Novembro, 9

Colleen Hoover · Capítulo 7 de 33

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Novembro, 9

Fallon

Eu não estava esperando isso quando ele disse para nos encontrarmos na casa dele. Eu meio que esperava um apartamento, mas esta é uma casa moderna de dois andares. Uma casa- casa. Ele fecha a porta depois de entrarmos e segue para a escada. Vou atrás dele.

— Não trouxe bagagem? — pergunta ele.

Não quero pensar no pouco tempo que vou realmente ficar aqui.

— Vou voltar esta noite.

Ele para no meio da escada e se vira para mim.

— Esta noite? Não vai nem passar a noite na Califórnia?

Balanço a cabeça.

— Não posso. Preciso estar em Nova York às oito da manhã. Meu voo sai às dez e meia desta noite.

— O voo leva mais de cinco horas — diz ele, preocupado. — Com o fuso horário, você só vai conseguir chegar em casa depois das seis da manhã.

— Vou dormir no avião.

Suas sobrancelhas se afastam e sua boca se comprime.

— Não acho isso bom para você — diz ele. — Devia ter ligado. Podíamos ter mudado a data ou coisa assim.

— Não tenho seu telefone. Além do mais, isso estragaria toda a premissa do seu livro. É 9 de novembro ou nada, lembra?

Acho que talvez ele esteja fazendo beicinho, mas lembro que foi ele quem inventou esta regra.

— Desculpe ter chegado atrasada. Ainda temos seis horas antes que eu tenha que ir para o aeroporto.

— Cinco horas e meia — corrige ele.

Ben volta a subir a escada. Eu o sigo até o quarto, mas agora sinto que ele está chateado comigo. Sei que provavelmente havia formas de ir e voltar de avião no mesmo dia, mas, para ser sincera, eu nem tinha certeza se ele ia aparecer. Achei que ele devia ter dias loucos e espontâneos com namoradas falsas o tempo todo e sequer se lembraria de mim. Imaginei que não ficaria constrangida demais comigo mesma por acreditar que ele apareceria se eu conseguisse voltar para o avião algumas horas depois e fingir que isso nunca aconteceu.

Mas ele não só apareceu, como ainda esperou minhas duas horas de atraso.

Duas horas.

É extremamente lisonjeiro. Eu provavelmente teria desistido depois da primeira hora, achando que ele tinha me dado bolo.

Ben abre uma porta e gesticula para que eu entre primeiro. Sorri para mim enquanto entro em seu quarto, mas seu sorriso parece forçado.

Ele não tem direito de ficar chateado comigo. Nós combinamos de nos encontrar hoje e, sim, eu me atrasei, mas vim. Eu me viro e apoio as mãos no quadril, pronta para me defender caso ele diga mais alguma palavra sobre o pouco tempo que temos. Ele fecha a porta e se encosta nela, mas em vez de tocar nesse assunto de novo, tira os sapatos. A decepção some de seu rosto e, na verdade, ele parece... sei lá... feliz.

Depois de tirar os sapatos, ele se aproxima rapidamente de mim e me empurra. Dou um gritinho quando caio para trás, mas antes que possa entrar em pânico, minhas costas tocam uma nuvem. Ou uma cama. Seja o que for, é a coisa mais confortável em que já me deitei.

Ele se aproxima com um sorriso irônico e brilho nos olhos.

— Vamos ficar à vontade — diz ele. — Temos muito o que conversar.

Ele se posiciona entre meus joelhos e levanta uma das minhas pernas para tirar o sapato. É

uma sapatilha, então ele tira com facilidade. Em vez de baixar meu pé, passa a mão lentamente pela minha perna enquanto se abaixa na cama.

Eu tinha me esquecido de como é quente na Califórnia. Ele realmente precisa ligar um ventilador.

Ben ergue minha outra perna e tira o sapato do mesmo jeito, passando a mão por ela num ritmo torturante, tudo isso enquanto sorri para mim.

A altitude daqui é diferente da de Nova York? Meu Deus, está tão difícil respirar neste quarto.

Quando fico descalça, ele dá a volta por mim e se senta na cabeceira da cama.

— Venha cá — diz ele.

Eu me viro de bruços e o encontro deitado em um travesseiro com a cabeça apoiada na mão.

Dá um tapinha no travesseiro ao lado dele.

— Eu não mordo.

— Que pena — digo, me arrastando para onde ele está. Eu me deito no travesseiro de frente para ele. — Desde que nos conhecemos, noventa por cento do nosso tempo juntos foram passados em uma cama.

— Não há nada de errado nisso. Adorei seu cabelo.

Suas palavras me deixam agitada, mas sorrio como se ouvisse isso todo dia.

— Ora, obrigada.

Ficamos nos olhando em silêncio por um momento. Eu estava começando a me esquecer da aparência de Ben, mas agora que estou diante dele, parece que nunca fui embora. Agora ele parece menos um adolescente do que no ano passado. E isso me faz questionar se ano que vem, quando eu o encontrar, ele estará um homem. Não que haja alguma diferença entre um homem e um cara de 19 anos, porque são a mesma coisa.

— Não temos muito tempo — afirma ele. — Tenho uma tonelada de perguntas. Tenho um livro para escrever e não sei absolutamente nada sobre você.

Abro a boca para argumentar, porque parece que ele sabe tudo a meu respeito. Mas depois fecho a boca, porque acho que, na realidade, ele não sabe muita coisa sobre mim. Só passamos um dia juntos.

