Novembro, 9
Fallon
— Oi?
Ela aponta para minha barriga.
— Você faz abdominal?
Rio e olho para o meu abdome. Ela disse isso como se fosse uma pergunta, então dou a resposta óbvia.
— Hmm... É? Acho que sim.
Ela tapa a boca com a minha camiseta, escondendo seu sorriso.
— Caramba — diz ela, as palavras abafadas pela camiseta. — Gostei.
Então ela corre para o banheiro e fecha a porta.
Fallon
Tive o cuidado de trancar a porta antes de entrar no banho. Não é que eu não queira tomar banho com ele, mas não ainda. Para mim, tomar banho com alguém tem o mais alto registro na minha escala para a potencial humilhação entre a maioria das coisas, inclusive o sexo. Pelo menos durante o sexo poderei me esconder debaixo das cobertas no escuro.
Sexo.
Penso nesta palavra. Até a enrolo na língua enquanto enxaguo o condicionador do cabelo.
— Sexo — digo baixinho. É uma palavra tão estranha...
Quanto mais velha, mais apreensiva fico ao pensar em perder a virgindade. Por um lado, estou pronta para entender do que se trata todo esse estardalhaço. Deve ser ótimo, ou não teria uma importância tão grande na vida de toda a humanidade. Mas isso também me assusta, porque se eu acabar não gostando, ficarei um pouco decepcionada com toda a humanidade. Porque isso parece estar na raiz de muitos males, então, se for medíocre e eu não quiser mais de imediato, vou me sentir enganada pelo mundo inteiro.
Talvez eu esteja sendo um pouco melodramática, mas tanto faz. Estou nervosa demais para sair do banho, por mais que já tenha enxaguado o condicionador vários minutos atrás. Não faço ideia de quais são as expectativas de Ben para esta noite. Se ele quiser dormir, eu entenderia perfeitamente. Ele foi ao inferno e voltou esta semana. Mas se quiser fazer alguma coisa além de dormir, eu estarei, sem a menor sombra de dúvida, disposta a participar.
Depois de me enxugar, visto a camiseta dele. Eu me olho no espelho e admiro como a roupa cai em meus ombros. Nunca usei uma camiseta de um homem e sempre me perguntei se ficaria tão bom quanto eu imaginava.
Fica.
Tiro a toalha da cabeça e passo os dedos pelo cabelo algumas vezes. Pego a pasta de dentes de Ben, passo no dedo e esfrego na minha boca por um minuto. Quando termino, respiro fundo, para me acalmar, depois apago luz e abro a porta.
O abajur dele está aceso e ele está deitado na cama, com o corpo virado para o meio e as mãos apoiadas na nuca. Ele chutou as cobertas para o chão e está usando apenas meias e uma cueca boxer. Fico ali parada e o admiro por um instante, porque ele está com os olhos fechados.
Talvez esteja mesmo dormindo, mas isso não me decepciona nem um pouco. Esta noite é para ele e só para ele, porque sei que está sofrendo. Quero ajudá-lo enquanto estiver aqui e, portanto, se ele precisar dormir, farei o que puder para garantir que tenha a melhor noite de sono da vida.
Vou até o abajur e o apago, depois pego as cobertas do chão. Eu me sento delicadamente na cama e cubro a nós dois enquanto me deito a seu lado, com as costas em seu peito. Tento não acordá-lo ao ajeitar meu travesseiro.
— Merda.
Rolo ao ouvir sua voz. Está escuro no quarto, então não sei dizer se ele fala dormindo ou se está acordado.
— O que foi? — sussurro.
Sinto um braço envolver minha cintura e ele me puxa para mais perto.
— Deixei a luz acesa para poder ver você saindo do banheiro com a minha camiseta, mas você demora muito no banho. Acho que dormi.
Sorrio.
— Ainda estou vestindo. Quer que eu acenda o abajur?
— Porra, sim, por favor.
Rio e rolo até o abajur. Acendo e fico de frente para ele. Seus olhos se fixam, entretanto, de algum modo, englobam todo o meu corpo.
