Nietzsche
A gênese do espírito e da veracidade
Para colocar o método genealógico em operação e, de uma maneira mais ampla, para praticar uma interpretação digna das regras da filologia rigorosa, é preciso que tenha se formado, se educado e se firmado uma exigência de veracidade, cujo fiador será o “espírito”. Aliás, como se explicaria, se assim não fosse, a tomada de consciência niilista que revela o nada por trás de todos os ideais enganadores da metafísica? E onde alimentar a resolução de transmutar todos os valores para que o super-homem surja dos escombros do niilismo moderno? “Pois por que o advento do niilismo é necessário? Porque nossos próprios valores anteriores, em suas últimas consequências, resultam nele; porque o niilismo é o resultado lógico de nossos valores e nossos ideais mais elevados – porque é preciso passar primeiro pelo niilismo para descobrirmos o valor real desses ‘valores’” (Vontade de potência II).
Nietzsche se preocupará, pois, em rastrear a gênese do “espírito” capaz de “veracidade”. Constata-se que essa nova exploração não é senão uma variante da grande pesquisa genealógica. Mas aqui dois traços particulares devem ocupar nossa atenção. De um lado, essa gênese apela à ideia de uma “interiorização do homem” que, abordando o espinhoso problema da “má consciência”, tem provocado muitos mal-entendidos; de outro lado, ela revela, como base da argumentação nietzschiana, o recurso a uma sequência dialética que, devido a seu estilo incontestavelmente hegeliano, desconcertou muitos comentadores, que se recusam a ver que a oposição global do nietzschianismo ao hegelianismo não exclui absolutamente afinidades e convergências em pontos muito específicos como, por exemplo, a dialética e a noção do devir. Assim, essa dupla dificuldade é um excelente teste para avaliar a profundidade da interpretação, na medida em que as respostas dadas nessa ocasião encerram o sentido dado aos temas fundamentais do pensamento de Nietzsche – em primeiro lugar, naturalmente, à teoria da verdade e à noção da vontade de potência...
Fiel à sua inspiração inicial, Nietzsche não atribui ao espírito uma origem transcendente, como se o espírito, investido de um valor superior, descesse do céu suprassensível; pelo contrário, ele mostra que o espírito se constitui pela transformação dos próprios instintos, a qual, em certas circunstâncias muito determinadas, desencadeia um fenômeno mórbido, mas também muito promissor: a “má consciência”.
Essas circunstâncias privilegiadas correspondem ao processo de “interiorização” do homem sob forte coerção, que bloqueia a descarga normal dos instintos no mundo exterior. “Todos os instintos que não têm vazão, que alguma força repressiva impede de virem à tona, retornam para dentro – é o que chamo de interiorização do homem” (Genealogia da Moral). Entremos em maiores detalhes: a interiorização do homem “se dá quando instintos poderosos que não podem se desafogar externamente, por interdição da organização da paz e da sociedade, buscam uma compensação interior com o auxílio da imaginação. A necessidade de agressão, de crueldade, de vingança, de violência retorna sobre si, ‘regressa’” (Vontade de potência I). Esse recalcamento das pulsões (como dirá Freud mais tarde, cujas reflexões, sobretudo em O mal-estar da civilização, estão próximas às de Nietzsche) obriga os homens assim atormentados a alterar toda a sua organização psíquica: em vez de se entregarem à espontaneidade vital, local das adaptações cômodas e engenhosas, só podem contar com as diretrizes rígidas, brutais e mediocremente eficazes de sua consciência e de suas funções racionais: “Estavam reduzidos a pensar, a deduzir, a calcular, a combinar causas e efeitos, os infelizes! Estavam reduzidos à sua ‘consciência’, a seu órgão mais fraco e mais canhestro. Creio que jamais existiu na terra um tal sentimento de desespero, jamais um mal-estar tão pesado!” (Genealogia da Moral). Os instintos recalcados geram, então, um terrível sentimento de culpa; e o agente dessa culpabilização torturante, o carrasco interior é precisamente a “má consciência”. Como não se sentir tomado de pavor e repugnância perante o espetáculo desse masoquismo moral fabricado incessantemente pela má consciência, verdadeira máquina infernal instalada no coração do homem? Mas seria um erro ceder a essa impressão desalentadora. A realidade, como sempre, é mais matizada e mais rica de esperanças secretas. Certamente, com a má consciência “introduziu-se a maior e mais inquietante de todas as doenças, e da qual a humanidade ainda não se curou, o homem doente do homem, doente de si mesmo: consequência de um violento divórcio do passado animal, de um salto e ao mesmo tempo uma queda em novas condições de existência, de uma declaração de guerra contra os antigos instintos que até então constituíam sua força, sua alegria e seu caráter temível” (Genealogia da Moral). E, no entanto, ela é também a matriz das mais altas oportunidades do destino humano! “Toda essa ‘má consciência’ atuante, como verdadeira geradora de eventos espirituais e imaginários, acabou por trazer à luz – já se adivinha – uma profusão de afirmações, de novidades e de estranhas belezas, e talvez se deva a ela o próprio nascimento da beleza” (Genealogia da Moral). É ela, com efeito, que desperta “a alma”; em outros termos, é ela que cria a profundidade de uma interioridade psicológica onde o eu aprende a se observar com a consciência reflexiva; é ela, também, que gera “o espírito” – definido por Nietzsche como “a circunspecção, a paciência, a astúcia, a dissimulação, o grande domínio sobre si mesmo” (Crepúsculo dos ídolos) – com as capacidades de abstração e racionalidade. O espírito nessa magistral interpretação de Nietzsche – onde, aliás, é possível perceber os traços de Dostoiévski e que deixará sinais nos romances de Thomas Mann – provém do recalque da vida ; é uma obra de arte, na medida em que toda arte emana de uma liberdade que se torna criadora devido aos entraves que lhe são impostos. Ora, insiste Nietzsche, “este instinto de liberdade que se tornou latente pela força, reprimido, recalcado, retornado para o interior, não podendo mais se exercer e se escoar a não ser em si mesmo, este instinto, nada além deste instinto [...] foi no início a má consciência” (Genealogia da Moral).
