Novembro, 9

Colleen Hoover · Capítulo 27 de 33

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Novembro, 9

Fallon

Largo o papel com o nome do meu pai. A folha flutua para o chão com algumas outras que acabei de ler.

Empurro o manuscrito para fora do meu colo e rapidamente me levanto. Corro até o meu quarto e escolho a porta número dois. Tomo um banho, na esperança de me acalmar o suficiente para continuar lendo, mas choro o tempo todo. Nenhum garoto de 16 anos devia ter de passar pelo que Ben passou, mas isso ainda não responde a todas as perguntas que tenho sobre a relação que isto tem comigo. Mas agora que sei que em algum momento meu pai se envolveu com a mãe de Ben, e tenho a impressão de que estou chegando mais perto. Não tenho certeza se quero continuar lendo, mas agora que comecei, não posso parar. Apesar de estar me sentindo enjoada, de minhas mãos estarem tremendo há 15 minutos seguidos e do medo de ler qual é a ligação do meu pai com essa história, eu me obrigo a ir em frente.

Pelo menos uma hora depois, tomo coragem para voltar ao manuscrito. Eu me sento no sofá e retomo de onde parei.

Romance de Ben — CAPÍTULO DOIS

Aos 16 Anos

“Quando se queima as pontes de alguém, que lindo fogo produz.”

— Dylan Thomas

Kyle finalmente chega em casa. E Ian também. Nós nos sentamos à mesa da cozinha e conversamos sobre tudo, menos por que nossa mãe detestava a vida mais do que nos amava.

Kyle me diz que fui corajoso hoje. Ele me trata como se eu ainda tivesse 12 anos, por mais que eu tenha sido um grande homem nesta casa desde que ele foi embora, seis meses atrás.

Ian liga para uma daquelas empresas que fazem serviço de limpeza depois de uma morte. Um dos policiais deve ter deixado o cartão deles na bancada, sabendo que íamos precisar. Eu nem sabia que isso existia, mas Ian mencionou um filme que viu alguns anos atrás, chamado Trabalho sujo, sobre duas mulheres que ganhavam a vida fazendo isso.

A empresa manda dois homens. Um que não fala inglês e outro que não fala nada. Ele anota tudo em um bloco que deixa guardado no bolso da frente.

Quando eles terminam, me encontram na cozinha e me entregam um bilhete.

Fiquem longe do quarto por pelo menos quatro horas, para que o carpete possa secar. O

total é de 200 dólares.

Vou atrás de Kyle na sala.

— Custa 200 dólares.

Nós dois procuramos Ian, mas não o encontramos. Seu carro sumiu e ele é o único que tem essa grana. Acho a bolsa da minha mãe na bancada da cozinha.

— Ela tem dinheiro suficiente na carteira. Você acha que tem problema a gente usar?

Kyle puxa o dinheiro da minha mão e sai da sala para pagar os caras.

Ian volta depois, naquela tarde. Ele e Kyle discutem se ele nos contou ou não que ia à delegacia, porque Kyle não se lembra de Ian ter saído, mas ele argumenta que Kyle simplesmente não estava prestando atenção.

Ninguém pergunta por que ele foi à delegacia, para início de conversa. Acho que talvez ele quisesse ver o bilhete de suicídio, mas não pergunto sobre isso. Depois de ler sobre como ela estava apaixonada por esse tal de Donovan, a última coisa que quero ler é que ela não conseguia viver sem ele. Fico irritado por saber que minha mãe tenha permitido que o término de um relacionamento com um homem a destruísse mais do que a ideia de nunca mais ver seus filhos. Isso não devia nem ser motivo de dúvida nenhuma.

Quase posso imaginar como sua decisão foi tomada. Eu a visualizo sentada na cama ontem à noite, chorando por aquele desgraçado ridículo. Eu a imagino segurando uma foto dele na mão direita e uma de Kyle, Ian e eu na esquerda. Ela olha de uma foto para outra, concentrando-se em Donovan. Devo terminar isso agora para não ter de viver sem este homem nem por um dia

a mais? Depois olha a foto de nós três. Ou engulo a mágoa para passar o resto da minha vida com três homens que são gratos por ter a mim como mãe?

