Nietzsche

Jean Granier · Capítulo 14 de 32

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Nietzsche

O Idealismo

Cavando-se sob o sistema dos predicados do “ser” e sob as falsas evidências do cogito, traz-se a descoberto a essência da ontologia metafísica; apenas então pode-se ter a esperança de superar a metafísica – livrando-se do niilismo que consuma sua ruína –, porque aqui o que está em jogo é radical e a radicalidade exige a compreensão dos princípios neles mesmos, a penetração na essência. É este, precisamente, o alcance desse pensamento decisivo de Nietzsche, que desvenda o Idealismo no fundamento da ontologia metafísica: “Se somos ‘desencantados’, não o somos em relação à vida, mas porque nossos olhos se abriram em relação a toda espécie de ‘bens desejáveis’ [...] nós nos desprezamos apenas por não sabermos reprimir de imediato essa emoção absurda que se chama ‘idealismo’” (Vontade de potência I).

O termo “Idealismo” citado por Nietzsche não se refere (pelo menos de maneira direta) ao problema, clássico em filosofia, de saber se o mundo exterior tem uma realidade em si ou se ele se reduz ao conjunto de nossas representações sobre ele; o termo designa a atitude, ao mesmo tempo existencial e especulativa, que implica a confusão entre o Ser e o Ideal; dito em outras palavras, a definição do Ser como o mundo por detrás sacralizado que deve necessariamente concordar com nossos desejos mais ardentes, mais secretos e mais persistentes. Pois o Ideal, explica Nietzsche, é “a ficção de um mundo que responde a nossos votos” (Vontade de potência II). Daí decorre que o Ser é, por natureza absoluta, o Bem ou aparentado ao Bem. E Nietzsche multiplica as referências à história da filosofia, para estabelecer que a identificação ou o parentesco entre o Ser e o Bem é o fio condutor que liga todas as doutrinas entre si, desde Platão até Hegel e mesmo a Schopenhauer (neste último, de fato, o princípio continua dominante, mas figura sob sua forma negativa, na medida em que se reconhece impossível o Ideal, e esta posição acarreta uma espécie de suicídio metafísico do Querer-Viver). É fácil ver que a teoria hegeliana do Espírito absoluto, como aliás todas as espécies de racionalismo (inclusive o das ciências!), está edificada sobre o postulado do Ideal, mas, em geral, é preciso manter a máxima vigilância para detectar essa presença constante do Ideal, pois os filósofos dedicam imensa paciência, astúcia e esperteza a suas tentativas de atrair camuflagens que protegem o Ideal contra a dúvida! Prova disso é o kantismo. Com o kantismo “abria-se um caminho tortuoso rumo ao ideal antigo, o conceito do ‘mundo-verdade’, o conceito da moral como essência do mundo (esses dois piores erros que existem!) era de novo, se não demonstrável, pelo menos impossível de refutar, graças a um ceticismo sutil e astucioso” (O anticristo).

O Idealismo encontra seus auxiliares mais eficazes justamente na separação, produtora do dualismo, e na projeção, princípio da transcendência suprassensível. Assim, é o Ideal que inspira a dupla operação que desemboca na fábula do “ser” como mundo por detrás dotado de substância, cujos principais predicados analisamos em detalhe. Com efeito, qual é a imperiosa necessidade do Ideal? Ser preservado da mácula que resultaria se ele se misturasse à realidade sensível e acumular todas as vantagens cuja falta ou insuficiência aqui na terra é fonte de dor e de medo; e o que poderia melhor lhe fornecer esse estatuto, a não ser o dualismo e a projeção metafísica? Esta lhe assegura a permanência, a identidade, a lógica, a unicidade absolutas; aquele lhe garante a oposição maniqueísta dos valores...