— Você escreveu alguma coisa este ano?

Ele assente.

— Escrevi. Você beijou alguém este ano?

Confirmo com a cabeça.

— Beijei. E você?

Ele dá de ombros.

— E você, Ben?

Ele assente.

— Algumas vezes.

Tento não deixar que isso me afete, mas “algumas” significa exatamente quantas vezes?

— E você comparou todas comigo?

Ele confirma com a cabeça.

— Falei ano passado que isso é totalmente injusto com o resto da população feminina. Você é incomparável.

Estou muito feliz por ter vindo hoje. Não me importa se eu ficar sem dormir por uma semana, valerá a pena só para receber esse elogio.

— E os seus caras? Você teve encontros?

— Cara — corrijo. — Teve só um. Eu tentei.

Ele ergue uma sobrancelha, então logo fico na defensiva.

— Ben, você não pode esperar que eu me jogue de cabeça em um estado totalmente novo sendo que eu nunca saí lá. Leva tempo. Fiquei muito orgulhosa quando beijei esse único cara.

Ele achou que fiquei eufórica por causa do beijo, mas eu só estava feliz porque risquei um item do meu dever de casa.

Ele ri.

— Bom, acho que um vai servir. Mas isso quer dizer que seu dever de casa para este ano acabou de ficar um pouco mais pesado.

— Ah, tudo bem. Então o seu também vai ficar. E por falar nisso, quero provas deste livro que você está escrevendo. Quero ler alguma coisa que você escreveu sobre nós.

— Não — responde ele no mesmo instante.

Eu me levanto na cama.

— O quê? Não? Não pode me dizer que escreveu algo este ano e não me provar. Me dê alguma coisa.

— Não gosto que as pessoas leiam o que escrevo.

Rio.

— Sério? Isso é o mesmo que um cantor de ópera se recusar a soltar alguma nota quando se apresenta.

— Não tem nada a ver. Vou deixar você ler quando eu tiver terminado.

— Vai me fazer esperar quatro anos?

Seus lábios se curvam em um sorriso quando ele assente.

Caio, derrotada, de volta no travesseiro.

— Suspiro.

— Você disse suspiro? Em voz alta? Em vez de realmente suspirar?

— Olho revirado.

Ele ri e se aproxima de mim. Agora estou olhando para cima e ele, para baixo, e seria ótimo se Ben não estivesse me olhando como se planejasse exatamente como seus lábios vão se fundir com os meus.

Suspiro fundo enquanto as mãos dele deslizam por meu queixo.

— Senti sua falta, Fallon — sussurra ele. — Muito. E dane-se se eu não devia confessar isso, mas tentei aquele lance de macho alfa por dois segundos e simplesmente não consigo. Então, hoje você não vai ter o Ben Alfa. Desculpe.

Nossa, será que ele está...

Ele está.

— Ben — digo, semicerrando os olhos. — Você está... me booksting?

Ele ergue uma sobrancelha.

— Booksting?

— É. Quando um cara gato fala de livros com uma garota. É como sexting, só que é falado e tem livros em vez de sexo. Nem tem a ver com mensagens de texto. Tudo bem, não tem nada a ver com sexting, mas fez sentido na minha cabeça.

Ele se joga na cama, rindo. Eu me aproximo dele e coloco a mão em seu peito enquanto me inclino na sua direção.

— Não pare — provoco com uma voz sedutora. — Me dê mais, Ben. Você leu e-books ou...

— Estou percorrendo lentamente seu peito com o dedo. — Capa dura?

Ele coloca as mãos na nuca e uma expressão presunçosa surge em seu rosto.

— Ah, eram de capa dura, sim. E não sei se você está preparada para isso, mas... tenho minha própria pilha de ASL. Devia ver, Fallon. É enorme.

Solto um gemido, mas não tenho certeza se é falso.

— Agora também sei o que torna um beijo digno de um livro — diz ele. — Então, prepare-se.

— Ele se apoia no cotovelo de novo e sorri. — Mas é sério. Essa atração feminina pelo macho alfa é um pouco brochante, porque não tenho nada a ver com os caras dos seus livros.

Não tem mesmo. Você é melhor.

— Eu nunca andaria de moto nem brigaria com outro homem só para me divertir. E por mais que eu tenha fantasiado sobre transar com você este ano, acho que eu nunca conseguiria dizer na cara dura: “eu sou seu dono”. E sempre quis fazer uma tatuagem, mas só uma pequena, porque de jeito nenhum ia suportar a dor. No geral, os livros eram interessantes, mas também me fizeram sentir muito inadequado.

Ele não pode estar falando sério.

— Ben, nem todos os caras dos livros que li são assim.

Ele inclina a cabeça.

— Mas é óbvio que você gosta dos bad boys, se gosta de ler sobre eles.

— Isso não é verdade. Gosto de ler livros assim porque não têm nenhuma relação com a minha vida. São totalmente diferentes de qualquer situação pela qual vou passar, ainda bem.

Mas me divirto com esses livros. Porque, por mais que eu goste de ler sobre um cara dizendo a uma garota que ela fica muito, muito molhada para ele... Se alguém me dissesse isso durante o sexo, eu não ficaria nada excitada. Eu ficaria apavorada de ter me mijado nas calças sem querer.

Ben ri.

