Novembro, 9
Fallon
Não sei muito bem como Fallon vai receber as palavras que acabaram de sair da minha boca.
Mas é verdade. De repente, fico agradecido pelas cicatrizes... porque são um lembrete de que poderia ter sido muito pior. Ela podia ter morrido naquele incêndio e não estaria ao meu lado agora.
Desço a mão por seu ombro, pela extensão do seu braço e volto a subir. Quando meus olhos encontram os dela, há a evidência de que uma lágrima acabou de escorrer por sua bochecha.
— Uma das coisas que sempre tento lembrar a mim mesma é que todo mundo tem cicatrizes
— diz ela. — Muita gente tem umas ainda piores do que as minhas. A única diferença é que as minhas são visíveis e a da maioria das pessoas, não.
Não digo que ela tem razão. Não digo que embora ela seja tão linda por fora, eu só queria poder ser assim por dentro.
Fallon
— Merda. Fallon! Merda, merda, merda, droga, merda, merda.
Ouço Ben xingando feito um marinheiro, mas não entendo por quê. Sinto as mãos dele em meus ombros.
— Fallon, A Transitória, acorde agora!
Abro os olhos e ele está sentado na cama, passando a mão no cabelo. Parece irritado.
Eu me sento na cama e esfrego os olhos para me livrar do sono.
O sono.
Nós dormimos?
Olho para o despertador que mostra 8:15. Pego o relógio e o trago mais para perto do rosto.
Não pode estar certo.
Mas é isso mesmo. São 8h15.
— Merda — digo.
— Perdemos o jantar — diz Ben.
— Eu sei.
— Dormimos por duas horas.
— É. Eu sei.
— Perdemos duas horas, porra, Fallon.
Ele parece realmente perturbado. Fofo, mas perturbado.
— Desculpe.
Ele me lança um olhar confuso.
— O quê? Não. Não diga isso. Não foi culpa sua.
— Só dormi três horas na noite passada — digo a ele. — Estava muito cansada o dia todo.
— É — diz ele com um suspiro de frustração. — Também não dormi muito na noite passada.
— Ele se impulsiona para fora da cama. — Que horas é o seu voo?
— Onze e meia.
— Desta noite?
— É.
— Tipo, daqui a três horas?
Assinto.
Ele geme e passa as mãos no rosto.
— Merda — repete Ben. — Isto significa que você precisa ir. — Suas mãos baixam para o quadril e ele olha para o chão. — Isto significa que eu devo ir embora.
Não quero que ele vá.
Mas preciso que vá. Não gosto deste pânico que está crescendo em meu peito. Não gosto das palavras que quero dizer a ele. Quero dizer a ele que mudei de ideia, que pode ter meu número
de telefone. Mas se eu der meu telefone, vou falar com ele. O tempo todo. E serei distraída por ele e por cada pequena mensagem de texto que mandar, e cada telefonema, depois vamos ficar no Skype o tempo inteiro e quando eu me der conta não serei mais Fallon, a Transitória. Serei Fallon, a Namorada.
Esse pensamento devia me encher de muito mais repugnância do que realmente faz.
— Tenho que ir — diz ele. — Você deve ter muita coisa para fazer nos próximos minutos para poder chegar ao aeroporto.
Na verdade, não. Já guardei tudo, mas não digo nada.
— Quer que eu vá embora?
Percebo que ele está torcendo para que eu diga não, mas há uma grande parte de mim que precisa que ele vá antes que eu o use como desculpa para não me mudar para Nova York.
— Acompanho você até a porta. — Minha voz sai baixa e tímida.
Ele não reage de imediato às minhas palavras, mas, por fim, aperta os lábios formando uma linha fina e assente.
— Está bem — diz ele, aturdido. — Está bem. Me acompanhe até a porta.
Calço os sapatos que eu tinha separado para usar no jantar desta noite. Nenhum de nós dois diz nada enquanto seguimos relutantes para a porta. Ele a abre e sai primeiro, então vou atrás dele. Eu o observo andar pelo corredor na minha frente. Sua mão agarra com força a própria nuca e detesto que ele esteja chateado. Detesto que eu esteja chateada. Detesto que a gente tenha dormido e desperdiçado totalmente as últimas duas horas inteiras que teríamos juntos.
Estamos quase na sala quando ele para e se vira. Mais uma vez, ele parece prestes a vomitar.
Fico imóvel e espero pelo que vai dizer.
— Pode não valer um livro, mas vou ter de fazer isso.
Ele dá dois passos rápidos na minha direção até que suas mãos vão parar no meu cabelo e sua boca, na minha. Ofego, surpresa, e seguro seus ombros, mas no mesmo instante entro no ritmo dele e passo as mãos em seu pescoço.
Ele me encosta na parede e as mãos, o peito e a boca dele me pressionam, ansiosos. Ele está segurando meu rosto como se tivesse medo de soltar e estou me esforçando para respirar, porque faz tanto tempo que beijo alguém, que talvez tenha esquecido como fazer direito. Ele se afasta por tempo suficiente para que eu tome fôlego, depois volta e... As mãos e... As pernas e...
A língua.
Ah, meu Deus, a língua dele.
Faz mais de dois anos que a língua de alguém não entra na minha boca, então eu deveria supor que ficaria mais hesitante do que estou. Mas, no segundo em que ele a desliza por meus lábios, os abro de imediato e recebo o calor de um beijo muito mais profundo. Macio. Hipnótico. A boca de Ben, combinada com sua mão descendo por meu braço, é demais. Demais. Bom demais.
Tão bom. Simplesmente gemi.
Assim que o som escapa da minha boca, ele me pressiona com mais força contra a parede.
Sua mão esquerda acaricia minha bochecha e a direita agarra minha cintura, me puxando na sua direção.
Já terminei de fazer as malas. Ele não precisa ir embora neste minuto.
Precisa?
Na verdade, não precisa. Sexo libera endorfinas, que, por sua vez, mantêm as pessoas
acordadas, então transar com Ben pode me beneficiar antes de pegar o avião. Nunca fiz sexo durante todos os meus 18 anos, então imagine a quantidade de endorfina que já acumulei.
Podíamos fazer sexo antes do meu voo e eu não precisaria dormir por dias. Imagine como eu seria produtiva quando chegasse a Nova York.
Ah, meu Deus, estou empurrando ele de volta para o meu quarto. Se ele voltar para o quarto comigo, não vou conseguir dizer não. Estou mesmo disposta a transar com alguém que nunca mais vou ver?
Estou louca. Não posso transar com ele. Não tenho nem camisinha. Começo a empurrá-lo de volta pelo corredor, para longe do meu quarto.
Meu Deus, ele deve me achar maluca.
Ele me joga na parede de novo e age como se os últimos dez segundos de indecisão jamais tivessem acontecido.
Estou tonta. Tão tonta, e é tão bom... Minha mãe é louca. Burra, maluca, disparatada, e ela está errada. Por que uma garota se preocuparia em se descobrir quando nunca será capaz de se sentir tão bem quanto um cara pode fazê-la se sentir? Beleza, agora eu é que estou sendo burra.
Mas Ben está me fazendo sentir muito bem.
Ele geme e eu perco o controle. Minhas mãos estão em seu cabelo e sua boca está por todo o meu pescoço.
Agarre meu peito, Ben.
Ele lê meus pensamentos e agarra meu peito.
Agarre o outro.
Nossa, ele é mesmo telepata.
Seus lábios se afastam do meu pescoço para minha boca, mas suas mãos continuam em meus peitos. Tenho certeza de que as minhas estão segurando sua bunda, puxando-o ainda mais na minha direção, mas estou constrangida demais com meu comportamento para reconhecer isso.
— Eu ia dizer para arranjarem um quarto, mas achei que era o que vocês dois estivessem fazendo nas últimas duas horas.
Amber.
Que vadia. Vou dar na cara dela assim que Ben for embora.
Nem acredito que pensei isso. Ela é minha melhor amiga.
Endorfinas são ruins. São do mal e me fazem ter pensamentos ridículos.
Ben afasta a boca da minha ao ouvir a voz dela. Sua testa pressiona a lateral da minha cabeça e suas mãos abandonam as posições naturalmente assumidas para tocar na parede atrás de mim.
Solto a respiração de forma muito, muito, muito contida.
— Sério, gente — continua Amber. — Glenn e eu conseguimos ver tudo o que acontece neste corredor. Achei melhor interferir antes que você engravidasse.
Concordo com a cabeça, mas ainda sou incapaz de falar. Acho que minha voz ficou perdida dentro da boca de Ben.