— Fique de pé — pede ele, se apoiando no cotovelo.
Eu me levanto e seus olhos nunca encontram os meus. Estão percorrendo minhas coxas, quadris, os seios. Não me importo que ele não esteja olhando para o meu rosto. Não me importo com nada.
A bainha da camiseta dele bate alguns centímetros acima dos meus joelhos. É comprida o bastante para que ele não saiba que estou sem calcinha. Também é curta o bastante para que ele provavelmente esteja rezando para que eu não esteja de calcinha. Seus olhos se voltam para as minhas pernas e ele fala devagar, como se recitasse poesia.
— “O único mar que vi foi o mar que ia e vinha, cavalgado por você. Deite-se, deite-se tranquila. Quero em suas coxas naufragar.” — Seus olhos sobem pelo meu corpo até encontrarem os meus. — Dylan Thomas — diz ele.
Solto o ar lentamente.
— Uau. Pornô poético. Quem diria?
Ben sorri para mim com indolência. Ergue um dedo e aponta para mim.
— Gostaria da minha camiseta de volta.
— Agora?
Ele assente.
— Agora mesmo. Antes que você apague a luz. Tire, é minha.
Rio de nervosismo e estendo a mão para o abajur. Antes que eu consiga apagar a luz, ele dá um pulo, passa pelo colchão e pula bem na minha frente. Seus olhos estão brincalhões, mas um pouco severos ao mesmo tempo. Ele segura a bainha da camiseta e a puxa para cima sem hesitar, arrancando-a por minha cabeça. Joga em algum lugar a suas costas e fico imóvel diante dele, totalmente exposta. Os olhos de Ben leem cada curva do meu corpo antes de ele soltar um suspiro trêmulo.
— Puta merda — murmura.
Não consigo me lembrar de nem uma só vez, mesmo antes do incêndio, em que me senti tão bonita assim. Ele está me absorvendo como se fosse um privilégio e não um favor. E quando ele se inclina para a frente e segura meu rosto nas mãos, abro os lábios e espero por seu beijo, porque nunca o desejei tanto quanto agora.
Os lábios dele estão úmidos, e Ben me beija com direito de posse. Sua língua é áspera e sem vergonha, e eu adoro. Adoro me sentir necessária desse jeito. Percebo, enquanto os dedos dele descem lentamente por minha coluna, que a angústia não precisa estar presente para um beijo
valer nota 10, afinal. Porque não há angústia em lugar nenhum deste beijo e já é um 9.
Ele me puxa repentinamente para si, meu peito nu encostando no dele. Tudo bem, agora é um 10.
Ele nos vira e me coloca na cama, mas não se deita por cima de mim. Ajeita a nós dois e ficamos lado a lado, minha cabeça em um travesseiro e sua boca ainda na minha. Ruídos baixos e cheios de desejo começam a escapar da minha boca, cada um deles um resultado direto do que este beijo provoca dentro de mim.
Sequer me importo que a luz ainda esteja acesa. Se isto significa que ele vai ficar me olhando de novo como olhou antes desse beijo, vou deixar que acenda todas as luzes. Até permitiria que ele instalasse lâmpadas fluorescentes.
— Fallon — diz Ben depressa depois de afastar a boca da minha. Abro os olhos e me deparo com ele me olhando de cima. — Nós lemos os mesmos livros. Você conhece as regras. Se quiser que eu pare ou vá mais devagar, é só...
Balanço a cabeça.
— Está perfeito, Ben. Perfeito demais. Vou dizer a você se houver alguma coisa que eu não queira fazer, ou se ficar nervosa. Prometo.
Ele assente, mas ainda assim parece que quer dizer mais alguma coisa. Ou perguntar. Então me lembro de que na realidade nunca tivemos essa conversa.
— Nunca fiz isso, mas não quer dizer que eu não esteja pronta — digo a ele.
Sinto o corpo dele enrijecer um pouco.
— Você é virgem.
Ele diz isto mais como uma percepção do que como uma pergunta.
— Sou, mas só por mais alguns minutos.