O que eu não consigo imaginar é o que a motivaria a escolher a foto da mão direita e não a da esquerda.

Se eu não vir com meus próprios olhos o que tinha de tão especial neste homem, sei que isso vai acabar comigo. Uma corrosão lenta e dolorosa que vai destruir meus ossos até que eu me sinta tão desprezível quanto ela ao enfiar o cano daquela arma na boca.

Espero algumas horas até que Kyle e Ian tenham ido para seus quartos e entro no dela.

Vasculho todas as coisas que li mais cedo, os bilhetes de amor, as discussões, a prova de que o relacionamento deles era tumultuado como um furacão. Quando finalmente encontro algo com informação suficiente sobre ele para que eu consiga achar seu endereço no Google, saio de casa.

É estranho pegar o carro dela. Só faz quatro meses que tenho 16 anos. Ela estava economizando para me ajudar a comprar meu primeiro carro, mas ainda não tínhamos chegado lá, então eu só usava o dela quando estava disponível.

É um carro bonito. Um Cadillac. Às vezes eu me perguntava por que ela não o vendia para comprar dois carros mais baratos, mas me sentia culpado por pensar assim. Eu era um garoto de 16 anos e ela era uma mãe solteira que trabalhou muito para chegar tão longe na carreira. Não era justo da minha parte pensar, nem remotamente, que merecíamos coisas iguais.

Já passa das dez da noite quando chego no bairro de Donovan. É um bairro muito mais bonito do que aquele em que moramos. Não que nossa vizinhança não seja bonita, mas esta tem um portão privativo. Nem é tão privativo assim, porque está destrancado. Fico pensando se devo voltar para casa ou não, depois me lembro do que vim fazer aqui, e não é nada ilegal. Só vou dar uma olhada na casa do homem responsável pelo suicídio da minha mãe.

A princípio, é difícil enxergar as casas. Todas têm garagens compridas e há muito espaço entre os terrenos. Mas à medida que avanço, mais esparsas ficam as árvores. Quando chego ao endereço, meus batimentos cardíacos ecoam nos ouvidos. Eu me sinto ridículo por estar nervoso vendo a casa, mas minha mão escorrega no volante porque as palmas estão suadas.

Quando finalmente chego à casa, não fico impressionado de imediato. É igual a todas as outras. Telhados íngremes e pontudos. Duas vagas na garagem. Gramados bem cuidados e caixas de correio revestidas de pedra, combinando com as casas.

Eu esperava mais de Donovan.

Fico impressionado com minha coragem quando passo de carro diante da casa, dou a volta e depois paro o carro algumas casas adiante para que eu consiga observar bem. Desligo o motor e apago manualmente os faróis.

Será que ele sabe?

Não sei como saberia, a não ser que os dois tenham amigos em comum.

Ele deve saber. Tenho certeza de que minha mãe tinha uma multidão de amigos e colegas de trabalho, além de um lado de sua personalidade que nunca vi.

Fico me perguntando se ele chorou quando descobriu. Fico me perguntando se ele tem algum remorso. Será que se ele tivesse a opção de voltar atrás e não magoar minha mãe, faria isso?

E então começo a cantarolar Toni Braxton. Unbreak My Heart. Vá se foder, Donovan O’Neil.

Meu celular vibra no banco. É uma mensagem de texto de Kyle.

Kyle: Onde você está?

Eu: Tive de ir ao mercado.

Kyle: É tarde. Volte agora. Temos que estar na funerária às 9 da manhã.

Eu: E você por acaso é quem? Minha mãe?

Espero que ele responda com algo como Cedo demais para brincadeiras, cara. Mas ele não faz isso. Passo mais um tempo olhando para o celular, querendo que ele responda. Não sei por que mandei essa mensagem. Agora me sinto mal. Devia existir um botão de Unsend.

Que ótimo. Agora estou cantando unsend my text na mesma melodia de Unbreak My Heart.

Vá se foder, Toni Braxton.

Afundo no banco quando noto faróis vindo na minha direção. Afundo ainda mais quando noto que param na casa de Donovan.

