Nietzsche
Capítulo III: Interpretação e verdade
CAPÍTULO III
INTERPRETAÇÃO E VERDADE
O texto e o caos
Mal a filosofia conseguiu se livrar do pântano do dogmatismo metafísico, ela se arrisca a sucumbir à armadilha do ceticismo, substituindo a presunçosa afirmação da identidade entre o Ser e o pensamento pela negação, não menos excessiva, de qualquer participação do pensamento no Ser. O principal interesse da reflexão nietzschiana, neste aspecto, é evitar a armadilha; não por simples habilidade, mas com um remanejamento tão radical dos métodos e dos conceitos do conhecimento que vem a destruir o próprio princípio da alternativa. O tema ao qual ela deve essa libertação é o já anunciado, da interpretação. Grande ideia, cuja fecundidade se estenderá muito além da obra de Nietzsche.
Por conseguinte, as formulações de tipo cético que se encontram em Nietzsche visam apenas a fixar os limites dentro dos quais o conhecimento pode se exercer, justamente como interpretação: limites no limiar da pesquisa, bloqueando as vãs pretensões da ontologia metafísica; e limites no avanço da própria interpretação, para impedi-la de deslizar novamente para uma forma de saber absoluto. A interpretação é, assim, aquele conhecimento ágil, ardente e basicamente disponível, aquele conhecimento em mutação perpétua, que é exigido para a exploração do mundo real, pois “nosso mundo é muito mais o incerto, o cambiante, o variável, o equívoco, um mundo perigoso talvez, certamente mais perigoso do que o simples, o imutável, o previsível, o fixo, tudo aquilo que os filósofos anteriores, herdeiros das necessidades do rebanho e das angústias do rebanho, honraram acima de tudo” (Vontade de potência II).
A interpretação se estrutura segundo dois conceitos essenciais: o “texto” e o “caos”, estreitamente associados aos conceitos de “perspectivismo” e de “valor”. A ordem do encadeamento deles é fundamental para a metodologia e o sentido de toda a filosofia de Nietzsche. Coloque-se à frente o caos, e o texto desaparece, subsistindo apenas uma poeira de opiniões subjetivas. O espírito nietzschiano, comprovado pela consulta integral das referências, insurge-se contra essa apresentação, ao mesmo tempo fantasiosa e suicida; ele exige que se trate o conceito do caos como conceito limite para pensar o caráter indefinido do movimento da interpretação e, portanto, de forma alguma como categoria explosiva que dinamitaria a noção de “texto”. Estamos, indica Nietzsche, perante “um texto misterioso e ainda não decifrado, cujo sentido se nos revela cada vez mais” (Vontade de potência II). O “cada vez mais” é precisamente a localização do limite, sempre fugidio, onde se desenha a proximidade do “caos”.
A atividade de interpretação, portanto, apoia-se necessariamente num texto, o qual não é, pois, uma emanação da subjetividade (tenhamos cuidado em não reabsorver o texto na própria interpretação, à maneira dos idealistas!), mas um mundo efetivamente real, dotado de uma consistência própria; de modo que Nietzsche se estende na enumeração das “qualidades que constituem sua realidade: a mudança, o devir, a multiplicidade, o contraste, a contradição, a guerra” (Vontade de potência I). Aliás, como poderia Nietzsche investir contra a ontologia metafísica qualificando-a de fabulação, se não dispusesse de um termo de referência indubitável, que lhe servisse de medida para distinguir entre a realidade e a ilusão e de prova para ganhar a adesão dos outros intérpretes? Na ausência de um tal texto, inquebrantavelmente real, estar-se-ia condenado ao sempiterno entrechoque de opiniões definitivamente irreconciliáveis, e toda crítica, em particular, não passaria de uma descarga passional sem qualquer conteúdo informativo. Tampouco seria possível dissociar a força e a fraqueza, empenhando-se em preparar uma “transmutação de todos os valores”; onde se encontraria o critério com o qual Nietzsche poderia estabelecer a diferença entre o inferior e o superior e defender uma nova hierarquização? Sim, certamente a alma da interpretação é “querer conhecer as coisas como elas são” (Werke XII).
Mas a realidade que assim Nietzsche confere ao texto não é a de uma substância existente em si; o texto não tem presença a não ser na própria interpretação, que tem nele justamente seu correlato fenomênico, isto é, um correlato que é manifestação do Ser real. Além disso, essa manifestação não se investe praticamente jamais de uma evidência imediata e unívoca. Descartemos, portanto, a esperança quimérica de alcançar sua essência com a ajuda da intuição! Esta não é mais confiável do que a lógica dedutiva, cujos raciocínios continuam a ser exercícios mais ou menos formais, se for verdade, como ensina Nietzsche, que “não se passa nada no real que corresponda rigorosamente à lógica” (Vontade de potência I). Logo, o conhecimento deve se contentar em ser um minucioso e paciente deciframento, sob a forma de u m ensaio (Versuch) avançando na base de “hipóteses reguladoras” (Werke XIV 322) e aplicando-se mais a “descrever” os fenômenos do que a explicá-los por razões e provas.
O texto é inesgotável; “o mesmo texto”, indica Nietzsche, “autoriza inúmeras interpretações; não existe interpretação exata” (Werke XIII 69). Nietzsche tenta pensar o caráter confuso e indistinto do texto, por causa da abundância e da mudança constante das significações por ele sugeridas e que impedem encerrar sua verdade numa leitura exclusiva e sectária, com o conceito do “caos”. “O caráter do mundo”, diz ele, é “o de um caos eterno” (A gaia ciência). O caos marca o fracasso irremediável de toda interpretação que pretenda se constituir em ciência, sistema ou dogma; ele delimita o horizonte a partir do qual o encarniçado empenho de tudo explicar resulta apenas em tornar o texto totalmente ilegível. Pois “é preciso uma certa imprecisão do olhar, uma certa vontade de simplificar tudo para que apareça a beleza, o ‘valor’ das coisas; em si, elas são apenas um não sei quê” (Vontade de potência II).
O problema da interpretação é, pois, um problema de acomodação. Trata-se de encontrar a boa distância para que o texto nos ofereça figuras e letras para serem decifradas; deciframento destinado, de qualquer modo, a ser aproximativo e indefinido, de modo que a ameaça de que as significações se tornem ininteligíveis ou até se apaguem soçobrando no “caos” nunca é inteiramente conjurada. Não obstante, subsiste um texto; e Nietzsche está intimamente tão persuadido disso que dita as regras de um método de conhecimento digno de ser denominado uma “filologia” rigorosa do texto. Agora, de fato, ele chega ao ponto de exigir que se aprenda a dissociar os “fatos” e as “interpretações”, ou seja, a não deixar que as crenças vãs obscureçam as significações reais. “Entendo aqui por filologia, num sentido muito geral, a arte de ler bem – de saber distinguir os fatos, sem os falsear com interpretações, sem perder, no desejo de compreender, a precaução, a paciência e a delicadeza” (O anticristo).