Nietzsche

Jean Granier · Capítulo 2 de 32

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Nietzsche

Capítulo II: A obra

CAPÍTULO II

 

A OBRA

Uma construção inacabada e desfigurada

Seria temerário afirmar, a respeito da obra de qualquer filósofo, que ela é absolutamente acabada. A morte sempre confere uma certa contingência ao fecho da reflexão que daria a efetiva completude da obra; algumas ideias teriam sido retocadas, reelaboradas ou mesmo substituídas por outras, certas formulações teriam sido corrigidas para evitar os mal-entendidos, se o autor tivesse contado com algum tempo a mais. Além disso, as condições das publicações, a frequente existência de textos inéditos, ou mesmo a redescoberta de textos já publicados, mas negligenciados, e a eventual compilação da correspondência tornam indispensável um trabalho crítico de organização e interpretação que, por sua vez, apresenta seus próprios problemas.

Mas essas dificuldades se tornam trágicas quando, como é o caso de Nietzsche, está-se diante de um autor não apenas atingido em plena atividade – cuja obra fatalmente parece ainda em andamento –, mas também enganado por sinistras intrigas familiares que levaram à apresentação ao público de uma imagem falseada de sua obra (conforme demonstrou Karl Schlechta, com base numa documentação incontestável). Sem esquecer que, de mistura à política, o nome de Nietzsche serviu de caução à pavorosa impostura do nazismo (pessoalmente, porém, Hitler – que ganhou de presente da irmã de Nietzsche a bengala do filósofo! – pouco se importava com a filosofia de Nietzsche e era incapaz de compreendê-la).

Essas deploráveis atribulações e essas ignóbeis anexações geraram veementes disputas entre os especialistas, encorajaram a proliferação de comentários mais ou menos fantasiosos e principalmente favoreceram as posições doutrinárias que permitiam manter no índex um pensamento considerado perigoso ou passar a obra de Nietzsche pelo rolo compressor do dogmatismo. Foi apenas após a última guerra que, graças ao trabalho de alguns pioneiros, tornou-se possível desenvolver, além das reflexões de alto voo, muitas pesquisas sérias e inteligentes. No entanto, a partir de 1965, a influência de modas culturais direcionou muitas interpretações para uma busca de efeitos pitorescos e publicitários, em detrimento da compreensão sóbria e abrangente de que temos exemplo, muito especialmente, no pensamento alemão.

Para além das divergências ligadas ao temperamento, aos rumos do pensamento e às circunstâncias históricas, cabe portanto estabelecer alguns princípios metodológicos, indispensáveis para proteger Nietzsche da arbitrariedade e garantir o andamento de investigações fecundas.

No que se refere às falsificações efetuadas nos textos de Nietzsche, a situação agora se encontra bastante esclarecida. O principal ponto de discordância desapareceu, desde que foi possível estabelecer que o livro chamado A vontade de potência não é uma produção controlada por Nietzsche e sim uma “invenção” da irmã de Nietzsche (infelizmente auxiliada, apesar de suas reticências, por Peter Gast). A obra, com efeito, foi forjada – por razões de ambição e lucro – com uma montagem artificiosa de textos póstumos que figuravam nos cadernos de notas de Nietzsche. A fraude praticada por essa irmã que Nietzsche dizia ser de

uma “descarada e inigualável tolice”1 operava em dois níveis: primeiro, dava-se a entender, ilusoriamente, que existia um “sistema” de Nietzsche; a seguir, que esse sistema, ilustrado pelo título provocador de A vontade de potência (um nome de boa têmpera nietzschiana, mas aqui usado sem rigor), estava naturalmente destinado a se tornar a filosofia do nacional-socialismo. Além disso, a sra. Förster-Nietzsche se arrogou o monopólio dos comentários da obra, criando num grosso volume indigesto uma caricatura da personalidade e obra de seu irmão. Aliás foi recompensada por tal proeza com um... doutorado honoris causa! A crítica, por fim, desmascarou essa maquinação disfarçada de lenda, como escreve Karl Schlechta: “Não se pode falar de uma Vontade de potência que representaria a doutrina pessoal, a obra sistemática de Nietzsche. Não passam de papéis póstumos, banalmente póstumos, nada mais”. Mas, para chegar a este veredito, foi preciso demolir os argumentos que tornavam a autoridade da sra. Förster-Nietzsche aparentemente incontestável e que consistiam em cerca de trinta cartas que Nietzsche teria supostamente escrito à irmã. Ora, descobriu-se que, se o conteúdo era essencialmente de Nietzsche, as cartas em si eram dirigidas a outros destinatários – como a mãe de Nietzsche ou Malwida Von Meysenbug – e algumas palavras tinham sido grosseiramente adulteradas. Era um procedimento habitual dessa irmã, decididamente abjeta, que já em Ecce homo não hesitara em corrigir as passagens que a desagradavam e a desautorizavam, como esta, profética: “A maneira como, até o momento, minha mãe e minha irmã me tratam, inspira-me um horror indizível: é uma verdadeira máquina infernal que está em funcionamento e procura com infalível segurança o momento em que pode me ferir com maior crueldade”.

As edições recentes de Nietzsche restauraram o significado autêntico dos textos, suprimindo o título suspeito e principalmente preservando seu valor normal como escritos póstumos: seja reunindo-os em vários volumes especiais, acrescidos aos volumes que foram publicados por iniciativa do próprio Nietzsche; seja colocando-os diretamente como anexos a cada um desses volumes, para respeitar a ordem cronológica (ao que parece, a melhor fórmula). Assim fica confirmada a certeza que qualquer pessoa já poderia ter simplesmente com uma leitura fiel das obras publicadas por Nietzsche: nada, absolutamente nada na filosofia nietzschiana permite afiançar, sob aspecto nenhum, as ideologias nazistas e fascistas, nem, aliás, nenhuma ideologia pangermanista em geral. Adiante, ao discutir o conceito de “vontade de potência”, teremos ocasião de mostrar como seria equivocado entender seu sentido e seu alcance como uma apologia da brutalidade cínica e da violência bárbara. Mas, antes mesmo dessa discussão, já é possível descartar totalmente, como pura mentira, qualquer alegação que pretenda apresentar Nietzsche como precursor do nazismo ou mesmo como simples defensor do nacionalismo alemão. Nietzsche tem fórmulas ferinas para exprimir sua desconfiança em relação aos alemães e seu desprezo por qualquer forma do “Reich”; por exemplo: “Deutschland, Deutschland über alles é talvez a palavra de ordem mais estúpida que jamais existiu” (Werke, XIII, 350); por outro lado, ele sempre foi defensor da ideia europeia, e com uma amplitude de visão que, numa época em que se desencadeavam as paixões nacionalistas, dá provas de sua lucidez e coragem. O antissemitismo – cuja irremediável tolice ele pôde conhecer por meio de seu cunhado, o agitador Förster, e naturalmente de sua digna esposa – era-lhe odioso; repetiu isso centenas de vezes; contentemo-nos em citar esta fórmula irretorquível: “A luta contra os judeus sempre foi sinal de uma natureza baixa, invejosa e covarde: e quem participa dela hoje deve ter uma boa