— E se nós estivéssemos transando e você me dissesse eu sou seu dono, eu literalmente iria escapulir debaixo de você, vestir minha roupa, sair da sua casa e vomitar no seu jardim. Então, só porque gosto de ler sobre esse tipo de cara, não quer dizer que eu precise que os homens na vida real sejam assim.

Ele sorri com malícia.

— Posso ficar com você para mim?

Que pena que ele está só brincando.

— Sou toda sua pelas próximas cinco horas.

Ele me coloca deitada de costas.

— Me conte sobre esse garoto que você beijou. — O uso que ele faz da palavra garoto parece um insulto ao cara. Gosto disso. Ben fica fofo com ciúme. — Preciso saber de todos os detalhes do seu beijo, assim posso inserir uma trama secundária ao livro.

— Uma trama secundária? — pergunto. — Isso quer dizer que você já tem a trama principal?

A expressão dele não se altera.

— Então, como você o conheceu?

— Ensaios.

— Você saiu com ele?

— Duas vezes.

— Por que só duas vezes? O que aconteceu?

Quero dizer “suspiro” de novo. Realmente não quero falar sobre esse garoto.

— Não deu em nada. Temos mesmo que falar sobre isso?

— Temos. É parte do acordo.

Resmungo.

— OK. Ele se chama Cody. Tem 21 anos. Estávamos fazendo teste de elenco para a mesma peça e tivemos uma conversa legal. Ele pediu meu número e eu dei.

— Você deu a ele o número do seu telefone? — pergunta Ben, abatido. — Por que você não dá seu número para mim?

— Porque gosto de você de verdade. Enfim, saímos naquele fim de semana e nos beijamos algumas vezes. Ele era legal. Divertido...

Ben faz uma careta.

— Mais divertido do que eu?

— Seu senso de humor é incomparável, Ben. Pare de me interromper. Então concordei em sair com ele pela segunda vez. Fomos à casa dele para ver um filme. Começamos a nos agarrar e... eu simplesmente... não consegui fazer aquilo.

— Não conseguiu fazer aquilo? Tipo aquilo aquilo? Ou só se agarrar com ele?

Não sei o que é mais estranho. Conversar com Ben sobre a pegação que fiz com outro cara ou me sentir tão à vontade em falar com Ben sobre a pegação que fiz com outro cara.

Bom, pelo menos até então. Agora só quero ficar quieta.

— Não consegui nem uma coisa, nem outra. Foi...

Fecho os olhos, sem querer contar o verdadeiro motivo para eu não ter feito. Mas é Ben. É

fácil falar com ele.

— Foi diferente. Ele me fez sentir... sei lá. Defeituosa.

Noto que Ben engole em seco.

— Explique — pede ele, com a voz rouca.

Gosto que ele pareça um pouco aborrecido, gosto que ele, na realidade, não queira ouvir minha história sobre ficar com outro cara. E gosto ainda mais que ele pareça um pouco protetor

comigo.

Acho que Ben é mais alfa do que acredita ser.

Suspiro fundo, me preparando para a sinceridade que eu não devia querer compartilhar, na realidade, mas por algum motivo eu quero.

— Ano passado, quando você me tocou, me fez sentir... bonita. Como se eu não tivesse cicatriz alguma. Bom... não é nada disso, falei errado. Você fez com que eu sentisse que as cicatrizes faziam parte do que me fazia bonita. E eu nunca tinha sentido isso, nem pensei que um dia sentiria. Então, quando eu estava com Cody, reparei em tudo. Que ele só tocava o lado direito do meu rosto, que só beijava o lado direito do meu pescoço. Quando estávamos ficando, ele insistia que a luz ficasse apagada.

Ben faz uma careta como se estivesse sofrendo de novo, mas desta vez ele parece muito convincente.

— Continue. — Ele obriga as palavras a saírem de sua boca.

— Teve uma hora que ele tentou tirar meu sutiã, mas eu não podia fazer isso. Não queria que ele visse. Ele foi muito legal e não me pediu para continuar. E, para ser sincera, isso me incomodou um pouco. De algum jeito, eu queria que ele me consolasse e agisse como se ainda me quisesse, mas ele pareceu um pouco aliviado por eu ter parado.

Ben rola de costas e passa as mãos pelo rosto. Depois de um instante, retorna para sua posição, me olhando de cima.

— Por favor, nunca mais fale com esse idiota de merda.

Com essas palavras, uma onda surpreendente de calor me invade. O polegar dele roça meu queixo e sua expressão está cheia de sinceridade.

— Por que você não queria que ele visse?

A confusão em meu rosto o estimula a dar mais detalhes.

— Você disse: “Eu não queria que ele visse. ” Mas se você já estava sem blusa e ele tinha visto suas cicatrizes, você estava se referindo a quê?

Engulo em seco. Quero enfiar um travesseiro no rosto e me esconder. Nem acredito que ele se tocou disso.

Na verdade, acho que eu vou tapar o rosto dele com um travesseiro.

— Pare — diz ele, quando tento alcançar o travesseiro. Ben o recoloca atrás da minha cabeça e se inclina mais para perto. — Sou eu, Fallon. Não fique constrangida. Me conte a que você estava se referindo.

Respiro fundo, na esperança de que mais ar nos meus pulmões, de algum modo, me dê mais coragem para responder. Depois solto a respiração da forma mais lenta que consigo, assim posso enrolar antes de dar uma resposta.

Tapo os olhos com o braço e digo o mais rápido que dá:

— Meu seio esquerdo.

