Novembro, 9
Ben
Estou agarrando o celular com a mão numa tentativa de não jogá-lo na porta do quarto. Eu tinha esperanças de que a garçonete me dissesse que ela não estava lá. Torcia para que ela não aparecesse, assim eu não teria que decepcioná-la. Preferia que ela tivesse conhecido outra pessoa, se apaixonado e se esquecido de mim em vez de ser responsável pela decepção que acabei de ouvir em sua voz.
Rolo com o ombro para ficar de costas e deixo a cabeça tombar na porta. Olho para o teto e contenho as lágrimas que venho tentando controlar desde que soube do acidente de Kyle.
Ainda não chorei. Nenhuma vez.
Que bem eu teria feito a Jordyn se estivesse acabado quando desse a notícia de que o marido dela morreu num acidente perto do aniversário de um ano de casado deles? Três meses antes do nascimento do primeiro filho dos dois? E que bem eu faria a Ian se estivesse acabado e balbuciasse ao telefone quando tive de contar a ele que seu irmão mais novo estava morto? Eu sabia que ele teria de tomar providências para vir diretamente para casa depois que desligasse o telefone, então era necessário que ele soubesse que eu estava bem. Eu tinha as coisas sob controle por aqui e ele não precisava correr.
O mais perto que cheguei de chorar foi exatamente agora, ao telefone com Fallon. Por algum motivo, foi mais difícil contar a notícia para ela do que para os outros. E acho que foi porque eu sabia que a morte de Kyle não era o tema central de nossa conversa. Era o fato não dito de que nós dois esperávamos por esse momento desde o dia que tivemos de nos separar um ano atrás.
E por mais que eu quisesse tranquilizá-la de que estarei lá ano que vem, agora só quero me ajoelhar e implorar para Fallon vir para cá. Hoje. Nunca precisei abraçar alguém mais do que neste momento, e eu daria qualquer coisa para que ela estivesse aqui comigo. Para poder aproximar o rosto de seu cabelo e sentir seus braços envolvendo minha cintura, suas mãos em minhas costas. Não existe uma única coisa neste mundo capaz de me reconfortar como Fallon, mas eu não disse isso a ela. Não consegui. Talvez devesse, mas pedir para ela vir me encontrar de última hora é mais do que eu poderia fazer.
A campainha toca e fico atento, controlando o remorso que sinto por causa do telefonema que tive de dar. Jogo o celular na cama e desço a escada.
Ian está abrindo a porta quando chego ao último degrau. Tate entra e seus braços tocam o pescoço dele. Não estou surpreso por vê-la com Miles aqui. Miles e Ian são melhores amigos desde que eu nasci, então fico feliz por meu irmão ter Miles. Isso me joga num poço um pouco mais fundo de autopiedade, ao saber que seus melhores amigos estão aqui com ele e a única pessoa que quero está a quase 5 mil quilômetros de distância de mim.
Tate solta Ian e me abraça. Miles entra e abraça Ian, mas não diz nada. Tate se vira e tenta pegar uma das bolsas na mão de Ian, mas ele puxa para longe dela.
— Não — diz ele, os olhos se fixando na barriga de Tate. — Vou levar todas as nossas coisas para o quarto. Vá à cozinha e prepare alguma coisa para você comer, porque ainda nem tomou café da manhã.
Ian fecha a porta e olha para Tate.
— Ele ainda não deixa você pegar nada pesado?
Ela revira os olhos.
— Nunca achei que eu ficaria cansada de ser tratada como uma princesa, mas estou de saco cheio disso. Estou louca para que a neném nasça e a atenção dele se concentre nela e não em mim.
Miles sorri para ela.
— Isso não vai acontecer. Terei atenção mais do que suficiente para as duas.
Miles me cumprimenta com um gesto de cabeça ao passar por mim, seguindo para o quarto de hóspedes.
Tate me encara.
— Há algo que eu possa fazer? Por favor, me coloque para trabalhar. Preciso me sentir útil, para variar.
Gesticulo para ela me acompanhar à cozinha. Tate para quando vê a bancada.
— Puta merda.
— Pois é — digo, olhando toda aquela comida.
Faz dois dias que as pessoas vêm deixando ensopados. Kyle trabalhava em uma empresa de software que tinha cerca de duzentos funcionários e o prédio fica a apenas 11 quilômetros da nossa casa. Tenho certeza de que mais da metade deles trouxe comida nos últimos dois dias.
— Já enchemos a geladeira, além da que fica na garagem. Mas me sinto mal de jogar essas coisas fora.
