Novembro, 9
Romance de Ben — CAPÍTULO QUATRO
Confiro meu celular e tem uma resposta do meu pai.
Pai: Oi! Eu adoraria, também estou com saudade. Me diga quando e onde e estarei lá.
Tento não chorar quando leio a mensagem dele, mas não consigo deixar de sentir uma amargura por ter jogado fora tantas boas lembranças que eu poderia ter com ele. Teremos que compensar nos próximos anos.
Fiz intervalos para comer. Para pensar. Para respirar. São quase sete da noite e só li metade do manuscrito. Normalmente acabo os livros em algumas horas, mas esta foi a coisa mais difícil que já tive de ler na vida. Não consigo imaginar como deve ter sido difícil para Ben escrever.
Dou uma olhada na página seguinte, tentando decidir se preciso de outro intervalo antes de começar. Quando percebo que o capítulo seguinte é sobre o dia em que nos conhecemos no restaurante, decido continuar lendo. Preciso saber o que o motivou a aparecer naquele dia. E, mais do que isso, por que ele tomou a decisão de entrar na minha vida.
Eu me sento de volta no sofá e respiro fundo. Então começo a ler o capítulo quatro do manuscrito de Ben.
Romance de Ben — CAPÍTULO QUATRO
Aos 18 Anos
“Alguém me entedia. Acho que sou eu.”
— Dylan Thomas
Meu braço está pendurado na lateral da cama e sei, pelo jeito que a mão está apoiada no carpete, que não tem estrutura, nem box. É só um colchão no chão.
Estou de bruços. Um lençol cobre metade do meu corpo e estou com o rosto virado para o travesseiro.
Detesto esses momentos. Quando acordo desconcertado demais para saber onde estou ou quem pode estar na cama ao meu lado. Normalmente fico deitado por tempo o bastante para assimilar o ambiente ao meu redor antes de me mexer, na esperança de não acordar quem estiver no quarto comigo. Mas esta manhã é diferente, porque quem quer que estivesse na cama comigo já acordou. Ouço o chuveiro ligado.
Tento contar quantas vezes isto aconteceu, quando foi que fiquei tão bêbado que nem consegui me lembrar de nada no dia seguinte. Eu chutaria pelo menos cinco vezes este ano, mas esta ocasião é de longe a pior. Em geral, consigo pelo menos lembrar em que festa eu estava. Com que amigo eu estava. Com que garota eu estava flertando antes de tudo escurecer. Mas, neste momento, não sei nada.
Meu coração começa a bater tão forte quanto minha cabeça lateja. Sei que daqui a pouco tenho que me levantar e encontrar minhas roupas. Terei de olhar em volta e tentar descobrir onde estou. Terei de deduzir onde posso ter deixado o carro. Talvez eu seja obrigado a ligar para Kyle de novo. Mas ele vai ser meu último recurso, porque hoje não estou a fim de ouvir outro sermão.
Dizer que ele anda decepcionado com o que me tornei é pouco. As coisas não têm sido as mesmas em casa desde o dia em que nossa mãe morreu, dois anos atrás.
Bom... eu não tenho sido o mesmo. Kyle e Ian estão torcendo para que minha espiral descendente comece logo a sua curva ascendente. Estavam esperando que depois que eu me formasse no ensino médio, levasse a faculdade a sério, mas isto não tem acontecido do jeito que eles talvez acham que deveria. Na realidade, minhas notas são muito ruins por causa das faltas e nem mesmo sei se vou conseguir terminar este semestre.
E eu tento. Meu Deus, eu tento. Todo dia acordo e digo a mim mesmo que hoje vai ser melhor.
Hoje vai ser o dia em que vou solucionar minha culpa. Mas então acontece alguma coisa que desperta aquele sentimento do qual quero me livrar com ainda mais rapidez do que ele surge. E
é exatamente o que faço. Afogo tudo com álcool, amigos e garotas. E, ao menos pelo resto da noite, não preciso pensar nos erros que cometi. Na vida que arruinei.
Este pensamento obriga meus olhos a se abrirem e encararem a luz do sol que entra no quarto.
