Novembro, 9
Fallon
Ela respira fundo e solta o ar justo quando seus olhos encontram os meus.
— Ainda tenho um monte de coisa para guardar nas malas esta noite — disse ela. — Sabia que oferecer ajuda é a atitude educada de um namorado?
— Precisa de ajuda para fazer as malas? — disparo rapidamente.
Ela dá de ombros com indiferença.
— Tudo bem.
Fallon
Minha mãe é minha heroína. Um exemplo para mim. A mulher que quero me tornar. Ela suportou meu pai por sete anos. Qualquer mulher que consiga fazer isso por tanto tempo merece uma medalha de honra.
Quando me ofereceram o papel principal de Gumshoe, aos 14 anos, ela hesitou em me deixar aceitar. Detestava como a carreira do meu pai o obrigara aos refletores. Sentia um ódio imenso do homem no qual tudo isso o transformou. Ela disse que antes de se tornar um nome conhecido, ele era maravilhoso e encantador. Mas depois que a fama lhe subiu à cabeça, ela passou a não suportar mais ficar do lado dele. Disse que 1993 foi o ano que levou à morte de seu casamento, à ascensão da fama dele e ao nascimento da primeira e última filha do casal: eu.
Então, é claro que ela fez tudo o que pôde para não deixar que o mesmo acontecesse comigo quando comecei a atuar. Imagine fazer a transição para o limiar da condição de mulher enquanto é uma atriz promissora em Los Angeles. É muito fácil perder a si mesma. Vi isso acontecer com várias amigas minhas.
Mas minha mãe não deixou que isso acontecesse comigo. Assim que o diretor encerrava as gravações no set a cada dia, eu ia para casa e tinha que lidar com uma lista de tarefas e várias regras severas. Não estou dizendo que minha mãe era rigorosa. Ela só não me deu nenhum tratamento especial, por mais famosa que eu ficasse.
Ela também não permitiu que eu namorasse antes dos 16 anos. Assim, nos primeiros meses depois do meu 16º aniversário, fui a três encontros com três caras diferentes. E foi divertido.
Dois deles eram colegas de trabalho com quem eu podia ou não já ter ficado algumas vezes no camarim das gravações. E um era irmão de uma amiga minha. E não importa com quem eu saísse ou o quanto me divertisse, minha mãe teria a mesma conversa comigo sempre que eu chegava em casa de um encontro, sobre a importância de não se apaixonar enquanto não tivesse idade para conhecer verdadeiramente a mim mesma. Ela ainda tem a mesma conversa comigo e eu sequer saio.
Minha mãe teve uma compulsão por livros de autoajuda depois de se divorciar do meu pai.
Ela leu todo livro que conseguiu encontrar sobre criação de filhos, casamento, descobrir a si mesma como mulher. Depois de tudo isso, ela concluiu que meninas mudam mais entre os 16 e 23 anos do que em qualquer outra época da vida. E é importante para ela que eu não passe esses anos apaixonada por um cara, porque, se eu fizer isso, ela tem medo de que eu nunca aprenda a amar a mim mesma.
Ela conheceu meu pai quando tinha dezesseis e o deixou aos vinte e três, então acho que essas restrições de faixa etária têm alguma relação com sua experiência pessoal. Mas considerando que só tenho 18 anos e não pretendo sossegar com ninguém tão cedo, imagino que seja fácil seguir os conselhos dela e deixá-la levar o crédito. Isso, pelo menos, eu posso fazer.
Acho engraçado ela pensar que existe essa idade mágica em que a mulher finalmente aprende quem é. Mas vou admitir que uma das minhas citações preferidas é uma que ela mesma criou.
Você nunca vai conseguir se encontrar se estiver perdida em outra pessoa.
Minha mãe não é famosa. Não tem uma carreira incrível. Sequer se casou com o amor da sua vida. Mas uma coisa ela sempre teve...
Razão.
E é por isso que, até encontrar um motivo contrário, vou dar ouvidos a cada palavra que ela diz, por mais absurda que pareça. Pelo que sei, ela nunca me deu um conselho ruim, então, apesar de Benton James Kessler passar a impressão de ter saído direto das páginas de um dos inúmeros romances que guardo empilhados na estante do meu quarto, o cara não tem a menor chance comigo por pelo menos mais cinco anos.