Tate arregaça as mangas e passa apressada por mim.
— Não tenho escrúpulos de jogar fora um ensopado em perfeito estado. — Ela abre um dos recipientes, cheira e faz uma careta. Logo em seguida o fecha. — Sem dúvida não é para guardar isto — diz ela, jogando toda a comida na lixeira.
Fico parado na cozinha observando, percebendo pela primeira vez que ela parece prestes a dar à luz junto com Jordyn. Talvez um pouco antes.
— Quando vai nascer?
— Daqui a nove semanas — responde ela. — Duas semanas antes de Jordyn. — Ela me olha, abrindo a tampa de outro pote. — Como ela está?
Pego um banco do balcão, suspirando enquanto me sento.
— Nada bem. Não consigo convencê-la a comer nada. Ela nem sai do quarto.
— Está dormindo?
— Espero que sim. A mãe dela veio de avião na noite passada, mas Jordyn não quer falar com ela também. Eu tinha esperança de que a mãe pudesse ajudar.
Tate assente, mas noto que ela enxuga uma lágrima quando se vira.
— Nem imagino o que ela está passando — sussurra.
Eu também não. E nem quero tentar. Muita coisa precisa ser feita antes do enterro de Kyle para que eu vá parar no inferno que espera por Jordyn e seu filho.
Vou até o quarto de Ian e bato na porta. Quando entro, ele está vestindo outra camiseta. Seus
olhos estão vermelhos e ele os enxuga rapidamente, se abaixando para calçar os sapatos. Finjo que não notei que ele estava chorando.
— Está pronto? — pergunto.
Ele concorda com a cabeça e me acompanha porta afora.
Ele está reagindo muito mal a tudo isso, como deve ser. Mas é só mais um motivo para que eu não deixe nada me afetar. Ainda não. Porque neste momento sou o único que está segurando a todos nós.
Alguns dias atrás, eu achava que estaria passando o dia de hoje com Fallon em Nova York.
Nunca imaginei que o passaria em uma funerária, escolhendo o caixão para a única pessoa no mundo que me conhecia melhor do que qualquer outra.
• • •
— O que você planeja fazer com a casa? — pergunta meu tio.
Ele pega uma cerveja na geladeira. Assim que fecha a porta, abre de volta e pega um pote de comida. Abre a tampa e sente o cheiro, depois dá de ombros e pega um garfo em uma gaveta próxima.
— O que quer dizer? — questiono, justo quando ele coloca uma porção de macarrão apimentado na boca.
Ele gesticula para o cômodo com o garfo.
— A casa — diz de boca cheia. Ele engole e enfia o garfo na comida de novo. — Tenho certeza de que Jordyn vai voltar para Nevada com a mãe. Você vai ficar aqui sozinho?
Eu não tinha pensado sobre isso, mas ele tem razão. É uma casa grande e duvido que eu queira ficar aqui sozinho. Mas a ideia de vendê-la me apavora. Moro nesta casa desde os 14
anos. Sei que minha mãe morreu, mas ela nunca ia querer que vendêssemos a casa. Ela mesma dizia isso.
— Não sei. Não parei para pensar nisso.
Ele abre a cerveja.
— Bom, se pretende vender, me deixe anunciar. Posso conseguir um ótimo preço.
Minha tia fala às minhas costas.
— Sério, Anthony? Não acha que é um pouco cedo demais? — Ela olha para mim. —
Desculpe, Ben. Seu tio é um idiota.
Agora que ela falou isso, acho que é de mau gosto discutir a questão comigo dez minutos depois de eles terem chegado aqui.
Perdi a conta de quem está na minha casa agora. São quase sete da noite e pelo menos cinco primos passaram por aqui. Dois casais de tios e tias nos trouxeram comida e Ian e Miles estão na varanda dos fundos. Tate continua limpando a casa, apesar das súplicas desesperadas de Miles para que ela descanse. E Jordyn... Bom, ela ainda não saiu do quarto.
— Ben, venha cá! — grita Ian do lado de fora.
Escapo feliz da conversa com meu tio e abro a porta de tela. Ian e Miles estão sentados na escada da varanda, observando o quintal.
— O que foi?
Ian se vira.
— Você entrou em contato com o antigo trabalho dele? Eu nem pensei nisso.
Confirmo com a cabeça.
— Sim, liguei para eles ontem.
— E aquele amigo ruivo dele?
— O que foi ao casamento?
— É.
— Ele sabe. Todo mundo sabe, Ian. O nome disso é Facebook.