Ele se afasta e me olha de cima, e se Amber não continuasse ali, eu estaria beijando aquela boca de novo.
— Fallon só estava me levando até a porta. — A voz dele sai rouca e me faz sorrir, sabendo que ele foi afetado fisicamente por mim, assim como eu por ele.
— Certo — responde Amber.
Assim que ela desaparece da minha visão periférica, Ben sorri e sua boca volta à minha.
Sorrio contra seus lábios e agarro sua camisa, puxando-o para mais perto.
— Gente, por favor — resmunga Amber. — É sério. Falta um metro e meio de volta para o seu quarto e três metros até a porta de saída. Decidam.
Ele se afasta de novo, mas desta vez completamente. Tipo um metro, até que suas costas tocam a parede logo atrás. Seu peito está ofegante enquanto ele passa as mãos pelo rosto. Olha para a porta do meu quarto, depois fixa os olhos nos meus. Quer que eu tome a decisão, mas não quero fazer isso. De certo modo, gostei quando ele assumiu o controle e tomou a decisão de me beijar. Não quero que a próxima escolha seja minha.
Ficamos nos entreolhando pelo que parece um minuto inteiro. Ele querendo que eu o convide a voltar para o meu quarto. Eu querendo que ele simplesmente me empurre de volta para lá. Nós dois sabendo muito bem que devemos ir para a porta de saída.
Ele se empertiga, enfia as mãos nos bolsos e pigarreia.
— Precisa de carona para o aeroporto?
— Amber vai me levar — digo, bastante decepcionada por já ter carona.
Ele assente e se balança sobre os pés.
— Bom, o aeroporto não fica no caminho da minha casa, mas... Vou fingir que é, se quiser que eu leve você.
Caramba, ele é lindo. Suas palavras me deixam excitada e exacerbada e... Não sou um maldito ursinho de pelúcia. Preciso resistir.
Não aceito a oferta dele de imediato. Amber e eu só vamos nos ver de novo quando ela for a Nova York em março, então não sei se ela ficaria chateada se eu disser que prefiro que um cara que só conheço há meio dia me leve ao aeroporto.
— Eu não me importo — diz Amber da sala. Ben e eu olhamos pelo corredor. Glenn e Amber estão sentados no sofá, nos observando. — Daqui, não só conseguimos ver vocês se agarrando, como também ouvimos a conversa.
Eu a conheço bem o bastante para saber que está me fazendo um favor. Ela dá uma piscadela para mim, e quando volto a olhar para Ben, há um pouco mais de esperança em sua expressão.
Despreocupadamente, cruzo os braços e inclino a cabeça.
— Por acaso, você não mora perto do aeroporto, mora?
Sua boca forma um sorriso.
— Na verdade, moro. Não é incrivelmente conveniente?
Ben passa os minutos seguintes me ajudando com as dificuldades de última hora. Tiro o vestido que eu pretendia usar e visto uma calça de ioga e uma camiseta, para ficar confortável no avião. Ele leva minhas malas para o carro e eu me despeço de Amber.
— Lembre que sou toda sua durante as férias de primavera — diz.
Ela me abraça, mas nenhuma de nós é do tipo de chorar em uma despedida boba. Ela sabe, tão bem quanto eu, que esta mudança vai ser boa para mim. Amber foi uma das minhas maiores incentivadoras desde o acidente, torcendo para que eu encontrasse a confiança que perdi dois anos atrás. E não é morando neste apartamento que isso vai acontecer.
— Me ligue de manhã, para eu saber que você chegou bem.
Terminamos as despedidas, depois sigo Ben até o carro dele. Ele dá a volta para abrir a porta para mim, mas, antes de entrar, dou uma última olhada na porta do meu apartamento. É uma
sensação estranha. Só visitei Nova York algumas vezes e não tenho certeza se vou gostar de lá.
Mas este apartamento é confortável demais, e às vezes o conforto pode ser um suporte quando se trata de resolver sua vida. Os objetivos são alcançados com desconforto e trabalho árduo.
Não são alcançados quando você se esconde em um lugar onde se sente à vontade e confortável.
Sinto os braços de Ben me envolverem por trás. Ele apoia o queixo em meu ombro.
— Está em dúvida?
Balanço a cabeça. Estou nervosa, mas de jeito nenhum estou em dúvida. Ainda não.
