Novembro, 9
Ben
Se eu fosse Benton James Kessler, daria um fora em mim de mentirinha agora mesmo.
Ben
Apoio a cabeça nas mãos e espero ela voltar do banheiro.
Eu devia ir embora, na verdade.
Mas não quero sair. Sinto que atrapalhei o dia dela com a artimanha que usei com o pai. Por mais tranquilo que eu tenha tentado ser, não entrei na vida dessa garota com a elegância discreta de uma raposa. Invadi com a sutileza de um elefante de sete mil quilos.
Por que senti necessidade de me intrometer? Por que achei que ela não era capaz de lidar sozinha com o próprio pai? Agora ela deve estar chateada comigo e só fomos namorados falsos por meia hora.
Por isso decidi não ter namoradas na vida real. Sequer consigo fingir um namoro sem começar uma briga.
Mas acabei de pedir para ela um prato quente de salmão, então talvez isso compense alguma coisa, certo?
Ela finalmente sai do banheiro, mas assim que me vê ainda sentado ao lado de seu lugar à mesa, ela para. A expressão confusa deixa claro que a garota tinha certeza de que eu teria ido embora quando ela voltasse para a mesa.
Eu devia ter ido embora. Devia ter saído meia hora atrás.
Podia, devia, faria.
Eu me levanto e faço sinal para ela se sentar. Ela me olha com desconfiança enquanto ocupa seu lugar. Estendo o braço para a outra mesa e pego meu laptop, meu prato de comida e a bebida. Coloco tudo na mesa dela, depois ocupo o lugar em que o pai babaca dela estava sentado minutos atrás.
Ela baixa os olhos para a mesa, provavelmente se perguntando aonde foi parar sua comida.
— Tinha esfriado — digo a ela. — Falei para o garçom trazer outro prato para você.
Os olhos dela se fixam rapidamente nos meus, mas a cabeça não se mexe. Não sorri, nem agradece. Só... olha.
Dou uma mordida no meu hambúrguer e começo a mastigar.
Sei que ela não é tímida. Deu para perceber que ela é insolente pelo jeito que falou com o pai, então fico um pouco confuso com seu silêncio. Engulo a comida e tomo um gole do meu refrigerante, o tempo todo sustentando o contato visual silencioso com ela. Queria poder dizer que estou preparando mentalmente um pedido de desculpas brilhante, mas não estou. Parece que tenho uma mente focada que leva diretamente às duas coisas em que eu não devia estar pensando neste momento.
Os peitos dela.
Os dois.
Eu sei. Sou ridículo. Mas se vamos ficar sentados aqui nos encarando, seria legal se ela
estivesse com um decote, no lugar dessa blusa de manga comprida que deixa tudo para a imaginação. Lá fora está fazendo uns 27 graus. Ela devia estar vestindo algo bem menos...
inspirado num convento.
Um casal sentado a algumas mesas de distância se levanta e passa por nós, seguindo para a saída. Noto que Fallon baixa a cabeça e deixa o cabelo cair no rosto como um escudo protetor.
Nem mesmo acho que ela tenha noção de que faz isso. Parece uma reação natural tentar disfarçar o que ela considera um defeito.
Deve ser por isso que ela está usando uma blusa de manga comprida. Impede que vejam o que está por baixo.
E é claro que este pensamento me leva de novo aos peitos dela. Será que também têm cicatrizes? Quanto do corpo dela foi realmente afetado?
Começo a despi-la na minha mente, mas não de um jeito sexual. Só estou curioso. Curioso de verdade, porque não consigo parar de encarar a garota e isto não é típico de mim. Minha mãe me criou com mais educação do que isso, mas o que ela não conseguiu me ensinar é que existiriam garotas assim, cuja mera existência testaria nossas boas maneiras.
Um minuto inteiro se passa, talvez dois. Como a maior parte das minhas batatas fritas, observando a garota olhar para mim. Ela não parece zangada. Não parece assustada. A essa altura, sequer tenta cobrir as cicatrizes que se esforça de forma tão desesperada para esconder de todos os outros.
Seus olhos começam a baixar lentamente até se fixarem na minha camisa. Ela fica olhando por um instante, depois desvia o olhar para os meus braços, os ombros, o rosto. Ela para quando chega em meu cabelo.