Paro de cantar e mordo o interior da minha bochecha enquanto espero que ele saia do carro.

Detesto que esteja tão escuro. Quero ver se, pelo menos, ele é bonito. Mas sua atratividade não deve ter feito diferença na decisão da minha mãe de deixar este mundo.

Uma das portas da garagem dele se abre. Enquanto estaciona, a outra porta da garagem também começa a se abrir. Luzes fluorescentes iluminam dois veículos estacionados ali. Ele desliga o motor do Audi e sai do carro.

Ele é alto.

Só isso. Esta é a única característica que consigo notar dessa distância. Talvez ele tenha cabelo castanho-escuro, mas não consigo ter certeza disso.

Ele tira o outro carro da garagem. O carro é um veículo clássico, mas não entendo nada de carros. É vermelho, brilhante e ele abre o capô.

Eu o observo brincar embaixo do capô por mais alguns minutos. Faço todo tipo de observação sobre ele. Sei que não gosto desse homem, isto é certo. Também sei que provavelmente ele não é casado. Os dois carros parecem pertencer a um homem e não há espaço para outro carro na garagem, então ele deve morar sozinho.

É mais provável que seja divorciado. Minha mãe deve ter gostado do apelo deste bairro e da perspectiva de se mudar conosco para a casa dele, assim eu poderia ter uma figura paterna na minha vida. Ela deve ter planejado a vida dos dois e esperava que ele a pedisse em casamento, mas, em vez disso, partiu seu coração.

Ele passa os vários minutos seguintes lavando e encerando o carro, o que acho estranho, porque já é muito tarde. Talvez ele passe o dia todo fora. Isso deve ser irritante para os vizinhos, embora as casas mais próximas sejam bem afastadas e ninguém note o que está acontecendo na casa ao lado, se não quiser.

Ele pega um galão de gasolina na garagem e abastece o carro. Eu me pergunto se é uma gasolina especial, porque ele não está abastecendo em um posto.

Ele coloca depressa o galão de gasolina ao lado do carro e pega o celular. Dá uma olhada na tela e depois leva o telefone ao ouvido.

Com quem será que ele está falando? Será que é outra mulher? Foi por isso que ele largou minha mãe?

Mas então percebo, pelo jeito que sua mão agarra a nuca. Pelo jeito que seus ombros murcham e sua cabeça se balança de um lado para outro. Ele anda por ali, preocupado,

aborrecido.

Quem quer que esteja do outro lado da linha acabou de dizer a ele que minha mãe morreu.

Agarro o volante e me inclino para a frente, absorvendo cada movimento dele. Será que vai chorar? Ela era digna de fazê-lo cair de joelhos? Será que daqui vou conseguir ouvi-lo gritar de agonia?

Ele se recosta em seu precioso carro e encerra a ligação. Depois fica encarando o celular por 17 segundos. Sim, eu contei.

Ele enfia o telefone de volta no bolso e depois, em uma exibição magnífica de tristeza, dá um soco no ar.

Não dê um soco no ar, Donovan. Dê um soco no seu carro, vai ser muito melhor.

Ele pega o pano que usou para enxugar o carro e joga no chão.

Não, Donovan. O pano, não. Acerte seu carro. Mostre para mim que você a amava mais do que ama seu carro, então talvez eu não tenha que te odiar tanto.

Ele afasta o pé e chuta o galão de gasolina, fazendo-o voar alguns metros pelo gramado.

Acerte a porra do seu carro, Donovan. Ela pode estar observando você agora mesmo.

Mostre a ela que você está sofrendo tanto que nem se importa mais com a própria vida.

Donovan decepciona a nós dois quando segue intempestivamente para dentro de casa, sem tocar nenhuma vez um dedo em seu carro. Eu me sinto mal por minha mãe, porque ele não deu um ataque. Nem sei se chorou, estou longe demais para ver.

As luzes fluorescentes se apagam na garagem.

As portas da garagem começam a baixar.

Pelo menos ele está chateado demais para colocar o carro para dentro.