— Ótimo — diz ele. — Porque não quero ter que jogar você no porta-malas e levá-la até Nova York.
Rio, aliviada por ele não ser como meu pai, um egoísta que tenta me convencer a seguir seus passos. Ele mantém os braços em volta de mim enquanto me viro, me encostando no carro, e ele me olha fixamente. Não tenho muito tempo de sobra antes de fazer o check-in no aeroporto, mas não quero me apressar para chegar lá sendo que posso aproveitar isso por mais alguns minutos.
Vou correndo até o portão, se chegar atrasada.
— Tem uma citação que me lembra de você, de Dylan Thomas. É meu poeta preferido.
— Qual é?
Um sorriso lento abre caminho pela boca de Ben. Ele baixa a cabeça e sussurra a citação em meus lábios:
— “Desejava me afastar, mas tenho medo; alguma vida, ainda não gasta, pode explodir.”
Nossa. Ele é bom. E fica ainda melhor quando pressiona a boca quente na minha, segurando meu rosto nas palmas das mãos. Entrelaço as mãos no cabelo dele, permitindo que ele tenha total controle da velocidade e da intensidade do beijo. Ele o mantém suave e conciso e imagino que beije do mesmo jeito que escreve. Golpes gentis nas teclas, cada palavra muito bem pensada e concluída com propósito.
Ele me beija como se quisesse que este beijo fosse lembrado. Por qual de nós dois, não sei, mas deixo que ele receba o máximo que pode deste beijo e dou o máximo que tenho. E é perfeito. Ótimo. Ótimo de verdade.
É como se ele realmente fosse meu namorado e isto fosse algo que fizéssemos o tempo todo.
O que me faz relembrar que ficar confortável demais pode ser um suporte. Com beijos como este, posso tranquilamente me imaginar fazendo parte da vida de Ben e me esquecendo de viver a minha. E é exatamente por isso que preciso seguir em frente com essa despedida.
Quando o beijo, enfim, termina, ele roça a ponta do nariz no meu.
— Me diga uma coisa — pede ele. — Numa escala de 1 a 10, quanto nosso primeiro beijo é digno de um livro?
Ele tem um timing cômico perfeito. Sorrio e mordisco seu lábio inferior.
— Pelo menos 7.
Ele se afasta, chocado.
— Sério? Isso é tudo que eu consigo? Um 7?
Dou de ombros.
— Já li sobre alguns primeiros beijos ótimos.
Ele baixa a cabeça, fingindo arrependimento.
— Eu sabia que devia ter esperado. Podia conseguir um 10, se tivesse um plano. — Ele se afasta, me soltando. — Eu deveria levar você ao aeroporto e depois, assim que você chegasse à
segurança, gritaria seu nome dramaticamente e correria até você em câmera lenta. — Ele faz a mímica da cena em câmera lenta, andando sem sair do lugar e estendendo o braço para mim. —
Faaaaalloooooon — diz ele numa voz arrastada e demorada. — Nããããão meeee abandooooooneeeee!
Estou rindo muito quando ele para de atuar e volta a abraçar minha cintura.
— Se você tivesse feito isso no aeroporto, teria valido pelo menos 8. Talvez 9, dependendo da veracidade.
— Nove? Só isso? Se isso vale 9, o que pode me dar um 10?
Reflito. O que tornam as cenas de beijo nos livros tão boas? Já li muitos, eu deveria saber.
— Angústia — respondo. — Sem dúvida, precisa de alguma angústia para valer 10.
Ele parece confuso.
— Por que angústia valeria um 10? Dê alguns exemplos.
Encosto a cabeça no carro e olho para o céu enquanto penso.
— Não sei, depende da situação. Talvez o casal não tenha permissão para ficar junto, então o fator proibido cria a angústia. Ou talvez eles sejam melhores amigos durante anos e a atração secreta gera angústia suficiente para fazer o beijo valer 10. Às vezes, a infidelidade gera uma boa angústia, dependendo das personagens e da situação.
— Isso é esquisito — diz ele. — Então você está dizendo que se eu estivesse saindo com outra garota e beijasse você no corredor como fiz, teria ido de 7 para 10?
— Se você estivesse saindo com outra garota, nunca teria entrado no meu apartamento, para início de conversa. — De repente, fico tensa ao pensar nisso. — Espere aí. Você não tem uma namorada de verdade, tem?
Ele dá de ombros.
— Se eu tivesse, nosso próximo beijo valeria 10?
Ai, meu Deus. Por favor, não diga que acabei de me tornar a outra.
Ele percebe o medo em meu rosto e ri.
— Relaxe. Você é a única namorada que tenho e está prestes a terminar comigo e se mudar para o outro lado do país. — Ele se inclina e beija a lateral da minha cabeça. — Pegue leve comigo, Fallon. Meu coração é frágil.
Apoio a cabeça em seu peito e, embora eu saiba que ele está brincando, parte de mim não consegue deixar de se sentir verdadeiramente triste por ter que dizer adeus a ele. Leio muitas críticas sobre os audiobooks que narro, por isso vi os comentários dos leitores que fariam qualquer coisa para tornar reais os namorados do livro. Aqui estou eu, com a certeza de estar nos braços de um deles e prestes a me afastar.
— Quando é seu primeiro teste de elenco?
Ele realmente tem muita fé em mim.
— Ainda não procurei. Para ser sincera, estou um pouco apavorada para fazer testes. Tenho medo de que as pessoas vão olhar para mim e rir.
— Qual é o problema com isso?
— Em ser motivo de riso? — pergunto. — Primeiro, é humilhante. E acaba com qualquer confiança.
Ele me olha incisivamente.
— Tomara que riam de você, Fallon. Se as pessoas estão rindo de você, significa que você
está dando a cara a tapa para ser motivo de riso. Não é todo mundo que tem coragem de sequer dar esse passo.
Fico feliz que esteja escuro, porque sinto minhas bochechas corarem. Ele está sempre dizendo coisas que parecem muito simples, mas ao mesmo tempo profundas.
— Você lembra um pouco a minha mãe — digo a ele.
— É exatamente o que estou tentando — comenta ele com sarcasmo.
Depois me puxa para seu peito de novo e beija o topo da minha cabeça. Preciso ir para o aeroporto, mas tento enrolar o máximo possível, porque a despedida iminente me assombra.
— Acha que a gente vai se ver de novo?
Seus braços me envolvem com mais força.
— Espero que sim. Eu estaria mentindo se dissesse que já não estou tramando ir atrás de você quando fizer 23. Mas cinco anos é muito tempo, Fallon. Quem sabe o que pode acontecer entre o presente e cinco anos à frente? Droga, eu nem tinha pelo no saco cinco anos atrás.
Rio de novo, como fiz com quase tudo o que ele disse hoje. Não sei se um dia ri tanto e com sinceridade com uma pessoa só.
— Você devia mesmo escrever um livro, Ben. Uma comédia romântica. Você é meio engraçado.
— O único jeito que me fará ter vontade de escrever um romance é se você for uma das personagens principais. E eu, é claro. — Ele se afasta e sorri para mim. — Vamos fazer um trato. Se você prometer fazer um teste para a Broadway, vou escrever um livro sobre o relacionamento que não pudemos ter por causa da distância e da imaturidade.
Queria que ele estivesse falando sério, porque adoro a ideia. O problema é que tem um defeito evidente.
— Mas a gente nunca mais vai se ver. Como vamos saber se o outro cumpriu o plano?
— Um sabe da responsabilidade do outro — diz ele.
— Vou repetir... A gente não vai mais se ver depois desta noite. E não posso te dar o número do meu telefone.
Sei muito bem que não devo dar a ele um jeito de entrar em contato comigo. Tem muita coisa que preciso fazer sozinha e se ele tiver meu telefone, todo o meu foco se voltaria para a hora em que ele deveria me ligar todo dia.
Ben me solta e dá um passo para trás, cruzando os braços. Começa a andar de um lado para outro, mordendo o lábio inferior.
— E se... — Ele para e me encara. — E se nos encontrássemos de novo no ano que vem, no mesmo dia? Todos os anos? Faremos isso por cinco anos. Mesma data, mesma hora, mesmo lugar. Vamos continuar de onde paramos esta noite, mas só nesse dia. Vou saber se você está fazendo seus testes de elenco e posso escrever um livro sobre os dias que passamos juntos.
Fico um instante absorvendo as palavras dele. Tento fazer a mesma expressão séria de Ben, mas a perspectiva de vê-lo uma vez por ano me enche de expectativa e me esforço ao máximo para não parecer ansiosa demais.
