Novembro, 9

Colleen Hoover · Capítulo 10 de 33

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Novembro, 9

Terceiro

9 de novembro

Ela “me amou” entre aspas

Ela me beijou em negrito

TENTEI SEGURÁ-LA em maiúsculas

Ela saiu com uma elipse...

— BENTON JAMES KESSLER

Fallon

Trouxe um caderno para o restaurante.

É um pouco constrangedor, mas tanta coisa aconteceu esse ano que comecei a fazer anotações em janeiro. Também sou maníaca por organização, então, neste aspecto, Ben tem sorte. Não vai ter que pesquisar muito a meu respeito, porque está tudo aqui. Todos os quatro caras com quem saí, todos os testes de elenco dos quais participei, o fato de que voltei a falar com meu pai, os quatro retornos que recebi de produtores, o único papel (muito pequeno) que consegui em uma peça off-Broadway. E fiquei tão animada com isso que senti mais falta do teatro comunitário do que esperava. Talvez porque eu gostasse de todo mundo pedindo meus conselhos. Agora que consegui um papel pequeno em uma produção um pouco maior, parece diferente. Todos tentam escalar até o topo e atropelam qualquer um para chegar lá. Tem muita gente competitiva no mundo e descobri que não sou uma delas. Mas hoje não vou remoer o que está certo ou errado na minha vida, porque hoje é só sobre Ben e eu.

Tenho nosso dia todo planejado. Depois de tomarmos café da manhã, faremos coisas típicas de turistas. Já moro em Nova York há dois anos e nunca fui ao Empire State Building. Mas é depois do almoço a parte que mais me anima. Passei por um estúdio de arte algumas semanas atrás e notei um folheto para um evento chamado “Vida e morte de Dylan Thomas. Mas principalmente a morte”. Ben mencionou Dylan Thomas algumas vezes, então sei que gosta da obra dele. E o fato de que o evento acontece nesse estúdio hoje, justamente hoje, não é tão fascinante quanto o que eu também fiquei sabendo pelo folheto.

Dylan Thomas morreu em Nova York em 1953.

No dia 9 de novembro.

Quais são as chances? Tive de procurar esta informação no Google só para ter certeza de que estava certa. E estava. Não faço ideia se Ben sabe isso sobre Dylan Thomas. Estou torcendo para que não saiba, assim posso ver a expressão dele quando eu contar.

— Você é Fallon?

Ergo a cabeça para a garçonete. É a mesma que me deu refil de Pepsi diet duas vezes. Só que desta vez ela parece prestes a pedir desculpas... e um telefone nas mãos.

Fico decepcionada.

Por favor, que ele esteja atrasado. Por favor, que ele não esteja ligando porque não vem hoje.

Assinto.

— Sou.

Ela empurra o telefone para mim.

— Ele está dizendo que é uma emergência. Pode devolver o telefone ao quando terminar.

Pego o aparelho das mãos dela e o apoio no meu peito com ambas as mãos. Mas depois

rapidamente o afasto, porque tenho medo que ele, do outro lado da linha, consiga ouvir meu coração martelando. Baixo os olhos para o telefone e inspiro devagar.

Nem acredito que estou reagindo desse jeito. Eu nem imaginava o tamanho da minha expectativa para o dia de hoje até a ameaça de que talvez seja tirado de mim. Levo lentamente o telefone à orelha. Fecho os olhos e digo baixinho:

— Alô? — No mesmo instante reconheço o suspiro que vem do outro lado. É loucura que eu sequer precise ouvir a voz dele para reconhecê-lo. Ele está incrustado em minha mente nesse nível. Até o som da sua respiração é familiar para mim.

— Oi — diz ele.

Não é o cumprimento desesperado que eu queria ouvir. Preciso que ele passe a impressão de estar em pânico por causa do atraso. Como se ele estivesse acabando de sair do avião e morrendo de medo de que eu fosse embora antes de ele ter a oportunidade de chegar aqui. Em vez disso, é um oi preguiçoso. Como se ele estivesse sentado numa cama em algum lugar, relaxado. Não me transmite pânico nenhum.

— Onde você está? — Faço a tão temida pergunta, sabendo que ele está prestes a me responder que está a quase 5 mil quilômetros de Nova York.

— Los Angeles — diz ele.

Fecho os olhos e espero que as próximas palavras, mas elas não vêm. Ele não consegue continuar com nenhuma explicação, o que só pode significar que se sente culpado.

Ele conheceu alguém.

— Ah. Tudo bem.

Procuro não transparecer, mas minha tristeza é perceptível.

— Desculpe — diz ele. Ouço a verdade em suas palavras, mas não me reconforta.

— Está tudo bem?

Ele não responde de imediato a minha pergunta. O silêncio aumenta entre nós até que ele respira fundo.

— Fallon — diz ele, a voz falhando ao pronunciar meu nome. — Nem mesmo sei como contar isso gentilmente, mas... Sabe meu irmão? Kyle? Ele... hum... sofreu um acidente dois dias atrás.

Tapo a boca com a mão enquanto as palavras dele chegam até mim.

— Ah, não. Ele está bem?

Mais silêncio, depois um “não” fraco.

A palavra sai tão baixa que é como se nem mesmo Ben acreditasse.

— Ele... hum... não resistiu, Fallon.

Sou incapaz de responder. Não sei o que dizer. Não tenho nada de útil para falar. Não conheço Ben o bastante para saber como consolá-lo por telefone e não conheci Kyle o suficiente para expressar minha tristeza por sua morte. Vários segundos se passam, até Ben voltar a falar:

— Eu teria ligado antes, mas... sabe como é. Não fazia ideia de como entrar em contato com você.

Balanço a cabeça como se ele pudesse me ver.

— Pare com isso. Está tudo bem. Sinto muito, Ben.

— É — diz ele, triste. — Eu também.

Quero perguntar se há algo que eu possa fazer, mas sei que ele deve estar cansado de ouvir

isso. Mais silêncio toma a linha e sinto raiva de mim mesma por não saber reagir. É

simplesmente tão inesperado, nunca vivi nada parecido com o que ele deve estar passando, então sequer tento fingir empatia.

— Isso está me matando — diz ele, sua voz saindo um sussurro apressado. — Mas vou ver você ano que vem. Prometo.

Fecho os olhos com força. Ouço a mágoa vindo do lado dele da conversa, o que me faz sofrer por ele.

— Mesma hora no ano que vem? — pergunta ele. — No mesmo lugar?

— Claro. — Tento falar antes de começar a chorar. Antes de dizer a ele que não posso esperar mais um ano.

— Tudo bem — diz ele. — Preciso ir. Desculpe mesmo.

— Vou ficar bem. Por favor, não se sinta mal... Eu entendo.

O silêncio se estende entre nós, até que, por fim, ele suspira.

— Tchau, Fallon.

A linha fica muda antes que eu possa falar outra vez. Olho para o telefone e as lágrimas borram minha visão.

Estou de coração partido. Esmagado.

E eu sou uma idiota, porque por mais que eu queira me convencer de que estou chorando pela perda do irmão de Ben, isso não é verdade. Estou chorando por motivos totalmente egoístas, e reconhecer que sou um ser humano tão ridículo me faz chorar ainda mais.