Novembro, 9
Ben
— Você mereceu — diz ele, saindo do corredor. — Você mereceu, porra.
Ben
Estamos no meu banheiro e fico encostado na bancada enquanto ela passa uma toalha de rosto molhada no meu olho, limpando o sangue.
Não acredito que Kyle me bateu na frente dela. Estou muito irritado e tentando relaxar, mas está difícil. Ainda mais com ela espremida no banheiro comigo desse jeito, tocando meu rosto com a ponta dos dedos.
— Quer falar sobre isso?
Ela pega um Band-Aid e o abre.
— Não.
Ela pressiona o Band-Aid no meu rosto e o alisa.
— Devo ficar preocupada?
Ela joga o papel na lixeira e coloca a toalha de rosto na pia.
Encaro o espelho e passo o dedo no inchaço em volta do olho.
— Não, Fallon. Você nunca deve ficar preocupada quando se trata de mim. Nem de Kyle, aliás.
Ainda não consigo acreditar que ele me bateu. Durante toda a vida, ele nunca tinha me batido.
Chegou muito perto disso uma ou duas vezes. Ou ele está muito estressado com o casamento, ou desta vez eu o irritei de verdade.
— A gente pode sair daqui? — pergunto.
Ela dá de ombros.
— Acho que sim. Aonde quer ir?
— Aonde você for.
Apenas ver o sorriso dela já alivia grande parte da minha tensão.
— Tive uma ideia — diz ela.
• • •
— Está com frio?
É a terceira vez que pergunto e ela continua dizendo que não, mas está tremendo. Eu a puxo para perto e enrolo melhor o cobertor à nossa volta.
Ela queria ir à praia, apesar de estar quase escuro e ser novembro. Pegamos comida para viagem no Chipotle, é claro, e ela montou um piquenique improvisado com as mantas que trouxemos da minha casa. Terminamos de comer meia hora atrás e estávamos conversando, conhecendo melhor um ao outro. Só que com o peso do que aconteceu em casa, todas as perguntas até agora foram seguras. Mas faz pelo menos dois minutos que nenhum dos dois pergunta nada, então talvez o papo tenha acabado. Ou quem sabe o próprio silêncio seja uma
pergunta.
Estou segurando a mão dela embaixo do cobertor e observamos as ondas se quebrarem nas pedras. Depois de um tempo, ela apoia a cabeça no meu ombro.
— Não vou à praia desde que tinha 16 anos — diz ela.
— Tem medo do mar?
Ela ergue a cabeça do meu ombro e puxa os joelhos para cima, envolvendo-os com os braços.
— Antigamente eu ia o tempo todo. Sempre que tinha uma folga, era para onde eu ia. Mas então aconteceu o incêndio e levei muito tempo para me recuperar. Eu entrava e saía do hospital e da fisioterapia. O sol não faz bem para a pele que está em processo de cura, então eu simplesmente... nunca mais voltei. Mesmo depois de não haver mais problema entrar em contato com o sol, eu não tinha mais a confiança para aparecer em um lugar em que todos expunham a maior quantidade de pele possível.
Mais uma vez, não sei o que dizer a ela. Detesto saber que o incêndio destruiu tanto da sua confiança, mas acho que ainda não tenho noção do quanto realmente destruiu sua vida.
— É bom voltar — sussurra ela.
Aperto sua mão, porque tenho certeza de que isso é o que ela realmente quer.
Ficamos em silêncio de novo e meus pensamentos insistem em retornar ao que aconteceu com Kyle no corredor. Não sei o quanto ela ouviu, mas continua aqui, então não deve ter sido muita coisa. Porém, dizer que ela viu um lado diferente de Kyle do que eu queria é uma meia verdade.
Ela deve achar que ele é um idiota e, considerando os poucos minutos que testemunhou dele, não posso culpá-la.
— Quando eu estava no quarto ano, tinha um garoto mais velho que implicava comigo —
conto a ela. — Todo dia, no ônibus, ou ele me batia ou fazia comentários maldosos. Isso durou meses e algumas vezes desci do ônibus com o nariz sangrando.
— Meu Deus.
— Kyle é alguns anos mais velho do que eu. Ele estava no final do ensino fundamental, mas pegávamos o mesmo ônibus porque estudávamos numa escola bem pequena. Um dia, depois que o garoto me bateu bem na frente de Kyle, eu esperava que ele me defendesse. Que desse uma surra no menino, porque sou o irmão mais novo dele. É isso que irmãos mais velhos devem fazer. Proteger os mais novos de quem faz bullying. — Estico as pernas e suspiro. — Mas Kyle ficou sentado ali, me encarando. Nunca interferiu. E quando chegamos em casa, eu estava com muita raiva dele. Falei que era dever dele, como meu irmão, dar uma lição em quem faz bullying. Ele riu e falou: “E como isso vai ensinar alguma coisa a você?”
