Novembro, 9

Colleen Hoover · Capítulo 25 de 33

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Novembro, 9

Sexto

— Por favor, não me odeie.

Mas tenho medo de que já seja tarde demais.

Digo ao motorista para irmos e quando estou a uma distância segura no estacionamento, o táxi para antes de pegar a rua. Olho para trás. Ele está parado na frente do prédio, as mãos na nuca.

Ele me vê partir. Seguro o maior número possível de páginas do manuscrito e jogo-as pela janela. Antes que o táxi arranque, me viro a tempo de ver que ele se ajoelha na calçada, derrotado.

Levei quatro anos para me apaixonar por ele.

Levei só quatro páginas para me desapaixonar.

Sexto

9 de novembro

Fado.

Uma palavra que significa destino.

Fado.

Uma palavra que significa fatalidade.

— BENTON JAMES KESSLER

Fallon

Acabei de passar pelo minuto mais longo da minha vida.

Sentada no sofá, observando o segundo ponteiro do meu relógio andar a um ritmo de lesma, como se processasse a mudança da data de 8 para 9 de novembro.

Embora não tenha havido nenhum som quando o segundo ponteiro chega à meia-noite, todo o meu corpo estremece, como se o badalar de cada relógio na parede de cada casa batesse dentro da minha cabeça.

Meu celular se ilumina dez segundos depois da meia-noite. É uma mensagem de texto de Amber.

É só uma data no calendário, como qualquer outra. Eu te amo, mas minha proposta continua de pé. Se quiser que eu passe o dia com você, é só mandar mensagem.

Também noto uma mensagem de texto da minha mãe, que chegou duas horas atrás.

Amanhã vou te levar para tomar café da manhã. Entrarei sozinha no seu apartamento, não precisa colocar o despertador.

Droga.

Realmente não quero companhia quando acordar. Nem de Amber, nem da minha mãe, nem de ninguém. Pelo menos sei que meu pai não vai se lembrar do aniversário. Esta é uma vantagem da nossa relação esporádica.

Aperto o botão na lateral do celular para travá-lo e envolvo os joelhos com os braços. Estou sentada no meu sofá, usando o pijama que não pretendo tirar até o dia 10 de novembro. Não vou sair desta casa nas próximas 24 horas. Não vou falar com ninguém. Bom, exceto minha mãe, quando ela trouxer meu café da manhã, mas, depois disso, vou tirar um dia de folga do mundo Depois do que vivi no ano passado com Ben, concluí que esta data é amaldiçoada. De agora em diante, não importa a idade que eu tenha, nem que esteja casada, nunca vou sair de casa no dia 9 de novembro.

Também reservei esse dia como o único em que me permito pensar no incêndio. Pensar em Ben. Pensar em todas as coisas que desperdicei com ele. Porque ninguém vale tanta mágoa.

Nenhuma desculpa é boa o bastante para justificar o que ele fez comigo.

E foi por isso que, quando saí do apartamento de Ben no ano passado, fui diretamente à delegacia e pedi uma ordem de restrição contra ele.

Faz exatamente um ano e não tenho notícias dele desde a noite em que parti.

Nunca contei a ninguém o que aconteceu. Nem a meu pai, nem a Amber, nem a minha mãe.

Não porque não quero que ele se dê mal, afinal, acredito que ele merece pagar pelo que fez comigo.

Mas porque fiquei constrangida.

Confiei nesse homem. O amei. Acreditei do fundo do coração que a ligação entre nós era rara

e verdadeira e que éramos umas das poucas pessoas de sorte que encontraram um amor como o nosso.

Descobrir que ele mentiu durante todo o nosso relacionamento é algo que ainda tento processar. Todo dia acordo e me obrigo a tirar esse cara da cabeça. Levo minha vida como se Benton James Kessler jamais tivesse feito parte dela. Às vezes, funciona, outras vezes, não. Na maior parte do tempo, não.

Pensei em consultar um terapeuta. Pensei em contar a minha mãe sobre ele e a responsabilidade que teve no incêndio. Até cogitei conversar com meu pai sobre ele. Mas é difícil falar nele quando na maior parte do tempo tento fingir que nunca existiu.

Insisto em dizer a mim mesma que vai ficar mais fácil. Que um dia vou conhecer alguém capaz de bloquear meus pensamentos em Ben, mas até agora nem mesmo consigo me convencer a confiar em alguém o suficiente para flertar.

Uma coisa é ter problemas de confiança com os homens devido à infidelidade. Mas Ben mentiu para mim numa escala tão grande que não sei o que era verdade, o que era mentira e o que foi inventado para o livro dele. A única coisa que sei com certeza é que ele, de algum modo, foi o responsável pelo incêndio que quase tirou minha vida. E não me importo se foi intencional ou por acidente, não é essa parte que mais me enfurece.

