Nietzsche

Jean Granier · Capítulo 20 de 32

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Nietzsche

O pragmatismo vital do erro-útil

A veracidade, chegando à maturidade, não se limita à crítica da miragem metafísica. Ela incentiva o espírito a se interrogar sobre o estatuto fundamental dos valores que a vida faz brotar com o trabalho da interpretação imediata, e que cada centro de interpretação declara, com ingenuidade e igual segurança, ser a verdade de sua experiência do mundo. À luz crua dessa inflexível interrogação, a pretensa verdade logo perde suas cores resplandecentes e enverga a modesta libré de um simples erro-útil. “Ela é uma espécie de erro , sem o qual uma certa categoria de seres vivos não poderia viver. O que decide em última instância é seu valor para a vida” (Vontade de potência I). Nietzsche não tem a menor intenção de rejeitar esse valor-útil a pretexto de, justamente, este não ter o caráter absoluto que se costuma atribuir ao verdadeiro e que, visto como uma função em relação à vida, deveria ser qualificado de erro, por contraste com uma definição mais radical; pelo contrário, Nietzsche insiste sobre a positividade do erro enraizado no pragmatismo vital: “Que um juízo seja falso, em nossa opinião, não constitui uma objeção contra esse juízo; é talvez uma das afirmações mais surpreendentes de nossa nova linguagem. Tudo consiste em saber em que medida esse juízo é capaz de promover a vida, mantê-la, conservar a espécie e até aperfeiçoá-la” (Além do bem e do mal). Mas então é ainda mais importante não se deixar ludibriar sobre a significação dessa utilidade para a vida. Para o pragmatismo vital, a utilidade de um conhecimento é em si mesma o critério de sua verdade, ao passo que, perante a arbitragem mais rigorosa da veracidade nietzschiana, ela mantém apenas o estatuto de uma ficção eficaz. A força da certeza com que uma interpretação se recomenda a nós indica, e muitas vezes de maneira muito precisa, o grau de interesse que tem para nós, mas essa necessidade não prova nada no que se refere à verdade intrínseca da interpretação. Evitemos identificar o elemento de verdade de uma interpretação justa com a vantagem oferecida por uma “crença”! Evitaremos essa confusão desde que distingamos, a exemplo de Nietzsche, entre a veracidade e o ato de “ter como verdadeiro” (Für-wahr-halten), princípio da crença. “Que seja necessária uma grande soma de crença; que se esteja em condições de julgar; que não haja dúvida possível sobre os valores essenciais: tal é a condição preliminar de todo vivente e de sua existência. Portanto, é necessário que existam coisas tidas como verdadeiras, e não coisas verdadeiras” (Vontade de potência I).

Por fim, agora compreendemos melhor como o Idealismo metafísico conseguiu nos confundir; bastou-lhe levar ao limite extremo o preconceito já contido em toda crença, e segundo o qual a utilidade é o critério do verdadeiro; assim, o Idealismo, no final das contas, é um pragmatismo hiperbólico, erigindo em doutrina racional uma fé prática imediata e regional. Mas é, acima de tudo, um pragmatismo corrompido e convertido em doença cultural, pois, se ele continua a exprimir as necessidades de um certo tipo de vida, este tipo é a própria decadência, e as crenças que a favorecem, portanto, são atentados contra a vida mais real – contra a vida ascendente. Assim, a identificação da memória entre o Ser e o Bem, entendido no sentido moral, aparece como uma crença útil para a perpetuação da vida impotente, mas ao mesmo tempo nociva aos criadores. A utilidade, portanto, não é uma qualificação fixa e unívoca, ela deve ser determinada genealogicamente, isto é, em função do tipo de vida a que ela se refere. “Segue-se que toda moral contra a natureza que considera Deus como a ideia contrária, como a condenação da vida, não é na realidade senão uma valorização da vida – de qual vida? De qual espécie de vida? Mas já dei minha resposta: da vida descendente, enfraquecida, cansada, condenada” (Crepúsculo dos ídolos).

Isso não impede que, trata-se de fraqueza ou de força, de decadência ou de vida ascendente, o pragmatismo da “verdade” útil esteja sempre ligado a um postulado que somente a disciplina mais rigorosa da inteligência lúcida é capaz de discernir e questionar. Diante da veracidade nietzschiana, portanto, é a totalidade do pragmatismo vital que, penetrada em sua essência, torna-se problemática e relativa. A dúvida atinge a natureza da relação entre a vida e o conhecimento. Imagina-se constantemente que a vida está orientada, por essência, para o conhecimento do verdadeiro, que a vontade de verdade lhe é consubstancial. Este é o preconceito, patrocinado, claro, pelo Idealismo metafísico, com o qual urge romper! E a ruptura se consuma no momento em que a veracidade toma a palavra e contrapõe, ao pragmatismo do valor útil à vida, este sóbrio e aventuroso pensamento: “A vida não é um argumento, pois poderia-se encontrar o erro entre as condições da vida” (A gaia ciência).

O recuo permitido por tal reflexão permite perceber claramente a estrutura do erro-útil, e então se torna possível explicar por que o pragmatismo vital produz apenas ficções rentáveis. A interpretação segundo os valores é uma operação que, tendo por finalidade adaptar o mundo às necessidades e aos interesses de um certo tipo de organismo, procede por simplificação e solidificação do real. Resultado: um mundo organizado, remodelado, estabilizado, dentro do qual esse tipo de organismo goza de relativa segurança e, portanto, pode operar com as melhores chances de êxito. A assimilação, assim, tem como efeito reduzir o Outro – o devir – à identidade do Mesmo (a representação fixa à semelhança do tipo de organismo operador).

Trata-se regularmente de uma esquematização e de uma estruturação daquilo que é a essência íntima do real, a saber, o devir, para que esse devir se preste aos imperativos de uma práxis eficaz. “Num mundo em devir”, escreve Nietzsche, “a ‘realidade’ é sempre uma simplificação para fins práticos” (Vontade de potência I). As faculdades intelectuais e as categorias do pensamento abstrato funcionam em virtude desse mesmo princípio: organizar o devir em formas suficientemente nítidas e duráveis para que se consiga ter orientação no meio circundante e para que se possa dominá-lo. Por isso elas se empenham em introduzir por toda parte a unidade, a identidade, as semelhanças graças às quais as formas podem se destacar do caos. Mas seria um grande erro, neste caso, falar em conhecimento rigoroso! O que se encontra aqui é somente a atividade diligente da crença, ciosa em reduzir tudo ao homogêneo. “De certa maneira é como se existissem coisas análogas e idênticas. O conhecimento reduz falsamente a inumerável diversidade dos fatos à identidade, à analogia, a quantidades enumeráveis” (Vontade de potência I).