Novembro, 9
Ben
— São quase quatro horas — digo. — Volte às seis e estarei vestida e pronta para sair.
Ele segue para a porta do meu quarto, mas me olha novamente antes de sair.
— Quero que você prenda o cabelo no alto esta noite.
— Não abuse da sorte.
Ele ri.
— Pra que existe a sorte, se não posso abusar dela?
Aponto para a porta.
— Vá. Banho. E faça a barba no chuveiro.
Ele abre a porta e começa a se afastar.
— Barba, é? Pretende roçar sua boca no meu rosto hoje à noite?
— Vá — digo com um riso exasperado.
Ele fecha a porta, mas ainda ouço o que ele diz a Amber e Glenn assim que entra na sala de estar.
— É vermelha! A calcinha dela é vermelha!
Ben
Que diabos estou fazendo?
Ela está se mudando para Nova York. É um jantar. Só isso.
Mas, sério, que diabos estou fazendo? Eu não devia estar fazendo isso.
Visto uma calça jeans e entro no closet para pegar uma camisa limpa. Justo quando enfio a camisa pela cabeça, a porta se abre.
— E aí — diz Kyle, recostando-se no batente. — É bom ver você voltar para casa, para variar. — Meu Deus. Agora, não. — Quer jantar comigo e Jordyn hoje à noite?
— Não posso. Tenho um encontro.
Vou até a cômoda e pego meu perfume. Nem acredito que Fallon se dispôs a chegar perto de mim com o cheiro que eu estava hoje. É um pouco constrangedor.
— Ah, é? Com quem?
Pego a carteira na cômoda e depois meu casaco.
— Minha namorada.
Kyle ri enquanto passo por ele e sigo pelo corredor.
— Namorada? — Ele sabe que eu não namoro, então me segue para arrancar mais informações de mim. — Sabe que se eu contar a Jordyn que você tem um encontro com sua namorada, ela vai me interrogar até minha cabeça explodir. É melhor me dar mais informações.
Eu rio. Ele tem razão, a namorada dele gosta de saber tudo sobre todo mundo. E, por algum motivo, como Jordyn está prestes a vir morar com a gente, acha que já é da família. E ela é particularmente enxerida quando se trata da família.
Kyle me segue até a porta e por todo o caminho até meu carro. Segura a porta antes que eu consiga fechá-la.
— Sei onde você esteve ontem à noite.
Paro de tentar fechar a porta e me jogo no banco. Lá vamos nós outra vez.
— Sua namorada tem uma boca muito grande, sabia?
Ele se encosta na porta, olhando para mim de braços cruzados.
— Ela está preocupada com você, Ben. Todos nós estamos.
— Estou bem. Você vai ver. Vou ficar bem.
Kyle fica alguns minutos me olhando em silêncio, querendo acreditar em mim desta vez. Mas já prometi tantas vezes a ele que vou ficar bem, que agora entra por um ouvido e sai por outro. E
eu entendo. Mas ele não faz ideia de que desta vez é realmente diferente.
Ele desiste e fecha a porta sem dizer mais nada. Sei que ele só está tentando ajudar, mas não precisa. As coisas vão mesmo mudar. Entendi isso no instante em que pus os olhos em Fallon hoje.
• • •
Chego à porta da casa dela às 17h05, aproximadamente. Cheguei cedo, mas, como eu disse... ela está se mudando para Nova York e nunca mais vou vê-la. Cinquenta e cinco minutos a mais com ela nem chega perto do que eu quero.
A porta se abre quase no mesmo instante em que bato. Amber sorri para mim e dá um passo para o lado.
— Ah, oi, namorado da Fallon de quem nunca ouvi falar. — Ela indica o sofá. — Pode se sentar. Fallon está no banho.
Olho para o sofá, depois para o corredor que leva até o quarto de Fallon.
— Não acha que ela precisa da minha ajuda no banho?
Amber ri, mas depois, com a mesma rapidez, seu rosto fica inexpressivo e sério.
— Não. Sente-se.