Fico observando a casa por mais alguns minutos, me perguntando se ele vai voltar a sair em algum momento. Como isso não acontece, começo a ficar inquieto. Uma parte imensa de mim quer sair daqui e nunca mais pensar nesse homem, mas há uma pequena parte de mim cuja curiosidade aumenta a cada segundo que fico sentado aqui.

O que tem de tão especial naquele maldito carro?

Qualquer um que, como ele, tenha recebido notícias tão devastadoras quer descontar no que está mais próximo. Qualquer homem normal apaixonado teria dado um soco no capô do carro. Ou, dependendo do quanto amava a mulher, talvez até desse um soco no para-brisa. Mas esse babaca pega um pano e joga no chão. Ele escolheu descontar sua agressividade em um pano velho e sem importância.

Ele devia se envergonhar.

Eu deveria ajudá-lo a sofrer direito.

Eu deveria dar um soco no capô do carro por ele. E por mais que eu saiba que isso não vai trazer nada de bom, já saí do carro e estou a meio caminho antes de dizer a mim mesmo que não é uma boa ideia. Mas quando se trata de uma batalha entre sua adrenalina e sua consciência, a adrenalina sempre vence.

Chego ao carro e sequer me dou o trabalho de olhar em volta para saber se tem alguém ali fora. Sei que não tem. Já passa das onze da noite. Nem deve ter alguém acordado nessa rua e, mesmo que tenha, não me importo.

Pego o pano e o examino, na esperança de que tenha alguma coisa de especial. Não tem, mas decido usá-lo para abrir a porta do carro. Não quero deixar digitais, se por acidente eu arranhar

o carro dele.

O veículo é ainda mais bonito por dentro do que por fora. Imaculado. Bancos de couro vermelho-cereja. Acabamento em madeira. Tem um maço de cigarros e alguns fósforos no painel e fico decepcionado por minha mãe ter amado um fumante.

Olho para a casa e de volta para os fósforos. Quem é que ainda usa fósforo? Juro continuar descobrindo cada vez mais motivos para odiá-lo.

Volte para o seu carro, Ben. Já foi emoção demais para um dia.

A adrenalina derrota minha consciência mais uma vez. Olho para o galão de gasolina.

Será que...

Será que Donovan ficaria mais chateado de ver seu precioso carrinho clássico pegando fogo do que com a morte da minha mãe?

Acho que vamos descobrir logo, porque minha adrenalina está pegando o galão de gasolina e despejando o líquido em um pneu e na lateral do carro. Pelo menos minha consciência ainda está atenta o bastante para saber que devo colocar o galão de volta aonde Donovan o chutou.

Risco um, apenas um fósforo, e o jogo com um peteleco — exatamente como fazem nos filmes

— enquanto volto para o meu carro.

O ar solta um breve sibilo às minhas costas. As lâmpadas de segurança se iluminam como se alguém tivesse acendido luzes de Natal.

Quando volto para o meu carro, estou sorrindo. É a primeira vez que sorrio hoje.

Ligo meu carro e pacientemente me afasto, me sentindo um tanto justificado pelo que ela fez consigo mesma. Pelo que ela fez comigo.

E, por fim, pela primeira vez desde que encontrei o corpo da minha mãe esta manhã, uma lágrima escorre do meu olho.

Depois outra.

E mais uma.

Começo a chorar tanto que fica difícil enxergar a rua. Paro em uma ladeira. Eu me apoio no volante e meu choro se transforma em soluços, porque sinto falta dela. Não se passou nem mesmo um dia e já sinto falta dela pra cacete e não sei por que ela faria isso comigo. Parece tão pessoal, e detesto ser tão egoísta a ponto de acreditar que teve alguma coisa a ver comigo, mas não teve? Eu morava com ela. Fui o único que continuou naquela casa. Ela sabia que eu é que a encontraria. Sabia o que isso faria comigo e ainda assim se matou. Nunca amei alguém que odeio tanto, e nunca odiei alguém que amo tanto.

Choro por tanto tempo que os músculos da minha barriga começam a doer. Meu maxilar dói por causa da tensão. Meus ouvidos doem por causa do som estridente das sirenes que passam.

Olho pelo retrovisor e me deparo com um caminhão dos bombeiros descendo a ladeira.

