Nietzsche

Jean Granier · Capítulo 30 de 32

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Nietzsche

A educação dionisíaca

Tais advertências não deixam qualquer margem de dúvida: não é possível entender coisa alguma da ideia nietzschiana do super-homem se não se reconhecer na doutrina da seleção, guardiã da promessa do super-homem, uma pedagogia da própria vontade de potência, pedagogia esta destinada a produzir o ser soberano cuja existência seria a consagração do Eterno Retorno.

A educação dionisíaca

A seleção concebida por Nietzsche, portanto, não é nem um processo biológico regido pela Natureza nem uma dialética da História, é um método educativo aplicado à vontade de potência por uma minoria capacitada. Ao qualificá-lo de “dionisíaco”, ressaltam-se dois traços essenciais: de um lado, a educação dionisíaca terá como missão radicalizar o niilismo, desencadeando a crise derradeira que Nietzsche descreve como “niilismo extático” (Werke XV 393), porque precisa fazer explodir, de alguma maneira, a decadência moderna. De outro lado, ela cumpre a resolução de proceder de maneira imoralista, tal como exige aquele “pessimismo da força” que deve tornar o super-homem inquebrantável diante das mais horríveis verdades. Em suma, Nietzsche define as grandes linhas de uma educação trabalhando “com o martelo” e concentrando-se sobre a essência do querer: sobre o ato de superar a si mesmo! “O Martelo: uma doutrina que, pelo predomínio do pessimismo mais apaixonado pela morte, opera uma seleção dos mais aptos para a vida” (Fragmentos sobre a energia e a potência).

Por todas essas características, ela lança um desafio ao velho método empregado pelo Idealismo metafísico e que foi a escola da decadência. Portanto, opor-se-ão a ele, ponto por ponto, a seleção nietzschiana, orientada para o super-homem, e a domesticação idealista, orientada para o “Último Homem”. A domesticação do homem é uma invenção sacerdotal; sua técnica é a repressão dos instintos e a culpabilização por meio da angústia do pecado (Vontade de potência I). A seleção nietzschiana, pelo contrário, procura sublimar, espiritualizar os instintos (Crepúsculo dos ídolos). Por conseguinte, “não existe pior confusão do que confundir a seleção com a domesticação [...] A seleção, tal como a entendo, é um meio de armazenar uma enorme quantidade de forças humanas, de modo que as gerações possam construir sobre os fundamentos colocados por seus antepassados tanto nas coisas exteriores quanto nas realidades interiores e orgânicas, num acréscimo contínuo de forças” (Vontade de potência II).

A educação da vontade de potência – paralela, como se vê, à sua interpretação – diz respeito, em primeiro lugar, ao próprio corpo. “Os moralistas estúpidos sempre pregaram o aperfeiçoamento sem exigir igualmente a base física: o enobrecimento do corpo” (Obras póstumas). Mas “o espírito mais alto, ligado a um caráter fraco e nervoso, é este que é preciso suprimir. O fim: aperfeiçoamento do corpo inteiro e não somente do cérebro” (Vontade de potência II).

O prefixo über (super) na palavra Übermensch (super-homem), à luz dessas explicações, revela seu pleno valor: frisar que o super-homem resulta da autossuperação pela qual a vontade de potência humana realiza sua verdadeira destinação. Zaratustra enuncia em palavras fulgurantes: “Ensino-vos o Super-Homem. O homem é algo que deve ser superado” (Werke VI 13). Entendamos bem: é o homem que se transforma, e não uma instância exterior que se substituiria bruscamente a ele. Nietzsche o confirma mostrando que o declínio do homem é a transição do homem para o super-homem: “A grandeza do homem é que ele é uma ponte e não um término; o que se pode amar no Homem é que ele é transição e perdição” (Assim falou Zaratustra). E: “Amo aqueles que não sabem viver a não ser com a condição de morrer, pois morrendo eles se superam”.