Mas isso não quer dizer que eu não quisesse me arrastar até seu colo e montar nele, bem ali no banco do parque, enquanto enfiava a língua em sua boca. Porque foi muito difícil me conter depois que ele confessou que me achava bonita.
Não, espere.
Bonita pra cacete foram as palavras exatas dele.
E embora pareça bom demais para ser verdade e provavelmente seja cheio de defeitos e pequenos hábitos irritantes, ainda estou me sentindo gananciosa o bastante para querer passar o resto do dia com ele. Porque, quem sabe? Estou me mudando para Nova York, mas ainda posso montar nele esta noite e enfiar língua em sua boca.
Quando acordei hoje de manhã, pensei que este dia seria um dos mais difíceis dos últimos dois anos. Quem poderia dizer que o aniversário do pior dia da minha vida poderia acabar tão bem?
— 12, 25, jogo da velha — digo a Ben, passando o código do portão do meu prédio. Ele baixa a janela e digita o código. Peguei um táxi para encontrar meu pai no restaurante esta manhã, e por isso Ben se ofereceu para me levar para casa.
Indico uma vaga no estacionamento, então ele vira naquela direção, parando ao lado do carro da minha colega de apartamento. Nós dois saímos e nos encontramos na frente do veículo dele.
— Estou com a sensação de que deveria te alertar antes de entrarmos — digo.
Ele olha para o prédio e depois de volta para mim, desconfortável.
— Você não mora com um namorado real, não é?
Rio.
— Não, nada disso. Minha colega de apartamento se chama Amber e provavelmente vai bombardear você com milhões de perguntas, considerando que nunca entrei pela porta da frente acompanhada de um cara. — Não sei por que não me incomoda em nada confessar isso a ele.
Ele passa casualmente o braço por meus ombros e segue comigo para o prédio.
— Se está me pedindo para fingir que somos só amigos, não vai rolar. Não vou subestimar nossa relação por causa da sua amiga.
Rio e o levo à porta do meu apartamento. Ergo a mão para bater na porta, mas em vez disso giro a maçaneta. Esta ainda é minha casa por pelo menos mais dez horas, então eu não deveria sentir necessidade de bater na porta.
O braço de Ben se afasta dos meus ombros para que eu passe primeiro pela porta. Dou uma olhada na sala, mas encontro Amber em pé perto da bancada da cozinha, com o namorado. Ela e
Glenn já namoram há mais de um ano e nenhum deles me disse, mas tenho certeza de que ele vai se mudar para cá assim que eu sair esta noite.
Ela ergue a cabeça e seus olhos se arregalaram no segundo em que ela vê Ben entrando atrás de mim.
— Ei — digo animada, como se não fosse nada incomum trazer para casa um cara muito bonito de quem nunca falei.
Atravessamos a sala e os olhos de Amber permanecem fixos em Ben o tempo todo.
— Oi — diz ela finalmente, ainda encarando ele. — Quem é você? — Ela olha para mim e aponta para Ben. — Quem é ele?
Ben dá um passo para a frente e estende a mão.
— Benton Kessler — diz dele, apertando a mão dela. Em seguida, troca um aperto de mão com Glenn. — Mas pode me chamar só de Ben. — O braço dele volta a meu ombro. — Sou o namorado de Fallon.
Rio, mas só eu faço isso. Os olhos de Glenn observam Ben de cima a baixo.
— Namorado? — pergunta ele, voltando a atenção para mim. — Ele sabe que você está de mudança para Nova York?
Confirmo com a cabeça.
— Ele soube assim que nos conhecemos.
Amber ergue uma sobrancelha.
— E isso foi... quando?
Ela está confusa, porque sabe que costumo contar tudo a ela. E ter um namorado, sem dúvida nenhuma, é considerado parte de tudo.
— Ah, cara — diz Ben, me olhando de cima. — Quanto tempo faz agora, amor? Uma, duas horas?
— No máximo duas.
Amber estreita os olhos para mim. Já quer saber todos os detalhes e detesta ter que esperar Ben ir embora para consegui-los.
— Estaremos no meu quarto — digo despreocupadamente.