Meu comentário lhe faz sorrir, mas depois a preocupação consome sua expressão. Seus olhos logo ficam sérios e seu sorriso se torna uma linha severa. Ele balança suavemente a cabeça.
— Não quero ser o primeiro da sua vida, Fallon. Quero ser o último.
Inspiro em silêncio enquanto absorvo suas palavras. Ele nem mesmo está me beijando e o que ele fala torna este momento nota 12. Toco seu rosto com a ponta dos dedos e sorrio para ele.
— Quero que você seja meu primeiro e meu último.
Os olhos de Ben ficam obscuros e ele desliza o corpo sobre o meu, me prendendo com os braços. Sinto que ele endurece e tento não gemer.
— Só pode dizer essas coisas se estiver falando sério, Fallon.
Falei realmente sério. Pela primeira vez, percebo que eu não me importo com os cinco anos.
Não me importo que não tenho 23. Só me importo com Ben e como me sinto quando estou com ele, como quero muito mais disso.
— Quero que você seja meu único — digo, num tom mais baixo, porém mais decidido.
Ele estremece como se sentisse dor, mas a essa altura sei que isso é uma coisa boa. Muito boa.
Ele toca meus lábios com o polegar.
— Eu quero ser seu único, Fallon. Mais do que qualquer coisa. Mas não vai acontecer esta noite a menos que você me prometa que vou poder ouvir sua voz amanhã e a cada dia depois disso.
Concordo com a cabeça, surpresa por estarmos tendo esta conversa. Eu não previa nada disso
quando entrei naquele avião esta manhã. Mas sei que está certo. Nunca vou conhecer alguém que me faça sentir como ele me faz. As pessoas não têm essa sorte mais de uma vez numa única vida.
— Prometo.
— É sério — insiste ele. — Quero o número do seu telefone antes de você ir embora de manhã.
Concordo de novo com a cabeça.
— Você vai ter. Eu quero que você tenha. E meu e-mail. Até vou comprar uma impressora multifuncional com fax para também poder te dar esse número.
— Amor — diz ele, os lábios formando um sorriso. — Você já tornou este o melhor sexo que já fiz e eu ainda nem penetrei você.
Mordo o lábio ao passar os dedos pelos braços dele, arrastando-os até o pescoço, até pegar seu rosto com as mãos em concha.
— O que você está esperando?
Ele respira asperamente.
— Acordar, acho. — Ele baixa a boca e beija meu pescoço. — Estou sonhando, não é?
Balanço a cabeça, enquanto ele move o quadril na minha direção. Um gemido escapa da minha boca e o beijo gentil em meu pescoço fica mais intenso.
— Sem dúvida nenhuma estou sonhando — murmura ele.
Sua boca encontra a base do meu pescoço e ele toca minha pele com a ponta da língua, arrastando-a por meu pescoço até me beijar de novo. É, de longe, a coisa mais sensual que já senti.
Segundos se transformam em minutos. Dedos se transformam em mãos. Provocações se transformam em tortura. Tortura se transforma em um prazer inimaginável.
A cueca de Ben encontrou seu destino no chão. Em uma demonstração insuperável de força de vontade, ele pressiona o corpo no meu, mas ainda não está dentro de mim.
— Fallon — sussurra ele, passando lentamente os lábios nos meus. — Obrigado por este lindo presente.
Assim que as palavras dele tocam minha boca, ele me beija com vontade. Meu corpo inteiro fica tenso com a onda de dor que me invade enquanto ele se empurra para dentro de mim, mas a perfeição de como nos encaixamos torna a dor uma mera inconveniência.
É lindo.
Ele é lindo.
E, de algum modo, com ele olhando desse jeito para mim, até acredito que eu sou linda.
Ele aproxima a boca da minha orelha e sussurra:
— Nenhuma combinação de palavras escritas poderia fazer justiça a este momento.
Abro um sorriso entre os gemidos.
— Então, como vai escrever sobre isto?
Ele me beija, com suavidade, no canto da boca.
— Acho que vou deixar a cena subentendida...
