Nietzsche
O método genealógico
Ora, esta mise en forme imperativa transmite necessariamente os desejos, os interesses e as emoções do ser que assim interpreta o mundo. Com ela o sentido-forma recebe o caráter de “valor” propriamente dito, visto que o valor qualifica uma significação como útil para mim, logo, desejável. Compreender é valorar, em outros termos é organizar o mundo segundo o perspectivismo dos valores pelos quais um ser exprime a singularidade de seu engajamento existencial. “O poder criador entre os seres vivos, o que é ele? – É o fato de que tudo o que constitui o ‘mundo exterior’ para cada um representa uma soma de juízos de valor; que verde, azul, vermelho, duro, mole são juízos de valor hereditários e o sinal desses juízos” (Vontade de potência I). Essa normatividade espontânea da vida, que se encontra nos organismos mais primitivos, repercute no nível das operações intelectuais do homem, pois o homem é “o animal estimador por excelência” (Genealogia da Moral). E Nietzsche resume toda a sua argumentação nesta vigorosa definição: “O ponto de vista do ‘valor’ consiste em conceber condições de conservação e de crescimento para seres complexos, de duração relativa, no interior do devir” (Vontade de potência I).
A partir daí, como não reconhecer que, sob este ângulo, o valor coincide com uma certa determinação do próprio conceito de verdade? Sim, enquanto correlato de uma atividade de interpretação que organiza o real segundo as estimativas de tal ou tal centro de dominação, o valor estabelece o que é tido-por-verdadeiro; como o princípio da normatividade é a utilidade para a vida, a noção de valor é o eixo do que chamei de “o pragmatismo” nietzschiano, procurando assim mostrar a imbricação essencial, na teoria nietzschiana do conhecimento, entre o tema da interpretação como mises en formes e o tema do valor como verdade-útil. Tal pragmatismo vital é claramente enunciado pelo próprio Nietzsche quando declara: “O mundo aparente é um mundo visto segundo valores, ordenado, escolhido segundo valores, portanto, de um ponto de vista utilitário, no interesse da conservação e do aumento de poder de uma certa espécie animal” (Vontade de potência I).
O método genealógico
Ao chamar a atenção para a impregnação do conhecimento pelos valores, Nietzsche abre o caminho para um novo tipo de pesquisa, a pesquisa genealógica. Entendamos esta como uma pesquisa cujo fim, refletindo de alguma maneira sobre a normatividade essencial da interpretação, é apreciar o valor dos valores assim produzidos; em suma, é fazer a crítica das valorações reinantes num determinado momento da história. Ela tem a adequada denominação de “genealogia” porque quer efetuar essa valoração remontando à origem dos atos normativos, isto é, quer assestar o juízo sobre o “centro de interpretação” de onde emanam os valores sob exame. Método plenamente justificado, pois, se o vivente exprime com a escolha de seus valores o entendimento daquilo que lhe é útil, ao mesmo tempo ele se expõe a uma interrogação crítica sobre seu valor próprio, como medida que permite situá-lo numa escala de classificação. Nietzsche ilustra seu método com este tipo de questionamento: “Critério de meus valores: eles nascem da abundância ou da indigência?... É o desejo de ser testemunha e pôr a mão na massa, ou o desejo de desviar os olhos e se afastar?... Nascem ‘espontaneamente’ da força acumulada ou são excitados, provocados por reação? Se são simples, é pobreza dos elementos ou domínio absoluto de elementos numerosos, força que dispõe deles à sua vontade? É problema ou solução?” (Vontade de potência II).
Na existência concreta, os valores habitualmente se reúnem para formar estruturas que Nietzsche, em Zaratustra, chama de “tábuas de valores”. Essas tábuas de valores recobrem com grande precisão aquilo que, nos outros textos nietzschianos, é designado sob o termo muito amplo (e perigosamente sobredeterminado) de “moral”. Para se orientar corretamente, é preciso não perder o precioso fio condutor fornecido por essa definição da moral, agora concebida segundo esta extensão máxima: “Chamo ‘moral’ um sistema de juízos de valor que está em relação com as condições de existência de um ser” (Vontade de potência I). Tal definição coloca a “moral” nietzschiana no mesmo campo conceitual e metodológico do conceito marxista de “ideologia”, porém com profundas diferenças, sendo uma das mais flagrantes justamente a preponderância, em Nietzsche, dos temas do valor e da vida, ao passo que a análise marxista se funda na determinação da práxis humana como “produção” social.
A pesquisa genealógica se inicia pela observação e descrição rigorosa de uma tal “moral”, prossegue com a análise crítica de seu valor e discute sobretudo a natureza de sua influência, por exemplo por meio de um modelo educativo, e termina com a apreciação do valor da origem, sendo a moral em exame tratada como um conjunto de “sintomas” pelos quais julga-se o tipo de vida que os produziu. Assim a argumentação desemboca na oposição entre “ideais positivos” e “ideais negativos” (Vontade de potência I). Sob esta última rubrica logo vem se somar a moral dos fracos, que já havíamos abordado com a maiúscula: a Moral, e que encontra sua teorização especulativa, como vimos, na ontologia metafísica. Por trás do conflito entre os ideais positivos e os negativos, vêm à luz as duas tendências vitais antagônicas: “Distingo um tipo de vida ascendente e um tipo de decadência, de decomposição, de fraqueza” (Vontade de potência I). A pesquisa genealógica permite, assim, estabelecer a “tipologia” antropológica cujo fundamento oculto é a tipologia vital.
Frisemos a importância da contribuição do método genealógico elaborado por Nietzsche para nossa crítica anterior da ontologia metafísica. De fato, é a própria concepção de crítica que se vê subvertida. Antes julgava-se convincente uma crítica cuja meta se resumia à possibilidade de refutar por meio da lógica os argumentos da teoria adversária. Para Nietzsche, por outro lado, esse gênero de refutação continua a se inspirar no otimismo socrático e atinge apenas as razões e as provas, sempre superficiais, sem modificar absolutamente as causas produtoras dos erros. Extirpar as raízes do erro exige que se reconheça nele não uma simples falha intelectual, e sim uma ilusão imposta por certas condições de existência que, por sua vez, traduzem-se em tábuas de valores particulares, numa moral específica. Portanto, quando se esgotam os recursos de uma crítica especulativa da metafísica, está preparada a tarefa decisiva: rastrear a genealogia da Moral (que é, precisamente, o título de uma obra de Nietzsche!), que deve conduzir a uma “tipologia da Moral” (Além do bem e do mal). O niilismo, enquanto crise dos valores do Idealismo, deve ser interpretado, a esta luz, como o sintoma de uma doença que se tornou planetária, a decadência moderna; esta define a situação existencial de um tipo humano bem caracterizado: o homem do ressentimento, impelido pelo desejo mórbido de se vingar da vida e que crê consegui-lo glorificando um ideal repressor. Nietzsche recapitula os principais momentos dessa investigação genealógica aplicada ao Idealismo, ao escrever: “A crença no ser não é senão uma consequência; o primeiro móvel verdadeiro é a recusa de crer no devir, a desconfiança em relação ao devir, a depreciação de todo o devir [...]. Quais são os homens que refletem assim? Uma espécie humana improdutiva, sofredora, cansada de viver” (Vontade de potência II).