— Um encontro uma vez por ano na mesma data parece uma base muito boa para um romance.
Se você transformar nossa história em ficção, iria para o topo da minha ASL.
Agora ele está sorrindo. E eu também, porque nunca achei que poderia ficar tão ansiosa pela data de hoje. O dia 9 de novembro tem sido um aniversário que me apavora desde a noite do
incêndio e esta é a primeira vez que pensar nessa data me faz sentir bem.
— Estou falando sério, Fallon. Vou começar a escrever a droga do livro esta noite, se isso significar que vou ver você em novembro do ano que vem.
— Também estou falando sério. Vamos nos encontrar todo dia 9 de novembro. Mas não teremos contato nenhum entre essas datas.
— Justo. Será 9 de novembro ou nada. E vamos parar depois de cinco anos? — pergunta ele.
— Quando nós dois tivermos 23?
Concordo com a cabeça, mas não pergunto a ele o que tenho certeza de que nós dois estamos pensando. O que vai acontecer depois do quinto ano? Acho que vale a pena guardar para outro dia... Quando veremos se nós realmente estamos cumprindo esse plano ridículo.
— Uma coisa me preocupa — diz ele, apertando o lábio inferior entre os dedos. — Nós precisamos ser... Sabe como é... monogâmicos? Se for assim, acho que nós dois estamos entrando num jogo difícil.
Rio do absurdo que ele fala.
— Ben, de jeito nenhum eu poderia pedir para você fazer isso por cinco anos. Acho que a ideia é tão boa porque vamos continuar tocando nossa própria vida. Nós dois vamos levar a vida como devemos até essa idade, mas também ficaremos juntos uma vez por ano. É o melhor de dois mundos.
— Mas e se um de nós se apaixonar por outra pessoa? — pergunta ele. — Isso não vai estragar o livro, se não terminarmos juntos?
— Se o casal fica ou não junto no fim de um livro não determina se é um final feliz ou não.
Desde que os dois acabem felizes, não importa realmente que terminem felizes juntos.
— E se nos apaixonarmos um pelo outro? Antes que os cinco anos terminem?
Detesto que meu primeiro pensamento seja que ele não vai se apaixonar de jeito nenhum por mim. Não sei o que me deixa mais cansada. As cicatrizes no meu rosto ou os pensamentos autodepreciativos em relação às cicatrizes no meu rosto. Desprezo esses pensamentos e abro um sorriso forçado.
— Ben, é claro que você vai se apaixonar por mim. Daí o motivo para a regra dos cinco anos. Precisamos de instruções firmes para que nossos corações não assumam o controle antes de você ter terminado seu livro.
Vejo a expectativa em seus olhos enquanto ele assente. Nós dois ficamos em silêncio por um instante, pensando no acordo que acabamos de fazer. Mas então ele se encosta de novo no carro ao meu lado e fala:
— Vou precisar estudar os romances. Você precisa me dar algumas sugestões.
— Posso muito bem fazer isso. Talvez ano que vem você consiga transformar aquele beijo 7
em um 10.
Ele ri, apoiando o cotovelo no teto do carro enquanto me observa.
— Só para ter certeza, se as cenas de beijo são o que você mais gosta nos livros, o que é que você menos gosta? Preciso saber, para não estragar nossa história.
— Gancho no fim dos capítulo — digo de imediato. — E amor instantâneo.
Ele faz uma careta.
— Amor instantâneo?
Concordo com a cabeça.
— Quando duas personagens se encontram e supostamente têm uma grande ligação logo de cara.
Ele ergue uma sobrancelha.
— Fallon, acho que talvez a gente já esteja ferrado, se essa é uma das coisas de que você menos gosta.
Penso no comentário por um instante. Talvez ele tenha razão. Tem sido um dia inacreditável ao lado dele. Se ele colocasse o dia de hoje no papel, provavelmente eu ia revirar os olhos e dizer que era brega e irreal demais.
— Só não me peça em casamento antes do meu voo e acho que vamos ficar bem.
Ele ri.
— Tenho certeza de que te pedi em casamento mais cedo na sua cama. Mas vou tentar não engravidar você antes do seu voo.
Nós dois estamos sorrindo quando ele estende a mão para minha porta e gesticula para que eu entre no carro. Assim que pegamos a rodovia, abro a bolsa e tiro papel e caneta.