Vejo o brilho laranja contrastar com o céu escuro atrás de mim, e é um brilho muito mais forte do que eu esperava.

As chamas estão muito mais altas do que deveriam.

Os batimentos do meu coração martelam com muito mais força do que eu queria.

O que eu fiz?

O que foi que eu fiz?

Minhas mãos estão tremendo tanto que não consigo engrenar o carro. Não consigo respirar.

Meus pés escorregam no freio.

O que foi que eu fiz?

Dirijo. Continuo dirigindo. Tento puxar o ar, mas meus pulmões parecem cheios de fumaça preta e espessa. Pego meu celular. Quero avisar a Kyle que talvez eu esteja tendo uma crise de pânico, mas não consigo acalmar minha mão por tempo suficiente para discar o número dele. O

telefone escorrega das minhas mãos e cai no chão do carro.

Só faltam três quilômetros. Vou conseguir.

Conto até 17 exatamente 17 vezes e logo depois estou entrando na minha garagem.

Entro trôpego em casa. Felizmente Kyle ainda está acordado, na cozinha. Não preciso tentar subir até o quarto dele.

Ele põe as mãos em meus ombros e me conduz a uma cadeira. Espero que ele comece a entrar em pânico comigo quando vê minha expressão, meus olhos arregalados e cheios de lágrimas, mas em vez disso ele pega água para mim. Conversa comigo calmamente, mas não faço ideia do que esteja dizendo. Ele repete que eu devo me concentrar em seus olhos, me concentrar em seus olhos, em seus olhos.

— Concentre-se nos meus olhos — diz ele. É o primeiro som que processo.

— Respire, Ben. — Ele ergue a voz: — Respire.

Minha pulsação aos poucos retorna ao ritmo.

— Respire.

Meus pulmões começam a puxar e soltar ar, como deveriam fazer.

Inspiro e expiro sem parar e tomo outro gole de água. Então, assim que consigo falar, tudo o que mais quero é tirar esse segredo de dentro de mim antes que eu exploda.

— Eu fodi tudo, Kyle.

Fico de pé e começo a andar de um lado para outro. Sinto as lágrimas tomarem minhas bochechas e ouço o tremor em minha voz. Aperto a cabeça com as mãos.

— Eu não queria fazer isso, juro, não sei por que eu fiz.

Kyle me interrompe a meio passo. Ele me segura pelos ombros e baixa a cabeça, me olhando intensamente nos olhos.

— O que você fez, Ben?

Respiro fundo outra vez e solto o ar ao me afastar dele. Então conto tudo. Conto da mancha de sangue que parecia a cabeça de Gary Busey, que li todas as cartas que Donovan escreveu para ela, que eu só queria descobrir por que ela gostava desse homem mais do que de nós, que ele não ficou zangado o suficiente quando soube que ela morreu, e que eu não pretendia incendiar a casa dele, nem mesmo queria que o carro dele pegasse fogo, porque não foi por isso que fui até lá.

Agora estamos sentados. À mesa da cozinha. Kyle não falou muito, mas o que ele diz em seguida me apavora mais do que qualquer coisa que já me assustou na vida.

— Alguém se machucou, Ben?

Quero negar com a cabeça, que não se mexe. Minha resposta não sai, porque eu não sei. É

claro que ninguém se machucou. Donovan estava acordado, ele deve ter saído a tempo.

Não é?

Inspiro novamente quando vejo a preocupação nos olhos de Kyle. Ele se afasta depressa da mesa e vai à sala de estar. Ouço a TV sendo ligada e, por um segundo, penso que provavelmente esta é a última vez que a televisão será ligada no canal Bravo, agora que minha mãe não está

mais aqui para assistir.

Depois ouço uma troca de canais, e de novo. Até que ouço as palavras “incêndio”, “Hyacinth Court” e “um ferido”.

Ferido. Ele deve ter tropeçado ao sair correndo da casa e cortou o dedo ou coisa assim. Não é tão ruim. Tenho certeza de que a casa dele tinha seguro.

— Ben.

Eu me levanto para me juntar a Kyle na sala. Tenho certeza de que ele está me chamando para dizer que não há problema, que está tudo bem e que eu deveria dormir.