Estreito os olhos e os cubro com a mão. Espero um minuto para tentar me levantar e procurar minhas roupas. Quando finalmente fico de pé, encontro a calça. Acho a camiseta que me lembro de ter vestido antes de ir para as aulas de ontem.
Mas depois disso? Nada. Não me lembro de absolutamente nada.
Encontro meus sapatos e os calço. Quando estou todo vestido, paro um segundo para olhar o quarto. Não me parece nada familiar. Vou à janela e olho para fora, notando que estou em um prédio. Mas nada me parece conhecido, talvez seja porque não consigo abrir os olhos o bastante para ver mais longe. Tudo dói.
Estou prestes a descobrir onde estou, porque a porta do banheiro se abre às minhas costas.
Fecho os olhos com força, porque não faço ideia de quem ela é ou do que espera.
— Bom dia, flor do dia!
Sua voz familiar percorre o quarto na velocidade de um torpedo e vai direto para o meu coração. Meus joelhos parecem prestes a ceder. Na realidade, acho que estão cedendo. Procuro uma cadeira por perto e me sento rapidamente, baixando a cabeça nas mãos. Nem consigo olhar para ela.
Como ela pôde fazer isso com Kyle?
Como pôde me deixar fazer isso com Kyle?
Jordyn se aproxima de mim, mas ainda me recuso a olhar para ela.
— Se está com vontade de vomitar, é melhor fazer isso no banheiro.
Balanço a cabeça, querendo que a voz dela desapareça, querendo que o apartamento dela desapareça, querendo que a segunda pior coisa que fiz na vida desapareça.
— Jordyn. — Quando ouço como minha voz está fraca, sei por que ela acha que estou prestes a vomitar. — Como foi que isso aconteceu?
Ouço o colchão afundar quando ela se joga na cama a uma pequena distância à minha frente.
— Bom... — começa ela. — Sei que começou com um ou dois shots. Algumas cervejas.
Algumas meninas bonitas. Depois terminou com você ligando para mim aos prantos à meia-noite, tagarelando sobre a data, que você precisava ir para casa, mas estava bêbado demais e não queria ligar para Kyle porque ele ia ficar bravo com você. — Ela se levanta e anda até o closet. — E, pode acreditar em mim, ele teria ficado puto. E se você contar a Kyle que eu deixei que dormisse aqui, para que ele não soubesse, ele vai ficar puto comigo. Então, é melhor você não me dedurar, Ben.
Minha mente tenta acompanhar, mas ela fala rápido demais.
Então eu liguei para ela? Pedindo ajuda?
Nós não...
Meu Deus, não. Ela não faria isso. Eu, por outro lado, não pareço ter controle nenhum sobre o que faço quando fico nesse estado. Mas pelo menos liguei para ela antes de fazer alguma idiotice. Ela e Kyle estão juntos há tempo suficiente para que ela seja uma irmã para mim e eu confio que Jordyn não vai contar a Kyle. Mas ainda resta uma pergunta... Por que eu estava nu?
Na cama dela?
Ela sai do closet e é a primeira vez que a olho hoje. Ela parece normal. Sem culpa nenhuma.
Um pouco cansada, talvez, mas sorridente, como sempre.
— Vi sua bunda hoje de manhã — diz ela, rindo. — Mas o que foi que você fez? Eu disse para usar meu chuveiro, mas você podia ter se vestido depois disso. — Ela faz uma careta. —
Agora vou ter que lavar meus lençóis.
Ela começa a tirar os lençóis do colchão.
— Espero que quando eu for morar com Kyle, você comece a usar cueca ou algo assim. E
nem acredito que fui obrigada a dormir no meu próprio sofá enquanto sua bunda bêbada roubava minha cama. — Quero pedir para ela ir mais devagar, mas, sempre que fala, me sinto ainda mais aliviado. — Você me deve uma.
Seu sorriso some quando ela se senta mais uma vez no colchão, de frente para mim. Inclina-se para a frente e me olha com sinceridade.
