Nietzsche
Competição e construção
A única formulação plenamente adequada, portanto, é a que protege a verdade propriamente filosófica da reflexão nietzschiana, situando-a solenemente sob a égide do Ser, como faz Nietzsche nesta definição: “A essência mais íntima do Ser é a vontade de potência” (Vontade de potência I) (“Wenn das innerste Wesen des Seins Wille zur Macht ist ” , Werke XVI 156). E de fato é sempre o Ser que Nietzsche tem em vista quando evoca o “caráter inteligível” ou a “interioridade” do mundo: “Um nome determinado por esta realidade seria ‘a vontade de potência’, em que a realidade seria designada a partir de seu interior e não a partir de sua natureza proteica, fluida e inapreensível” (Werke XIII). Assim, o conceito da vontade de potência não é um rótulo nietzschiano para um biologismo, um fisicalismo, um dinamismo ou um naturalismo qualquer (essas fachadas de uma metafísica envergonhada!), e sim a autêntica ideia em que culmina o pensamento nietzschiano do Ser como ser-interpretado.
Competição e construção
Talvez nenhum texto lance uma luz mais clara sobre a gênese do conceito de vontade de potência do que o ensaio intitulado “A competição de Homero” (Homers Wettkampf , Werke IX), cujos primeiros esboços datam de 1871. Este ensaio, de fato, prova que um dos principais temas que compõem o conceito de Wille zur Macht , o tema da “competição”, é elaborado pelo jovem Nietzsche na época em que se dedica à civilização helênica, às origens da tragédia e aos mitos de Dioniso; e que, portanto, o deciframento dos fatos de ordem psicológica, biológica e física vai se dar, a seguir, graças aos tipos de questões, esboços conceituais e intuições que se cristalizaram em torno do tema da competição. Certamente a pesquisa empírica o enriquece de múltiplas maneiras, mas, longe de lhe dar nascimento, ela o pressupõe como germe de sua própria teorização filosófica! Apenas com tal condição é possível dar andamento à investigação sobre o corpo e revelar na rivalidade e na hierarquização das instâncias corporais, especialmente no nível dos instintos, a presença da luta como princípio de toda organização vital e, portanto, como expressão da própria vontade de potência.
Nesse belíssimo artigo, Nietzsche começa contestando a imagem pálida e mirrada do humanismo grego que nos é apresentada por uma certa tradição acadêmica; ele logo especifica que inevitavelmente cria-se tal imagem quando se pretende situar a verdadeira natureza do Helenismo no otimismo racionalista de Sócrates e de sua escola; ele nos mostra, em contraste, que essa maravilhosa humanidade dos gregos, que legitimamente admiramos, nunca está isenta de uma ponta de crueldade, de um acentuado gosto pela destruição e pela alegria da vitória. Mas somos tão estranhos ao espírito dessa cultura que condenamos seus múltiplos exemplos da “inveja”, sendo que a inveja, para os helenos, era a motivação universal das fecundas rivalidades! A lição dos gregos, repete Nietzs che, é que é impossível existir cultura sem um cabedal de instintos poderosos, sempre à espera de ocasiões para se desafogar no mundo exterior, com o objetivo de transfigurá-lo. Mas, evidentemente, eram instintos que os homens tinham aprendido a dominar, a controlar, a tornar criadores. A competição grega, cujo modelo foi estabelecido por Homero e que foi louvada por Hesíodo e Heráclito com a designação de “a boa Éris”, é assim a “espiritualização” da luta primitiva; e é dessa maneira que ela garante a livre expressão da agressividade, a qual, ao invés de minar as bases da sociabilidade, torna-se fator de progresso e de harmonia. A competição anima toda a vida pública, sob a forma de disputas oratórias, de concursos de tragédias, de concorrência esportiva, de rivalidades entre as doutrinas filosóficas. Ela é arte e jogo.