Nietzsche
Princípios de uma leitura imparcial
camada de mentalidade rasteira”.2 O mesmo vale para as noções tomadas à psicobiologia, em particular “instinto” e “raça”, cujos significados são cuidadosamente remodelados por Nietzsche, de maneira que se tornam conceitos originais para uma reflexão filosófica, e portanto incompatíveis com qualquer veleidade de utilização racista. Mas não nos detenhamos nesses lodaçais. As verdadeiras questões nos chamam ao alto.
Princípios de uma leitura imparcial
Independentemente das falsificações, cumpre constatar, sobretudo diante do volume impressionante de notas póstumas, que aqui estamos diante de uma obra que se afigura mais um andaime do que um edifício pronto. Nietzsche, aliás, pouco tempo antes da crise em que iria perder a razão, estava multiplicando os esboços e planos para aquilo que, a seus olhos, seria o coroamento de suas pesquisas. Prova flagrante de que desejava, certamente, não encerrar suas ideias num “sistema”, mas pelo menos edificar uma obra em torno de alguns grandes conceitos, de molde a conferir à sua filosofia uma coerência mais evidente e, portanto, mais convincente. A loucura, sob este aspecto, é acidental; e, como todo acidente, ela transtorna os projetos em formação de uma maneira que converte em fatalidade aquilo que, do ponto de vista da intenção consciente, era apenas um acaso. Seria prejudicial ao entendimento de Nietzsche subestimar e a fortiori negligenciar essa circunstância, pois é ela que, em certa medida, é responsável pelo fato de que o pensamento do filósofo se apresente nesse estado de desordem e inconclusão.
Sem dúvida. Mas, alguém poderá indagar, afora os escritos póstumos, não subsiste uma quantidade suficiente de volumes realmente acabados, para que se possa captar a coerência geral da reflexão nietzschiana? Infelizmente, no caso de Nietzsche, não é tão fácil proferir um juízo fundamentado, longe disso! Vários tipos de argumentos o impedem: primeiro, salvo alguns textos redigidos de forma contínua (O nascimento da tragédia, Genealogia da Moral, por exemplo), as obras em sua maioria são compostas de fragmentos mais ou menos extensos, com numeração e muitas vezes com uma fórmula de impacto como abertura; a classificação em capítulos, naturalmente, não basta para fundir os fragmentos, para garantir a plena continuidade do discurso. Mesmo uma certa atmosfera, mais característica deste ou daquele livro, não elimina essas constantes alterações de ritmo que se impõem à atenção e acabam dando ao leitor a sensação de percorrer um labirinto. Além disso, os textos são muito heteróclitos: um escrito francamente poético, como Zaratustra, está ao lado de coletâneas de aforismos e dissertações de um só fôlego! Por fim, não é possível tratar a massa dos póstumos como variedades supérfluas. Ela é de uma riqueza prodigiosa, e é tanto mais impossível desdenhá-la pois é ela que fornece a chave da organização dos livros publicados por Nietzsche: os fragmentos que, como acabamos de dizer, constituíam o material dos diversos itens dentro dos grandes capítulos frequentemente são textos reelaborados e corrigidos a partir dos rascunhos que encontramos entre os escritos póstumos. Assim tem-se uma ideia de como procedia Nietzsche para compor um livro: entre os esboços de seus cadernos de notas, ele selecionava os fragmentos que lhe pareciam mais adequados, arrumava-os e dava-lhes acabamento, depois distribuía-os em diversos capítulos, em função de uma ideia diretriz, aliás bastante fluida para permitir uma organização flexível. A análise dos póstumos, por conseguinte, é muito valiosa, na verdade decisiva, para refinar, reorientar e aprofundar o comentário.
Nessas condições, o princípio fundamental de todo estudo que queira chegar ao entendimento rigoroso do pensamento nietzschiano deve ser o seguinte: aplicar aos textos de Nietzsche o método que ele mesmo preconizava em sua própria teoria do conhecimento. Em outros termos, conduzir a reflexão sobre os textos de Nietzsche segundo o modelo do conhecimento interpretativo; em suma, tentarmos nos tornar “bons filólogos” do nietzschianismo – segundo a escola do próprio Nietzsche! A justificativa desse princípio, além da excepcional fecundidade que ele garante, é o testemunho de Nietzsche: a saber, o fato de que ele construiu sua teoria do conhecimento a partir de sua própria experiência de homem e de pesquisador. Sua teorização é a transcrição de sua práxis pensante.
Logo, aplicar a Nietzsche o procedimento da interpretação é explicar Nietzsche segundo o espírito e a linguagem nietzschianos.
Somente assim é possível, ao mesmo tempo: restituir valor positivo à apresentação e à formulação nietzschianas, ao invés de tomá-las como aproximações insuficientes de um sistema filosófico tradicional, cobiçado mas não atingido por Nietzsche (na verdade, é a rejeição clara de qualquer sistema que inaugura o método revolucionário da nova filosofia como interpretação. Esta, portanto, postula a ruptura com a “metafísica”); valorizar a variedade e a mescla dos gêneros, pois agora se reconhece nelas o virtuosismo supremo numa arte da interpretação que zomba da argumentação lógica pedante e monótona (aqui, novamente, é a “metafísica” que é alvo da ironia de Nietzsche); e, por fim, salvaguardar a unidade profunda da reflexão ao longo dos rodeios “labirínticos”, pois esta unidade, deixando de ser garantida pelo estrito encadeamento dos conceitos, não pode ser senão a unidade que anima a multiplicação das “perspectivas”; assim, a proliferação das aparentes contradições, desconcertantes para os leitores apressados e superficiais, revela a coerência subjacente da indagação, visto que ela traduz a pluralidade dos pontos de vista, mais ou menos antagônicos, pelos quais é absolutamente necessário passar caso se queira compreender a realidade em seu devir e em seus contrastes. A contradição em Nietzsche deixa de ser um espinho na carne do pensamento, um espinho a ser arrancado pela razão (analítica ou dialética, pouco importa!), e assume o valor de um sinal que nos avisa para mudar de ponto de vista. Isso muitas vezes exige que mudemos também de nível. Assim, a interpretação é multidimensional e está em constante mutação.
Não admira, por conseguinte, que cada grande conceito nietzschiano seja essencialmente sobredeterminado e que para explicá-lo, portanto, seja necessário reconstituir cada significação que o compõe; sem esquecer o levantamento dos diversos estratos em que ele foi elaborado pelo movimento do pensamento ascensional de Nietzsche. O resultado: um comentário em espiral, que recolhe e hierarquiza uma infinidade de significações, conflitantes e solidárias. Com a seguinte precaução indispensável, no tratamento dos textos póstumos: jamais edificar uma interpretação sobre citações derivadas apenas dos escritos póstumos, mas cuidar em associá-las sempre a citações extraídas das obras que receberam a explícita aprovação de Nietzsche.