Ben dá um breve aceno para eles e afasta o braço dos meus ombros, entrelaçando os dedos nos meus.
— É um prazer conhecer vocês dois. — Ele aponta para o corredor. — Vou com a Fallon até o quarto dela para ver que tipo de calcinha ela usa.
Amber fica boquiaberta e Glenn ri. Empurro o braço de Ben, chocada por ele ter levado a piada a esse ponto.
— Não, você vai comigo até o meu quarto para me ajudar a fazer as malas.
Ele faz beicinho. Reviro os olhos e sigo na frente dele pelo corredor até meu quarto.
Amber e eu somos grandes amigas há mais de dois anos. Assim que nos formamos no ensino médio, nos mudamos juntas para este apartamento. O que significa que eu só morei aqui por seis meses, por isso parece que estou guardando todas as coisas que acabei de tirar das malas.
Quando entramos no meu quarto, Ben fecha a porta. Seus olhos percorrem o ambiente, e dou alguns minutos para ele bisbilhotar enquanto abro minha mala. O apartamento onde vou morar em Nova York é totalmente mobiliado, então só preciso levar minhas roupas e meus produtos de higiene. Todo o resto está na casa da minha mãe.
— Você gosta de ler? — pergunta ele.
Olho por cima do ombro e o encontro passando o dedo pelos livros na minha estante.
— Adoro ler. Você precisa se apressar a escrever um livro, porque já está na minha pilha ASL.
— Sua pilha ASL?
— A pilha A Ser Lido — esclareço.
Ele pega um dos livros da estante e lê a contracapa.
— Detesto te dizer isso, mas acho que você não vai gostar de qualquer livro que eu acabe escrevendo. — Ele devolve o livro à estante e pega outro. — Você parece gostar de histórias de amor e essa não é minha praia.
Paro de examinar as blusas no meu closet e olho para ele.
— Não — digo com um gemido. — Por favor, não me diga que você é um daqueles leitores pretensiosos que julgam as pessoas pelos livros que elas gostam.
Ele balança a cabeça no mesmo instante.
— De jeito nenhum. Só não entendo nada de escrever romances. Tenho 18 anos. Não sou especialista quando se trata de amor.
Saio do closet e me encosto na porta.
— Nunca se apaixonou?
Ele assente.
— Claro que sim, mas não do jeito que vale um romance inteiro, por isso não tenho como escrever sobre o assunto. — Ele se joga na cama e se recosta na cabeceira, olhando para mim.
— Você acha que Stephen King realmente foi assassinado por um palhaço na vida real? —
pergunto a ele. — Shakespeare tomou mesmo um frasco de veneno? Claro que não, Ben. Por isso se chama ficção. Você inventa essas merdas.
Ele sorri para mim de sua posição na cama e vê-lo sentado ali deixa meu rosto quente e me causa um incômodo. De repente sinto vontade de pedir para ele rolar em meus lençóis, assim posso sentir seu cheiro quando dormir esta noite. Mas então lembro que não vou dormir nestes lençóis esta noite porque estarei em um avião para Nova York. Eu me viro e fico novamente de frente para o meu closet, assim ele não vê meu rosto vermelho.
Ele ri baixinho.
— Você estava tendo pensamentos obscenos.
— Claro que não — respondo, alarmado.
— Fallon, estamos namorando há duas horas. Você me parece um livro aberto e neste exato momento acredito que é um livro cheio de cenas eróticas.
Rio e começo a tirar as blusas dos cabides. Só quero ter o trabalho de dobrá-las quando decidir como serão guardadas, por isso jogo tudo no meio do chão do quarto.
Retiro cerca de um quarto das blusas do meu closet antes de olhar de novo para Ben. As mãos dele estão apoiadas na nuca e ele me observa fazer a mala. Eu não esperava que ele fosse mesmo me ajudar quando chegássemos aqui, porque provavelmente ele tinha outras intenções.
Mas seu reconhecimento também me faz sentir bem por ele ainda parecer animado em ficar mais tempo comigo.