Fico mais arrasada quando penso em todas as vezes que ele fez minhas cicatrizes parecerem bonitas, sem nunca ter admitido que, na realidade, foi ele quem as colocou ali.

Nenhuma desculpa jamais vai justificar essas mentiras. Então, não faz sentido dar ouvido a elas.

Na verdade, nem mesmo faz sentido me permitir pensar nisso mais do que já pensei. Eu devia simplesmente ir para a cama. Talvez, por algum milagre, eu consiga dormir pela maior parte do dia de amanhã.

Estico o braço e apago o abajur ao lado do sofá. Enquanto ando até o banheiro, ouço uma batida na porta de entrada.

Amber.

Ela conseguiu não comentar sobre a data de hoje, até ontem. Do nada, algumas horas atrás, fingiu que queria fazer uma festa do pijama, mas eu rejeitei. Sei que ela não quer que eu fique sozinha esta noite, mas é muito mais fácil ficar deprimida quando não tem ninguém para criticar você.

Destranco a porta e abro.

Não tem ninguém ali.

Um arrepio percorre meus braços. Amber não faria uma coisa dessas. Ela não acharia graça em pregar uma peça a essa hora da noite em uma garota que mora sozinha.

Volto no mesmo instante para dentro com o intuito de bater a porta, mas quando estou prestes a fechá-la, olho para o chão e encontro uma caixa de papelão. Não está embrulhada, mas tem um envelope com meu nome em cima.

Olho em volta, mas não há ninguém perto da minha porta. Um carro arranca na rua, e queria que não estivesse tão escuro para que talvez eu reconhecesse o veículo.

Observo mais uma vez o pacote, pego-o rapidamente e corro para dentro, trancando a porta.

Parece uma daquelas caixas de presente que as lojas de departamento usam para embalar camisas, mas o conteúdo é muito mais pesado. Coloco-a na bancada da cozinha e tiro o

envelope de cima.

Não está lacrado. A aba está enfiada para dentro, então retiro o papel e desdobro.

Fallon,

Passei a maior parte da minha vida me preparando para escrever algo tão importante quanto esta carta. Mas, pela primeira vez, sinto como se meu idioma não tivesse desenvolvido letras suficientes no alfabeto para expressar bem as palavras que quero lhe dizer.

Quando você foi embora no ano passado, levou junto minha alma em suas mãos e meu coração nos dentes, e eu sabia que nunca conseguiria recuperar nenhum dos dois. Pode ficar com eles, não preciso mais.

Não estou escrevendo esta carta na esperança de que você me perdoe. Você merece coisa melhor. Sempre mereceu. Nada que eu diga jamais deixará meus pés dignos de pisar no mesmo chão em que você anda. Nada que eu faça jamais deixará meu coração digno de partilhar um amor com o seu.

Não estou pedindo para você me procurar. Só peço que leia as páginas que estão nesta caixa, pois espero que permitam que você, e talvez até eu, saia dessa menos machucada possível.

Você pode não acreditar em mim, mas só quero que você seja feliz. Foi tudo que eu sempre quis. E farei qualquer coisa para que isto aconteça a você, mesmo que signifique ajudá-la a me esquecer.

O que você está prestes a ler nunca foi lido por ninguém além de você, nem será lido por ninguém além de você. Esta é a única cópia. Pode fazer o que quiser com a carta quando terminar. E sei que você não me deve nada, mas não estou pedindo para ler este manuscrito por mim. Quero que leia por você mesma. Porque quando você ama uma pessoa, tem o dever de ajudá-la a ser a melhor versão de si mesma. E, por mais que eu fique arrasado ao admitir isto, a melhor versão de você não me inclui.

Ben

Coloco cuidadosamente os papéis na mesa ao lado da caixa.

Levo a mão à bochecha, procurando as lágrimas, porque não consigo acreditar que não estejam ali. Eu tinha certeza de que se recebesse notícias dele de novo, ficaria destruída emocionalmente.

Mas não estou. Minhas mãos não tremem. Meu coração não dói.

Levo os dedos ao pescoço para conferir minha pulsação. Porque certamente não passei tanto tempo do ano passado construindo uma muralha emocional tão alta a ponto de ser impenetrável até por estas palavras escritas por ele.

Mas tenho medo de que seja exatamente isso o que aconteceu. Não só Ben nunca vai conseguir romper essa muralha, como temo que ele tenha me obrigado a construir uma tão grossa e alta que vou ficar escondida atrás dela para sempre.

Mas numa coisa ele tem razão. Não devo nada a ele.

Volto para o meu quarto e me enfio na cama, deixando cada página não lida na bancada da

cozinha.

• • •

São 11h15h.

Meus olhos estão semicerrados, o que significa que está sol. O que quer dizer que são 11h15h da manhã.

Levo a mão ao rosto e tapo os olhos. Espero alguns segundos e pego o celular.