— O que está fazendo?
— Preparando seu dever de casa. Vou anotar cinco dos meus romances preferidos para você começar.
Me faz rir pensar em Ben transformando nossa história em ficção, mas também espero que ele consiga. Não é todo dia que uma garota pode dizer que tem uma autêntica obra de ficção livremente baseada em seu relacionamento com o autor.
— É melhor você me fazer mais divertida quando desenvolver minha personagem. E quero peitos maiores. E menos gordura.
— Seu corpo é perfeito. E seu humor também — afirma ele.
Não sei por que mordo o interior da bochecha como se estivesse constrangida por sorrir.
Desde quando um elogio virou algo constrangedor? Talvez sempre tenha sido, mas não fui elogiada o bastante para saber.
No topo da lista de livros, escrevo o nome do restaurante e a data de hoje, caso ele esqueça.
— Pronto — digo, dobrando o papel e colocando-o no porta-luvas.
— Pegue outro pedaço de papel — ordena ele. — Tenho um dever de casa para você também. — Ele fica pensando em silêncio por um tempo e depois fala: — Tenho algumas coisas. Número 1...
Escrevo número 1.
— Trate de fazer as pessoas rirem de você. Pelo menos uma vez por semana.
Bufo.
— Você espera que eu faça um teste de elenco toda semana? Ele assente.
— Até conseguir o papel que quiser, sim. Número 2, precisa namorar. Antes você disse que fui o primeiro cara que você levou para o seu apartamento. Isso não é experiência suficiente para uma garota da sua idade, ainda mais se vou basear um romance em nós. Precisamos de um pouco mais de angústia. Saia com pelo menos cinco caras antes que eu reencontre você.
— Cinco?
Ele é louco. Isto significa cinco a mais do que eu pretendia.
— E quero que você beije pelo menos dois deles.
Eu o encaro, sem acreditar. Ele indica o papel em minhas mãos com a cabeça.
— Escreva, Fallon. Esta é a tarefa número 3. Beijar dois caras.
— Vai me dizer que a tarefa número 4 é encontrar um cafetão?
Ele ri.
— Não. São só três tarefas. Ser motivo de riso uma vez por semana, sair com cinco caras, beijar pelo menos dois. Moleza.
— Talvez para você.
Escrevo suas tarefas idiotas, dobro o papel e o guardo na bolsa.
— E quanto às redes sociais? Temos permissão para fuxicar o Facebook um o do outro? —
pergunta ele.
Merda. Eu não tinha pensado nisso, apesar de não ter usado muito as redes sociais nos últimos dois anos. Pego o celular de Ben.
— Vamos bloquear um ao outro — digo a ele. — Assim não podemos trapacear.
Ele resmunga, como se eu tivesse estragado seus planos. Pego nossos celulares e procuro nossos perfis, bloqueando o outro em cada rede social em que consigo pensar. Quando termino, devolvo o celular dele e uso o meu para ligar para minha mãe.
Tomei um café da manhã bem cedo hoje com ela antes que saísse para trabalhar. O café da manhã também serviu como nossa despedida. Ela vai passar dois dias em Santa Barbara, por isso Amber ia me levar ao aeroporto.
— Oi — digo quando ela atende.
— Oi, querida — responde ela. — Já está no aeroporto?
— Quase. Mando uma mensagem quando chegar em Nova York, mas você estará dormindo.
Ela ri.
— Fallon, as mães não dormem quando os filhos estão voando pelo céu a 800 quilômetros por hora. Vou deixar o celular ligado, então é melhor me mandar uma mensagem assim que pousar.
— Vou mandar, prometo.
Ben me olha pelo canto do olho, provavelmente se perguntando com quem estou falando.
— Fallon, estou muito feliz por você estar fazendo isso — acrescenta ela. — Mas vou avisando que sentirei muito a sua falta e que talvez fique triste quando você ligar, mas não tenha saudade de casa. Vou ficar bem. Prometo. Estou triste por não ver você com tanta frequência, mas estou ainda mais feliz por você estar dando este passo. E prometo que é só o que vou dizer sobre isso. Eu te amo, tenho orgulho de você e falo com você amanhã.
— Também te amo, mãe.
Quando desligo o telefone, flagro Ben me olhando de novo.
