Nietzsche

Jean Granier · Capítulo 26 de 32

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Nietzsche

O ato de superar a si mesmo

Portanto, se a vontade de potência, segundo Nietzsche, é necessariamente uma força plástica e criadora, é porque esse conceito retoma e integra em si a coordenação que, para os gregos, unia a competição e a criatividade. O esquema de referência que Nietzsche mantém constantemente sob suas vistas, ao evocar a vontade de potência, é o da luta que, colocando um querer perante um material, faz brotar as formas onde se realiza a obra de arte. “A mais elevada relação ainda é a do criador e da matéria que ele trabalha” (Vontade de potência I). A vontade de potência é uma competição que se desenrola no campo da livre construção das formas. Mas toda forma é a exteriorização de uma força. Assim a construção requer o poder; o criador, diz Nietzsche, é “o homem que transborda poder” (Vontade de potência I). Dizer que a vontade de potência é vontade de construir significa redefinir os conceitos de liberdade e de domínio; agora eles estão associados a serviço de uma interpretação do poder como transformação de uma matéria em obra de arte: “Conquistar – é o efeito necessário de um excedente de poder: a mesma coisa que o ato de criação ou de fecundação, portanto a incorporação de sua própria imagem numa matéria estranha. É por isso que o homem superior deve criar, isto é, impor a outrem sua superioridade, seja como senhor, seja como artista” (Obras póstumas).

O ato de superar a si mesmo

Mas todas as determinações precedentes, apesar de sua importância, seriam incapazes de captar a ideia nietzschiana da vontade de potência se não viessem coroadas pelo tema que lhes acrescenta a determinação essencial e que, por isso, é objeto de uma criação verbal de Nietzsche: a palavra “Selbstüberwindung”, que o cuidado com a precisão leva a traduzir com a perífrase, embora pesada, de “o ato de superar a si mesmo”.

Nietzsche pretende designar um ato de superação que se apresenta como uma metamorfose em que se dá uma elevação do inferior ao superior, e cujo movimento não é provocado pelo exterior, mas procede do princípio interno do ser. Ao estudar o fenômeno da “interiorização”, já tivemos ocasião de notar que a superação em Nietzsche pode ter o sentido hegeliano de uma sequência dialética. Mas trata-se apenas de uma variante de caráter regional. No fundo, a Selbstüberwindung nietzschiana dá as costas à dialética e a seu dogmatismo da racionalidade absoluta; ela não é nunca um puro processo lógico; menos ainda uma combinatória de estruturas ou o funcionamento de uma máquina de significantes (apenas o devaneio ideológico da modernidade foi capaz de se encantar com comentários tão comicamente monstruosos!). Ela enuncia – nisso conjugada com o Eterno Retorno – como o devir é devir, em outros termos, como se efetua essa construção das formas no fluxo do devir que realiza a perpétua metamorfose do próprio devir. Com o conceito da vontade de potência, “ato de superar a si mesmo”, Nietzsche procura pensar o Ser como a “generalização do conceito de ‘viver’ (respirar), ‘ser animado’, ‘querer’, ‘agir’, ‘devir’” (Vontade de potência I).

Aliás, é isso precisamente o que nos ensina o corpo, a testemunha mais honesta do devir. Com efeito, por que o corpo inventou uma consciência e as faculdades intelectuais ligadas a ela? Para construir um corpo superior, responde Nietzsche, assim reconhecendo na atividade do corpo a ilustração imediata e concreta da superação de si: “Trata-se talvez unicamente do corpo em todo o desenvolvimento do espírito: esse desenvolvimento consistiria em nos tornar sensível à formação de um corpo superior. O orgânico ainda pode se elevar a graus superiores. Nossa avidez de conhecer a natureza é um meio para o corpo se aperfeiçoar” (Vontade de potência I). Não surpreende, então, se a vida, considerada em sua mais ampla generalidade, reivindica como definição de ser “aquilo que é forçado a se superar ao infinito” (Assim falou Zaratustra). Todas as morais, em outros termos, todas as tábuas de valores saem deste princípio: “Uma tábua de valores está inscrita acima de cada povo; é a tábua de suas vitórias sobre si mesmo; é a voz de seu querer de potência” (Assim falou Zaratustra). E é ainda esse princípio que estabelece o destino do homem, se é verdade que esse destino é a produção do super-homem!

Independentemente das divergências sobre a metodologia e a concepção do conhecimento, a ideia da superação de si fornece o critério para distinguir entre a vontade de potência nietzschiana e o Querer-Viver schopenhaueriano. Schopenhauer se crê autorizado a extrair da dor o argumento para justificar uma interpretação francamente pessimista do mundo, o qual seria uma fantasmagoria encenada por um Querer-Viver feroz e cego, do qual só é possível se libertar pelo trabalho de aniquilação da ascese. Nietzsche se insurge contra isso, mostrando que a premissa da argumentação já é um sofisma, em que se desafoga a vingatividade de uma natureza contaminada pela decadência moderna. Essa angústia diante da dor já não é em si o sintoma de uma doença da própria vontade, que se torna incapaz de assumir sua vocação criadora, de uma vontade que renegou o princípio da superação de si e não pode mais julgar de maneira leal? “A decisão sobre o que despertará o prazer ou a dor”, responde Nietzsche, “depende do grau de potência. A mesma coisa que para uma pequena quantidade de potência parece um perigo e obriga a uma rápida defesa pode produzir, se a potência for grande, um encanto voluptuoso, um sentimento de prazer” (Vontade de potência I). O verdadeiro sentido da dor é estabelecido no e pelo ato de superar a si mesmo, do qual ela é coextensiva: “A dor é o sentimento de um obstáculo, mas, como a potência só toma consciência de si mesma por meio do obstáculo, a dor é parte integrante de toda atividade (toda atividade é dirigida contra alguma coisa sobre a qual é preciso triunfar)” (Vontade de potência II). Daí decorre que o Querer-Viver schopenhaueriano não passa de uma pseudovontade, um querer “no ar” (Werke XI 162), visto que está privado de sua intencionalidade essencial, imobilizado em querer-estado, ao invés de ser definido pelo movimento de sua autossuperação. “Schopenhauer diz ‘a vontade’, mas nada é mais característico de sua filosofia que a ausência total do querer” (Vontade de potência II).