No caminho para cá, decidi que eu não ia questionar os motivos dele. É claro que meu lado inseguro ainda se pergunta que diabo um cara como ele está fazendo com uma garota como eu,
mas sempre que essa ideia entra de mansinho em minha cabeça, me lembro da conversa que tivemos no banco. E digo a mim mesma que tudo o que ele falou parecia verdadeiro, que ele sinceramente me acha atraente de algum jeito. E, para ser franca, será que isso realmente importa na totalidade das coisas? Estou me mudando para o outro lado do país, então o que acontecer nas próximas horas não terá nenhum impacto na minha vida, de um jeito ou de outro.
Quem liga se esse cara só quer transar comigo? Na verdade, eu prefiro que ele só queira isso. É
a primeira vez em dois anos que alguém me faz sentir desejável, por isso não vou me preocupar, porque estou curtindo muito tudo isso.
Vou até a cômoda e o ouço discar um número no celular. Fico em silêncio enquanto ele espera ser atendido.
— Posso fazer uma reserva para dois às sete horas esta noite?
O silêncio depois dessa pergunta é palpável enquanto espero para ouvir o que ele vai dizer em seguida. Meu coração trabalhou mais nas últimas duas horas do que nos dois últimos meses inteiros.
— Benton Kessler. K-E-S-S-L-E-R. — Mais silêncio. — Perfeito. Muito obrigado. — Mais silêncio.
Estou vasculhando minha primeira gaveta, fingindo que não estou rezando a Deus que Ben pretenda que eu seja a convidada dele nesse jantar. Eu o escuto se mexer na cama e se levantar, então me viro e o vejo andando na minha direção. Ele sorri e por cima do meu ombro espia a gaveta que estou vasculhando.
— É sua gaveta de calcinhas? — Ele pega uma. Arranco da mão dele e jogo na minha mala.
— Tire a mão — digo a ele.
Ele dá a volta por mim e apoia o cotovelo na cômoda.
— Se está levando as calcinhas, significa que não anda sem. Então, por um processo de eliminação, deduzi que agora você está de fio dental. Só preciso descobrir qual é a cor.
Jogo o conteúdo da gaveta na mala.
— É preciso muito mais do que esse papo furado para ver minha calcinha, Ben, o Escritor.
Ele sorri.
— Ah, é? Tipo o quê? Um jantar elegante? — Ele se afasta da cômoda e se empertiga, enfiando as mãos nos bolsos da calça jeans. — Porque por acaso acabei de fazer uma reserva no Chateau Marmont para as sete.
Rio.
— Não me diga.
Dou a volta por ele, indo até meu closet de novo, tentando esconder o sorriso enorme no meu rosto. Obrigada, meu Deus. Ele vai me levar para jantar. Assim que chego ao closet, meu sorriso perde o entusiasmo. Mas o que é que vou vestir? Não tenho um encontro desde quando eu nem tinha peito direito!
— Fallon O’Neil? — diz ele, desta vez da porta do closet. — Quer sair comigo esta noite?
Suspiro e baixo os olhos para minhas roupas chatas.
— Mas o que é que vou vestir para ir ao Chateau? — Olho para ele e faço uma careta. —
Não podíamos ir só ao Chipotle ou coisa assim?
Ele ri e depois entra no meu closet, esbarrando em mim. Mexe nas roupas do fundo.
— Comprido demais — diz ao passar pelos cabides, um por um. — Feio demais. Casual
demais. Elegante demais.
Por fim, ele para e pega algo pendurado. Vira-se com um vestido preto que eu pretendo jogar fora desde o dia em que minha mãe comprou para mim.
Ela está sempre comprando roupas para mim, na esperança de que eu realmente vá usá-las.
Roupas que não cobrem minhas cicatrizes.
Nego com a cabeça e arranco o vestido da mão dele, pendurando-o de volta no lugar. Pego um dos poucos vestidos de manga comprida que tenho e tiro do cabide.
— Gosto desse.
Seus olhos se voltam para o vestido que escolheu inicialmente e ele o tira do cabide, empurrando-o para mim.
— Mas quero que você use este.
Empurro o vestido de volta para ele.
— Não quero vestir isso, quero usar este.
— Não. Estou pagando o jantar, então posso escolher o que olhar enquanto comemos.
— Então eu vou pagar o jantar e usar o vestido que eu quiser.
— Então vou te deixar na mão e ir para o Chipotle.
Resmungo.
— Acho que estamos tendo nossa primeira briga de casal.
Ele sorri e estende a mão com o vestido que escolheu.
— Se você concordar em usar este vestido esta noite, podemos fazer as pazes agora, neste closet.
Ele é implacável. Mas não vou usar esse maldito vestido. Se tiver que ser sincera, serei.
Suspiro, frustrada.
— Minha mãe comprou esse vestido para mim no ano passado, quando estava na fase vamos dar um jeito na Fallon. Mas ela não faz ideia de como é desagradável estar na minha pele.
Então, por favor, não me peça outra vez para usar esse vestido, porque fico muito mais relaxada em roupas que não deixam muita pele à mostra. Não gosto de deixar as pessoas pouco à vontade e se eu usar algo assim, elas vão se sentir mal olhando para mim.
O maxilar de Ben fica tenso e ele vira o rosto, observando o vestido em suas mãos.
— Tudo bem — diz ele simplesmente, largando o vestido no chão.
Finalmente.
— Mas a culpa é toda sua se as pessoas ficam pouco à vontade olhando para você.
Sequer escondo minha surpresa. Essa é a primeira coisa que ele me disse durante todo o dia que me deixou com a sensação de estar falando com meu pai. Não vou mentir. Isso magoa.
Minha garganta parece inchar e se fechar, então pigarreio.
— Isso não foi muito gentil — digo baixinho.
Ben dá um passo na minha direção. Meu closet já é muito pequeno. Não preciso que ele chegue ainda mais perto. Ainda mais depois de dizer algo tão ofensivo.
— É a verdade — insiste ele.
Fecho os olhos, porque é isso ou encarar a boca que pronuncia palavras tão detestáveis.
Suspiro para me acalmar, mas empaco quando os dedos de Ben roçam o cabelo na frente do meu rosto. O contato físico inesperado me obriga a apertar os olhos ainda mais forte. Eu me sinto tão idiota por não obrigá-lo a ir embora ou, pelo menos, empurrá-lo para fora do closet.
Mas, por algum motivo, não consigo me mexer nem falar. Aliás, nem respirar.
Ele afasta o cabelo da minha testa, passando os dedos até que não esteja mais em meu rosto.
— Você usa o cabelo desse jeito porque não quer que as pessoas vejam muita coisa de você.
Usa mangas compridas e blusas de gola alta porque acha que ajuda. Mas não ajuda.
Parece que as palavras dele se transformam em punhos e socam minha barriga. Afasto o rosto de sua mão, mas mantenho olhos fechados. Tenho vontade de chorar de novo, e já chorei o bastante por causa de um aniversário idiota.
— As pessoas não se sentem desconfortáveis quando olham para você por causa das cicatrizes, Fallon. Ficam desconfortáveis porque você faz com que as pessoas sintam que é errado olhar para você. E acredite em mim... Você é o tipo de pessoa para quem as pessoas querem olhar. — Sinto a ponta de seus dedos roçarem meu queixo e estremeço. — Você tem uma estrutura óssea incrível e sei que esse é um elogio estranho, mas é verdade. — Seus dedos se afastam do meu maxilar e sobem por meu queixo até ele tocar minha boca. — E seus lábios. Os homens olham porque querem saber que gosto têm, e as mulheres olham por inveja, porque se tivessem lábios da cor dos seus, nunca mais precisariam comprar batom.
Solto o que pode ser uma mistura de riso e choro, mas ainda não me atrevo a olhar para ele.
Estou dura feito uma tábua, me perguntando onde ele vai me tocar em seguida. O que ele vai dizer em seguida.
— E só conheci uma garota na vida com um cabelo tão comprido e bonito como o seu, mas já te falei sobre Abitha. E só para você saber, ela não deve nada a você, apesar de beijar muito bem.
Sinto as mãos dele subirem e afastarem meu cabelo dos ombros. Ele está tão perto que sei que consegue ver meu peito subido e descendo freneticamente. Mas, meu Deus, de repente fica muito difícil respirar, como se eu estivesse 30 mil metros acima do nível que ocupava cinco minutos atrás.
— Fallon — diz ele, exigindo minha atenção. Seus dedos encontram meu queixo e ele inclina meu rosto para cima. Quando abro os olhos, ele está um pouco mais perto do que eu imaginava.
Está me olhando de cima com uma expressão penetrante. — As pessoas querem olhar para você. Acredite em mim, sou uma delas. Mas quando tudo em você grita “vire o rosto”, é exatamente o que elas vão fazer. A única pessoa que se importa com algumas cicatrizes no seu rosto é você.
Quero tanto acreditar nele. Se conseguisse acreditar em tudo o que ele diz, talvez minha vida significasse muito mais para mim do que significa agora. Se eu acreditasse nele, talvez não ficasse tão nervosa com a ideia de voltar a fazer testes de elenco. Talvez eu estivesse fazendo exatamente o que minha mãe diz que uma garota da minha idade deve fazer: descobrir quem realmente sou. E não me esconder de mim mesma.
Que droga, nem mesmo me visto para mim. Visto o que acho que os outros preferem me ver usar.
Os olhos de Ben se fixam na minha blusa e, pela primeira vez, noto seus pulmões puxando ar com tanto esforço quanto os meus. Ele ergue a mão e passa os dedos pelo primeiro botão da minha blusa, abrindo-o. Tomo fôlego depressa. Os olhos dele não desviam da minha blusa e os meus não se afastam do seu rosto. Quando ele leva os dedos ao segundo botão, posso jurar que a respiração dele fica trêmula.
Não sei o que ele está fazendo e morro de medo de ele estar prestes a ser a primeira pessoa a ver o que tem por baixo da minha blusa. Mas não consigo encontrar de jeito nenhum palavras que o impeçam.
Quando o segundo botão é aberto, ele desce para o terceiro. Antes de abrir este botão, seus olhos encontram os meus e ele parece tão assustado quanto eu. Continuamos nos entreolhando até que ele chega ao último botão. Quando solta, baixo os olhos para minha blusa.
Só uma parte da pele aparece acima do meu umbigo, então ainda não me sinto realmente exposta. Mas estou prestes a sentir, porque lentamente ele ergue as mãos para o topo da minha blusa. Antes que ele faça mais algum movimento, fecho bem os olhos de novo.
Não quero ver a expressão dele quando descobrir o quanto do meu corpo foi queimado.
Quase todo o meu lado esquerdo, para ser exata. O que ele vê quando olha meu rosto é só uma fração se comparado ao que há por baixo da minha roupa.
Sinto minha blusa sendo aberta e quanto mais de mim é exposto, mais fica difícil conter as lágrimas. É a pior hora do mundo para ficar sentimental, mas acho que as lágrimas não têm uma fama de timing impecável.
A respiração dele é extremamente audível, assim como seu suspiro quando minha blusa se abre por completo. Quero empurrá-lo para fora do closet, fechar a porta e me esconder, mas é exatamente isso o que venho fazendo nos últimos dois anos, então, por motivos que não consigo explicar, não peço para ele parar.
Ben desliza a blusa pelos meus ombros e, lentamente, por meus braços. Puxa pelo resto do caminho, passando por minhas mãos, até que a deixa cair no chão. Sinto as mãos dele roçando nas minhas e fico constrangida demais para me mexer, sabendo exatamente o que ele está vendo ao olhar para mim.
Os dedos dele sobem por minhas mãos e pelos pulsos, justo quando a primeira lágrima escorre pela minha bochecha. Mas a lágrima não o abala. Um arrepio percorre a maior parte da minha pele enquanto ele continua subindo com as mãos por meus antebraços. Em vez de correr os dedos até meus ombros, ele para. Ainda não me atrevo a abrir os olhos.
Sinto a testa dele encostar delicadamente na minha e, só o fato de que ele está respirando tão acelerado quanto eu, me dá algum conforto neste momento.
Sinto um frio na barriga quando suas mãos encontram a barra da minha calça jeans.
Isso está indo longe demais.
Longe demais, longe demais, longe demais, mas só consigo respirar loucamente e deixar que seus dedos abram o botão da minha calça, porque, por mais que eu queira que ele pare, tenho a sensação de que ele não está tirando minha roupa por prazer. Não sei muito bem o que ele está fazendo, mas estou imobilizada demais para perguntar.
Respire, Fallon. Respire. Seus pulmões precisam de ar novo.
A testa dele continua encostada na minha e sinto sua respiração em meus lábios. Tenho a sensação de que os olhos dele estão arregalados e ele está olhando para o espaço entre nós dois, observando as próprias mãos abrindo meu zíper.
Quando o zíper chega a seu destino, ele desliza as mãos entre minha calça jeans e meu quadril, tão despreocupadamente que eu chego a acreditar que nem incomoda tocar as cicatrizes do meu lado esquerdo. Ele puxa minha calça pelo quadril e começa lentamente a se abaixar, deslizando a calça por minhas pernas. A respiração de sua boca percorre meu corpo até que eu
a sinto parar na barriga, mas seus lábios não tocam nenhuma vez em minha pele.
Quando a calça jeans está nos meus pés, tiro um pé de cada vez.
Não faço ideia do que vai acontecer em seguida. O que vai acontecer em seguida? O que. Vai.
Acontecer. Em. Seguida?
Meus olhos ainda estão fechados e não faço ideia se ele está de pé, ajoelhado ou saindo dali.
— Levante os braços — diz ele.
Sua voz sai rouca e próxima de mim, e me assusta de tal modo que meus olhos se abrem involuntariamente. Ele está de pé bem na minha frente, segurando o vestido que largou no chão.
Olho para ele e de maneira nenhuma esperava ver aquela expressão. Seus olhos são tão acalorados e ferozes que é como se ele precisasse de cada grama de moderação para não retirar minhas duas últimas peças de roupa.
Ele pigarreia.
— Por favor, levante os braços, Fallon.
Faço isso e ele coloca o vestido pela minha cabeça, puxando-o por meus braços. Puxa até passar pela cabeça, e continua, ajeitando-o sobre minhas curvas. Quando o vestido finalmente está no lugar, ele levanta meu cabelo e o deixa cair nas costas. Dá meio passo para trás e me olha de cima a baixo. Pigarreia, mas sua voz ainda sai rouca quando ele fala.
— Bonita pra cacete — diz ele, abrindo um sorriso devagar. — E vermelha.
Vermelha?
Olho para o vestido, que sem dúvida é preto.
— Sua calcinha — disse ele, esclarecendo. — É vermelha.
Solto uma lufada de ar com o que pensei que fosse um riso, porém parece mais um choro trinado. É quando percebo que as lágrimas continuam escorrendo por meu rosto, então tento enxugar com as mãos, mas continuam escorrendo.
Não consigo acreditar que ele acabou de despir para provar seu argumento. Não acredito que eu permiti. Agora sei exatamente o que Ben quis dizer quando falou que acha difícil controlar sua indignação na presença do absurdo. Ele considera minhas inseguranças absurdas e assumiu a tarefa de me provar isso.
Ben dá um passo para a frente e me abraça. Tudo nele é reconfortante e quente e não faço ideia de como reagir. Uma das mãos dele toca minha nuca e ele pressiona meu rosto em seu peito. Estou rindo de como minhas lágrimas são ridículas, porque, quem faz isso? Quem chora quando um cara tira sua roupa pela primeira vez?
— É um recorde — diz Ben, me afastando do seu peito para me olhar. — Fiz minha namorada chorar em menos de três horas de relacionamento.
Rio outra vez, depois pressiono o rosto em seu peito e o abraço também. Por que ele não estava lá no segundo em que acordei no hospital, dois anos atrás? Por que tive de enfrentar dois anos inteiros antes de finalmente ter alguma confiança?
Depois de mais um ou dois minutos em que tento conter minhas emoções erráticas, finalmente me sinto calma o bastante para notar que ele não tem um cheiro tão bom quando minha cara está enfiada numa camisa que ele não tira há dois dias.
Eu me afasto e passo os dedos embaixo dos olhos de novo. Não estou mais chorando, mas tenho certeza de que tem rímel para todo lado.
— Vou usar esse vestido idiota com uma condição — digo. — Se você for para casa e tomar
um banho primeiro.
O sorriso dele aumenta.
— Isto já fazia parte dos meus planos.
Ficamos ali em silêncio por mais um tempo, depois não consigo ficar neste closet nem por mais um segundo. Empurro os ombros dele e o expulso do quarto.