— Aonde você foi hoje de manhã?
A pergunta dela é totalmente despropositada e me faz parar no meio da mastigação. Achei que a primeira pergunta que ela me faria seria por que me dei o trabalho de interferir em sua vida pessoal. Demoro alguns segundos para engolir, tomo um gole, limpo a boca, depois me recosto na cadeira.
— Como assim?
Ela aponta para o meu cabelo.
— Seu cabelo está uma zona. — Ela gesticula para minha camisa. — Você está usando a mesma camisa de ontem. — Seus olhos se fixam em meus dedos. — Suas unhas estão limpas.
Como ela sabe que estou com a mesma camisa de ontem?
— Então, por que saiu de onde estava quando acordou com tanta pressa hoje? — pergunta ela.
Baixo os olhos para a minha camisa, depois para minhas unhas. Como é que essa garota sabe que saí com pressa esta manhã?
— Gente desleixada não tem unhas limpas como as suas — afirma ela. — O que contradiz a mancha de mostarda na sua camisa.
Olho para a minha camisa. A mancha de mostarda que até então eu não tinha notado.
— Seu hambúrguer tem maionese. E como nunca se come mostarda no café da manhã, e você está devorando a comida como se não comesse desde ontem, então é mais provável que a mancha seja do que você comeu no jantar da noite passada. E é óbvio que você não se olhou no espelho hoje, ou não teria saído de casa com o cabelo desse jeito. Você tomou banho e dormiu
sem secar o cabelo? — Ela toca seu cabelo comprido e brinca com as mechas entre os dedos.
— Porque um cabelo grosso como o seu fica retorcido quando a pessoa dorme com ele molhado. É impossível ajeitar sem lavar de novo. — Ela se inclina para a frente e me olha com curiosidade. — Mas como é que a parte da frente do seu cabelo ficou tão virada para cima?
Você dormiu de bruços ou coisa assim?
Mas ela é o quê? Detetive?
— Eu... — Olho para ela, sem acreditar. — É. Dormi de bruços. E estava atrasado para a aula.
Ela assente como se fosse algo de que já soubesse.
O garçom aparece com um prato novo de comida e serve mais água para a garota. Ele abre a boca como se quisesse dizer alguma coisa para ela, que não presta atenção. Ainda olhando para mim, ela resmunga um agradecimento para ele.
O garçom parece prestes a se afastar, mas, antes de fazer isso, ele para e se vira para ela.
Retorce as mãos, evidentemente nervoso para fazer a pergunta que está quase saindo de sua boca.
— Então... Hmm. Donovan O’Neil? Ele é seu pai?
Ela olha para o garçom com uma expressão indecifrável.
— Sim — responde de forma monótona.
O garçom sorri e relaxa com a resposta dela.
— Nossa. — Ele balança a cabeça, fascinado. — Mas não é incrível? Ter o Max Epcott como pai?
Ela não sorri nem se retrai. Nada em seu rosto indica que esta é uma pergunta que ela já ouviu milhões de vezes. Espero por sua resposta sarcástica, porque, com base em como respondeu aos comentários absurdos do pai, de jeito nenhum o coitado do garçom vai sair daqui ileso.
Justo quando acho que ela vai revirar os olhos, a garota suspira baixinho e sorri.
— É muito surreal. Sou a filha mais sortuda do mundo.
O garçom abre um largo sorriso.
— Que legal.
Quando ele se vira e se afasta, ela me olha de novo.
— Aula de quê? — pergunta.
Preciso de um instante para processar a pergunta dela porque ainda estou tentando processar a resposta boba que ela acabou de dar ao garçom. Quase pergunto sobre isso, mas penso melhor.
Sei que para ela é mais fácil dar as respostas que as pessoas esperam ouvir, em vez de um sermão repleto de verdades. E ela deve ser a pessoa mais leal que já conheci, porque não sei se eu conseguiria dizer essas coisas sobre aquele homem se ele fosse meu pai.
— Redação criativa.
Pensativa, ela sorri e pega o garfo.