É dia 9 de novembro.

Merda.

Quer dizer, não é surpresa nenhuma que eu não tenha dormido 24 horas seguidas, então não sei por que fico chateada. Ainda mais considerando as onze horas de sono que consegui. Não sei se já dormi tanto assim desde que era adolescente. E especialmente não tanto no aniversário de hoje. Costumo não dormir nada.

Fico no meio do meu quarto debatendo como agir no dia de hoje. Atrás da porta número um fica meu banheiro, onde estão minha escova de dentes e meu chuveiro.

Atrás da porta número dois tem um sofá, uma televisão e uma geladeira.

Escolho a porta número dois.

Quando a abro, de repente desejo ter escolhido a número um.

Minha mãe está sentada no meu sofá.

Merda. Esqueci que ela ia trazer meu café da manhã. Agora ela vai pensar que não faço nada além de dormir o dia inteiro, todos os dias.

— Oi — digo ao sair do quarto.

Ela ergue os olhos e no mesmo instante sua expressão me confunde.

Ela está chorando.

A primeira coisa que penso é: o que aconteceu e quem fez isso? Meu pai? Minha avó?

Primos? Tios? Tias? Boddle, o cachorro da minha mãe?

— O que aconteceu? — pergunto a ela.

Mas então baixo os olhos para o seu colo e percebo que está tudo errado. Ela está lendo o manuscrito.

O manuscrito de Ben.

Nossa história.

Desde quando ela começou a invadir minha privacidade? Aponto para os papéis e olho para ela, ofendida.

— O que está fazendo?

Ela pega um lenço de papel descartado e enxuga os olhos.

— Desculpe — diz ela, fungando. — Vi a carta. E eu nunca leria suas coisas pessoais, mas estava aberta quando eu trouxe o café esta manhã e eu só... me desculpe. Mas então — ela pega algumas páginas do manuscrito e folheia —, li a primeira página e fiquei sentada aqui por quatro horas, sem conseguir parar.

Faz quatro horas que ela está lendo isso?

Eu me aproximo da minha mãe e pego a pilha de papéis em seu colo.

— Quanto você leu? — Levo o manuscrito de volta à cozinha. — E por quê? Não é da sua

conta ler isso, mãe. Meu Deus, nem acredito que você fez isso.

Fecho a tampa da caixa de papelão e a levo à lixeira. Piso na alavanca para abri-la e minha mãe se move com mais rapidez do que já vi na vida.

— Fallon, não se atreva a jogar isso fora! — Ela pega a caixa das minhas mãos e a abraça.

— Por que você faria isso?

Ela coloca a caixa na bancada, alisando a tampa como se fosse um objeto precioso que eu quase quebrei.

Fico confusa por ela estar reagindo desse jeito a algo que deveria deixá-la furiosa.

Ela solta o ar rapidamente, depois me olha com firmeza nos olhos.

— Querida. Alguma dessas coisas é verdade? Elas realmente aconteceram?

Nem mesmo sei o que dizer a ela, porque não faço ideia de a que “coisas” ela está se referindo. Dou de ombros.

— Não sei. Ainda não li. — Passo por ela e sigo para o sofá. — Mas se você está se referindo a Benton James Kessler e ao fato de que ele permitiu que eu me apaixonasse completamente por uma versão fictícia dele, então, sim. Isto aconteceu. — Levanto uma das almofadas do sofá, procurando o controle remoto. — E se está se referindo ao fato de que descobri que ele, de algum modo, foi responsável por um incêndio que quase me matou, mas deixou de revelar esse pequeno detalhe enquanto eu me apaixonava por ele, então, sim, isso também aconteceu.

Acho o controle. Sento no sofá e cruzo as pernas, me preparando para uma farra de 12 horas de reality shows. Agora seria a hora perfeita para minha mãe ir embora, mas, em vez disso, ela se aproxima do sofá e se senta ao meu lado.

— Você não leu nada disso? — pergunta ela, colocando a caixa na mesa de centro à nossa frente.

— Li o prólogo ano passado. Isso bastou para mim.

Sinto o calor da sua mão envolver a minha. Viro lentamente a cabeça e descubro que ela está me olhando com um sorriso carinhoso.

— Meu amor...

Minha cabeça tomba no encosto do sofá.

— Será que seu conselho pode esperar até amanhã, por favor?

Ela suspira.

— Fallon, olhe para mim.

Faço isso, porque ela é minha mãe, eu a amo e, por algum motivo, embora eu tenha 23 anos, ainda faço o que ela manda.

Ela aproxima a mão do meu rosto e coloca meu cabelo atrás da orelha esquerda. Seu polegar roça as cicatrizes da minha bochecha e me retraio, porque é a primeira vez que ela as toca de propósito. Além de Ben, nunca permiti que ninguém tocasse nelas.