Novembro, 9
Ben
Um ciúme crescente, extremo, louco. Sou obrigada a me levantar e correr para o banheiro, porque me recuso a deixar que ele veja como isto me abalou completamente em questão de segundos. Ele chama meu nome, mas não paro. Fico agradecida por Ben ter trazido Oliver, porque agora ele não pode correr atrás de mim.
Sigo direto para a pia e seguro suas bordas, olhando fixamente para o espelho.
Calma, Fallon. Não chore. Guarde a mágoa para quando chegar em casa.
Não estou preparada para isso. Não faço ideia de como lidar com isso. Sinto como se meu coração estivesse literalmente se partindo. Rachando bem no meio, sangrando no meu peito, enchendo meus pulmões de sangue, me impossibilitando de respirar.
Conter as lágrimas se mostra ainda mais complicado quando a porta do banheiro se abre e se fecha. Ergo a cabeça e vejo Ben parado ali, segurando Oliver, me olhando com profundo
remorso.
Fecho os olhos para não ter de ver seu reflexo no espelho. Baixo a cabeça entre os ombros e simplesmente começo a chorar.
Ben
Não era assim que eu queria que ela descobrisse. Eu ia contar a ela logo, mas queria ir devagar.
Não esperava que ela ficasse magoada por eu estar namorando Jordyn. Na verdade, achei que as chances de ela ficar feliz por mim eram maiores do que as de ficar chateada com isso. Nunca esperei essa reação dela. Por que está agindo como se ela se importasse com isso, sendo que ano passado deixou claro que não estava interessada em nada além do acordo que fizemos?
Mas é óbvio, pelo modo como reagiu, que ela se importa. Que ela se importava. Mas, por alguma razão, ela se recusou a ficar comigo quando eu mais precisei dela.
Tento me controlar, considerando que estou segurando Oliver, mas cada parte de mim quer se ajoelhar e gritar.
Dou alguns passos hesitantes até ficar bem atrás dela. Gentilmente, seguro seu cotovelo, querendo fazê-la se virar, mas ela afasta minha mão e vai para o outro lado do banheiro. Pega uma toalha de papel e enxuga os olhos, ainda de costas para mim.
— Eu não pretendia que isso acontecesse. — As palavras escapam da minha boca, como se de algum modo fossem reconfortá-la. Mas quero recuperá-las imediatamente.
Não importa que Fallon tenha deixado um buraco enorme no meu coração, não pude evitar que outra pessoa encontrasse o caminho até ele. Não importa que tanto Jordyn quanto eu estivéssemos destruídos depois da morte de Kyle. Não importa que as coisas só tenham evoluído entre nós bem depois do nascimento de Oliver. Não importa que eu nunca vou ter a mesma ligação com Jordyn que sinto com Fallon, mas Oliver compensa tudo o que falta em nosso relacionamento.
Só o que importa para Fallon é a guinada inesperada em nossa história. Nenhum dos dois previu que isso aconteceria. Nenhum dos dois nem mesmo queria isso. E ela é parcialmente responsável. Tenho de me lembrar deste detalhe. Por mais que esteja magoada agora, ela me magoou da mesma forma — se não mais — quando escolheu Nova York e não a mim.
Olho para Oliver, que está de olhos fechados e com a cabeça apoiada em meu peito. Já passou muito tempo da hora da sua soneca, então o ajeito para que fique deitado em meus braços. Toda vez que olho para ele, meu coração se enche de alegria. É muito diferente de qualquer sentimento que Fallon ou Jordyn possam provocar. E preciso lembrar a mim mesmo disso. Isso não é sobre alguma das duas. É sobre este garotinho em meus braços e do que é melhor para ele. Ele é a única coisa que deve importar e venho dizendo isso a mim mesmo há meses. Achei que esse pequeno lembrete bastaria para me fazer passar por este momento com Fallon, mas agora não tenho tanta certeza.
Fallon respira fundo e solta o ar antes de se virar. Quando olha em meus olhos, é evidente como acabei de destruí-la. Minha reação automática é melhorar isso, dizer como realmente me sinto. Como — desde o momento em que beijei Jordyn pela primeira vez — não passo de uma
confusão.
Na verdade, tenho sido uma confusão desde o segundo em que Fallon entrou naquele táxi no ano passado.
— Você está apaixonado por ela? — Fallon tapa a boca com a mão logo em seguida, balançando a cabeça, arrependida de ter feito a pergunta. — Por favor, não responda. — Ela se aproxima de mim e olha para o chão. — Preciso ir embora — diz ao passar por mim.
Recuo de costas até encostar na porta, mantendo-a fechada.
— Não desse jeito. Por favor, não vá embora ainda. Me dê uma chance de explicar.