— Eu sabia que você não era ator. — Ela come uma garfada do salmão e antes mesmo de engolir, já está cortando outro pedaço. Os vários minutos seguintes se passam em completo silêncio, enquanto nós dois terminamos de comer. Limpo todo o meu prato, mas a menina afasta o dela antes de ter terminado metade. — Então, me diga uma coisa. — Ela se inclina para a frente. — Por que você achou que eu precisava que viesse me resgatar com aquela besteira de namorado falso?
E aí está. Ela está chateada comigo. Pensei mesmo que estivesse.
— Não achei que você precisasse ser resgatada. É só que às vezes tenho dificuldade de controlar minha indignação quando presencio algo absurdo.
Ela ergue uma sobrancelha.
— Você só pode ser escritor, porque quem é que fala desse jeito?
Rio.
— Desculpe. Acho que estou tentando dizer que posso ser um idiota temperamental e devia cuidar da minha própria vida.
Ela tira o guardanapo do colo e o coloca no prato. Um dos seus ombros se ergue num leve gesto de indiferença.
— Não me importo — diz ela com um sorriso. — Foi meio engraçado ver meu pai tão atrapalhado. E nunca tive um namorado falso antes.
— Nunca namorei alguém de verdade — respondo.
Os olhos dela se fixam no meu cabelo.
— Pode acreditar, isso está óbvio. Ninguém que eu conheça teria saído de casa com essa sua aparência.
Fico com a impressão de que ela não se importa tanto com a minha aparência, não tanto quanto está demonstrando. Com certeza sofre discriminação física, então tenho dificuldade de acreditar que ela seria do tipo que coloca a aparência física de um cara no topo da sua lista de prioridades.
Fico achando que ela está me provocando. Se eu não tivesse alguma experiência na vida, diria que está dando mole para mim.
É. Eu definitivamente deveria ter saído desse restaurante há muito tempo, mas este é um dos poucos momentos em que agradeço com sinceridade pela enorme quantidade de decisões ruins que costumo tomar.
O garçom traz a conta, mas, antes que eu consiga pagar, Fallon pega o dinheiro que o pai jogou na mesa e entrega a ele.
— Precisa do troco? — pergunta o garçom.
Ela gesticula com desdém.
— Pode ficar.
O garçom limpa a mesa e, quando se afasta, não resta nada entre nós. O fim iminente da refeição me deixa um pouco inquieto, porque não sei o que dizer para mantê-la aqui por mais tempo. A garota está de mudança para Nova York e é provável que eu nunca mais a veja. Não sei por que pensar nisso me deixa ansioso.
— Então — diz ela. — Devemos nos separar agora?
Rio, embora ainda esteja tentando entender se ela tem uma cara de pau inacreditável ou não tem nenhuma personalidade. Há uma fronteira tênue entre as duas coisas, mas aposto que é a primeira. Quer dizer, estou torcendo para que seja.
— Não faz nem uma hora que estamos namorando e você já quer dar um fora em mim? Não sou muito bom nesse lance de namorado?
Ela sorri.
— Meio bom demais. Para ser sincera, isso me faz sentir esquisita. É este o momento em que você acaba com a ilusão definitiva de namorado e me diz que ficou com a minha prima enquanto
estávamos dando um tempo?
Não consigo deixar de rir outra vez. Sem dúvida nenhuma, cara de pau.
— Não fiquei com a sua prima. Ela já estava grávida de sete meses quando dormi com ela.
Ouço uma gargalhada contagiante e nunca fiquei mais agradecido por ter um senso de humor um pouco decente. Só vou permitir que essa garota saia da minha frente quando ouvir pelo menos três ou quatro dessas gargalhadas.
Sua risada enfraquece, seguida por um sorriso. Ela olha para a porta.
— Você se chama mesmo Ben? — pergunta ela, encontrando meu olhar.
Confirmo com a cabeça.
— Qual é o seu maior arrependimento na vida, Ben?
Uma pergunta estranha, mas vou na onda. O esquisito parece totalmente normal com essa garota e pouco importa que eu nunca contaria para ninguém meu maior arrependimento.
— Acho que ainda não passei por isso — minto.
Ela me encara pensativa.
— Então você é um ser humano decente? Nunca matou ninguém?
— Até agora.
Ela reprime um sorriso.
— Então, se passarmos mais tempo juntos hoje, você não vai me matar?
— Só se for em legítima defesa.