Fico esperando que ele faça mais perguntas, ou me obrigue a tirar o braço, mas ele não faz nada disso. Nem acredito que acabei de dizer isso a ele. Nunca revelei isso a ninguém, nem mesmo a Amber. Durante o incêndio, não só a maior parte do lado esquerdo do meu corpo foi queimada, mas, como se não fosse castigo suficiente, me machuquei quando tentaram me tirar pela janela do segundo andar. Por sorte, não me lembro de nada entre o momento de ir dormir naquela noite e acordar no hospital, mas as cicatrizes são um lembrete diário. E meu seio

esquerdo suportou a maior parte da tortura. Não sou idiota. Sei que para os garotos peitos devem ser bonitos e simétricos, e os meus não são.

Sinto a mão de Ben encostar no meu pulso e ele afasta meu braço do rosto. Coloca delicadamente as palmas na minha bochecha.

— Por que você ficaria incomodada se alguém visse? Porque tem cicatrizes?

Concordo com a cabeça, mas depois nego.

— Isso é tão constrangedor, Ben.

— Para mim não é. E tenho certeza absoluta de que não deveria ser para você. Já te vi sem blusa, lembra? Pelo que me lembro, era magnífico.

— Você me viu sem blusa, mas devia ter me visto sem sutiã. Aí entenderia.

De imediato, Ben se apoia em um cotovelo.

— Está bem.

Eu o encaro, sem acreditar.

— Isso não foi um convite.

— Mas quero ver.

Nego com a cabeça. Até rio, porque de jeito nenhum vou colocar o peito para fora da blusa para que ele fique encarando aquele horror.

— Quero que o livro seja justo e seus ferimentos são algo de que preciso falar. Então, você precisa me deixar ver. Vamos considerar isso como uma pesquisa.

As palavras dele parecem dar um tabefe em meu coração.

— O quê? — Minha voz está tão instável que passo a impressão de estar chorando. Mas não estou. Ainda. — Como assim, você vai ter que falar sobre isso no livro? Você não está escrevendo sobre minhas cicatrizes, né?

A confusão toma seu rosto.

— Faz parte da sua história. É claro que estou escrevendo sobre isso.

Eu me ergo com os cotovelos e estreito os olhos para ele.

— Eu queria que você me transformasse em ficção e me fizesse bonita, Ben. Você não pode transformar a personagem principal num show de horrores. Ninguém quer se identificar com isso. Personagens principais devem ser bonitas e...

No mesmo instante, Ben rola para cima de mim e tapa minha boca com a mão. Respira fundo, preparando-se para o que parece uma briga. Ele solta depressa o ar, torcendo o queixo de irritação.

— Escute bem — diz ele, mantendo a mão em minha boca para que eu não o interrompa. —

Fico irritado por você permitir que algo tão banal defina uma parte imensa de você. Não posso colocar você bonita neste livro, porque seria um insulto. Você é bonita pra cacete. E divertida.

E os únicos momentos em que não estou completamente enfeitiçado por você são os que você sente pena de si mesma. Porque não sei se você já se deu conta, mas você está viva, Fallon. E

toda vez que se olhar no espelho, não tem o direito de odiar o que vê. Porque você sobreviveu enquanto muita gente não teve tanta sorte. Então, de agora em diante, quando pensar em suas cicatrizes, não tem permissão para sentir rancor delas. Você vai adotá-las, porque tem sorte de estar na terra para vê-las. E é melhor que qualquer cara que você deixar que toque suas cicatrizes agradeça a você pelo privilégio.

Meu peito dói.

Não consigo respirar.

Ele afasta a mão da minha boca e então aproveito para inspirar com sofreguidão. Meus olhos transbordam de lágrimas e não consigo deixar de tremer ao tentar reprimi-las. Ben se inclina completamente sobre mim, aninhando minha cabeça nas mãos. Pressiona os lábios na lateral da minha cabeça e sussurra:

— Você mereceu essa, Fallon.

Concordo com a cabeça, porque ele tem razão.

Ele tem razão.

É claro que ele tem razão. Estou viva, com saúde e, sim, o incêndio deixou marcas na minha pele, mas não levou embora as partes mais importantes de mim. Não conseguiu alcançar nada abaixo da superfície. Então, por que me trato desse jeito?

Preciso parar de fazer isso comigo mesma.

— Shhhh — sussurra ele, passando o polegar pelas lágrimas em meu rosto.

Minhas emoções me dominaram completamente. Estou tão zangada porque ele sentiu que inclusive tinha o direito de falar comigo desse jeito, mas o fato de ter feito isso faz meu coração desejar ter lábios para beijá-lo. E estou brava comigo mesma por ter sido tão autocentrada nesses últimos anos. É claro que o incêndio foi um horror. Sim, eu queria que nunca tivesse acontecido. Mas aconteceu e não posso mudar isso, então preciso superar.

Fico com vontade de rir, porque tudo que ele disse parece ter tirado um peso do meu peito, e estou respirando pela primeira vez em três anos.

Tudo parece diferente. Mais novo. Como se o ar estivesse zumbindo, me lembrando de que tenho sorte por estar aqui, respirando.

Então é isso que faço. Respiro fundo e jogo os braços em volta dele, apoiando a cabeça nos ombros de Ben.

— Obrigada — sussurro. — Seu imbecil.

Sinto que ele ri, então me recosto no travesseiro e deixo que ele enxugue mais lágrimas minhas. Ele está me olhando como se eu fosse uma bela bagunça, e não vou me deixar questionar isso. Porque sou. Sou uma bela bagunça, porra, e ele tem sorte de estar por cima de mim.

Deslizo as mãos pelo seu peito e através da camisa sinto seu coração batendo. Tão forte quanto o meu.

Ficamos nos encarando e ele não pede permissão para baixar a cabeça e roçar a boca na minha.

— Fallon, estou excitado demais. Vou te beijar agora e não peço desculpas.

Então seus lábios reivindicam os meus. Minha cabeça gira, meu corpo parece flutuar e não consigo mexer os braços. Mas não preciso fazer isso, porque ele leva minhas mãos acima da cabeça e entrelaça nossos dedos, empurrando-os no colchão. Sua língua desliza pela minha e há tanto sentimento nisso, que é como se ele me beijasse da mesma forma que me olha. De dentro para fora.

Lentamente, ele planta beijos em meu pescoço, mantendo minhas mãos presas na cama, sem me permitir tocar nele enquanto explora minha pele. Meu Deus, como senti saudade dele.

Saudade de como me sinto quando estou com ele. Eu queria poder ter isso todo dia. Uma vez por ano está longe de ser o suficiente.

A pressão em minha mão direita desaparece quando ele passa os dedos por meu braço, até a cintura. Sua boca voltou à minha e ele me beija mais uma vez enquanto sua mão entra de mansinho debaixo da minha blusa. Basta sentir seus dedos na pele para me lembrar por que penso nele toda noite quando minha cabeça encosta no travesseiro.

— Estou tirando sua blusa — diz ele.

Eu nem hesito.

Eu nem hesito?

Ele tira a blusa pela minha cabeça e a joga para trás. Seus olhos se fixam em meus seios, tapados por um sutiã de renda preta que eu tinha certeza de que ele não veria esta noite. Ele abre um sorriso diabólico, passando a ponta dos dedos pela renda. Envolve meu seio direito com a mão em concha, arrastando o polegar pelo tecido que esconde o mamilo. No segundo em que faz isso, eu me retraio, porque já li livros suficientes para saber que o passo seguinte será me tocar por baixo do tecido. Meu corpo inteiro fica tenso porque acho que não quero que ele tire meu sutiã. Não quero que ele me veja inteira. Ninguém nunca me viu inteira.

— Linda — diz ele, deslizando a boca por meu peito. — Relaxe, está bem?

Eu poderia tentar, mas agora estou tensa porque ele me chamou de linda e não porque está prestes a ir aonde ninguém jamais foi.

Sempre achei esse apelido carinhoso meio irritante, mas dá certo quando ele o pronuncia.

Cravo os dedos em seu cabelo e o guio para meu seio esquerdo, me perguntando como isso foi de zero a dez em questão de segundos. Ah, meu Deus, ele está baixando a alça do meu sutiã. A boca de Ben está bem ali, acompanhando a curva do meu seio e seus dedos puxam o tecido para baixo... mais para baixo... mais... acabou.

Sinto o frescor do ar em meu seio exposto, mas meus olhos estão fechados com força demais para que eu veja a expressão dele. Mas sinto seus lábios enquanto ele beija meu peito sem hesitar, passando a língua em minha pele, chupando, beijando, apertando e... curtindo.

— Fallon.

Ben quer que eu olhe para ele, mas fico muito mais à vontade de olhos fechados.

— Abra os olhos, Fallon.

Consigo fazer isso.

Abro os olhos e encaro o teto.

Consigo fazer isso.

Lentamente, baixo os olhos até fitar os dele.

— Você é bonita. Cada centímetro seu é muito bonito.

Ele pressiona os lábios entre meus seios e os arrasta lentamente por minha pele, passando a língua nas cicatrizes. Espero ele dar uma desculpa... para se afastar de mim.

Mas não é o que ele faz. Em vez disso, sorri para mim.

— Você está bem? Posso continuar?

Minha primeira vontade é negar com a cabeça, porque eu não devia querer que ele continuasse. Antigamente, sempre que eu imaginava isto acontecendo com um cara, me imaginei com um corpo perfeito, sem cicatrizes. Mas aqui estou, olhando Ben, enquanto ele explora cada parte de mim que eu queria que fosse diferente. E ele está gostando de verdade disso.

E eu... também.

Concordo com a cabeça e talvez solte outro gemido porque puta merda, como ele é gostoso.

O fato de ser o motivo do seu olhar acalorado me faz sentir ainda mais desejável do que quando me imagino perfeita. Ele sobe os beijos por meu pescoço até pairar acima de mim. Passa a mão por minha nuca e baixa a cabeça.

— Desculpe. Não sei como pegar mais leve quando estou com você.

Mas ele não só se limita a pegar mais leve. Ele para completamente, porque a porta do quarto se abre.

Ben se deita por cima de mim depressa, me cobrindo, mas não é rápido o bastante para que eu deixe de ver a garota em pé na soleira da porta, de olhos arregalados.

Ah, meu Deus. A porta. A garota.

— Ben? — diz ela.

Acho que posso entrar em pânico.

— Podemos ter um minuto, Jordyn? — pede Ben, sem olhar para ela.

A porta logo é batida e um pedido de desculpas abafado vem do outro lado.

— Desculpe! Ah, nossa, mil desculpas!

A reação dela não é a de uma namorada irritada e isso me enche de alívio. Mas não diminui meu constrangimento.

— Desculpe — diz Ben. — Eu não sabia que ela estava em casa. — Ele me dá um selinho apressado e se levanta. — Não se preocupe. Isso é muito mais constrangedor para ela do que para nós.

Puxo o sutiã para cima dos seios e me sento na cama.

— Fale por você.

Ben pega minha blusa ao pé da cama e me devolve, me ajudando a vesti-la. Ele está sorrindo com malícia.

— Não é engraçado — sussurro.

Ele ri baixinho.

— Se você conhecesse Jordyn, saberia que, na verdade, é hilário.

Estou desconcertada e só neste momento percebo que na realidade conheço muito pouco de Ben.

— Ela é sua irmã?

— Vai ser, daqui a alguns dias — diz ele, me respondendo enquanto calça os sapatos. — Ela vai se casar com meu irmão Kyle neste fim de semana. Eles estão preparando tudo.

Ele tem um irmão?

Sou lembrada do pouco que realmente sei sobre a família dele.

— O casamento vai ser aqui? Eles moram aqui?

Ele assente.

— Meus irmãos e eu herdamos a casa depois que minha mãe morreu. Todos nós moramos aqui porque tem muito espaço. Meu irmão mais velho viaja muito, então ele passa mais tempo fora do que em casa. Kyle e Jordyn dividem o quarto principal no primeiro andar.

Não sei por que supus que Ben fosse filho único. E eu não fazia ideia que a mãe dele tinha morrido. Sinto que esse cara, que acabou de devorar meus peitos com a boca, é um completo estranho. Ele deve ter notado a confusão e o constrangimento ainda em meu rosto, então se curva para mim e sorri, tranquilizador.

— Mais tarde vamos fazer o jogo das perguntas e você vai saber quase tudo sobre mim. Por

mais entediante que minha vida seja. Mas, por enquanto, quero que você conheça minha futura irmã.

Ele puxa minhas mãos até que eu me levante. Calço os sapatos e o acompanho para fora do quarto. Chegamos ao topo da escada e ele para, me dá o beijo mais doce e suave antes de continuar descendo para encontrar Jordyn.

Coloque a culpa no fato de que sou péssima para romances, mas eu estava convencida de que quanto maior o gesto, maior o amor. Algumas das minhas cenas preferidas dos livros que li são aqueles pontos cruciais no arco da história, quando o cara declara seu amor pela garota de forma grandiosa. Mas, pelo que sinto com este pequeno beijo de Ben, acho que andei negligenciando as melhores partes dos romances. Talvez os gestos grandiosos não importem tanto quanto todas as coisas irrelevantes entre os dois personagens principais.

Isto me deixa com vontade de voltar atrás e reler tudo, agora que estou vivendo essas coisas com alguém na vida real.

— Sinto muito mesmo — diz alguém enquanto Ben me puxa para a cozinha. — Eu não fazia ideia de que você tinha chegado em casa e estava procurando uma tesoura, mas você está em casa e ela, sem dúvida, não é uma tesoura.

Ela é fofa. Mais baixa do que eu, cabelo louro típico da Califórnia e um rosto incapaz de esconder alguma emoção. Porque, neste exato momento, só de olhar para ela, sei que está prestes a desmoronar.

— Jordyn, esta é Fallon — diz Ben, gesticulando para mim.

Aceno e Jordyn imediatamente atravessa o cômodo e me dá um abraço.

— É um prazer conhecer você, Fallon. Não fique sem graça, é perfeitamente normal Ben ter garotas no quarto.

Volto a olhar para Ben e ele ergue as mãos, na defensiva, como se não soubesse por que ela disse isso. Levanto as palmas das mãos como se pedisse socorro, porque ela está me apertando muito e não sei o que devo fazer. Ben pigarreia e Jordyn finalmente me solta.

— Ah, meu Deus, dei a entender tudo errado — diz ela, sacudindo as mãos. — Não é normal ter garotas no quarto dele. Não foi isso que eu quis dizer. Só quis dizer que não precisa ter vergonha, somos todos adultos. Não foi minha intenção dizer que você é uma entre muitas. Na verdade, é raro ele trazer garotas aqui, por isso não pensei duas vezes antes de entrar no quarto, porque é tão raro que nunca pensei que ele realmente estivesse ali. Com você. Com uma garota.

Ela está andando de um lado para outro e sempre que tenho um vislumbre de seu rosto, ela parece estar prestes a chorar. Nunca vi ninguém precisando mais de um abraço do que ela agora.

Eu me aproximo de Jordyn e ela para de andar. Coloco as mãos nos ombros dela. Respiro fundo, de um jeito exagerado, endireitando minha postura. Ela imita o movimento, puxando ar para os pulmões. Solto a respiração com calma e ela faz o mesmo. Sorrio.

— Está tudo bem, Jordyn. Ben e eu estamos ótimos. Mas parece que você precisa de uma bebida. Ou de dez.

Ela concorda febrilmente e dá um tapa na própria boca assim que suas lágrimas começam a escorrer.

Ah, meu Deus. O que foi agora? Olho para Ben em busca de ajuda, mas ele está olhando para mim como se o comportamento de Jordyn fosse totalmente normal. De qualquer modo, ele se aproxima dela, virando seu rosto para ele.

— Ei — diz Ben num tom tranquilizador, puxando-a para um abraço. — Qual é o problema?

Ela balança a cabeça, apontando para o outro cômodo.