— Não acredito que você ainda não me apresentou a sua mãe. Já estamos namorando há dez horas. Se isto não acontecer logo, vou levar para o lado pessoal.
Rio enquanto enfio o celular na bolsa. Ele pega minha mão, que fica segurando durante todo o caminho até o aeroporto.
Passamos o resto do percurso praticamente em silêncio. Além de perguntar sobre os dados do meu voo, ele só diz “chegamos”.
Em vez de parar em um estacionamento, como eu esperava que ele fizesse, Ben encosta na pista de desembarque. Eu me sinto ridícula por ficar decepcionada por ele não se oferecer a me
acompanhar até lá dentro, porque ele me trouxe até o aeroporto. Não posso ser exigente.
Ele tira minha bagagem do porta-malas, e pego minha bolsa e a mala de mão no carro. Ele fecha o porta-malas e se aproxima de mim.
— Bom voo — diz ele me dando um beijo no rosto e um abraço rápido. Assinto e ele volta para o carro. — Dia 9 de novembro! — grita. — Não se esqueça!
Sorrio e aceno, mas por dentro estou confusa e decepcionada com a falta de emoção na sua despedida.
Mas talvez seja melhor assim. De certo modo, eu estava com medo de vê-lo ir embora, mas essa despedida, que não é digna de um livro, facilitou um pouco. Talvez porque eu tenha ficado meio irritada com isso.
Respiro fundo e afasto o pensamento enquanto observo seu carro se afastar. Pego minhas malas e entro, sem muito tempo a perder antes do voo. O aeroporto ainda está movimentado apesar de ser tão tarde, por isso manobro pela multidão até um guichê. Entrego meu bilhete de embarque, verifico a bagagem e sigo para a segurança.
Tento não pensar no que estou fazendo. Que estou prestes a me mudar de onde morei a vida toda para uma cidade onde não conheço absolutamente ninguém. Pensar nisso me dá vontade de chamar um táxi e voltar direto para casa, mas não posso.
Preciso fazer isto.
Preciso me obrigar a ter uma vida antes de ser engolida de vez pela vida que não vivo.
Tiro a carteira de habilitação da bolsa e me preparo para entregar ao agente de segurança, enquanto espero na fila. Há cinco pessoas na minha frente.
Cinco pessoas é tempo suficiente para me convencer a não me mudar para Nova York, então fecho os olhos e penso em tudo o que me empolga lá. Barracas de cachorro-quente. Broadway.
Times Square. Hell’s Kitchen. Estátua da Liberdade. Museu de Arte Moderna. Central Park.
— Faaaaallooooon!
Meus olhos se abrem.
Eu me viro e Ben está passando pelas portas giratórias. Ele sai correndo na minha direção.
Em câmera lenta.
Tapo a boca com a mão e tento não rir enquanto ele lentamente estende um braço como se tentasse me alcançar. Ele está gritando:
— Nããããão vááááá aindaaaaa!
E se desloca devagar pela multidão.
Gente de todos os lados se vira para ver o tumulto. Quero cavar um buraco e me esconder, mas estou rindo demais para me importar com o constrangimento da situação. Mas o que ele está fazendo?
Quando Ben me alcança, por fim, depois do que parece uma eternidade, um sorriso enorme surge em seu rosto.
— Você não achou realmente que só eu ia te largar aqui e ir embora daquele jeito, achou?
Dou de ombros, porque foi exatamente o que pensei.
— Deveria conhecer melhor seu namorado. — Ele segura meu rosto nas mãos. — Tive que criar uma angústia para fazer este beijo valer um 10.
Ele pressiona a boca na minha e me beija com tanta emoção que me esqueço das coisas. De tudo. Esqueço de onde estou. Quem sou. Que tem um cara e sou uma garota, que estamos nos
beijando e as sensações, o nó em meu estômago, os arrepios na pele, a mão em meu cabelo e meus braços que parecem pesados demais. Então ele sorri ainda encostado nos meus lábios.
Minhas pálpebras tremulam até abrir e eu nem sabia que beijos podiam fazer as pálpebras tremerem. Mas fazem, e as minhas tremem.
— Numa escala de 1 a 10? — pergunta ele.
O ambiente parece rodar, então inspiro muito fundo e tento não desmaiar.
— Um 9. Sem dúvida um belo 9.
Ele dá de ombros.