Nietzsche
O problema da coerência
Se, por um lado, a utilização da análise histórica por certos comentadores, análise fundada na pesquisa das fontes, no levantamento das influências e no estudo cronológico dos textos, enriqueceu incontestavelmente nossa compreensão da obra de Nietzsche, por outro lado ela também contribui para levantar novamente a questão de sua coerência. Como se evidencia particularmente nos trabalhos de Charles Andler, o método histórico, com efeito, leva a recortar a obra de Nietzsche em vários “períodos”, elevados com precipitação e imprudência à condição de “sistemas”. E assim a filosofia de Nietzsche é tratada como uma justaposição de teses onde não se discerne mais o princípio de continuidade! Não haveria a filosofia de Nietzsche, mas uma sucessão de filosofias cuja reunião seria apenas nominal...
Naturalmente não é nossa intenção rejeitar os resultados obtidos graças a esse gênero de leitura. Sem corroborar os títulos escolhidos, de bom grado admitimos, com base num exame sério do estilo, da argumentação e da orientação de cada texto, que é possível reconhecer três grandes etapas no movimento geral da reflexão nietzschiana, correspondendo, grosso modo, a um “pessimismo estético”, a um “intelectualismo” crítico de inspiração científica e, por fim, a uma concepção “dionisíaca” do mundo, centrada nos temas líricos do super-homem e do Eterno Retorno. Assim, é certo que os textos do primeiro período trazem as reflexões do jovem professor de filologia grega, discutem os problemas da atualidade, da história e do saber em função dos conceitos e das interrogações ligadas à cultura antiga, mas também sob a luz do convívio com o pensamento schopenhaueriano. É igualmente certo que, no período intermediário, há o predomínio da reflexão crítica; esta serve visivelmente para consumar e justificar a ruptura com o wagnerismo e, de modo mais radical, com Schopenhauer; apoia-se no duplo reforço trazido pela leitura assídua dos moralistas franceses (Vauvenargues, La Rochefoucauld, Pascal etc.) e das obras científicas; sob este aspecto, vale observar que, já nas Póstumas de 1873-1875, abundam as notas referentes às ciências naturais, e que em 1874 Nietzsche tomou de empréstimo na biblioteca da Universidade da Basileia a Philosophia naturalis do físico Boscovitch.
Mas repetimos que, de qualquer forma, são apenas etapas de um mesmo amadurecimento, e jamais um fracionamento obedecendo aos limites de três doutrinas diferentes. Não faltam provas que confirmam isso. Em primeiro lugar, quanto ao princípio da continuidade, o próprio Nietzsche (e, o que é muito revelador, desde muito cedo) se pronunciou com clareza absoluta: “Penso que aos 24 anos tem-se atrás de si a parte mais importante de sua vida, embora o que dará valor a esta vida só apareça mais tarde. De fato, é mais ou menos nesta idade que uma jovem alma destaca a essência característica de todos os acontecimentos e de todas as
experiências: assim ela cria para si um mundo de caracteres típicos do qual não sairá mais”. 4 Aliás, ele reiterou essa afirmação, em termos igualmente categóricos, em seu estudo sobre Schopenhauer educador. Além disso, cumpre ressaltar que apenas levando em consideração a continuidade é possível entender o sentido último do período intermediário, dito “intelectualista”, o qual fica totalmente abafado na leitura historicizante; como explica Nietzsche em seu prefácio a Humano, demasiado humano, a finalidade essencial da crítica era realizar “a superação da metafísica” – tarefa à qual ele consagrará uma enorme parcela das pesquisas do último período. Quanto aos temas principais que formavam a estrutura de O nascimento da tragédia e dominavam os ensaios de grande alcance redigidos na mesma época (cf. A competição de Homero e Sobre a verdade e a mentira num sentido extramoral ), eles constituem o próprio núcleo das ideias mais tipicamente nietzschianas do último período. A conclusão, portanto, elimina qualquer espécie de dúvida: sim, o pensamento de Nietzsche se transformou, mas a alma dessas metamorfoses é uma interpretação coerente e unitária.
1. Cf. Nietzsche, Rée, Salomé, Correspondance. Trad. Ole Hansen-Love e Jean Lacoste. Paris: PUF, 1979.
2. Cit. in: BLONDEL, Eric. Nietzsche: Le cinquième évangile? A obra está muito bem documentada sobre esta e outras questões; quanto às traduções, são um modelo do gênero.
3. Cf. MATTER, Jean. Nietzsche, philosophe lyrique. Esquisse pour un portrait psychanalytique. in: Nietzsche. Études et témoignages du Cinquantenaire. Société française d’Études nietzschéennes. Paris: Flinker, 1950.
4. Considerações pessoais de Nietzsche paralelas a seu Curriculum vitae escrito para a Universidade da Basileia, em 1864, cit. in: BLUNCK, R. F. Nietzsche. Enfance et jeunesse. Trad. Éva Sauser, ed. Corrêa. Paris: Buchet-Chastel, 1955. p. 243.