Quando chego à entrada da sala, meus pés param de seguir em frente. Há uma foto sendo exibida na TV, no canto superior direito. Uma garota. Ela me parece conhecida e não consigo saber de onde, mas não preciso porque o repórter faz isso por mim.

“As últimas informações indicam que Fallon O’Neil, atriz de 16 anos e protagonista da série de sucesso Gumshoe, foi levada de helicóptero do local. Não há notícias sobre seu estado, mas continuaremos atualizando os espectadores à medida que recebermos novidades.”

Kyle não me diz que vai ficar tudo bem.

Ele não diz nada.

Ficamos diante da TV, prestando atenção nos noticiários que aparecem entre os comerciais.

Um pouco depois da uma da manhã, ficamos sabendo que a garota foi levada a um centro de queimados em South Bay. Dez minutos depois, descobrimos que o estado dela é crítico. A uma e meia da manhã, dizem que ela sofreu queimaduras de quarto grau em 30% do corpo. A uma e quarenta e cinco, anunciam que esperam que ela sobreviva, mas que vai passar por uma extensa cirurgia reconstitutiva e por reabilitação. A uma e cinquenta, os repórteres declaram que o dono da casa admitiu ter derramado combustível perto de um carro estacionado na garagem. Os investigadores afirmam que não têm motivos para acreditar que o incêndio foi intencional, mas haverá uma investigação completa para corroborar as alegações do proprietário.

Um repórter insinua que a carreira da vítima pode ser suspensa indefinidamente. Outro diz que os produtores terão de tomar uma decisão importante: se devem colocar outra atriz no papel ou suspender a produção enquanto a vítima se recupera. Os noticiários atualizam o estado da vítima e também citam as indicações ao Emmy que Donovan O’Neil teve no auge da carreira.

Kyle desliga a televisão aproximadamente às duas da manhã. Baixa o controle remoto com cuidado e em silêncio no braço do sofá.

— Alguém testemunhou o que aconteceu?

Seus olhos estão fixos nos meus e no mesmo instante nego com a cabeça.

— Você deixou alguma coisa para trás? Alguma possível evidência?

— Não — sussurro, depois pigarreio. — Ele está certo. Chutou o galão de gasolina, depois entrou na casa. Ninguém viu o que eu fiz depois disso.

Kyle assente e aperta a nuca para se livrar da tensão. Depois aproxima-se um passo.

— Então ninguém sabe que você esteve lá?

— Só você.

Ele diminui a distância entre nós. Acho que talvez queira me bater. Não tenho certeza, mas a raiva perceptível em seu maxilar indica que talvez queira. E eu não culparia ele.

— Quero que me escute, Ben. — A voz dele sai baixa e firme. Concordo com a cabeça. —

Tire cada peça de roupa que está usando e coloque na máquina de lavar. Vá tomar um banho.

Depois, você vai para a cama e vai esquecer que isso aconteceu, está bem?

Assinto de novo. Posso vomitar daqui a um segundo, não tenho certeza.

— Você nunca vai deixar que identifiquem a menor ligação possível com o que aconteceu esta noite. Nunca vai pesquisar sobre essas pessoas na internet. Nunca mais vai de carro à casa delas. Fique longe de qualquer coisa que possa relacionar você a essas pessoas. E nunca, jamais fale nem mais uma palavra sobre isso. Nem comigo... nem com Ian... nem com ninguém.

Você me entendeu?

Sem dúvida, vou vomitar, mas ainda assim consigo assentir.

Kyle observa meu rosto por um minuto, para ter certeza de que pode confiar em mim. Não me atrevo a me mexer. Quero que ele saiba que pode confiar em mim.

— Temos muita coisa para fazer amanhã, os preparativos para o enterro dela. Tente dormir um pouco.

Não balanço a cabeça dessa vez, porque ele se afasta, apagando a luz.

Fico no escuro por vários minutos. Em silêncio... parado... sozinho. Eu devia estar com medo de ser pego. Devia estar perturbado porque, daqui em diante, sentirei culpa sempre que Kyle olhar para mim. Eu devia estar preocupado que esta noite —