• • •
Não sei se o sexo pretende fazer você sentir que acabou de perder uma parte sua para a pessoa que está dentro de você, mas é exatamente o que parece. Parece que no segundo em que nos unimos, uma parte mínima de nossas almas se confundiu e parte da dele caiu em mim, e parte da minha caiu nele. É de longe o momento mais intenso que já compartilhei com alguém.
Sinto um calor subindo pelo meu rosto, como se eu estivesse com vontade de chorar, mas contenho as lágrimas. Simplesmente sei que de jeito nenhum posso dizer adeus a ele depois disso. Isso vai acabar comigo, vai ser muito pior do que no ano passado. Não vou viver mais nenhum dia sem que ele faça parte da minha rotina. Não depois disso.
Seu braço me envolve e, embora tenham se passado vários minutos e Ben já tenha ido ao banheiro e voltado para a cama, continua respirando como se estivesse dentro de mim segundos atrás. Acho que gosto desta parte do sexo. O depois. O silêncio. Ainda se sentir conectado depois da ligação física ter terminado há tempos.
Os lábios de Ben encontram meu ombro — o com a cicatriz — e ele dá o beijo mais suave de todos em minha pele. Tão suave e pensado que parece muito mais do que apenas um beijo.
Parece uma promessa e eu daria tudo para ler seus pensamentos agora.
— Fallon — sussurra ele, me puxando mais para o seu lado. — Você sabe todos aqueles romances que me obrigou a ler para a pesquisa?
— Só fiz você ler cinco. Os outros foram por iniciativa sua.
Ele passa o nariz em meu maxilar até seus lábios irem parar na minha orelha.
— Bom — continua ele —, eu estava pensando em algumas das coisas que aqueles caras dizem quando estão com uma garota. As coisas que dissemos que nunca diríamos? Tipo, quando um cara diz para a garota que é dono dela? Sei que já rimos disso, mas... puta merda. — Ele se afasta e me mantém atraída com seu olhar intenso. — Nunca quis dizer algo como as coisas que eu queria dizer enquanto estava dentro de você. Precisei me esforçar muito para não falar.
Nunca pensei que uma frase pudesse me fazer gemer, mas esta faz.
— Se você tivesse dito... eu não teria lhe pedido para parar.
Ele roça os lábios por meu rosto até chegar à boca.
— Só vou dizer aquelas coisas quando você realmente for minha. — Ele me abraça, me aninhando nele, me implorando algo, mesmo sem dizer nada. Consigo sentir. O desespero. —
Fallon. — Suas palavras saem forçadas pela garganta. — Não quero me despedir de você quando acordarmos.
Suas palavras abrem um buraco no meio do meu coração.
— Desta vez você vai ter o número do meu telefone. Pode ligar para mim.
— Todo dia? — pergunta ele, esperançoso.
— Vou ficar brava se não fizer isso.
— Duas vezes por dia?
Rio.
— Posso ver você todo dia?
Balanço a cabeça, porque isto não é possível.
— Assim vai ficar meio caro — digo a ele.
— Não se eu morar na mesma cidade que você.
Meu sorriso desaparece no mesmo instante. Não porque isto não seja atraente, mas porque não é um comentário inocente. As pessoas não podem ameaçar se mudar para o outro lado do
país por alguém se realmente não pretendem fazer isso.
Engulo o nó na garganta.
— O que você está dizendo, Ben?
Ele rola de lado de novo e apoia a cabeça na mão.
— Estou pensando em vender a casa, se Ian concordar. Segundo a mãe de Jordyn, ela vai voltar para sua antiga casa. Kyle morreu. Ian nunca está aqui mesmo. A única pessoa que quero por perto mora em Nova York. Fico me perguntando o que ela pensaria se eu me mudasse para lá.
Nem acredito que estamos tendo esta conversa. Por mais que eu saiba que precisamos conversar sobre isso sem o tumulto do sexo interferindo em nosso raciocínio, não consigo pensar em nada que eu queira mais do que vê-lo todo dia. Que ele faça parte da minha vida.
A não ser por um pequeno detalhe.
