Nietzsche

Jean Granier · Capítulo 24 de 32

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Nietzsche

A vontade de potência, essência do Ser

Mas essa própria subjetividade global do corpo é a reunião de uma multidão de subjetividades solidárias entre si, segundo estruturas de hierarquização muito complexas e em constante mutação, pois aqui, como alhures, a harmonia só pode derivar de uma luta. “Guiados por esse fio condutor do corpo [...] aprendemos que nossa vida só é possível graças ao jogo combinado de várias inteligências de valor muito desigual, graças, portanto, a uma perpétua troca de obediência e comando sob inumeráveis formas” (Vontade de potência I).

Cada uma dessas subjetividades orgânicas corresponde ao que captamos, mas apenas por meio da representação mais ou menos aproximada de nossa consciência, como “instintos”. Esses instintos são pulsões investidas de um certo quantum de energia vital e cujo trabalho, realizado nas profundezas do Si corporal, mantém-se oculto à observação consciente; as aptidões de cada personalidade e a determinação de seu destino dependem do vigor desses instintos e da qualidade de seu discernimento. Em decorrência disso, “o gênio reside no instinto, a bondade também. O único ato perfeito é o ato instintivo” (Vontade de potência I). O corolário dessa proposição fundamental dá a chave da decadência: o decadente é a personalidade cujos instintos estão debilitados e se tornaram anárquicos, por falha do sistema regulador que garante a unidade do Si, de modo que ela é obrigada a se apoiar em sua consciência e em sua razão, forjando para si, com a disciplina ascética da Moral, um lastimável sucedâneo da flexível inteligência adaptativa dos instintos. O decadente é um doente do instinto, que tenta compensar suas carências com uma hipertrofia da lógica e da consciência do puro Dever.

A vontade de potência, essência do Ser

Tomando o corpo como guia, como aconselha Nietzsche, somos infalivelmente conduzidos à ideia da “vontade de potência” (Wille zur Macht ), tema central da filosofia nietzschiana. Pois o corpo, segundo Nietzsche, é o fenômeno privilegiado onde se percebem os traços essenciais da vontade de potência. E, ademais, é na escola do corpo que melhor educamos nossa vigilância crítica em relação aos comentários enganosos suscitados pela expressão “vontade de potência”, quando se imagina ser possível compreendê-la a partir das significações imediatas que transmite. Na realidade, essas significações são sedimentações culturais em que a preguiça do espírito e o sectarismo apoiam suas opiniões triviais. Em virtude disso, e notadamente em seus usos jornalísticos, a expressão “vontade de potência” perdeu toda a sua densidade de ideia nietzschiana para se tornar um ninho de sofismas e contrassensos. Ela resume em si quase todos os preconceitos que Nietzsche jurara... combater!

Reconheçamos, porém, que a própria ideia, como toda grande ideia em filosofia, é ao mesmo tempo muito clara e difícil de ser entendida, na medida em que escapa à intuição direta. Procurando atingir o Ser em sua essência, ela se constrói por inferência (mas não esqueçamos a parte, incontrolável, da descoberta!) sobre a base de uma multiplicidade de indícios nem sempre fáceis de recuperar e reagrupar. No caso da filosofia nietzschiana, a análise do corpo oferece justamente um desses “pontos de partida visíveis” de que fala K. Jaspers, e assim é com razão que o próprio Nietzsche ressalta seu grande interesse. Mas, naturalmente, existem outros, e são eles que também ajudaram a interpretar corretamente o fenômeno do corpo como manifestação da vontade de potência; em primeiro lugar, a reflexão sobre a cultura grega e a reflexão sobre a atividade do conhecimento como interpretação. Apenas sob a condição expressa de ter em mente essas referências decisivas é possível discutir as noções que, à primeira vista, parecem evidentes, mas que se revelam desconcertantes, se consideradas como as verdadeiras explicações do conceito de Wille zur Macht.