— Não quero me meter na sua vida. Mas amo seu irmão e assim que meu contrato de aluguel vencer, vamos todos morar juntos. Então, só vou dizer isto uma vez. Está prestando atenção?
Concordo com a cabeça.
— Nós só recebemos uma mente e um corpo quando nascemos. E são os únicos que ganhamos, então cabe a nós cuidar de nós mesmos. Detesto dizer isso, Ben, mas neste exato momento você é a pior versão de si mesmo que poderia existir. Está deprimido. Está triste. Você só tem 18 anos e nem sei onde arranja álcool, mas você bebe demais. E por mais que seus irmãos tenham tentado ajudá-lo, ninguém pode obrigá-lo a querer ser uma pessoa melhor. Só você pode fazer isso, Ben. Então, se ainda resta alguma esperança em você, sugiro que cave bem fundo e procure por ela, porque, se não a encontrar, nunca será a melhor versão de si mesmo. E vai derrubar seus irmãos junto, porque eles amam você demais.
Ela fica me olhando fixamente durante o tempo que suas palavras levam para fazer sentido em minha cabeça. Ela parece minha mãe e essa ideia me abala muito.
Eu me levanto.
— Terminou? Porque agora eu gostaria de encontrar meu carro.
Ela suspira, decepcionada, e isso me deixa mal, mas me recuso a permitir que ela perceba que só consigo pensar em minha mãe e, se ela me visse hoje, o que acharia de mim?
***
Depois de mandar algumas mensagens de texto para os meus amigos, descubro onde meu carro estava. Enquanto Jordyn me leva até lá, considero pedir desculpas a ela. Empaco no carro com a porta meio fechada, me perguntando o que dizer. Por fim, me curvo para baixo e olho para ela.
— Desculpe pelo meu jeito mais cedo. Agradeço a você por ter me ajudado na noite passada e por ter me dado carona agora.
Estou prestes a fechar a porta, mas ela me chama e sai do carro. Olha para mim por cima do capô.
— Sabe ontem à noite... quando você ligou? Você ficou dizendo alguma coisa sobre a data de hoje e... não quero me meter, mas sei que é o aniversário do que aconteceu com sua mãe. Acho que talvez seria bom se você fosse vê-la. — Ela baixa os olhos e tamborila os dedos no capô.
— Pense nisso, está bem?
Fico um tempo olhando para ela e concordo rapidamente com a cabeça antes de entrar no meu carro.
Sei que já faz dois anos. Não preciso de um lembrete. Toda manhã que acordo e respiro pela
primeira vez, me lembro desse dia.
***
Seguro firme o volante, sem saber se vou sair do carro. Já é bem ruim que eu tenha ido ao cemitério, para início de conversa. Eu nunca havia visitado o túmulo da minha mãe.
Simplesmente não sinto necessidade porque não acho que ela esteja mesmo ali. Às vezes, converso com ela. É claro que as conversas são unilaterais, mas ainda assim falo com ela. Não acho necessário ter que olhar para uma lápide para fazer isso.
Então, por que estou aqui?
Talvez eu tivesse esperanças de que fosse ajudar. Mas a realidade é que aceitei a morte da minha mãe. Entendo por que ela fez isso. E sei que se ela não tivesse tomado a decisão de tirar a própria vida, o câncer a teria levado pouco tempo depois. Mas pelo visto todo mundo na minha família acha que não consigo superar. Que sinto tanto a falta dela que chega a afetar minha vida.
Sinto falta dela, mas segui em frente. O que não superei foi o que fiz naquela noite.
Obedeci a Kyle quando ele me disse para nunca mais falar sobre Fallon ou o pai dela. Não procurei por eles na internet. Não andei de carro pelas casas em que talvez eles morem agora.
Ora essa, nem sei onde eles moram. E não pretendo descobrir. Kyle tinha razão: preciso manter distância disso. Determinaram que foi acidental e a última coisa de que preciso é alguém criando suspeitas sobre aquela noite.
Mas ainda penso naquela garota todo dia. Ela perdeu a carreira por minha causa. Uma boa carreira. Uma com a qual muitas pessoas sonham. E meus atos daquela noite vão persegui-la pelo resto da vida.