Mas, para que as magníficas promessas que ela traz em si possam se desenvolver (pois o espírito é “o que há de mais precioso”) (Aurora), ainda é preciso que a má consciência não se degrade em consciência pecadora! Ora, é justamente este o danoso infortúnio que lhe ocorre, quando a casta sacerdotal passa a intervir no processo de interiorização do homem, para capturá-lo e utilizá-lo em seu proveito. A má consciência é, então, metódica e sorrateiramente envenenada com a noção de “pecado”, essa invenção maquiavélica do padre destinada a lhe garantir a dominação universal. “O pecado – pois tal é o nome que o padre dá à ‘má consciência’ animal (da crueldade ao revés) – o pecado continua a ser até hoje o acontecimento fundamental na história da alma doente: representa para nós a guinada mais nefasta da interpretação religiosa” (Genealogia da Moral). A interiorização deixa de ser a grande oportunidade da civilização humana para adotar a máscara de esgar de uma sanção divina contra o homem decaído. Mas é fácil ver o que o padre tem a ganhar com uma tal corrupção deliberada da alma humana: como a má consciência, deixando de ser a doença do crescimento que era em sua origem, tornou-se prova de uma angústia impotente, é o padre que se afirma como o único qualificado para aliviar essa angústia – graças às drogas das ilusões religiosas! E assim a casta sacerdotal estabeleceu duradouramente seu poder...
No entanto, mesmo a fraude sacerdotal não consegue romper totalmente a dinâmica cultural iniciada com o surgimento da má consciência. Sem dúvida ela afunda na decadência todos os povos com os quais tem contato e contribui para a elaboração do Idealismo metafísico, com sua Moral repressoramente dualista e sua teologia monstruosa, que diviniza o nada da antinatureza. Mas o niilismo, na medida em que, proclamando a morte de Deus, revela esse nada forjado pela vontade de vingança do padre e onde ele verte o Ideal ontológico dos filósofos, demonstra uma lucidez cuja motivação cabe descobrir. Inútil buscar muito longe, replica Nietzsche: ela se encontra, justamente, num paradoxal movimento interno da própria Moral! Um movimento que é, exatamente, uma sequência dialética! Trata-se, com efeito, de uma “Selbstaufhebung der Moral” (Werke IV 9). Fórmula decisiva, mas cuja tradução, para ser correta, deve sacrificar a elegância ao rigor e, de qualquer maneira, demanda comentários para se tornar plenamente inteligível. O ponto essencial, e delicado, é o núcleo verbal: Aufheben, o qual não tem um correspondente estrito em português e é, além do mais, a palavra central... da dialética hegeliana! Ao decalcar sua fórmula da terminologia de Hegel, Nietzsche anuncia, de alguma maneira, a significação autenticamente dialética que pretende lhe dar. Na tradução, por conseguinte, se nos contentarmos em respeitar o sentido habitual dos termos e sugerirmos “autossuperação da Moral” ou ainda (para ressaltar melhor a afinidade com a definição da vontade de potência) “operação pela qual a Moral supera a si mesma”, deixaremos na sombra essa significação dialética e mutilaremos a ideia diretriz de Nietzsche. O entendimento do texto, portanto, requer inevitavelmente o apoio do comentário que ressalta a referência hegeliana e que, na verdade, apenas resume as abundantes explicações de Nietzsche: “Vê-se o que triunfou sobre o Deus cristão: é a própria moral cristã, a noção de sinceridade tomada em sentido cada vez mais estrito, é a sutileza da consciência cristã aguçada pelo confessionário e transposta, finalmente sublimada, para consciência científica, para asseio intelectual a todo custo” (A gaia ciência). De fato, “entre as faculdades que eram cultivadas pela moral, encontrava-se a veracidade; ela acabou por se voltar contra a moral, para desnudar sua teleologia, suas considerações interesseiras, e agora o desnudamento dessa longa mentira inveterada, da qual luta-se desesperadamente para se desfazer, age como um estimulante” (Vontade de potência I). A Moral supera a si mesma gerando a “paixão do conhecimento”, que rejeita o Idealismo espúrio da metafísica e da religião decadente e, ao mesmo tempo, desencadeia a crise do niilismo. Assim tudo fica claro: “O niilismo marca o fruto de uma ‘veracidade’ que atingiu a idade adulta; portanto, ele mesmo resulta da crença na moral” (Vontade de potência II), porque o sentido da verdade não é senão o produto da autossuperação dialética da Moral.