Ele assente e vira as costas de novo. Quase nunca está aqui por causa do seu horário de trabalho, então acho que aparecer e não saber o que pode fazer para ajudar aumenta sua sensação de inutilidade. Mas ele não é inútil. O simples fato de que me permite ficar preocupado com todo o trabalho está realmente ajudando um pouco. Ainda mais depois que eu não consegui ver Fallon hoje, como pretendia.
Fecho a porta dos fundos e esbarro em Tate.
— Desculpe — diz ela, dando um passo para o lado. — Acho que convenci Jordyn a finalmente comer alguma coisa.
Ela vai depressa até a geladeira e lança a meu tio um olhar bravo ao vê-lo enfiar o garfo em cada um dos potes de comida.
— Pare de encher a pança e vamos — diz minha tia a ele. — Temos que jantar com Claudia e Bill.
Eles me dão um abraço de despedida e dizem que vão me encontrar no enterro. Quando minha tia não está olhando, o tio Anthony me entrega seu cartão de corretor de imóveis. Assim que fecho a porta depois que eles saem, me recosto nela e solto o ar.
Acho que ter de interagir com todas as visitas é a pior parte dessa história de parente morto.
Não me lembro de as visitas terem sido tão frequentes quando minha mãe morreu sete anos atrás, mas Kyle estava vivo para fazer o papel que estou desempenhando agora. Fiquei enfiado no quarto, como Jordyn está agora, me escondendo de todo mundo. Imaginar Kyle cuidando das coisas quando ele era tão novo me enche de culpa. Ele deve ter sofrido com a morte dela tanto quanto eu, mas precisei que ele cuidasse das coisas porque não conseguia fazer nada a não ser desmoronar.
Passo as mãos pelo rosto, querendo que tudo termine logo. Quero que o dia chegue ao fim para que eu possa enfrentar o dia de amanhã e depois o enterro chegará e acabará. Só quero que as coisas se acalmem. Mas tenho medo de como vou me sentir quando a poeira finalmente tiver a chance de baixar.
Dou um pontapé na porta ao sair e sigo para a cozinha, então a campainha toca. De novo.
Resmungo, enquanto Tate passa por mim com um prato de comida.
— Eu atenderia, mas...
Ela olha para o prato e a bebida nas mãos.
— Se for para conseguir fazer com que ela coma alguma coisa, posso entreter as 10 milhões de visitas.
Tate concorda com a cabeça, solidária, voltando para o quarto de Jordyn.
Abro a porta.
Pisco duas vezes para ter certeza de que realmente a estou vendo.
Fallon me olha e não digo nada de imediato. Tenho medo de que se eu falar, a miragem
desapareça.
— Eu teria ligado antes — começa ela, parecendo nervosa. — Eu não sabia seu número. Mas eu só... — Ela solta o ar depressa. — Só queria saber se você estava bem.
Abro a boca para falar, mas ela ergue a mão e me impede.
— Acabei de mentir para você, desculpe. Não estou aqui para saber se você está bem. Sei que não está. Simplesmente não consegui fazer nada depois que você desligou. A ideia de não ver você hoje e ter que esperar mais um ano acabou comigo e...
Dou um passo à frente e uso minha boca para que ela se cale.
Ela suspira em meus lábios e me abraça, entrelaçando as mãos em minhas costas. Beijo-a intensamente, incapaz de acreditar que ela está mesmo comigo. Que seguiu direto para o aeroporto depois de falar comigo hoje e gastou dinheiro em uma passagem para vir de avião a Los Angeles só para me ver.
Continuo beijando Fallon enquanto a puxo para dentro de casa. Meu braço está em sua cintura, segurando-a perto de mim, com medo de que ela desapareça se eu soltar.
— Preciso...
Ela tenta falar, mas é impedida por minha boca que pressiona a sua. Ela abre a porta e tenta se afastar de mim. Eu a solto apenas o suficiente para que ela consiga dizer o que está tentando.
— Preciso dizer ao motorista que ele pode ir. Eu não sabia se você ia me querer aqui.
Dou a volta por ela e abro a porta completamente. Aceno para o motorista se afastar, fecho a porta e seguro sua mão.
Eu a puxo pela escada, para o meu quarto.
Para longe de todas as pessoas do mundo, que não quero ver agora.
Ela é a única que eu queria que estivesse comigo hoje e está aqui. Só por mim. Porque sentiu minha falta.
Se Fallon não tomar cuidado, posso me apaixonar por ela.