Às vezes me pergunto como ela está. Já quis pesquisar sobre ela várias vezes — talvez até vê-la de perto — só para saber o quanto ficou ferida no incêndio. Não sei por quê. Talvez eu ache que descobrir que ela leva uma vida boa me ajude a superar de algum jeito. Mas a única coisa que me impede de procurar por ela é a possibilidade de que não seja assim. A vida dela pode ser muito pior do que eu esperava e tenho medo de como vou reagir, se esta for a verdade.
Quando estou prestes a ligar o carro, um veículo para na vaga ao meu lado. A porta do motorista se abre e antes mesmo que ele saia, sinto minha boca secar.
O que ele está fazendo aqui?
Sei que é ele, pela nuca, pela altura, pelo modo como se porta. Donovan O’Neil tem uma presença reconhecível e, considerando que eu o vi aparecendo na televisão na noite do incêndio, seu rosto nunca vai sair da minha mente.
Olho em volta, me perguntando se devo ligar o carro e ir embora antes que ele note minha presença. Mas o homem nem presta atenção ao seu redor. Na sua mão direita, há um buquê de hortênsias. Ele está indo para o túmulo dela.
Ele veio aqui ver minha mãe.
De repente, sou levado de volta à noite em que estava sentado neste mesmo carro, olhando para o outro lado da rua. Parece a mesma situação, só que agora estou observando por curiosidade e não por ódio. Ele não fica muito tempo na sepultura dela. Troca as flores murchas por novas. Olha a lápide por um instante e depois volta para o carro.
Ele está familiarizado com esta rotina, como se fizesse isso o tempo todo. E, por um momento, me sinto culpado por pensar que ele nunca gostou da minha mãe. Porque é evidente que gostou, se continua visitando o túmulo dela dois anos depois.
Ele consulta o relógio de pulso ao voltar para o carro e apressa o passo. Está atrasado para alguma coisa. E me pergunto se, por algum milagre, tem alguma relação com a filha. Digo a mim mesmo para parar quando estendo a mão para a ignição. Falo: “Não faça isso, Ben”, em voz alta, na esperança de dar ouvidos a mim mesmo.
Mas hoje a curiosidade vence e vou atrás do carro dele ao sair do cemitério, sem ter a menor ideia de por que estou fazendo isto.
***
Estaciono no restaurante a alguns carros de distância do dele. Eu o observo entrar no local.
Vejo alguém se levantar para abraçá-lo — uma garota — e cerro tanto o maxilar que meu queixo dói.
Só pode ser ela.
As palmas de minhas mãos começam a transpirar. Não sei se realmente quero vê-la. Mas sei que de jeito nenhum vou sair daqui, tendo ela tão perto, sem pelo menos entrar e passar pela mesa deles. Preciso saber. Preciso saber o que fiz com ela.
Pego meu laptop antes de entrar, assim posso ter no que me concentrar enquanto fico sentado sozinho. Ou pelo menos posso fingir que estou concentrado em algo. Quando entro, não consigo ver o rosto dela para saber se é mesmo Fallon. Ela está de costas para mim. Tento não encarar, porque não quero que o pai dela me veja prestando atenção neles.
— Mesa no meio ou no canto? — pergunta a garçonete.
Indico com a cabeça a mesa atrás da deles.
— Posso ficar com aquela?
A mulher sorri e pega um cardápio.
— Hoje é só para uma pessoa?
Assinto e ela me leva para a mesa. Meu coração está batendo tão acelerado que nem mesmo encontro coragem para olhar para ela quando passo por ali. Eu me sento de modo a ficar de frente para o lado contrário. Vou criar coragem daqui a alguns minutos. Não há nada de errado em estar neste restaurante. Não sei por que sinto como se estivesse infringindo a lei, sendo que só o que faço é me sentar para comer.
Minhas mãos estão entrelaçadas à minha frente na mesa. Tento pensar numa multiplicidade de motivos para me virar e olhar por cima do ombro, mas tenho medo de não conseguir parar de olhar. Não sei que tipo de danos causei a ela e tenho medo de ver que ela está triste, se eu olhar em seus olhos.
