Nietzsche

Jean Granier · Capítulo 15 de 32

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Nietzsche

A moralização de Deus

Mas, além da estrita determinação do Ideal como essência da ontologia metafísica, cabe também discernir qual é, nesse contexto, o critério da verdade. Esse critério, diz Nietzsche, é o prazer, a felicidade, em suma a satisfação que resulta da harmonia entre a realidade do Ser e o desejo. É “verdadeiro” o que é útil, agradável, tranquilizador. Nota-se aqui que, uma vez mais, é a identificação do próprio Ser com o Ideal que condiciona a possibilidade da verdade em sua essência, a partir do momento em que a verdade coincide com o sentimento do agradável. “O homem busca a ‘verdade’: um mundo que não possa se contradizer, nem enganar, nem mudar, um mundo verdadeiro – um mundo onde não se sofre; ora, a contradição, a ilusão, a mudança são causa do sofrimento! Ele não duvida que existe um mundo tal como deveria ser” (Vontade de potência II).

Todavia, esse prazer e essa felicidade, assim como o desejo cuja expectativa eles preenchem, caracterizam apenas um certo tipo de vida – a vida fraca e decadente, cuja ideologia é a Moral. O Idealismo, portanto, está tão longe de ser a expressão legítima da vida em sua essência que a vontade de potência, enquanto manifestação dos fortes, luta arduamente contra ele e, justamente durante a crise niilista, pretende, se não eliminá-lo (solução extrema que não é autorizada pela natureza da vontade de potência, como veremos mais adiante), pelo menos reconduzi-lo à posição subalterna normal, aquela que, perante os senhores, cabe aos escravos. Assim o combate se trava simultaneamente no plano ideológico e no plano político, e é ilustrado pelo contraste entre as duas figuras míticas do Último Homem e do super-homem. Ao mesmo tempo, obtivemos o conceito claro e rigoroso da Moral, de forma que começamos a entrever também o sentido da famosa proclamação nietzschiana: filosofar “além do bem e do mal” (poupando-nos os absurdos que costumam cercá-la, em particular o de crer que Nietzsche quer suprimir toda moral!). Com efeito, a Moral condenada por Nietzsche, na medida em que patrocina o Idealismo da ontologia metafísica, é, segundo uma dupla fórmula decisiva de Nietzsche, “a soma das condições necessárias à conservação de uma espécie humana pobre, semi ou totalmente fracassada” (Vontade de potência I), em outros termos, “uma idiossincrasia de decadentes guiados pela intenção oculta de se vingar da vida, intenção aliás coroada de êxito” (Ecce homo).

A moralização de Deus

Finalmente, sob a influência dessa Moral, o “ser” sob a bandeira do Ideal se confunde com o Deus da religião cristã. Assim, a filosofia sempre se alinhou claramente pela teologia ou, quando não se podia mais admitir a franca subordinação, sempre cuidou de respeitar seus dogmas; a abstração dos conceitos filosóficos, ademais, favorecia a manutenção da dependência, pois podia passar facilmente por uma tradução em linguagem laica das palavras-chave da fé religiosa. No limite, bastava salvaguardar as bases morais. Mas essa prudência só ocorreu na época moderna, após os violentos golpes que o Século das Luzes desferiu contra a religião. Antes não se hesitava em divinizar os valores e os métodos que tinham a função de facilitar a assimilação do Ser ao Ideal, ou em colocar Deus como fundamento da inteligibilidade e da bondade do Ser. Nietzsche resume a tática habitual da ontologia metafísica da seguinte maneira: “Para Platão, somos os antigos habitantes de um mundo inteligível que é o mundo do bem e, como tais, guardamos uma herança daquela época: a divina dialética, nascida do bem, que leva a todo bem (que nos reconduz de certa maneira ao ‘por detrás’). Descartes também tinha a noção de que, num pensamento cristão e moral que acredita num Deus bom, criador das coisas, é a veracidade de Deus que nos garante os juízos de nossos sentidos. Fora de uma sanção e de uma garantia religiosas conferidas a nossos sentidos e à nossa razão, de onde tiraríamos o direito de ter confiança na existência?” (Vontade de potência I). Do ponto de vista da atitude existencial, é evidente, para Nietzsche, que as mesmas motivações – ou, segundo o vocabulário nietzschiano, os mesmos “instintos”, que correspondem ao mesmo “tipo” de personalidade humana – estão na origem das doutrinas da ontologia metafísica e na origem da religião cristã. “São instintos”, escreve ele, “de seres tomados de angústia e ainda submetidos à moral; eles desejam um senhor absoluto, um ser amoroso e verídico; em suma, essa necessidade entre os idealistas é uma necessidade religiosa e moral, nascida em almas de escravos” (Vontade de potência II).

