! Assim, a arte se subtrai a um conceito rasamente antropomórfico, deixa de ser o apanágio do homem, para ser restituída à sua verdadeira origem, à própria Natureza, em outros termos, à potência demiúrgica que opera nas realizações do mundo (cf. O nascimento da tragédia). Além disso, extirpa-se o velho erro, comum a quase todas as filosofias, que consiste em explicar a arte colocando-se, não no ponto de vista do criador, como seria legítimo, e sim no ponto de vista do espectador, sancionado pelo inflamento da ideia do “belo”, regularmente definido, além do mais, segundo os cânones do pretenso “bom gosto”, esse servo do conformismo preguiçoso!

Pensada, pelo contrário, segundo seu princípio, a arte é em Nietzsche essencialmente uma produção ou, mais precisamente, uma construção de formas. Existe “arte” autêntica sempre que uma matéria é organizada em formas e em figuras. Em virtude deste critério, um organismo já é obra de artista: “A fisiologia de grau superior certamente saberá compreender a presença das energias artistas em nosso desenvolvimento, e não apenas no do homem, mas também no do animal; ela dirá que com o orgânico também se inicia o artístico” (Fragmentos sobre a energia e a potência). Antecipando-se à interpretação freudiana da libido, Nietzsche defende esta ousada intuição: “A força plástica inconsciente se revela na geração; há aí um instinto artista em ação” (Vontade de potência I). Simultaneamente – e porque toda criação de formas é, para Nietzsche, ocultação do fundo de onde são extraídas as formas – a arte é o véu das aparências que nos ocultam magicamente o caos, portanto, a ilusão protetora da própria vida. “Se não tivéssemos provado as artes, se não tivéssemos inventado essa espécie de culto ao erro, não poderíamos suportar a visão do que nos mostra a Ciência: a universalidade do não-verdadeiro, da mentira, e que a loucura e o erro são condições do mundo intelectual e sensível. A lealdade teria como resultado a aversão e o suicídio. Mas à nossa lealdade se opõe um contrapeso que ajuda a evitar tais consequências: é a arte, como boa vontade da ilusão” (A gaia ciência). Portanto a arte é, acima de tudo, “um remédio para o conhecimento. A vida só é possível graças a ilusões de arte” (Nascimento da tragédia).

Então aflora com toda a evidência a ideia fundamental subjacente a toda a argumentação nietzschiana: o próprio pragmatismo vital, agora colocado sob esta luz, é ele mesmo uma expressão da arte. Pois não traz ambas características: a potência plástica e, por meio de seus valores, a produção de ilusões úteis à vida? Num texto particularmente denso, Nietzsche justifica e explica essa assimilação: “Identidade de natureza entre o conquistador, o legislador e o artista – a mesma maneira de se traduzir na matéria; a mais extrema energia [...]. Transformar o mundo, a fim de conseguir tolerar viver nele, tal é o instinto motor” (Vontade de potência II). Nietzsche já tratava essa ideia desde a juventude (mais uma prova da notável continuidade do pensamento nietzschiano!): “É apenas porque se esquece esse mundo primitivo das metáforas, é apenas porque se solidifica e se imobiliza a massa das imagens originárias que, como lava ardente, jorram da faculdade originária da imaginação humana, é apenas porque se alimenta a crença invencível de que este sol, esta janela, esta mesa são uma verdade em si, em suma, é apenas porque o homem se esquece [...] enquanto sujeito dotado de um poder de criação artística, é apenas por essas razões que o homem vive com alguma tranquilidade, alguma segurança e senso de continuidade” (Werke X 199). Assim, “temos a arte para não morrer da verdade” (Werke XVI 248).

A verdade e a ilusão, o conhecimento e a vida, a justiça e o pragmatismo dos valores se entrelaçam para constituir o Jogo do Mundo: “Welt, Weltspiel” (Werke V 349). “Jogo divino, que se joga além do Bem e do Mal” (Werke XIV 75)!