Ela ri e pega sua bolsa. Pendura no ombro e se levanta.
— Isso é um alívio. Vamos à Pinkberry e podemos terminar o namoro durante a sobremesa.
Detesto sorvete. Detesto iogurte.
Detesto especialmente iogurte que finge ser sorvete. Mas é claro que pego meu laptop e minhas chaves e a sigo até o inferno aonde ela quer me levar.
• • •
— Como você pode morar em Los Angeles desde os 14 anos sem nunca ter colocado os pés na Pinkberry? — Ela parece quase ofendida. Afasta-se de mim para olhar mais uma vez as opções de toppings. — Você já ouviu falar na Starbucks pelo menos?
Rio e aponto para a bala de ursinho. O atendente coloca uma colherada no meu pote.
— Eu praticamente moro na Starbucks. Sou escritor. É um rito de passagem.
Ela está na minha frente na fila, esperando nossa vez de pagar, mas olha meu pote com nojo.
— Ai, meu Deus — diz ela. — Você não pode vir à Pinkberry e comer só os toppings. — Ela me olha como se eu tivesse matado um filhote de gato. — Você é humano, por acaso?
Reviro os olhos e cutuco seu ombro para fazê-la se virar.
— Pare de me censurar ou vou largar você antes que a gente encontre uma mesa.
Pego uma nota de vinte na carteira e pago nossa sobremesa. Abrimos caminho pela loja lotada, mas não há mesa vaga. Ela vai direto para a porta, então eu a sigo até a calçada e andamos até encontrar um banco vago. Ela se senta de pernas cruzadas e coloca o pote no colo.
É a primeira vez que dou uma olhada em seu pote e percebo que ela não colocou topping nenhum.
Olho para o meu pote: não tem nada além de toppings.
— Eu sei — diz ela, rindo. — Jack Sprat não come gordura...
— E a mulher magrela não atura — completo.
Ela sorri e coloca uma colherada na boca. Tira a colher e lambe o frozen yogurt do seu lábio inferior.
Eu não estava esperando por esse dia. Ficar sentado de frente para essa garota, vendo-a lamber iogurte dos lábios e tendo de engolir em seco só para ter certeza de que ainda estou respirando.
— Então quer dizer que você é escritor?
A pergunta dela me dá a base de que preciso para me fazer acordar. Concordo com a cabeça.
— Assim espero. Nunca fiz nada profissionalmente, então ainda não sei se posso me denominar escritor.
Ela se remexe até ficar de frente para mim e apoia o cotovelo no encosto do banco.
— Não é preciso ter um salário para validificar que você é escritor.
— Validificar não é uma palavra de verdade.
— Está vendo? Eu nem sabia disso, então você obviamente é um escritor. Com ou sem salário, considero você um escritor. Ben, o Escritor. É assim que vou me referir a você daqui em diante.
Rio.
— E como devo me referir a você?
Ela passa alguns segundos mordendo a ponta da colher, estreitando os olhos, pensativa.
— Boa pergunta. Agora meio que estou em transição.
— Fallon, a Transitória — proponho.
Ela sorri.
— Pode ser.
Suas costas se encostam no banco quando ela se vira para a frente. Ela descruza as pernas, permitindo que seus pés encontrem o chão.
— Então, que tipo de coisa você quer escrever? Ficção? Roteiros?
— Espero que tudo. Não quero restringir nada ainda, só tenho 18 anos. Quero tentar tudo, mas minha paixão é, sem dúvida, as ficções. E poesia.
Um suspiro baixo escapa de sua boca antes que ela coma outra colherada. Não sei de que jeito, mas parece que minha resposta a deixou triste.
— E você, Fallon, a Transitória? Qual é seu objetivo?
Ela me olha de soslaio.
— Estamos falando de objetivos na vida ou de qual é nossa paixão?
— Não faz muita diferença.
Ela ri sem entusiasmo.
— Há uma diferença enorme. Minha paixão é atuar, mas este não é meu objetivo na vida.
— Por que não?
Seus olhos se estreitam na minha direção antes que ela baixe o olhar novamente para o pote.
Começa a mexer o frozen yogurt com a colher. Desta vez, ela suspira com o corpo todo, como se estivesse se esfarelando no chão.