Isso nos autoriza a concluir que Nietzsche louva o ateísmo? Uma resposta peremptoriamente afirmativa provocaria os piores danos ao pensamento nietzschiano que, aqui e em outras partes, vive apenas de nuances e toma como ponto de honra recusar as alternativas rígidas, deleite dos espíritos superficiais. Sem entrar nos pormenores da

discussão 5, pode-se apontar as diversas orientações da reflexão nietzschiana sobre o tema, tendo presentes na memória as seguintes ideias, solidamente referendadas pelos textos.

Em primeiro lugar, a demolição do Ideal metafísico leva à ruína de setores inteiros do cristianismo oficial. A “morte de Deus”, mais exatamente, significa que a concepção moral de Deus se torna caduca – o que, por conseguinte, obriga a pergunta a se situar decididamente além do bem e do mal, extirpando da religião as imagens do Deus da verdade, princípio da virtude e da segurança; portanto, ela significa também, à luz de uma polêmica tão veemente que muitas vezes adota um estilo panfletário, a denúncia dos costumes, dos gostos, da pedagogia e da mentalidade representativas da tradição das Igrejas, seja do lado protestante ou do lado católico (cf., por exemplo, Genealogia da Moral § 22). Nietzsche, nessa linha de ataque, não hesita sequer em taxar a comunidade cristã primitiva e os Pais da Igreja de charlatanismo e de estupidez desonesta. O resultado, então, é uma nítida dissociação entre o cristianismo eclesiástico e o “verdadeiro” cristianismo que, declara Nietzsche, “consistiria na indiferença total aos dogmas, ao culto, aos padres, à Igreja, à Teologia” (Werke XV § 159). Mas Nietzsche, pessoalmente, não se pronuncia a favor desse verdadeiro cristianismo; com efeito, isso implicaria um juízo definido sobre o próprio Jesus; ora, quanto a isso, os juízos de Nietzsche se mantêm ambíguos, a despeito de uma evidente simpatia (alimentada, ademais, por uma identificação inconsciente que virá à tona durante a crise de loucura, quando Nietzsche se assina em seus bilhetes, de forma muito reveladora, como o “Crucificado”). Ele se sente seduzido por certos aspectos da personalidade de Jesus e de seu Evangelho, mas procura manifestamente a solução do problema da existência numa outra direção.

Essa busca, em todo caso, não o leva à praça pública onde se acotovela a multidão ruidosa e presunçosa dos ateus modernos. Nietzsche não poupa palavras duras para estigmatizar a mediocridade de espírito desses “livres-pensadores”, nos quais seu olho perspicaz reconhece imediatamente os mascates do antigo Ideal: “Nada ficou mais longe de mim até este momento”, escreve ele, “do que a corja livre-pensadora da Europa e da América. Cabeças ocas incorrigíveis, polichinelos da ideia moderna..., fico mil vezes mais irritado com eles do que com qualquer adversário deles. Não querem, eles também, ‘melhorar’ a humanidade? ‘Melhorar’ à imagem deles? Declarariam uma guerra mortal ao que sou, ao que quero, se fossem capazes de entender – são unânimes em crer no ‘ideal’” (Ecce homo). E que não se tente hipocritamente minimizar os danos fingindo pensar que a crítica acerba de Nietzsche fustiga apenas uma seita! Na verdade, Nietzsche já se antecipou e preveniu essa covardia acuando todas as variantes do Idealismo moral que se dissimulariam por trás das bandeiras modernas mais ou menos estridentes: fé no progresso, na ciência, no socialismo igualitarista etc. (não esqueçamos de incluir na lista os rótulos recentes!).

Por fim, desenha-se em Nietzsche, com a figura mítica de Dioniso, não certamente uma nova religião, mas talvez uma nova devoção, uma nova compreensão do Sagrado. Evitemos dogmatizar e contemplemos como o enigma surge no horizonte da profecia nietzschiana: “Vocês dizem que é uma decomposição espontânea de Deus, mas é apenas uma muda: ele se despe de sua pele moral. E logo vocês o reencontrarão – além do bem e do mal” (Vontade de potência II).

 

5. Cf. BLONDEL, E. Nietzsche: Le cinquième évangile?, e VALADIER, P. Nietzsche et la critique du christianisme. Paris: Cerf, 1974 (do mesmo autor, Nietzsche, l’athée de rigueur. Paris: Brouwer, 1975).