Nietzsche

Jean Granier · Capítulo 11 de 32

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Nietzsche

A calúnia dos sentidos e do sensível

Diante de cada realidade, a reflexão dualista se empenha em dissociar meticulosamente positivo e negativo, valores e antivalores, e assim imagina restaurar, pelo menos como regra para a conduta, o ideal de um reino original imaculado. Evidentemente, são os instintos, as paixões, os desejos que arcam com o ônus dessa dissociação purificadora: “Exige-se que o homem castre os instintos que lhe permitem odiar, prejudicar, se encolerizar, exigir vingança. Essa concepção contra a natureza corresponde à ideia dualista de um ser inteiramente bom ou inteiramente mau (Deus, o Espírito, o homem), que reúne no primeiro caso todas as forças, as intenções e os estados positivos, no segundo caso todas as forças, as intenções e os estados negativos” (Vontade de potência I).

Além do fato de que, na prática, essa separação logo é esquecida, de forma que o paladino do Ideal não hesita em utilizar todos os recursos do mal para assegurar o triunfo do bem, Nietzsche observa que o negativo, excluído com tanta precipitação e hipocrisia, é o fermento indispensável de toda criação; empenhar-se em eliminar esse mal-negativo é, portanto, matar no homem o princípio vital da superação de si, degradar o homem a um “animal de carga”, fraco e mesquinho. Por trás das condenações proferidas em nome da virtude, logo se descobre o ódio contra os inovadores, a desconfiança invejosa diante da bela individualidade capaz de autonomia e de invenção: “O novo, de qualquer modo, é o mal, visto que é o que quer conquistar, derrubar as fronteiras, abater as antigas devoções; só o antigo é o bem!” (A gaia ciência).

Nietzsche substitui o dualismo pela compreensão da gênese que torna novamente fluidos os antagonismos artificialmente enrijecidos e restaura com incessantes mesclas a continuidade móvel do real. Ele tem consciência de seguir uma orientação análoga à do hegelianismo e, no elogio que faz à dialética de Hegel no quinto livro da A gaia ciência e no prefácio de Aurora (datado de 1886), é uma de suas intuições mais caras que ele aplaude: a intuição de que não existem substâncias estanques e inertes, e que tudo é uma perpétua metamorfose. Trata-se, porém, apenas de uma afinidade que, por outro lado, mostra as divergências irreconciliáveis entre os métodos de Hegel e os de Nietzsche. O panlogismo hegeliano, tanto quanto o imperialismo do “sistema” e a teodiceia subjacente à dialética da razão na História, continua a refletir, aos olhos de Nietzsche, o espírito funesto do pensamento metafísico. Feitas tais ressalvas, seria mutilar seriamente a filosofia de Nietzsche se, por ignorância dos textos ou pelo gosto de contrastes provocadores, deixasse-se de lado a concordância de Nietzsche com Hegel sobre o papel da negação, e mais exatamente da contradição, na gênese da realidade; e, portanto, a recusa de ambos do dualismo com que se compraz o “entendimento separador”.

A calúnia dos sentidos e do sensível

O dualismo metafísico é igualmente devastador em seu tratamento dos conceitos de “fenômeno” e “realidade”. Ao invés de ver no fenômeno a manifestação exigida pela própria essência da realidade (como ensina Hegel), esvazia-se ou avilta-se o fenômeno até reduzi-lo a uma “aparência” vã, a fim de intensificar por oposição o brilho de uma realidade, assim concebida pelo modelo de um absoluto despido de qualquer tipo de relação. A aparência desliza para o nada, ao passo que o real, erigido em absoluto, reina em sua solidão inviolável, desprezando qualquer manifestação. Esta cisão não é, porém, um terrível contrassenso em relação à própria aparência? Sem dúvida alguma, porque – responde Nietzsche – “como posso dizer alguma coisa de um ser, que não seja os atributos de sua aparência! Certamente não uma máscara inanimada que se pode pôr ou tirar de um X desconhecido! A aparência é, para mim, a vida e a própria ação, a vida que zomba de si o suficiente para me fazer perceber que ali há apenas aparência, fogo-fátuo, dança dos elfos, e nada mais” (A gaia ciência).