— Os marcadores dos lugares chegaram e metade foi escrita errada e as mesas e cadeiras deveriam chegar aqui esta manhã, mas transferiram a entrega para o dia seguinte, mas amanhã não vai dar, porque amanhã tenho que fazer a última prova do vestido e agora preciso ficar aqui para a entrega, e o voo da minha mãe foi cancelado, então ela não pode me ajudar a terminar os arranjos de flores esta noite e...

Ben a interrompe:

— Calma.

Ele gesticula para a geladeira, então ando pela cozinha e encontro meia garrafa de vinho.

Sirvo uma taça para Jordyn enquanto Ben a acalma. Quando a entrego, ela está sentada em um banquinho, enxugando as lágrimas.

— Obrigada — diz ela ao aceitar o vinho. — Normalmente não sou assim tão louca ou nervosa, mas esta é a pior semana da minha vida. Sei que vai valer a pena no fim, mas... — Ela me olha com severidade. — Nunca se case. Nunca. Só se você for para Las Vegas.

Finjo estar absorvendo seu conselho, mas o nível de estresse dela é suficiente para fazer qualquer um não desejar um casamento.

— Espere aí — diz ela, apontando para mim. — Seu nome é Fallon? De Fallon O’Neil?

Ah, não. Não sou reconhecida com frequência por causa da série, mas, quando isso acontece, em geral é por meninas que têm mais ou menos a idade de Jordyn. Garotas que deviam acompanhar religiosamente a série.

— Você não é a atriz que estrelava aquela série policial, é?

O braço de Ben envolve meu ombro como se ele tivesse orgulho desse fato.

— É ela mesma.

— Não brinca! Eu via essa série sempre! Bem, até que substituíram você por aquela garota canastrona.

Esse comentário me faz sentir bem. Não consegui me forçar a ver a série depois de ter sido substituída, mas não vou mentir e dizer que não fiquei um pouco aliviada por ter saído do ar duas temporadas depois por causa da queda na audiência.

— Por que você saiu do programa? — pergunta ela. Depois acrescenta: — Ah. Espere, eu me lembro. Você se machucou, não foi? Foi aí que ficou com as cicatrizes?

Sinto o braço de Ben ficar tenso no mesmo instante.

— Jordyn — diz ele.

Fico feliz por ele estar tentando interceptar a conversa por mim, mas é difícil ficar ofendida com Jordyn quando é evidente que ela só está curiosa e não está julgando nem um pouco.

— Está tudo bem — falo, assim que ela parece estar prestes a pedir desculpas. — Não passou de um acidente infeliz e foi uma droga ter que deixar a série. Mas sou grata por ter sobrevivido. Podia ter sido muito pior.

Sinto Ben beijar a lateral da minha cabeça e suponho que seja porque, para ele, é importante que as palavras de encorajamento que me disse no segundo andar talvez realmente tenham sido apreendidas.

A porta da frente bate e a atenção de todos é transferida da conversa sobre minha carreira para a voz de um homem.

— Onde está minha putinha? — chama ele.

Ai, meu Deus. Espero que não seja o noivo.

— Ian está em casa — afirma Ben. Ele segura minha mão e me puxa para a sala de estar. —

Venha conhecer meu irmão mais velho.

Sigo Ben até a sala e vejo um homem se ajoelhando perto da porta, fazendo carinho em um cachorrinho branco.

— Aí está minha putinha — diz ele com doçura à cadela. Quer dizer, da forma mais doce que essa frase pode soar.

— Olhe quem está aqui — diz Ben, chamando a atenção do cara.

Só quando Ian se levanta é que noto que ele está usando um uniforme de piloto.

Imediatamente, Ben gesticula para mim. Não vou mentir, conhecer gente nova é bem constrangedor. Mas conhecer a família de Ben traz todo um novo nível de constrangimento.

— Ian, esta é Fallon. Fallon, Ian.

Ian avança um passo à frente e aperta minha mão. Ele e Ben são muito parecidos, então não consigo deixar de encará-lo. Ele tem o maxilar forte de Ben e os dois têm a mesma boca, mas Ian é um pouco mais alto e é louro.

— E Fallon é sua... — Ele deixa a frase inacabada, esperando que Ben a complete. Mas Ben me olha e espera que eu faça isso.

Mas que droga é essa? Isso é que é ficar encurralada.

— Eu sou... o enredo do livro de Ben?

Ben dá uma gargalhada, mas Ian ergue uma sobrancelha com curiosidade. Fica ainda mais parecido com o irmão quando faz isso.

— Você está finalmente escrevendo um livro de verdade? — pergunta Ian.

Ben revira os olhos e pega minha mão para me puxar de volta para a escada.

— Ela não é meu enredo, é minha namorada e hoje é nosso aniversário de um ano.

Agora Jordyn está na sala, ao lado de Ian. Os dois olham para Ben como se ele estivesse guardando o maior segredo do mundo.

— Você está namorando há um ano inteiro? — questiona Jordyn, dirigindo a pergunta a mim.

Antes que eu possa dizer que ele só está brincando, ela ergue as mãos, derrotada. — Ben, você me disse que não ia levar uma acompanhante! Não encomendei cadeiras suficientes e, ai, meu Deus, já deve ser tarde demais!

Ela sai intempestivamente da sala para dar um telefonema desnecessário.

Dou um tapa no braço de Ben.

— Isso foi muita maldade! Ela já está estressada demais.

Ele ri e revira os olhos teatralmente, com um gemido.

— Está bem.

