Nietzsche

Jean Granier · Capítulo 31 de 32

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Nietzsche

O herói afirmador

Na medida em que o super-homem nietzschiano é uma figura eminentemente mítica, seria indispensável, se quiséssemos dar uma descrição completa, mostrar a correspondência entre cada traço seu e cada uma das determinações da vontade de potência, sem esquecer as que asseguram a relação entre essa vontade de potência e a ideia do Eterno Retorno. Contentemo-nos, aqui, em apontar os traços pelos quais o super-homem merece ser chamado de herói afirmador por excelência.

Em primeiro lugar, justamente, a capacidade de afirmação dionisíaca. Com efeito, para Nietzsche, Dioniso simboliza o ser dotado de uma energia tão exuberante que pode transmutar tudo em afirmação, e portanto acolhe com igual fervor os termos contraditórios cujo embate ocupa o cerne da própria vida. “Um tal espírito libertado aparece no centro do universo, num fatalismo feliz e confiante com a fé de que não há nada de condenável a não ser aquele que existe isoladamente, e que tudo se resolve e se afirma no conjunto. Ele não nega mais... Mas uma tal fé é a mais elevada entre todas as fés possíveis. Eu a batizei com o nome de Dioniso” (Crepúsculo dos ídolos). Ele assume altivamente, como criado, sua adesão ao Eterno Retorno: “O homem mais impulsivo, mais vivo, mais anuente do universo [...], aquele que dirige insaciavelmente um da capo não só a si mesmo, mas também à peça e ao espetáculo inteiro” (Além do bem e do mal). E, fazendo isso, leva em conta a totalidade do passado humano: “Nós justificaremos, retrospectivamente, todos os defuntos e daremos um sentido a suas vidas se conseguirmos moldar com esta argila o Super-Homem e assim dar uma finalidade a todo o passado” (Vontade de potência II).

A personalidade, portanto, constrói a si mesma à imagem daquilo que Dioniso deseja obter do homem: “Torná-lo mais forte, mais maldoso, mais profundo” (Além do bem e do mal). Pois “o que importa são os maldosos animados de um querer religioso” (Werke XIV 316), em outros termos, “os cínicos, os sedutores, os conquistadores, que unirão à superioridade intelectual a saúde e a superabundância das energias” (Vontade de potência II). Do bárbaro, o super-homem conservará o vigor e a riqueza dos instintos, mas integrará esses instintos numa ordem superior, condição da liberdade criadora. A Moral, evidentemente, ficará escandalizada com essa prodigalidade titânica; e Zaratustra não duvida que “os bons e os justos chamariam seu super-homem de ‘demônio’” (Ecce homo). Mas é porque esses virtuosos são incapazes de entender a necessidade de colaboração entre o bem e o mal na impetuosidade de um verdadeiro criador, tal como é ilustrada pelo dionisismo; este, com efeito, “conquista ativamente o devir, sente-o subjetivamente como a vontade furiosa do criador, mesclada à sanha do destruidor” (Vontade de potência). Por conseguinte, “o ser mais transbordante de vida, o dionisíaco, deus ou homem, pode se permitir não só olhar o enigmático e o pavoroso, mas também cometer o apavorante e se entregar a qualquer luxo de destruição, de subversão, de negação; a maldade, a insanidade, a fealdade lhe parecem permitidas em virtude de um excesso de forças criadoras que podem converter o próprio deserto num solo fecundo” (A gaia ciência). O super-homem é o artista consumado, a própria encarnação da vontade de potência “artista”.