Nietzsche

Jean Granier · Capítulo 23 de 32

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Nietzsche

Capítulo IV: A vontade de potência

CAPÍTULO IV

 

A VONTADE DE POTÊNCIA

Sabedoria do corpo

Partindo da consciência, forma-se uma representação superficial e aberrante da vida psíquica, cai-se vítima da falsa separação entre a alma e o corpo, é-se irresistivelmente atraído para o Idealismo e fascinado pelas miragens da metafísica. Pretende-se, ao menos uma vez, ter os meios de uma interpretação adequada da realidade, não ter nenhuma hesitação: é preciso, afirma Nietzsche, deixar de conceder crédito à consciência e se voltar para o corpo. Pois é o corpo o único que tem condições de nos instruir sobre o valor de nossa personalidade profunda. Colocarmo-nos, para decifrar o mundo, no ponto de vista do corpo: é esta a desconcertante, mas fecunda “Revolução copernicana” que Nietzsche nos sugere, e que, em comparação à célebre Revolução kantiana, substituirá o cogito transcendental (e, aliás, todo cogito garantido pela consciência de si) pela compreensão viva que define a subjetividade corporal. Trata-se, com efeito, de um corpo em que a consciência é uma simples função entre outras, e cuja atividade já é desde sempre, por si mesma, manifestação de uma subjetividade, em outros termos, produção intencional de significações . Assim Nietzsche escolhe falar do corpo como um “Si” (das Selbst) e lhe dar magnitude como “a grande razão”: “O corpo é uma grande razão, uma multidão unânime, um estado de paz e de guerra, um rebanho e seu pastor. Esta pequena razão que dizes ser teu espírito, ó meu irmão, é apenas um instrumento de teu corpo, e um pequenino instrumento, um joguete de tua grande razão” (Assim falou Zaratustra). A partir disso já não é um escândalo (exceto para um incondicional guardião do cogito!) atribuir o pensamento ao próprio corpo: “Admite-se aqui”, declara Nietzsche com tranquila segurança, “que todo organismo pensa, que todas as formações orgânicas participam do pensar, do sentir, do querer e, por conseguinte, que o cérebro é somente um enorme aparelho de concentração” (Fragmentos sobre a energia e a potência ). O dualismo cartesiano da res cogitans e da res extensa é derrubado por fórmulas deste gênero: “Por toda parte onde vemos ou adivinhamos um movimento no corpo, é preciso concluir que há uma vida invisível e subjetiva ligada a ele” (Vontade de potência I).

Melhor: é preciso admitir que esse pensamento corporal, inconsciente, com toda a sua gama de operações delicadas como julgar, imaginar, criar valores, é muito mais aperfeiçoado e sutil do que o pensamento consciente associado ao eu e ao intelecto: “A esplêndida coesão dos mais múltiplos seres vivos, o modo como as atividades superiores e inferiores se ajustam e se integram entre si, essa obediência multiforme, não-cega, e menos ainda mecânica, mas crítica, prudente, cuidadosa ou mesmo rebelde – todo esse fenômeno do ‘corpo’ é, do ponto de vista intelectual, tão superior à nossa consciência, ao nosso ‘espírito’, aos nossos modos conscientes de pensar, de sentir e de querer, quanto a álgebra é superior à tabuada” ( Vontade de potência I). Não é difícil se convencer disso, desde que se cuide de reinserir a consciência no contexto da vida e do mundo real, ao invés de se hipnotizar pela evidência pontual do cogito. Então revela-se claramente que as intermitências da consciência de si e os grosseiros erros que ela comete, tanto em suas avaliações do mundo exterior quanto em sua representação do corpo, tornariam impossível o desenvolvimento dos organismos, caso o corpo já não assegurasse continuamente a solução dos problemas fundamentais. De modo que o intelecto e, de modo geral, as faculdades do espírito consciente são chamados a intervir apenas ocasionalmente, obedecendo a comandos transmitidos pelo próprio corpo (Vontade de potência I).