Glenn está sentado no sofá à frente daquele em que sou forçado a me acomodar. Faço um gesto de cabeça e ele ergue uma sobrancelha, em alerta. Acho que este é o momento de que Fallon me avisou.
Amber atravessa a sala e se senta ao lado de Glenn.
— Fallon me disse que você é escritor.
Concordo com a cabeça.
— Ben, o Escritor. Eu mesmo.
Pouco antes de ela disparar a segunda pergunta, Fallon aparece subitamente no corredor.
— Oi. Achei que tinha escutado você aqui.
Não há nenhum sinal de que ela tenha acabado de tomar um banho. Eu me viro para Amber, que dá de ombros.
— Não custava nada tentar.
Eu me levanto e ando até o corredor, apontando para Amber, mas olhando Fallon.
— Sua amiga é muito enxerida.
— É mesmo — diz Fallon. — E você chegou uma hora mais cedo.
— Cinquenta e cinco minutos.
— Dá no mesmo.
— Nada disso.
Ela se vira e volta na direção da porta do quarto.
— Estou muito cansada de brigar com você, Ben. — Ela entra no banheiro perto do seu quarto. — Terminei de fazer as malas. Ainda nem comecei a me arrumar.
Volto a ocupar meu lugar na cama.
— Não tem problema. Já estou à vontade. — Estendo o braço e pego o livro na mesa de cabeceira. — Vou ficar lendo até você ficar pronta.
Ela enfia a cabeça pela porta do banheiro e olha para o livro em minhas mãos.
— Cuidado. Esse é dos bons. Pode fazer você mudar de ideia sobre escrever um romance.
Torço o nariz e balanço a cabeça. Ela ri e desaparece de novo no banheiro.
Abro a primeira página do livro, com a intenção de apenas dar uma olhada. Quando me dou conta, estou na página 10.
Página 17.
Página 20.
37.
Meu Deus, isso parece crack.
— Fallon?
— Oi? — diz ela do banheiro.
— Você já terminou este livro?
— Não.
— Bom, preciso que você termine antes de se mudar para Nova York, então vai poder me dizer se ela realmente encontra o irmão.
Ela reaparece na porta num átimo.
— O quê?! — grita. — Ele é irmão dela?
Sorrio.
— Peguei você.
Ela revira os olhos e desaparece outra vez no banheiro. Eu me obrigo a parar de ler e jogo o livro de lado. Olho ao redor do quarto de Fallon e já parece diferente de quando estive aqui, uma hora atrás. Ela tirou todas as fotos da mesa de cabeceira, sendo que eu sequer tinha dado uma boa olhada nelas. O closet está quase vazio, exceto por algumas caixas no chão.
Mas quando entrei, notei que ela havia mantido o vestido. Eu estava imaginando que ela fosse mudar de ideia e guardá-lo na mala antes que eu tivesse a chance de interferir.
Pelo canto do olho, noto um movimento, então olho para o banheiro. Ela está parada na soleira da porta.
Meus olhos se fixam primeiro no vestido. Mereço crédito por ter escolhido este. Mostra o suficiente do seu decote para me deixar bem e feliz, mas não tenho certeza se vou conseguir desviar os olhos do rosto dela por tempo suficiente para olhar o decote.
Não sei dizer que diferença há nela, porque não parece que está maquiada, mas de algum modo está ainda mais bonita do que antes. Fico feliz por ter abusado da sorte e lhe pedido para prender o cabelo, porque ela o penteou num coque pequeno e bagunçado no alto da cabeça e estou adorando. Eu me levanto e vou até a soleira da porta, onde ela está encostada. Levo as mãos ao batente, acima de sua cabeça, e sorrio para ela.
— Bonita pra cacete — sussurro.
Ela sorri e depois baixa a cabeça.
— Estou me sentindo idiota.
— Mal conheço você, então não vou discutir sobre seu nível de inteligência, porque você pode muito bem ser burra como uma porta. Mas, pelo menos, é bonita.
Ela ri e se fixa por um instante em meus olhos, mas depois seu foco se dirige para a minha boca e, meu Deus, quero beijar essa garota. Quero beijá-la tanto que chega a doer e não estou conseguindo mais sorrir, porque sinto muita dor.