“Eu não sabia o que dizer, porque, o que eu devia estar aprendendo ao apanhar pra caramba todo dia? Kyle falou: ‘O que impedir o bullying vai ensinar a você? Nada. Se eu interferisse, o que você ganharia além de aprender a depender de outra pessoa e não de si mesmo? Sempre terá gente fazendo bullying, Ben. Você precisa aprender a lidar com eles sozinho. Precisa aprender a não deixar que eles levem a melhor sobre você. E se eu batesse em algum garoto por você, não iria te ensinar droga nenhuma.’”
Fallon olha para mim.
— Você deu ouvidos a ele?
Balanço a cabeça.
— Não, fui para o meu quarto e chorei, porque achei que ele só estava sendo mau. O garoto
continuou implicando comigo por mais várias semanas. Mas, então, um dia, tive um estalo. Não sei o que foi, mas aos poucos comecei a me defender. Parei de permitir que ele me pegasse, como fazia. Parei de ficar todo assustado perto dele. E, depois de algum tempo, quando ele notou que os insultos não me incomodavam, finalmente desistiu.
Ela fica em silêncio, mas sei que está se perguntando por que estou lhe contando essa história.
— Ele é um bom irmão — digo. — É uma boa pessoa. Detesto que você tenha visto esse lado dele hoje, porque aquilo não é ele. Ele tinha o direito de ficar chateado comigo e, não, eu não quero falar sobre isso. Mas meus irmãos são gente boa de verdade e eu só queria que você soubesse disso.
Ela me olha com apreço. Passo o braço por ela e a puxo para o meu peito enquanto me deito na manta abaixo de nós. Estou olhando as estrelas, surpreso porque já fazia tempo que não parava para observá-las.
— Fiquei animada com a ideia de ter um irmão — diz ela. — Sei que agi como se não tivesse ficado feliz quando meu pai me contou ano passado, mas sempre quis uma irmã ou um irmão.
Infelizmente, no fim das contas, a mulher que ficou noiva do meu pai não estava grávida. Ela achou que ele tinha dinheiro por causa do seu status de subicelebridade. Quando descobriu que meu pai estava quebrado, largou ele.
Nossa. Não me sinto tão mal com meu drama familiar que ela presenciou hoje.
— Isso é horrível — digo a ela. — Ele ficou chateado?
Mas não me importo com isso. Esse homem merece cada carma negativo que voltou para ele, pelo jeito que a tratou naquele dia.
Ela dá de ombros.
— Não sei. Foi minha mãe quem me contou isso. Não falo com ele desde o ano passado.
Isso me deixa triste por ela. Por mais imbecil que ele seja, ainda é o pai dela, então sei que deve magoar.
— Que tipo de pessoa finge uma gravidez para prender um homem? Que trapalhada. Mas essa parece uma ótima trama para um livro.
Ela ri em meu peito.
— É fraca e já foi usada vezes demais como trama secundária.
Ela apoia o queixo nos braços e sorri para mim. O luar atinge seu rosto, brilhando acima dela como se Fallon estivesse num palco.
O que me lembra...
— Vai me contar sobre esse ensaio que você mencionou mais cedo? Para o que foi?
O sorriso dela desaparece.
— Teatro comunitário — diz ela. — Amanhã é a estreia e temos ensaios com figurino de manhã, por isso preciso voltar tão cedo. Não tenho um papel principal e não vou receber nada, mas gosto, porque muitos atores me pedem conselho. Não sei por que, talvez por eu ter uma experiência no passado, mas é bom. É legal não ficar entocada em casa o tempo todo.
Gosto de ouvir isso.
— E o trabalho?
— Meu horário é flexível. Continuo gravando audiobooks e arrumo trabalho suficiente para pagar as contas, então isso é bom. Tive que me mudar, porque meu aluguel era um pouco alto,
mas... no geral, está tudo indo bem. Estou feliz lá.
— Que ótimo — digo a ela, passando os dedos em seu cabelo. — Fico feliz por você estar feliz lá.
E fico mesmo. Mas não vou mentir que uma parte de mim tinha uma esperança egoísta de que a veria hoje e ela me diria que Nova York não deu certo. Que ela voltou a morar em Los Angeles, acha que sua regra de cinco anos é idiota e quer me ver amanhã.
— Você tem um emprego? — pergunta ela. — Nem acredito que não sei isso sobre você.
Deixo você mexer nos meus peitos e nem ao menos sei o que você faz da vida.
Rio.
— Estudo na Universidade da Califórnia. Sou estudante em tempo integral e faço dois cursos, então não sobra muito tempo para trabalhar. Mas não tenho muitas contas. Sobrou bastante dinheiro da herança da minha mãe para me sustentar durante toda a faculdade, então, por enquanto, está tudo certo.
— Quais são os dois cursos?
— Redação criativa e comunicação. A maioria dos escritores não tem muita sorte para construir uma carreira que os sustente, então quero ter um plano B.
Ela sorri.
— Você não precisa de um plano B, porque daqui a alguns anos terá um romance best-seller para pagar suas contas.
Espero que ela não ache realmente isso.
— Como se chama? — pergunta ela.
— Como se chama o quê?
— Nosso livro. Qual vai ser o título?
— Será 9 de novembro.