— Sabe, Ben. Agradeço por você estar sendo legal desde que nos tornamos um casal, mas
pode parar de fingir. Meu pai não está aqui para testemunhar.
Eu estava prestes a comer outra colherada, mas minha mão fica paralisada antes que a colher chegue à boca.
— O que isso quer dizer? — pergunto, a direção que essa conversa acabou seguindo me deixa desconcertado.
Ela enfia a colher no iogurte antes de se curvar e jogá-lo em uma lixeira a seu lado. Puxa uma perna para cima e passa os braços em volta, olhando mais uma vez para mim.
— Você realmente não conhece minha história ou só está fingindo que não sabe?
Não sei bem a que história ela está se referindo, então balanço de leve a cabeça.
— Agora estou muito confuso.
Ela suspira. De novo. Acho que nunca fiz uma garota suspirar tanto assim em tão pouco tempo. E não são o tipo de suspiro que faz um cara se sentir bem com suas habilidades. São o tipo de suspiro que o faz se perguntar o que ele está fazendo de errado.
Ela cutuca com o polegar uma lasca de madeira no encosto do banco. Concentra-se na madeira como se estivesse falando com ela, não comigo.
— Tive muita sorte aos 14 anos. Consegui um papel em uma série brega e adolescente, uma mistura de Sherlock Holmes com Nancy Drew chamada Gumshoe. Fui a protagonista da série durante um ano e meio e estava indo muito bem. Mas então aconteceu isto. — Ela indica o próprio rosto. — Meu contrato foi cancelado. Fui substituída e desde então não atuo. Então é isso que quero dizer quando afirmo que objetivos e paixões são coisas separadas. Atuar é minha paixão, mas, como meu pai disse, não tenho mais as ferramentas necessárias para alcançar meu objetivo de vida. Então acho que vou procurar um novo, a não ser que aconteça um milagre em Nova York.
Não sei nem o que dizer. Ela está me olhando, esperando uma resposta, mas não consigo pensar em nada assim tão rápido. Ela apoia o queixo no braço e olha fixamente para além de mim.
— Não sou muito bom com discursos motivacionais de improviso — digo a ela. — Às vezes, à noite, reescrevo conversas que tive durante o dia, mas as altero para que reflitam tudo o que eu queria ter dito no momento. Então, só quero que você saiba que esta noite, quando eu colocar esta conversa no papel, vou dizer alguma coisa heroica e isso vai fazer você se sentir muito bem com sua vida.
Ela encosta a testa no braço e ri. Ver isto me faz sorrir.
— Esta é de longe a melhor resposta que recebi por essa história.
Eu me inclino para a frente para jogar meu pote na lixeira atrás dela. É o mais perto que chego dela desde que estávamos sentados juntos à mesa. O corpo inteiro dela enrijece com a minha proximidade. Em vez de me afastar de imediato, olho bem em seus olhos e me concentro em sua boca.
— É para isso que servem os namorados — digo me afastando devagar dela.
Normalmente, eu não daria muita importância ao fato de estar dando em cima de uma garota deliberadamente. Faço isso o tempo todo. Mas Fallon está me olhando como se eu tivesse cometido um pecado capital e isso me leva a questionar se interpretei mal o clima entre nós.
Eu me afasto por completo, sem desviar do seu olhar irritado. Ela aponta o dedo para mim.
— Isso — diz ela. — Isso mesmo. É a essa merda que estou me referindo.
Não sei a que ela está se referindo, então ajo com cautela.
— Você acha que estou fingindo dar em cima de você para fazer com que se sinta melhor consigo mesma?
— E não está?
Ela realmente acha isso? As pessoas não dão em cima dela? É por causa das cicatrizes ou das inseguranças que ela tem por causa das cicatrizes? Com certeza os homens não são tão superficiais como Fallon está sugerindo. Se for assim, sinto vergonha por todos eles. Porque essa garota deveria estar afugentando os caras que dão em cima dela, e não questionando seus motivos.
Aperto a tensão do centro do meu maxilar, depois tapo a boca com a mão enquanto penso como responder. É claro que essa noite, quando eu parar para pensar neste momento, vou inventar todo tipo de respostas ótimas. Mas agora... Não consigo descobrir a resposta perfeita para salvar minha vida.