Mas tenho medo de não saber se ela pode ser feliz se eu não olhar em seus olhos.
— Só estou meia hora atrasado, Fallon. Dê um desconto — diz o pai.
Ele disse o nome dela. Sem dúvida nenhuma é ela. Nos próximos minutos, talvez eu fique cara a cara com a garota de quem eu quase tirei a vida.
Felizmente, um garçom aparece e anota meu pedido, me distraindo de mim mesmo. Não estou com nenhuma fome, mas faço um pedido de qualquer maneira, porque, que tipo de gente entra
em um restaurante e não pede comida? Não quero chamar atenção para mim.
O garçom tenta puxar conversa comigo sobre o fato de que o cara atrás de nós é igualzinho a Donovan O’Neil, o ator que fez Max Epcott. Finjo que não sei de quem ele está falando, e o garçom não fica nada impressionado. Só quero que ele saia daqui. Finalmente, quando ele vai embora, eu me recosto para ouvir mais da conversa deles.
— Então, é isso. Estou um pouco chocado, mas está acontecendo — diz o pai dela.
Espero pela resposta dela. Perdi o que ele acabou de dizer à filha, graças ao garçom xereta, mas o silêncio da garota prova que não é algo que ela quisesse ouvir.
— Fallon? Vai dizer alguma coisa?
— O que quer que eu diga? — Ela não parece feliz. — Quer que eu te dê os parabéns?
Sinto o pai dela se jogar no encosto do assento.
— Bom, achei que você ficaria feliz por mim — diz ele.
— Feliz por você?
Tudo bem. O que quer que ele tenha dito a ela a deixou irritada. Ela tem coragem, isso tenho de reconhecer.
— Eu não sabia que podia ser pai de novo.
Não sei como me sinto com relação a isso. Por um segundo, lembro que este homem era apaixonado por minha mãe e esta talvez fosse uma situação em que ela se envolveria, se o câncer não a tivesse levado primeiro.
Quer dizer... Sei que não foi o câncer que a levou. Foi a arma. Mas, de qualquer modo, a culpa foi do câncer.
— Ejacular na vagina de uma mulher de vinte e quatro anos não torna ninguém um pai — diz Fallon.
Rio em silêncio. Não sei por que, mas minha culpa é aliviada só de ouvir o jeito com que ela fala. Talvez porque eu sempre a tenha imaginado como uma garota calada e dócil, cheia de autopiedade. Mas ela parece prestes a explodir.
Ainda assim... isso é loucura. Eu não devia estar aqui. Kyle me mataria se descobrisse o que estou fazendo.
— Não acha que tenho o direito de me considerar um pai? O que isso me torna para você, então?
Eu não devia estar ouvindo a conversa particular deles. Passo os minutos seguintes tentando me concentrar no laptop que trouxe, mas só fico rolando pelas telas, fingindo trabalhar, enquanto passo o tempo todo ouvindo que o pai dela é um imbecil sem consideração.
De onde estou, ouço-a suspirar.
— Você é impossível. Agora entendo por que mamãe te largou.
— Sua mãe me deixou porque eu dormi com a melhor amiga dela. Minha personalidade não teve nada a ver com isso.
Como é possível que minha mãe tenha amado este homem?
Agora que penso nisso, não tenho tanta certeza assim se ela amou. Ele é que parecia ter mandado todas as cartas e mensagens de texto. Nunca encontrei nada que ela tenha mandado a ele, então talvez tenha sido um breve relacionamento unilateral que ele não conseguiu esquecer.
De qualquer modo, me sinto melhor com isso. Estremeço ao pensar que minha mãe era só uma mulher comum que às vezes escolhia mal seus relacionamentos, e não a heroína onisciente em
quem eu provavelmente a transformei em minha memória.
O garçom interrompe a conversa dos dois para entregar o almoço. Reviro os olhos quando ele finge só ter notado agora que Donovan O’Neil está sentado ali. Ouço o garçom perguntar a Fallon se ela pode tirar uma foto dos dois. Enrijeço na cadeira, me perguntando se ela vai se levantar e entrar no meu campo de visão. Não tenho tanta certeza de que estou pronto para ver a aparência dela.
