Nietzsche
Força e fraqueza
Mas o que é mais adequado para nos instruir sobre o sentido e as origens últimas dessa definição da vontade de potência como ato de superar a si mesmo é sua aplicação à teoria do conhecimento e da verdade em Nietzsche. De um lado, como vimos, a vontade de potência é, como operação que coloca em formas um caos de impressões e desejos para modelar uma interpretação deles, o autor do pragmatismo vital e de seus valores-úteis; pois é necessário, diz Nietzsche, “reconduzir o que se chama de instinto do conhecimento a um instinto de apropriação e conquista” (Vontade de potência I). De outro lado, o conhecimento, educando-se na disciplina da integridade filológica, obriga-se por isso mesmo a superar o pragmatismo vital, e essa superação corresponde com grande precisão a uma Selbstüberwindung, com sua dupla significação de combate e de passagem para uma forma superior. “Como lutamos contra a mentira básica e contra todas as mascaradas? Um sentimento de potência, que se libera no desenvolvimento e na atividade da inteligência, nos impele” (Obras póstumas). Aceitamos, assim, colocar a vida em perigo, pois lhe retiramos, pelo menos provisoriamente, suas ilusões protetoras; dessa maneira obedecemos ao imperativo da vontade de potência, pois “a vida não é senão um meio em vista de outra coisa: esta é a expressão das formas de crescimento da potência” (Vontade de potência I). A potência autêntica, portanto, marca o grau de força que um espírito é capaz de investir na busca da verdade; em outros termos, a intensidade de sua autossuperação a serviço do verdadeiro: “A medida suprema da força: em que medida um homem pode viver sobre hipóteses, e não sobre a crença, isto é, aventurar-se por mares ilimitados!” (Obras póstumas). Por conseguinte, é o espírito – e não a violência selvagem! – que exprime a potência real; se, com efeito, deve-se avaliar “A potência de um querer pela dose de resistência, de dor, de tortura que ele tolera e consegue aproveitar” (Vontade de potência I), é o espírito que ganha, pois “o espírito é a vida que corta na própria carne; seu tormento aumenta seu saber” (Assim falou Zaratustra).
Força e fraqueza
Desembaraçados das falsas imagens da força que nos são inculcadas por uma ideologia bárbara, agora temos condições de compreender o valor que Nietzsche atribui ao conceito da força em sua interpretação genealógica. Sem dúvida, todo ser, na medida em que participa da vontade de potência, trabalha para se superar constantemente. Isso não impede que o estilo e a orientação de tal superação não sejam idênticos, de forma alguma, conforme se esteja diante de um querer dirigido pela decadência ou pela vida ascendente. Assim descobrimos que o ato de se superar tem duas significações antagônicas, conforme ele caracterize tal ou qual tipo de vontade de potência; e, portanto, que os conceitos de força e de fraqueza, empregados nesse contexto de avaliação genealógica, têm como finalidade estabelecer a dupla polaridade da vontade de potência, em função da qual cada ato de autossuperação assumirá sua normatividade própria. Eles garantem a existência de uma hierarquização no interior da vontade de potência como essência unitária do mundo.
Logo, não é possível imputar qualquer contradição a Nietzsche quando ele indica, por um lado: “Os fracos e os fortes se comportam de uma maneira muito parecida: eles estendem sua potência o máximo que podem” (Obras póstumas), e se empenha, por outro, em combater certas expressões da vontade de potência em que desmascara o instinto da decadência, alertando-nos: “O que é, propriamente falando, a moral? O instinto da decadência; são os homens esgotados e deserdados que, de certa maneira, vingam-se e comportam-se como senhores [...] O instinto da decadência, sob a forma da vontade de potência” (Vontade de potência II). De fato, a vontade de vingança é ainda uma modalidade da vontade de potência, mas deve ser classificada sob o conceito da fraqueza, porque encarna uma vontade de potência negativa, que procura degradar e destruir a vida, ao passo que a vontade de potência afirmativa, isto é, aquela que se dedica a exaltar e ampliar a vida, deve ser classificada sob o conceito da força. A primeira é repressiva; a segunda é criadora; esta é a vontade de potência autêntica, fiel à sua natureza (de modo que Nietzsche, em certos textos, reserva-lhe a exclusividade dessa denominação), enquanto aquela é a vontade de potência de alguma maneira alienada, que se tornou estranha à sua destinação.
Deve-se estabelecer a diferença com um triplo exame. Em primeiro lugar, uma reflexão crítica sobre os ideais adotados por cada um que luta pela supremacia; a seguir, a identificação do tipo de homem ou de grupo social que os promove; por fim, a análise das consequências que a vitória ou a simples influência de uma determinada tábua de valores acarreta para a vida. No que se refere aos ideais, o método leva a separar Ideais positivos e Ideais negativos, em função do seguinte critério: “Todo ideal supõe amor e ódio, respeito e desprezo. O primeiro móvel é ou o sentimento positivo ou o sentimento negativo. O ódio e o desprezo são o primeiro móvel, por exemplo, em todos os ideais nascidos do ressentimento” (Vontade de potência I). Do ponto de vista tipológico, discernem-se, no caso do moralismo, várias tendências instigadoras, que Nietzsche enumera: “1 o: O instinto do rebanho contra os fortes e os independentes; 2 o o : O instinto dos sofredores e dos deserdados contra os felizes; 3:
O instinto dos medíocres contra os excepcionais” (Vontade de potência I). Quanto à apreciação dos valores segundo sua influência sobre a vida, o método nietzschiano leva a destacar o antagonismo entre “naturalismo moral” e moral antinatural: “Todo naturalismo na moral, isto é, toda moral sã, é dominado pelo instinto de vida [...]. A moral antinatural, isto é, toda moral até hoje ensinada, venerada e pregada, dirige-se, pelo contrário, precisamente contra os instintos vitais” (Crepúsculo dos ídolos).
Radicalizando sua argumentação, Nietzsche agora apresenta sua classificação genealógica das manifestações da vontade de potência sob a forma de uma oposição entre “vontade do nada” e “vontade de viver” (Vontade de potência II). Esta caracteriza a vontade de potência que favorece a vida, aquela a vontade de potência que debilita e arruína a vida. Por fim, os conceitos de força e de fraqueza em Nietzsche servem para pensar, do ponto de vista genealógico, a relação essencial entre a vida e o ato de se superar. Daí a conclusão: “Cada indivíduo pode ser estimado conforme ele representa a linha ascendente ou descendente da vida” (Crepúsculo dos ídolos).