Acho que vou ficar com a sinceridade. Ou melhor, principalmente com a sinceridade. Parece ser o melhor jeito de responder a essa garota, porque ela nota quando é papo-furado, como se estivesse escrito em um papel transparente.
Agora sou eu quem suspira fundo.
— Quer saber o que pensei quando vi você pela primeira vez?
Ela inclina a cabeça.
— Quando você me viu pela primeira vez? Quer dizer, uma hora inteira atrás?
Ignoro seu cinismo e continuo:
— A primeira vez que você passou por mim... Antes que eu interrompesse o almoço com seu pai... Fiquei encarando sua bunda o tempo todo enquanto você andava. E não consegui deixar de me perguntar que tipo de calcinha você estaria usando. Foi só no que pensei durante todo o tempo em que você ficou no banheiro. Você era do tipo que usa fio dental? Ou não usa calcinha?
Porque não vi um contorno na sua calça jeans que sugerisse que você estava com uma calcinha.
“Antes de você voltar do banheiro, comecei a sentir um pânico no estômago, porque não tinha certeza se queria ver seu rosto. Fiquei ouvindo sua conversa e já sabia que sua personalidade me atraía. Mas e o seu rosto? As pessoas dizem que não se deve julgar um livro pela capa, mas e se de algum jeito você lesse o livro sem ter visto primeiro a capa? E se você realmente gostasse do que está no livro? É claro que quando você se aproxima do livro e está prestes a ver a capa pela primeira vez, torce para que seja algo que vá achar atraente. Por que quem é que quer um livro incrível na estante se tiver que olhar para uma capa de merda?”
Ela rapidamente volta os olhos para o colo, mas continuo falando:
— Quando você saiu do banheiro, a primeira coisa que notei foi seu cabelo. Me lembrou da primeira garota que beijei na vida. Ela se chamava Abitha. O cabelo dela era lindo e sempre cheirava a coco, então isso me fez perguntar se seu cabelo tinha o mesmo cheiro. Depois fiquei imaginando se você beijava como Abitha, porque embora ela tenha sido meu primeiro beijo, ainda é um dos únicos de que consigo me lembrar em detalhes. Então logo notei seus olhos, depois de admirar seu cabelo. Você ainda estava distante, mas olhava direto para mim, quase como se não entendesse por que eu estava encarando.
“Depois fiquei muito sem graça e me remexi na cadeira, porque como você já deixou claro, eu sequer me olhei no espelho hoje. Eu não sabia o que você estava vendo ao me encarar, e se
chegou a gostar do que viu. As palmas das minhas mãos suaram porque esta foi a primeira impressão que você teve de mim e eu não sabia se era boa o suficiente.
“A essa altura, você estava muito perto da minha mesa e foi quando meus olhos se fixaram em sua bochecha. Em seu pescoço. Vi as cicatrizes pela primeira vez e, justo quando notei, você desviou os olhos rapidamente para o chão e deixou o cabelo cobrir a maior parte do seu rosto.
E sabe o que pensei naquela hora, Fallon?”
Os olhos dela rapidamente encontraram os meus e percebi que ela não queria que eu falasse isso. Ela acha que sabe exatamente o que pensei naquele momento, mas não tem a menor ideia.
— Fiquei muito aliviado — digo a ela. — Porque entendi, com aquele simples movimento, que você era muito insegura. E me dei conta... porque é óbvio que você não sabe que é bonita pra cacete... de que eu podia ter uma chance com você. Então eu sorri. Porque tive esperanças de que se eu jogasse as cartas certas... podia descobrir exatamente que tipo de calcinha você estava usando por baixo dessa calça jeans.
É como se o mundo escolhesse este momento para ficar em silêncio. Não passa nenhum carro.
Nenhum passarinho canta. A calçada a nossa volta está totalmente vazia. São os dez segundos mais longos de minha vida, esperando que ela responda. Tanto tempo, dez segundos é o suficiente para me deixar com vontade de retirar tudo o que disse. Tempo suficiente para que eu deseje ter ficado de boca fechada, em vez de desabafar desse jeito.
Fallon pigarreia e vira o rosto. Toma impulso no banco e se levanta. Não me mexo. Só olho, curioso para saber se ela vai escolher este momento para finalmente me dar um pé na bunda falso.