Mas não importa se estou preparado ou não, porque ela acabou de dizer para eles tirarem um selfie e está indo ao banheiro. Ela passa por mim e, no segundo em que a vejo, fico sem fôlego.
Ela segue na direção contrária, então não vejo seu rosto. O que vejo é o cabelo. Muito cabelo, comprido, grosso, liso, que cai por suas costas, e castanho, do mesmo tom dos sapatos dela.
E a calça jeans. Serve nela com tanta perfeição que parece feita sob medida, moldando-se a cada curva, do quadril até os tornozelos. A calça se move tão bem com ela que me flagro imaginando que tipo de calcinha ela está usando. Porque não consigo ver marca nenhuma. Deve ser um fio dental, mas ela também pode estar... Mas o que é isso, Ben? Como foi que seus pensamentos seguiram essa direção?
Minha pulsação acelera porque sei que preciso ir embora. Preciso me levantar, sair e aceitar que ela parece estar bem. O pai pode ser um babaca, mas ela é capaz de se virar muito bem sozinha, então minha presença assim tão próxima dos dois não faz bem a ninguém.
Mas, droga, o garçom está aproveitando o fato de que Donovan O’Neil está lhe dando atenção. Sequer me importo com a minha comida, se ele pudesse apenas trazer a conta, eu poderia pagar e dar o fora daqui.
Começo a balançar o joelho de nervosismo. Ela já foi para lá há um bom tempo. Sei que vai sair a qualquer segundo e não sei se devo olhar para ela, virar a cara, sorrir, fugir ou que merda, o que é que eu faço? Ela está saindo.
Ela está cabisbaixa e ainda não consigo ver seu rosto, mas o corpo é ainda mais perfeito de frente do que de costas.
Quando ela ergue os olhos para mim, sinto um frio na barriga. Meu coração parece derreter nos confins de sua masmorra. Pela primeira vez em dois anos, estou vendo exatamente o que fiz com ela.
Do alto da sua bochecha esquerda, perto do olho, descendo pelo pescoço, existem cicatrizes.
Cicatrizes que estão ali por minha causa. Algumas mais fracas do que outras, mas se destacam muito porque sua pele tem um tom rosado, mais brilhante, e parece bem mais frágil do que as partes dela que não foram feridas. Mas não são as cicatrizes o que mais se destaca. São seus olhos verdes, que estão fixos em mim. A falta de confiança por trás deles comprova o quanto prejudiquei sua vida.
Ela ergue a mão e puxa uma mecha de cabelo para a boca, cobrindo parte das cicatrizes. Ao mesmo tempo, seus olhos se voltam para o chão, fazendo seu cabelo cair no rosto e esconder a maior parte das cicatrizes. Continuo olhando para ela, porque dói não olhar. Imagino o que aquela noite deve ter sido para ela. O medo que ela deve ter sentido. A agonia que ela deve ter passado nos meses seguintes.
Fecho as mãos em punhos, porque nunca senti uma necessidade tão grande de consertar as coisas. Quero cair de joelhos bem aqui diante dela e dizer que sinto muito por ter lhe causado
tanta dor. Por ter arruinado sua carreira. Por fazê-la achar que é necessário ter de esconder seu rosto com o cabelo, sendo que ela é bonita pra cacete.
Ela não faz ideia. Ela não faz ideia de que está erguendo a cabeça e olhando nos olhos do cara que acabou com sua vida. Ela não sabe que eu daria qualquer coisa para tocar os lábios no seu rosto, beijar as marcas que lhe causei, dizer a ela que sinto muito mesmo.
Ela não sabe que estou quase chorando só de ver seu rosto, porque é ao mesmo tempo primoroso e torturante. Tenho medo de se eu não sorrir para ela agora, acabar chorando por ela.