Três dessas noções exigem um breve exame crítico, devido a seu estatuto ambíguo: de fato, elas ameaçam falsear nossa compreensão da vontade de potência e, ao mesmo tempo, porém, correspondem a determinações legítimas, na verdade imbricadas na própria ideia de vontade de potência. Em primeiro lugar, a noção de “vida”. Cuidado para não ver aí a prova de um suposto biologismo nietzschiano, substituindo a “struggle for life” de Darwin pela luta pela preeminência! Pois não só Nietzsche não a utiliza para defender uma nova teoria biológica, como ainda lhe dá uma sobredeterminação filosófica, para que possa conotar a oposição entre especulação abstrata e experiência existencial, uma simbologia da feminilidade e, sobretudo, o tema propriamente genealógico da luta entre força e fraqueza. Longe de reduzir o Ser à vida biológica, em Nietzsche é a vida natural que aparece como “um caso particular da vontade de potência” (Vontade de potência I). Quanto à noção de “poder”, em sua acepção sinistramente cotidiana de violência e de dominação sobre outrem, Nietzsche a associa à psicologia do “sentimento de potência”, fornecendo-nos uma série de análises magistrais sobre ele; mas para introduzir prontamente uma valoração “aristocrática” desse sentimento de potência que derruba as valorações habituais, visto que ela exalta a dominação sobre si, o heroísmo do conhecimento e a sublimação estética dos instintos, em detrimento da violência bárbara, característica do indivíduo vulgar e medíocre. E Nietzsche cita o bramanismo como exemplo de um poder nobre, fundado sobre o controle total do sentimento da potência (Aurora)!

Chegamos, por fim, à noção de “força”, ela também onerada com pesadas hipotecas. Vista no nível psicológico, onde está ligada à análise do sentimento de potência, o essencial do juízo de Nietzsche se encontra neste texto: “Encontrei a força onde ela não é procurada, em homens simples, mansos e dóceis, sem o menor pendor para a dominação – e, inversamente, o gosto de dominar se me afigurou muitas vezes como um sinal de fraqueza íntima; eles temem suas almas de escravos e revestem-nas com um manto de realeza (acabam por se tornar os escravos de seus partidários, de sua reputação etc.). As naturezas poderosas necessariamente reinam, sem precisar sequer levantar um dedo, mesmo que estejam enterradas numa choupana” (Vontade de potência II). Mas a noção de força ultrapassa largamente o quadro psicológico e se faz onipresente nos trabalhos de Física que Nietzsche gostava de consultar. Assim, Nietzsche devia lhe conceder a mais cuidadosa atenção; além de lhe ser indispensável para dotar a vontade de potência com sua significação quantitativa, definindo-a como investimento variável das quantidades de energia, ela lhe oferece também o conceito-piloto dessa inferência amplificadora à qual Nietzsche recorre para edificar sua cosmologia da vontade de potência: entendamos por ela uma interpretação do mundo por universalização do conceito de vontade de potência, segundo o ambicioso programa exposto no parágrafo 36 de Além do bem e do mal. O projeto seria começar pela interpretação do corpo e dos instintos, passar para a generalização dos resultados aplicando-os à vida orgânica, e terminar a argumentação englobando aí a teoria da matéria. O empreendimento é sedutor e não contradiz os princípios da metodologia da interpretação, com a ressalva, porém, de que não se conceda a ele o valor dogmático de uma totalização absoluta; pois esta, como fica muito claro, cairia sob o golpe das críticas que o próprio Nietzsche dirigia à metafísica tradicional do Uno e da Totalidade. Ela confirma, ademais, que a noção de força, longe de explicar a ideia da vontade de potência, nunca se faz inteligível em Nietzsche a não ser quando vinculada a uma construção especulativa cujas origens transcendem o plano dos dados empíricos da Natureza. É o pensamento filosófico que elucida o sentido da força, tal como se manifesta nos múltiplos eventos da realidade natural – e não o contrário, absolutamente, como se tem a tendência de crer quando não se dispõe de uma compreensão suficiente do que é o pensamento filosófico...