Novembro, 9
Fallon
Parece muito complicado, mas, na realidade, é muito simples.
Tudo está relacionado.
Tudo está conectado.
E tudo começa em 9 de novembro. Dois anos atrás, fiquei frente a frente com Fallon O’Neil pela primeira vez.
Em 9 de novembro.
A primeira e última vez que minha mãe morreria.
Em 9 de novembro.
A noite em que eu propositalmente iniciei o incêndio que quase tirou a vida da garota que um dia salvaria a minha.
Fallon
Olho fixamente para o papel diante de mim, em completa incredulidade. A bile sobe depressa pela minha garganta.
O que foi que eu fiz?
Engulo em seco para forçar a bile a descer e isso arde.
A que monstro dei meu coração?
Minhas mãos estão tremendo. Sou incapaz de me mexer. Não consigo decidir se preciso ler mais... chegar à página seguinte, onde obviamente vai estar claro que tudo ali é obra da imaginação magnífica, porém pervertida de Ben. Que ele encontrou um jeito de tornar nossa história mais comercial misturando realidade e ficção. Será que leio mais?
Ou fujo?
Como posso fugir de um alguém a quem me doei aos poucos durante quatro anos?
Ou serão seis?
Ele me conhecia desde que eu tinha 16 anos?
Já me conhecia no dia em que nos encontramos no restaurante?
Ele estava lá por minha causa?
Tanto sangue, todo ele, cada gota corre por minha cabeça, até que meus ouvidos começam a doer com a pressão. O medo se apodera do meu corpo, como se eu estivesse na beirada de um penhasco. O medo agarra cada parte de mim.
Preciso sair daqui. Pego meu celular e, em voz baixa, peço um táxi.
Dizem que há um carro na rua e que vai chegar em alguns minutos.
Estou tomada por um grande medo. Medo dessas páginas em minhas mãos. Medo da decepção. Medo do homem que está dormindo no cômodo ao lado, a quem acabei de prometer todos os meus amanhãs.
Empurro a cadeira para trás com o intuito de pegar minhas coisas, mas, antes de me levantar, ouço a porta do quarto dele se abrir. Em alerta máximo, giro a cabeça por cima do ombro. Ele parou na soleira da porta, esfregando os olhos para afastar o sono.
Se eu pudesse congelar este momento, aproveitaria ao máximo para observá-lo. Passaria os dedos pelos lábios dele para descobrir se realmente são tão suaves quanto as palavras que saem dali. Seguraria suas mãos e roçaria os polegares nas suas palmas para descobrir se realmente seriam capazes de acariciar as cicatrizes pelas quais foram responsáveis. Passaria os braços em volta dele e ficaria na ponta dos pés para sussurrar em seu ouvido: “Por que você não me contou que a base na qual me ensinou a ficar de pé é de areia movediça?”
Noto o olhar dele se voltar para as páginas do manuscrito, agarradas com força em minha mão. Em questão de segundos, cada pensamento que ele tem reflete em seu rosto.
Ele está se perguntando como eu o encontrei.
Está se perguntando o quanto li.
Ben, o Escritor.
Quero rir, porque Benton James Kessler não é um escritor. Ele é um ator. Um mestre da fraude que acabou de concluir uma apresentação de quatro anos de duração.
Pela primeira vez, não o vejo como o Ben por quem me apaixonei. O Ben que, sozinho, mudou minha vida.
Neste momento, só o vejo como um estranho.
Alguém de quem não sei absolutamente nada.
— O que está fazendo, Fallon?
A voz dele me faz estremecer. É idêntica à voz que disse “eu te amo” há apenas uma hora.
Só que agora a voz dele me enche de pânico. O terror me consome e um acesso de inquietação me domina.
Não faço ideia de quem ele é.
Não faço ideia de qual era sua motivação nos últimos anos.
Não faço ideia do que ele é capaz.
Ele começa a avançar em minha direção, portanto faço a única coisa em que consigo pensar.
Corro para o outro lado da mesa, esperando impor uma distância segura entre mim e este homem.
A mágoa toma seu rosto quando ele vê minha reação, mas não sei se é autêntica ou ensaiada.
Não faço ideia se devo acreditar em tudo que acabei de ler... ou se ele inventou todas aquelas coisas para ter um enredo.
Já chorei por muitos motivos na vida. Principalmente de tristeza, mas às vezes de frustração ou raiva. Mas esta é a primeira vez que uma lágrima de medo escorre dos meus olhos.
Ben vê a lágrima rolar por meu rosto e levanta a mão, tentando me tranquilizar.
— Fallon.
Seus olhos estão arregalados e exibem quase tanto medo quanto os meus. Mas não sei mais se o que vejo em seu rosto é real.
— Fallon, por favor. Me deixe explicar.