— E o livro? — pergunto a ele. — Devíamos nos encontrar mais três vezes. Não quer terminar o livro?
Ele reflete sobre a minha pergunta por um breve instante e balança a cabeça devagar.
— Não — diz simplesmente. — Não se isto significar que não podemos ficar juntos. — Sua expressão não se altera.
Ele está falando sério. Ben realmente quer se mudar para Nova York. E quero que ele esteja lá mais do que já quis qualquer coisa.
— Você vai precisar de um casaco.
Seu sorriso transforma todo o seu rosto. Ele leva a mão a minha bochecha e acompanha meu maxilar, roçando o polegar em meus lábios.
— E eles viveram felizes para sempre.
• • •
Na noite passada, quando ele abriu a porta e eu o vi pela primeira vez em um ano, pude notar a dor em cada aspecto dele. Foi como se a morte do irmão o envelhecesse cinco anos.
Mas agora, de algum jeito, ele está parecendo aquele garoto da primeira vez que o vi.
Desgrenhado e sujo. Lindo. Adorável. É a expressão mais pacífica que vejo nele desde que cheguei.
Dou um beijo suave na bochecha dele e saio da cama sem acordá-lo. Visto minha roupa e saio dali, descendo a escada para ver se tem alguma coisa que eu possa arrumar antes de acordá-lo para me despedir.
São quase quatro da manhã. A última coisa que espero é ver alguém na cozinha, mas Jordyn está sentada perto da bancada.
Ela ergue os olhos para mim assim que entro. Seus olhos estão vermelhos e inchados, mas ela não está chorando. Há uma caixa inteira de pizza diante dela, que está dando uma mordida enorme em uma fatia de pepperoni.
Eu me sinto mal por invadir o espaço dela. Com base na conversa que tive com Ben, ela não quis nada além de solidão nos últimos dois dias. Considero se devo voltar ao quarto de Ben para lhe dar privacidade. Ela deve ter percebido minha hesitação, porque empurra a caixa para mim.
— Está com fome? — pergunta.
Estou com um pouco. Sento ao lado dela e pego uma fatia de pizza. Ficamos ali em silêncio até ela terminar a segunda fatia. Ela se levanta e leva a caixa de pizza para a geladeira. E me entrega um refrigerante quando volta à bancada.
— Então, você é a garota do livro que Ben está escrevendo?
Seguro a lata perto dos meus lábios, chocada por ela saber disso. Ninguém mais à mesa de jantar parecia saber alguma coisa sobre o livro dele. Concordo com a cabeça de novo e tomo um gole.
Ela dá um sorriso forçado e olha para as próprias mãos entrelaçadas na bancada diante de si.
— Ele é um ótimo escritor — diz. — Acho que o livro vai ser muito importante para ele. É
uma ideia esperta.
Pigarreio, na esperança de que ela não perceba o choque em minha voz.
— Você leu alguma parte?
— Uma ou outra — diz ela, sorrindo de novo. — Ben é muito seletivo com as partes que posso ler, mas eu me formei em literatura inglesa, então às vezes ele pede minha opinião.
Tomo outro gole, só para me impedir de falar por enquanto. Quero perguntar sobre o livro, mas não quero que ela saiba que ainda não li uma só palavra.
— Kyle ficou muito feliz quando ele assinou com o agente.
Seus olhos lacrimejam quando ela fala o nome de Kyle.
Desvio os olhos dela.
Um agente?
Por que ele não me contou que assinou com um agente?
— Como ele está? — pergunta ela.
— Ben?
Jordyn assente.
— Ainda não interagi com ninguém. Sei que é egoísmo da minha parte, porque não sou a única que está sofrendo. Mas eu simplesmente...
Coloco a mão em cima da dela e aperto.
— Ele está bem. E ele entende, Jordyn. Todo mundo entende.
Ela enxuga uma lágrima com um guardanapo que estava ali perto. Vê-la tentar conter o choro me dá um aperto no peito. Sofro por ela, ainda mais sabendo o que está prestes a enfrentar.
— Eu me sinto muito mal. Fiquei tão envolvida em tudo o que perdi nos últimos dois dias que sequer pensei no quanto isto afeta Ian e Ben. Quer dizer, os dois moram aqui. E agora estão presos a uma garota que está prestes a ter um bebê. A última coisa que quero é que eles se sintam na obrigação de me ajudar, mas... não quero voltar para Nevada. Não posso voltar a morar com minha mãe, porque esta é minha casa. Eu só... — Ela aperta o rosto com as mãos. —
Não sei o que fazer. Não quero ser um fardo para ninguém, mas tenho medo de não conseguir fazer isso sozinha.
Eu a abraço e ela começa a chorar na minha blusa. Eu não fazia ideia de que ela não queria voltar a morar com a mãe. Será que Ben sabe disso?
— Jordyn.
Nós duas erguemos os olhos quando Ben chama o nome dela. Ele está na soleira da porta da cozinha com uma expressão perturbada. Quando ela olha para ele, chora ainda mais. Ele se
aproxima de Jordyn e a abraça, então me levanto e contorno o balcão, dando espaço aos dois.
— Você não vai a lugar nenhum, está bem? — diz ele. — Você é minha irmã. É irmã de Ian. E
nosso sobrinho vai ser criado na casa em que você e Kyle planejaram criá-lo. — Ele se afasta e tira o cabelo dela do rosto. — Prometa para mim que vai deixar a gente te ajudar.
Ela concorda com a cabeça, enxugando mais lágrimas. Mal consegue pronunciar obrigada entre os soluços.
Não consigo mais vê-la chorar. Eu mesma estou quase aos prantos só de saber como ela está com medo. Subo a escada correndo e volto para o quarto de Ben, onde posso organizar meus pensamentos. Tem tanta coisa passando por minha cabeça, sendo que a maior parte é medo.
Tenho medo de que ele tome uma decisão precipitada. Tenho medo de que se eu disser a ele o quanto quero que se mude para Nova York, ele realmente vá, sendo que está óbvio que a cunhada precisa dele aqui. Isso sem citar as possibilidades perdidas se ele desistir do livro.
Sinto que quanto mais genuína for a história, mais chances ele vai ter de vender. Sim, eu adoraria começar um namoro de verdade agora, mas não foi com isso que concordamos no início. Se simplesmente nos precipitarmos e interrompermos nosso acordo no meio, sem continuar nos encontrando nos dias 9 de novembro, ele estará desistindo do que seu agente evidentemente pensou que daria um ótimo livro.
Não acredito que ele tem um agente.
Isso é grandioso e não sei por que ele não me contou. Por mais que eu queira acreditar que ele vai ficar bem mesmo sem terminar o livro, tenho medo de que esteja tomando esta decisão com base nas emoções exaltadas dos últimos dias. A última coisa que quero para ele é que tome uma decisão importante como uma mudança para o outro lado do país, e depois se arrependa. É
claro que eu daria tudo para tê-lo comigo todo dia, porém, ainda mais do que isso, quero que ele seja feliz com qualquer decisão que tomar. Sei que três anos é muito tempo de espera, mas esses três anos poderiam fazer uma diferença enorme no sucesso dele como escritor. O fato de nossa história ser verídica tem apelo com os leitores e, embora eu ainda não tenha lido nada, tenho certeza de que ele precisa terminá-la.
Não quero ser o motivo para ele não terminar o que começou. Daqui a alguns anos, ele vai relembrar esta noite e vai questionar se tomou a decisão errada. Se talvez nossa vida ainda tivesse seguido o mesmo caminho e nós ainda ficássemos juntos, mas esperando três anos ele também teria atingido seu objetivo de escrever o livro que prometeu.
Ben fez uma diferença enorme na minha vida. Mais do que ele jamais saberá. Se não fosse por ele, acho que eu sequer teria recuperado minha confiança. Sei que eu não teria tido coragem de fazer teste de elenco em lugar nenhum. Bastou a presença dele na minha vida um dia por ano para ter um efeito muito positivo em mim, então eu me odiaria se fizesse o contrário por ele.