E então acontece uma coisa quando ela passa por mim: tudo dentro meu peito se aperta e contrai. Porque tenho medo de que o que se passou entre nós — aquele sorriso mínimo — seja tudo o que vai acontecer. E não sei por que isso me preocupa, considerando que antes de hoje eu nem sabia se queria vê-la.
Mas agora que a vi, não sei se quero parar. E o fato de que o pai dela está neste momento atrás de mim, diminuindo-a, dizendo que ela não tem mais beleza suficiente para atuar, me dá vontade de subir na mesa e estrangular o homem. Ou pelo menos subir na mesa ao lado dela e defendê-la.
Neste exato momento o garçom decide trazer minha comida. Tento comer. Tento mesmo, mas titubeio ao ouvir como o pai fala com ela. Lentamente baixo a batata frita enquanto escuto o pai ficar cada vez mais hipócrita. A princípio, fico aliviado quando ouço que ela tem planos de se mudar.
Bom para você, penso.
Saber que ela tem coragem suficiente para se mudar para o outro lado do país e tentar atuar novamente me faz ter mais respeito por ela do que jamais tive por alguém. Mas ouvir o pai continuamente tentar lhe dizer que ela não é boa o bastante, me faz sentir mais desprezo por alguém do que nunca.
Escuto o pai pigarrear.
— Você sabe que não foi isso que quis dizer. Não estou dizendo que você se reduziu a audiobooks. O que estou dizendo é que você pode encontrar uma profissão melhor, agora que não pode mais atuar. Não dá muito dinheiro esse negócio de narração. Nem na Broadway, aliás.
Não ouço o que ela diz em seguida, porque estou morrendo de raiva. Não consigo acreditar que este homem — um pai que devia defender e apoiar a filha diante de um desafio — está dizendo essas coisas a ela. Talvez ele esteja apenas sendo rigoroso, mas a garota já sofreu o bastante.
A conversa cessa por um momento. Tempo suficiente para o pai pedir um refil. Tempo suficiente para o garçom trazer o meu refil e tempo suficiente para eu me levantar e ir ao banheiro, para tentar me acalmar e voltar ao meu lugar sem estrangular o homem atrás de mim.
— Você me dá vontade de dispensar os homens para sempre — diz ela.
Bem, o pai dela me dá vontade de dispensar os homens para sempre. Se os homens são mesmo tão superficiais como este, todas as mulheres deveriam dispensar os homens para sempre.
— Isso não deveria ser um problema — diz o pai. — Sei que você só saiu com um garoto e isso já faz mais de dois anos.
E nesse instante toda a razão sai pela janela.
Ele não sabe que dia é hoje? Ele não tem a menor porra de ideia do que a filha sofreu
emocionalmente nos últimos dois anos? Tenho certeza de que ela passou um ano inteiro se recuperando e sei, pelos poucos segundos em que olhei em seus olhos, que ela não tem um pingo de autoconfiança. E ali está ele comentando que ela não namora desde o acidente?
Minhas mãos tremem, porque estou muito irritado. Acho que eu talvez esteja com mais raiva do que na noite em que ateei fogo no carro dele.
— Bom, pai — diz ela com a voz tensa. — Não recebo a mesma atenção dos homens como antes.
Deslizo para sair do meu lugar, incapaz de me conter. Mas de jeito nenhum vou deixar que essa garota passe um segundo a mais sem alguém que a defenda do jeito certo.
Estou me sentando ao lado dela.
— Desculpe pelo atraso, amor — digo, passando o braço por seus ombros.
Ela enrijece sob meu braço, mas o mantenho ali. Pressiono os lábios na lateral de sua cabeça, sem querer sentindo o aroma floral do xampu.
— Essa porcaria de trânsito de Los Angeles — murmuro.
Estendo a mão para o pai dela e antes de dizer meu nome, me pergunto se de algum modo ele vai reconhecê-lo, pois sabia quem era minha mãe. Ela voltou a usar o nome de solteira alguns anos depois da morte do meu pai, então talvez ele não saiba quem eu sou. Assim espero.
— Meu nome é Ben. Benton James Kessler. Namorado da sua filha. Sua expressão não registra um lampejo sequer de reconhecimento. Ele não sabe quem eu sou.