Ben vai atrás de Jordyn e assim que ficamos apenas Ian e eu na sala, a porta se abre. De novo. Meu Deus, quantas pessoas cabem nesta casa?

Mais um homem entra e vê primeiro Ian. Os dois se abraçam e ele dá tapas nas costas de Ian.

— Você disse que só ia chegar amanhã.

Ian dá de ombros.

— Miles ficou com as viagens de hoje no meu lugar, então consegui chegar mais cedo. O

tempo deve ficar ruim amanhã e eu não queria me atrasar.

O irmão que ainda não conheço fala:

— Cara, se você perdesse o jantar de ensaio para o casamento, Jordyn ia cortar meu... — Sua voz falha quando me vê parada no meio da sala.

Espero que ele diga alguma coisa, mas apenas me olha com cautela, de cima a baixo, cheio de desconfiança, como se eles não recebessem visitas com muita frequência. Ian dá um passo à frente e gesticula para mim.

— Conhece a namorada de Ben?

A expressão do cara não muda, a não ser por um arco quase imperceptível que surge na sua testa. Ele se empertiga rapidamente e anda em minha direção.

— Kyle Kessler — diz ele, estendendo a mão. — E você é?

— Fallon — respondo com uma voz um pouco acuada. — Fallon O’Neil.

Diferente de Ian e Ben, Kyle não me recebe de forma acolhedora. Não é que ele me receba com antipatia... Só não se parece com os irmãos. É mais sério. Mais intimidante. Por um segundo, noto que ele olha para o lado esquerdo do meu rosto e isto me faz questionar o que ele acha de Ben trazer para casa uma pessoa como eu. Mas depois me lembro das palavras que Ben me falou no segundo andar, e a sorte que ele tem de trazer para casa alguém como eu. Em vez de ceder a meu impulso inicial de deixar o cabelo cair no rosto, eu me empertigo... mais confiante.

Kyle solta minha mão quando Ben volta para a sala.

— Está tudo bem com Jordyn.

Ben para de imediato quando vê Kyle. Seus olhos se arregalam um pouco, como se ele estivesse chocado por ver o irmão, e noto uma mudança em sua postura. Ele tenta disfarçar com um sorriso.

— Você disse que só viria para casa à noite.

Kyle larga suas chaves numa mesa próxima e aponta para Ben.

— Precisamos conversar.

Não consigo interpretar o tom de voz de Kyle. Ele não parece muito zangado, mas também não parece satisfeito com Ben.

Ben abre um sorriso tranquilizador para mim antes de acompanhar Kyle para fora da sala.

— Volto logo — diz ele.

Fico sozinha com Ian mais uma vez. Enfio as mãos nos bolsos da calça jeans, sem saber o que fazer comigo enquanto espero por Ben.

Ian se abaixa e pega a cachorrinha branca a seus pés. Indica a escada com a cabeça.

— Não tomo um banho há três dias. É onde estarei, se um deles perguntar.

— Está bem — digo. — Foi um prazer conhecer você, Ian.

Ele sorri.

— O prazer foi meu, Fallon.

Então fico sozinha. Esses últimos minutos foram muito estranhos. A família de Ben é...

interessante.

Olho ao redor da sala, tentando descobrir uma pista de quem é Ben. Há fotos dele e dos irmãos no console da lareira. Pego uma para olhar mais atentamente. Ainda é complicado saber, mas nas fotos anteriores fica claro que Ben é o mais novo, e Ian, o mais velho. Mas não faço ideia de quantos anos separam os irmãos. Talvez dois ou três?

Não vejo foto nenhuma da mãe deles por ali. Isso me faz questionar há quanto tempo ela

morreu e onde está o pai. Ben ainda não falou nada sobre ele.

Ouço um baque alto no corredor. Com medo de que talvez seja Jordyn, sigo nessa direção.

Paro assim que vejo Ben espremido na parede com o braço de Kyle apertando seu pescoço.

— Você é idiota? — diz Kyle entre dentes.

Ben olha para o irmão como se quisesse matá-lo, mas não faz nenhum esforço para revidar.

Quando estou prestes a sair em disparada pelo corredor para afastar Kyle dele, Ben me vê pelo canto do olho. O irmão se vira para ver o que chamou a atenção de Ben e, assim que me vê, recua um passo, soltando-o.

Fico muito confusa com o que acabou de acontecer. Kyle está entre mim e Ben, olhando de um para outro. Justo quando parece que está prestes a se virar e sair, ele gira o corpo e acerta Ben em cheio no olho, jogando-o na parede.

— O que é isso?! — grito para Kyle.

Corro até Ben, que ergue e mão, me mantendo afastada.

— Está tudo bem — diz ele. — Vá lá para cima. Vou subir num minuto.

Ele está tapando o olho com a mão e Kyle continua ali, dando a impressão de que quer bater nele de novo. Mas recua assim que Jordyn vem correndo ver a cena. Ela olha de Kyle para Ben, chocada, como se isto não fosse típico dos dois.

E torna toda esta cena ainda mais confusa. Não tenho irmãos, mas, pelo que sei, eles se batem o tempo todo. Porém, pela reação de Jordyn, não é o que acontece nesta casa. Provavelmente ela vai começar a chorar a qualquer minuto.

— Você bateu nele? — pergunta ela a Kyle.

Por uma fração de segundo, Kyle parece envergonhado, como se quisesse se desculpar. Mas depois bufa e volta sua atenção a Ben.