Ele parece muito preocupado. Muito verdadeiro. Talvez seja ficção. Talvez ele tenha transformado nossa história em ficção. Com certeza ele não fez isso comigo. Aponto para o manuscrito, torcendo para ele não notar o tremor em minha mão.
— Isso é verdade, Ben?
Ele olha para o manuscrito, depois volta a me encarar, como se não tivesse estômago para ver as páginas na mesa. Negue com a cabeça, Ben. Negue. Por favor.
Ele não faz nada.
A ausência de uma negação da parte dele me atinge com força e eu arquejo.
— Me deixe explicar. Por favor. Era só...
Ele começa a andar na minha direção, então cambaleio para trás até encontrar a parede.
Preciso sair daqui. Preciso ficar longe dele.
Ele segue para a direita, em vez de para a esquerda, o que o deixa mais distante da porta da frente do que de mim. Consigo fazer isso. Se for bem rápida, consigo chegar à porta antes dele.
Mas por que ele está permitindo que isto aconteça? Por que está me dando a chance de fugir?
— Quero ir embora — digo a ele. — Por favor.
Ele assente, mas ainda está com a mão erguida, a palma virada para mim. Seu aceno de cabeça me diz uma coisa, mas sua mão me pede para ficar onde estou. Sei que ele quer me dar uma explicação... mas a não ser que vá me dizer que o que acabei de ler não é verdade, não quero ficar e ouvir mais nada que ele tenha a dizer.
Só preciso que ele me fale que não é verdade.
— Ben — sussurro, as mãos na parede às minhas costas. — Por favor, me diga que o que li não é verdade. Por favor, diga que não sou a merda do seu enredo pervertido.
Minhas palavras provocam a única expressão que eu torcia para não ver. Arrependimento.
Sinto o gosto da bile de novo.
Agarro minha barriga com força.
— Ai, meu Deus.
Quero sair. Preciso sair daqui antes que fique enjoada e fraca demais para ir embora. Os próximos segundos não passam de um borrão enquanto murmuro “ai, meu Deus” de novo e corro para o sofá. Preciso da minha bolsa. Dos meus sapatos. Quero sair, quero sair, quero sair.
Chego à porta e puxo a tranca para a esquerda, mas a mão dele encontra a minha e seu peito toca minhas costas, me pressionando na porta.
Fecho os olhos com força quando sinto sua respiração em minha nuca.
— Desculpe. Desculpe, desculpe, desculpe.
Suas palavras são tão desesperadas quanto o aperto que ele me dá ao girar meu corpo e me colocar de frente para ele. Ben está enxugando minhas lágrimas e as dele começam a brotar em seus olhos. — Sinto muito. Por favor, não vá.
Não vou cair nessa. Não vou deixar que ele me engane de novo. Eu o empurro, mas ele agarra meus pulsos, segurando-os em seu peito enquanto encosta a testa na minha.
— Eu te amo, Fallon. Meu Deus, eu te amo tanto. Por favor, não vá embora. Por favor.
Nesse instante, tudo dentro de mim sofre uma metamorfose de um extremo a outro. Não sinto mais medo.
Sinto raiva.
Estou furiosa.
Porque ouvir essas palavras saindo da boca de Ben me faz refletir sobre a diferença que sinto ao ouvi-las agora e uma hora atrás. Como ele se atreve a mentir para mim? A me usar para o propósito de um livro? A me fazer acreditar que viu quem realmente sou, e não as cicatrizes em meu rosto?
As cicatrizes pelas quais ele é responsável.
— Benton James Kessler. Você não me ama. Nunca mais diga isso. Nem para mim... nem para ninguém. Essas três palavras são uma desgraça quando saem da sua boca.
Seus olhos se arregalam e ele cambaleia para trás quando empurro seu peito com as mãos.
Não lhe dou tempo para dizer mais mentiras e dar falsas desculpas.
Bato a porta e me atrapalho com a alça da bolsa, colocando-a no ombro. Meus pés descalços tocam a calçada e saio correndo até o táxi que vejo encostando perto do prédio dele. Ouço-o chamar meu nome.
Não.
Não vou ouvir. Não devo nada a ele.
Abro a porta do táxi e entro. Dou meu endereço ao motorista, mas enquanto o taxista o coloca
no GPS, Ben alcança o carro. Antes que eu perceba que a janela está aberta, ele enfia a mão para dentro e tapa o botão que a fecha. Seus olhos estão suplicantes.
— Tome — diz ele, empurrando as páginas para mim, que caem no meu colo, sendo que algumas escorregam para o chão. — Se não vai me deixar explicar, então leia. Leia tudo. Por favor, só...
Pego várias páginas do meu colo e largo ao meu lado no banco. Agarro as que restam e tento jogar pela janela, mas ele pega e enfia de volta dentro do carro.
Estou fechando a janela quando o ouço murmurar: