Nietzsche
O Eterno Retorno
A ideia do Eterno Retorno era tão importante para Nietzsche que ele não só a considerava a ideia central de sua filosofia, como também não conseguia evocá-la sem a gama inteira provar das mais intensas emoções, do êxtase ao pavor. E não poupou esforços para estabelecê-la sobre bases científicas sérias, graças a uma ampla documentação pacientemente explorada. E isso a tal ponto que corramos o risco de ser intimidados por ela e acabemos por considerar a doutrina nietzschiana do Eterno Retorno como uma teoria científica stricto sensu, ao passo que as provas que Nietzsche extrai de uma reflexão sobre a ciência nunca têm um valor senão de confirmação para uma ideia que, fundamentalmente, deriva do pensamento filosófico.
Em suma, Nietzsche utiliza aqui os argumentos de tipo científico para rematar sua refutação do Idealismo metafísico, que tem como um de seus mais fortes bastiões o finalismo, que justamente o Eterno Retorno deve combater. O Eterno Retorno, de fato, destrói a crença idealista segundo a qual o curso do mundo é regido por um Plano providencial visando instaurar o reino da Moral; e que, portanto, obriga a explicar a distância desoladora entre essa bondade de Deus e o curso habitual do mundo com a introdução da categoria moral da falta. A essa culpabilização desmobilizadora provocada pelo emprego abusivo da noção de finalismo, o Eterno Retorno contrapõe a afirmação salvadora da “inocência do devir” (Vontade de potência II): “Representemos este pensamento sob sua forma mais temível: a existência tal como é, não tendo sentido nem fim, mas retornando inelutavelmente, sem chegar ao nada: ‘o Eterno Retorno’” (Vontade de potência II). Zaratustra se faz seu paladino: “Na verdade, o que ensino é bênção e não blasfêmia, ao dizer: ‘Acima de todas as coisas estende-se o céu da Contingência, o céu da Inocência, o céu do Acaso, o céu do Capricho” (Assim falou Zaratustra).
O acaso em questão, longe de ser o contrário da necessidade, designa um de seus aspectos, aquele por meio do qual a necessidade, na temática do Retorno, rejeita o finalismo em favor de uma interpretação imoralista do devir. Nietzsche deixa bem claro: “O ‘caos universal’ que exclui toda atividade com finalidade não é contraditório com a ideia do ciclo: este não é senão uma necessidade irracional, sem nenhuma reflexão formal, ética ou estética. A liberdade de escolha está ausente tanto das pequenas quanto das grandes coisas” (Vontade de potência II).
A demonstração, parte da tese que recorre largamente aos dados científicos, acarreta diversas argumentações embutidas, cuja ordem de desenvolvimento deve ser respeitada. Começa-se pela confirmação da crítica precedente ao finalismo idealista, dada pelo reconhecimento objetivo da impossibilidade de atribuir um “fim” (e, portanto, um término) ao devir. Pois, se o mundo perseguisse um fim, este provocaria a instauração de um estado de equilíbrio, e este estado de equilíbrio já deveria ter sido atingido, visto que houve todo o tempo necessário para isso no passado do mundo. Ora, nós constatamos que o devir não foi abolido, que ele continua. Portanto a persistência do devir, hoje, elimina em seu próprio princípio a possibilidade de um equilíbrio final (cf. Vontade de potência I).
Este raciocínio, porém, só pode ser validado mediante duas condições. Em primeiro lugar, que o tempo realmente tenha o ser, que ele seja real, e não reduzido, como em Kant, a uma pura forma a priori da sensibilidade (Werke XII 54). A seguir, que o tempo seja infinito, o que elimina a crença numa criação divina do mundo, visto que a criação requer um começo. Nietzsche se vê então obrigado a refinar ainda mais sua crítica anterior ao Deus moral, orientando-a com mais precisão contra a noção de um Deus criador, “espécie de emaranhado de imperativo e de finalidade que se oculta por trás da grande tela, da grande rede da causalidade” (Genealogia da Moral). E Nietzsche busca a irretorquível objeção num confronto entre a crença no Deus criador e “a inocência do devir”, mostrando o erro irremediável que tal hipótese infligiria ao valor do devir, pois “seria postular uma soma de dor e de ilogicidade que reduziria o valor total do ‘devir’; felizmente, falta essa potência de totalização” (Vontade de potência I).
Mas destronar Deus, recusar admitir uma vontade criadora originária e responsável pelo devir é, ao mesmo tempo, desvendar a inanidade do conceito de “força infinita”. Apenas o princípio da finitude da força expurga a reflexão sobre o devir de qualquer sequela teológica e está de acordo, no nível científico, com a lei da constância da energia. Assim se enuncia o princípio: “A atividade é eterna, mas o número das coisas produzidas e dos estados de energia é finito” (Fragmentos sobre a energia e a potência ); de modo mais rigoroso: “Existe uma quantidade infinita de estados de energia, mas não de estados diferentes ao infinito: isso suporia uma energia indefinida, a energia que não tem senão um certo ‘número’ de qualidades possíveis” (Fragmentos sobre a energia e a potência ). Agora, estando todas as determinações enumeradas, obtém-se o seguinte modelo do Universo: uma força finita e constante, desdobrando-se num espaço finito e segundo um devir onde tudo se repete; portanto, um ciclo perpétuo, de imanência radical, de modo que ela impede qualquer referência, mesmo discreta, a um fim ou a um sentido que lhe seria exterior.
