Nietzsche
A obra e a doença
As considerações precedentes permitem extrair a resposta à pergunta, que se tornou premente com a insanidade dos últimos anos, sobre o papel da doença na gênese da obra de Nietzsche.
Era tentador, para as almas estreitas que preferem pensar com baixeza em lugar de enfrentar os riscos de uma interrogação livre, explorar a crise de loucura como refutação a priori das ideias de Nietzsche. Essa ameaça, ao mesmo tempo, confere uma enorme importância ao diagnóstico médico sobre a natureza exata da demência em Nietzsche, mas, de qualquer maneira, mesmo na hipótese mais desfavorável, ela ainda deixaria em aberto a questão, propriamente filosófica, de determinar o sentido da loucura enquanto tal, notadamente em suas relações com a criatividade genial (o caso de Hölderlin, sob este aspecto, é muito instrutivo). Dos numerosos estudos médicos sobre o tema da loucura de Nietzsche extrai-se um certo consenso sobre o diagnóstico de “paralisia geral” (mas, pela curiosa ausência de certos sinais clínicos, Podach já fazia algumas ressalvas, falando de uma forma “atípica”). Trata-se de uma meningite-encefalite, de origem quase sempre infecciosa. Ora, há boas razões para admitir que Nietzsche realmente tenha contraído na juventude uma infecção sifilítica desse gênero, e foi possível inclusive reconstituir uma data aproximada do episódio causador, graças às Lembranças de Nietzsche, de Paul Deussen. A data sugerida é o ano de 1865, em vista de uma carta de 4 de agosto de 1865, dirigida a Gersdorff, em que Nietzsche justamente se queixa de dores de cabeça violentas, sintoma habitualmente associado à meningite de origem sifilítica. As cefaleias constantes, os vômitos, as dores oculares que incessantemente torturam Nietzsche corresponderiam, assim, ao estágio terciário da infecção. Mas, em todo caso, a obra permaneceria indene, pelo menos até o desmoronamento brutal do começo de 1889. Assim, caso se pretenda estabelecer a existência de uma perturbação, seria necessário buscar por trás da doença infecciosa uma psicose latente ou uma neurose. Aqui também, nessas tentativas de explicação, estamos reduzidos às conjeturas mais arriscadas (aventaram-se diagnósticos de constituição paranoica atenuada e de tendências esquizoides); filosoficamente, nada se modifica em nossa leitura da obra. A exploração dos problemas
neuróticos, a uma luz psicanalítica, certamente é mais promissora3, em particular quando ela rastreia os vestígios de um complexo paterno de múltiplas ramificações (cabe lembrar que Nietzsche perdeu seu pai muito jovem). No entanto, ela tampouco nos dá qualquer elemento, se quisermos relacionar seus resultados com a interpretação propriamente filosófica dos escritos nietzschianos. Pois não há nenhum critério comum entre indicações referentes a uma gênese psicológica e o sentido de verdade inerente ao pensamento de um filósofo!
O debate só mantém algum interesse se forem ampliadas e abarcadas as dimensões de uma reflexão sobre o valor da doença em geral para a experiência criadora. Ora, quando se aborda o problema sob este ângulo, o que impressiona é a admirável generosidade com que Nietzsche soube converter a doença, mesmo em seus piores momentos, numa escola de pensamento, na disciplina existencial do criador. A tal ponto que, em Nietzsche, a doença se torna o principal estimulante do conhecimento, o auxiliar da reflexão “em grande estilo”; ou, melhor, a própria prática da interpretação enquanto arte de fazer variar ao infinito os pontos de vista sobre um tema dado. Nietzsche tinha a mais aguda consciência dos privilégios que lhe conferia a doença e celebrou em fórmulas inesquecíveis os méritos daquilo que não hesita em chamar de impotência e decadência! Citemos, entre outros: “Os doentes e os fracos têm mais espírito, são mais móveis, mais variados, mais divertidos – mais maldosos [...]. Os doentes e os fracos têm em si uma espécie de fascínio. São mais interessantes do que as pessoas saudáveis; o louco e o santo – as duas espécies de homens mais interessantes – e, aparentado a eles, o ‘gênio’” (Vontade de potência II). Assim, o critério para um juízo válido é o uso que se faz da doença: “É apenas uma questão de força: possuir todos os traços mórbidos do século, mas compensá-los no interior com uma força exuberante de construção e de restauração” (Vontade de potência II).