— O que foi?
Faço uma careta e seguro o batente da porta com mais força.
— Quero tanto, tanto te beijar, que estou dando o meu melhor para não fazer isso agora mesmo.
Ela afasta a cabeça e suas sobrancelhas se unem, demonstrando confusão.
— Você sempre passa a impressão de que quer vomitar quando tem vontade de beijar uma
garota?
Balanço a cabeça.
— Até encontrar você, não.
Ela bufa e esbarra em mim ao passar. Isso não saiu como eu queria.
— Não quis dizer que pensar em beijar você me deixa enjoado. Quis dizer que quero tanto te beijar que meu estômago chega a doer. Parece dor no saco, mas em vez disso é no estômago.
Ela começa a rir e leva as mãos à testa.
— O que vou fazer com você, Ben, o Escritor?
— Pode me beijar e me fazer sentir melhor.
Ela balança a cabeça e anda até a cama.
— Nem pensar. — Ela se senta na cama e pega o livro que eu estava lendo. — Leio muitos romances, então sei quando é o momento certo. Se vamos nos beijar, tem de ser digno de um livro. Depois que me beijar, quero que você esqueça completamente aquela Abitha de quem não para de falar.
Vou para a outra extremidade da cama e me deito ao lado dela, que está encostada na cabeceira. Rolo de lado e me apoio no cotovelo.
— Quem é Abitha?
Ela dá um riso forçado para mim.
— Isso mesmo. De agora em diante, quando você conhecer uma garota, é melhor compará-la comigo e não com ela.
— Usar você como padrão é totalmente injusto com o resto da população feminina.
Ela revira os olhos, supondo que estou brincando mais uma vez. Mas, com toda sinceridade, a ideia de comparar alguém com Fallon é ridícula. Não tem comparação. E é um saco só ter passado algumas horas com ela e já saber disso. Eu quase queria nunca ter conhecido ela.
Porque eu não namoro de verdade, ela está de mudança para Nova York e só temos 18 anos e...
tanta... coisa.
Olho para o teto e me pergunto como isto vai funcionar. Como vou simplesmente me despedir dela esta noite, sabendo que nunca mais vou falar com ela? Tapo os olhos com meu antebraço.
Queria não ter entrado naquele restaurante hoje. Não dá para sentir falta de quem nunca nos foi apresentado.
— Ainda está pensando em me beijar?
Jogo a cabeça no travesseiro e olho para ela.
— Fui além do beijo. Casa comigo.
Ela ri e se mexe na cama para ficar de frente para mim. Sua expressão é tranquila, com o vestígio de um sorriso. Ela estende a mão e coloca a palma em meu pescoço. Minha respiração fica ofegante.
— Você fez a barba — diz ela, passando o polegar pelo meu queixo.
Acho que nenhuma parte de mim consegue sorrir quando ela me toca desse jeito, porque não há absolutamente nada de bom no fato de que não vou sentir isso de novo depois desta noite. É
cruel pra cacete.
— Se eu pedir o número do seu telefone, você me dá?
— Não — responde ela, quase de imediato.
Comprimo bem os lábios e espero ela me explicar por que não, mas Fallon não faz isso.
Simplesmente continua passando o polegar de um lado a outro do meu queixo.
— E-mail?
Ela balança a cabeça.
— Você tem pelo menos um pager? Um fax?
Ela ri e é bom ouvir sua risada. O clima estava ficando pesado demais.
— Não quero um namorado, Ben.
— Então, está terminando comigo?
Ela revira os olhos.
— Você entendeu o que eu quis dizer. — Ela afasta a mão do meu rosto e a coloca na cama entre nós dois. — Só temos 18 anos. Estou me mudando para Nova York. Nós mal nos conhecemos. E prometi a minha mãe que não me apaixonaria por ninguém antes dos 23.
Concordo, concordo, concordo e... O quê?
— Por que 23?
— Minha mãe diz que a maioria das pessoas tem a vida definida aos 23 anos, então quero ter certeza de que sei quem sou e o que quero da vida antes de me apaixonar. Porque é fácil se apaixonar, Ben. A parte difícil vem quando você quer cair fora.
Faz sentido. Se você for o Homem de Lata.
— Acha que pode mesmo controlar se vai ou não se apaixonar por alguém?
— Se apaixonar pode não ser uma decisão consciente, mas se afastar da situação antes que aconteça, é. Então, se eu conhecer alguém por quem acho que posso me apaixonar... Vou me afastar de sua presença até estar preparada para isso.
Uau. Ela parece uma mini-Sócrates com todos esses conselhos sobre a vida. Acho que devia anotar. Ou debater com ela.
Mas, sinceramente, fico aliviado que ela esteja dizendo essas coisas porque estava com medo de que fosse me beijar bêbada e, no fim da noite, me convencesse de que somos almas gêmeas.
Porque Deus sabe que se ela pedir, vou me jogar, sabendo que é a última coisa que devo fazer.
Os homens não dizem não para uma garota como ela, por mais que achem relacionamentos pouco atraentes. Os homens veem peitos combinados com um ótimo senso de humor e acham que encontraram a porra do Santo Graal.
Mas cinco anos parecem uma eternidade. Tenho certeza de que ela nem vai se lembrar desta noite depois de cinco anos.
— Pode me fazer um favor, então, e me procurar quando tiver 23 anos?
Ela ri.
— Benton James Kessler, você vai ser um escritor famoso demais daqui a cinco anos para se lembrar de alguenzinho como eu.
— Ou você vai ser uma atriz famosa demais para se lembrar de mim.
Ela não responde. Na verdade, meu comentário a deixa triste. Ficamos em silêncio em nossos lugares, de frente um para o outro na cama de Fallon. Mesmo com as cicatrizes e a evidente tristeza em seus olhos, ela ainda é uma das garotas mais bonitas que já vi. Seus lábios parecem macios e convidativos e estou tentando ignorar os nós no meu estômago, mas sempre que olho para sua boca, a intensidade das tentativas de me conter me obriga a fazer uma careta. Tento não imaginar como seria se eu me inclinasse para a frente e a beijasse, mas, com Fallon assim tão perto, desejo de verdade já ter lido de algum jeito todos os romances já escritos, porque o que faz um beijo valer um livro? Preciso saber, para fazer acontecer.
Ela está deitada sobre o lado direito do corpo e, com esse vestido, grande parte da sua pele está exposta. Consigo ver onde as cicatrizes começam, pouco abaixo do pulso, subindo pelo braço e pelo pescoço, espalhando-se pelo rosto. Toco seu rosto assim como ela estava tocando o meu. Eu a sinto se retrair sob a minha palma, porque estou tocando a parte que ela nem mesmo queria que eu olhasse algumas horas atrás. Passo depressa o polegar pelo seu queixo, depois deslizo a mão por seu pescoço. Ela fica tensa sob meu toque.
— Isso te incomoda?
Seus olhos ficam tremeluzindo, se fixando e se desviando dos meus.
— Não sei — sussurra ela.
Será que sou o único que já tocou suas cicatrizes? Já sofri acidentes e me queimei tentando cozinhar, então sei como é quando uma queimadura cicatriza. Mas as marcas dela são muito mais salientes do que uma queimadura superficial. Sua pele parece muito mais macia ao toque do que uma pele normal. Mais frágil. Há alguma coisa na sensação em meus dedos que me faz ter vontade de continuar tocando nela.
Fallon deixa. Por vários minutos de sossego, nenhum dos dois fala e continuo passando os dedos por seu braço e pelo pescoço. Os olhos dela ficam marejados, como se ela estivesse prestes a chorar. Isso faz com que eu me pergunte se ela não está gostando. Consigo entender por que isto a deixaria pouco à vontade, mas, por algum motivo distorcido, me sinto mais confortável com ela agora do que me senti o dia todo.
— Eu deveria odiar isso por você — sussurro, passando os dedos pelas cicatrizes do seu antebraço. — Deveria ficar furioso por você, porque a dor de passar por isso deve ter sido excruciante. Mas, por algum motivo, quando toco em você... gosto de sentir sua pele.