Essas argumentações, porém, interessam apenas na medida em que se integram à problemática filosófica referente às relações entre o devir e a vontade de potência. Nietzsche não tem a ingenuidade de crer que se possa substituir o antigo “ser” metafísico pelo “devir”; ele procura interpretar o devir em seu próprio ser, e é este, justamente, o papel que ele confia à ideia do Eterno Retorno! Aliás, sua formulação completa é: o Eterno Retorno do Mesmo (das Gleichen). “O Mesmo” determina a significação da per-sistência do devir enquanto devir e, assim, a necessidade da repetição para cada acontecimento no interior do devir. A expulsão da categoria dogmática da identidade acarreta, sob este aspecto, a transformação dos conceitos de permanência e de igualdade-consigo-mesmo. Se o devir é sempre devir, e portanto per-siste, nem por isso é uma substância identitária. Nietzsche se apercebe plenamente que a formulação adequada de sua intuição do Eterno Retorno exige um esforço para renovar e matizar ainda mais o sentido dos conceitos, e arrisca esta indicação: “Imprimir no devir o caráter do ser – é a forma superior da vontade de potência [...] Dizer que tudo retorna é aproximar ao máximo o mundo do devir e o mundo do ser: ápice da contemplação” (Vontade de potência I).
Com o conceito da vontade de potência, Nietzsche tenta pensar o que é o Ser como devir; e, com o conceito do Eterno Retorno, de que maneira o próprio devir “é” devir, tendo-se pois que tudo se repete sem que nada deixe de mudar. Mas então, visto que o ato de superar a si mesmo define a natureza da vontade de potência, é preciso explicar como este ato pode se inserir no ciclo do Retorno. Aqui se revela plenamente a magnífica coerência da reflexão nietzschiana – nesta conjunção entre vontade de poder e Eterno Retorno. Veem-se todos os grandes temas nietzschianos fundindo-se nesse crisol mágico.
O Eterno Retorno é uma perpétua e ardente invocação à exigência da superação de si. Ele impele a vontade de potência a se desprender das vãs nostalgias para aderir lealmente ao devir e assim torná-lo o campo de sua incansável criatividade. Ele a eleva à afirmação soberana contida no “amor fati”. O amor fati em Nietzsche corresponde à atitude de “fidelidade à Terra”, graças à qual a admissão da imanência do devir triunfa sobre as quimeras da Transcendência idealista. Pois é a própria vida que o querer esposa no impulso de adesão ao devir, inaugurando um verdadeiro panteísmo dionisíaco. Deste ponto de vista, o Eterno Retorno é a “mais elevada fórmula de aprovação jamais atingida” (Ecce homo). “Quer-se o ciclo eterno: as mesmas coisas, a mesma lógica ou a mesma ilogicidade dos encadeamentos. Estado supremo a que pode chegar um filósofo: uma atitude dionisíaca diante da existência; minha fórmula para isso é amor fati” (Vontade de potência II). A eternidade é totalização selada pelo instante: “Jamais desejastes que uma mesma coisa retornasse outra vez? Jamais dissestes: ‘Agradas-me, felicidade, piscar de olhos, instante!’ Então desejastes o Retorno de todas as coisas, todas voltando outra vez, todas eternas, encadeadas, entrelaçadas, amorosamente ligadas” (Assim falou Zaratustra).
Além disso, o Eterno Retorno preside à transmutação da vontade de vingança em vontade criadora, expressão da vida ascendente; pois é ele que obriga o querer a superar o terrível obstáculo que a resistência do passado ergue contra a livre iniciativa. “Que o tempo não possa voltar atrás, é esta a sua dor. O ‘fato consumado’ é a rocha que ele não pode mover. Então ele rola blocos de despeito e de cólera.” Eis o homem condenado ao suplício de Sísifo! Mas o pensamento do Eterno Retorno se apresenta para arrancá-lo à sua maldição, e lhe dirige esta admoestação redentora: “Afastei-vos desta ciranda ensinando-vos: o querer é criador. Tudo o que foi não passa de fragmento, enigma e horrível acaso, até o dia em que o querer criador declara: ‘Mas eu, eu quis assim’” (Assim falou Zaratustra).
Para concluir, o Eterno Retorno educa a vontade de potência para a mais corajosa tarefa: o serviço da verdade. Ele a projeta além de todas as ilusões consoladoras, além mesmo das ficções vantajosas do pragmatismo vital; ele a faz renunciar ao dogmatismo idealista do saber absoluto, para aceitar a aventura da interpretação (cf. Vontade de potência II).
O Eterno Retorno é o “martelo” que Nietzsche traz à elite da humanidade para que ela golpeie os ídolos e esculpa a figura do super-homem: “A doutrina do Eterno Retorno, Martelo na mão do homem mais poderoso” (Fragmentos sobre a energia e a potência).