Não posso deixar que ela vá embora sem compreender toda a situação. Mesmo assim, tenho esperanças de que ela explique que diabo aconteceu ano passado e por que está agindo como se essa notícia realmente a afetasse desse jeito.
— Explicar o quê? — pergunta ela em voz baixa. — Quer que eu fique aqui e ouça você explicar que não pretendia se apaixonar pela esposa do seu irmão morto? Espera que eu discuta com você quando me disser que não importa mais só o que você quer, mas sim o que é melhor para o seu sobrinho? Espera que eu peça desculpas por ter mentido para você ano passado quando disse que não queria te amar?
Cada palavra da última frase sai de sua boca como pesos caindo em cima de mim, me afundando no leito de um lago. Ela mentiu para mim?
— Entendi, Ben. A culpa é minha. Fui eu que fugi ano passado quando você tentou me amar.
Ela tenta dar a volta por mim e alcançar a maçaneta, mas me desloco para bloquear seu caminho. Puxo Fallon para o meu lado, passando minha mão livre por sua nuca e pressionando seu rosto em meu ombro. Encosto os lábios na lateral da sua cabeça, tentando não ser afetado pelo modo que Fallon se sente em meus braços. Ela agarra minha camisa e sinto que recomeça a chorar. Puxo-a para mais perto, abraço-a com mais força, mas Oliver me impede de fazer isso de outro jeito.
Quero dizer algo que a reconforte, mas ao mesmo tempo estou muito bravo com ela. Pela forma negligente com que brincou com meu coração no ano passado, quando o entreguei a ela. E
como está fazendo isso de novo quando já é tarde demais.
É tarde demais.
Oliver se contorce em meus braços, então sou obrigado a soltá-la para que ele não acorde.
Fallon aproveita a oportunidade para escapulir de mim e sair pela porta do banheiro.
Vou atrás dela e a observo pegar sua bolsa em nossa mesa e seguir diretamente para a porta.
Vou até a mesa e pego a bolsa de fraldas. Nossa comida continua ali, mas acho que posso dizer que não vamos comer. Largo o dinheiro na mesa e saio.
Ela está ao lado de um carro, mexendo na bolsa. Quando pega a chave, já estou ao seu lado.
Arranco a chave de suas mãos e sigo para o meu carro, estacionado bem ao lado.
— Ben! — grita ela. — Devolva minha chave!
Destranco o carro e abro. Abro as janelas e vou para o banco de trás para prender Oliver na cadeirinha. Quando tenho certeza de que ele continua dormindo, volto ao carro dela.
— Você não pode ir embora me odiando — digo, colocando a chave em sua mão. — Não depois de tudo o que nós...
— Não odeio você, Ben — interrompe ela. Sua voz sai ofendida e as lágrimas ainda escorrem por seu rosto. — Isto fazia parte do acordo, não é? — Ela enxuga os olhos, quase com
raiva, e continua: — Nós vivemos nossa vida. Namoramos outras pessoas. Nos apaixonamos pela mulher do nosso irmão morto. E, no fim, vemos o que acontece. Bom, chegamos ao fim, Ben. Um pouco cedo, mas é definitivamente o fim.
Olho para além dela, envergonhado demais para fixar os olhos nos seus.
— Ainda temos mais dois anos, Fallon. Não precisamos terminar isso hoje.
Ela balança a cabeça.
— Sei que prometi, mas... não posso. De jeito nenhum vou passar por isso de novo. Você não faz ideia de como está sendo isso — diz ela, com a mão no peito.
— Na verdade, Fallon, sei exatamente.
Prendo-a com meu olhar, querendo que perceba que não estou assumindo toda a culpa por isso. Se ela não tivesse ido embora ano passado e me destruído completamente, eu não teria ficado a maior parte do ano ressentido. Nunca teria me comprometido com ninguém — muito menos com Jordyn — para arriscar o que podia ter com Fallon. Mas achei que ela só sentia uma fração do que eu sentia por ela.
Ela não sabe como partiu meu coração. Não sabe que Jordyn estava lá para mim quando ela não estava. Eu estava lá para Jordyn quando Kyle não estava. E depois de perder duas pessoas que nós amávamos, só depois da chegada de Oliver... Não foi algo que tivéssemos planejado.
Nem mesmo sei se queria. Mas aconteceu e agora sou o único pai que Oliver conhece. E por que tudo isso parece tão errado agora? Por que parece que de algum modo fodi ainda mais com minha vida?
Fallon me empurra para tentar abrir a porta do carro. E nesse instante parece que levei um soco no estômago.
Não consigo respirar.
Não sei por que levei tanto tempo para perceber. Seguro sua mão e aperto antes que ela abra a porta. A súplica silenciosa a obriga a parar e olhar para mim.
Observo o carro dela por um segundo, depois olho para ela.
— Por que você veio de carro hoje?
Ela assume uma expressão confusa. Depois balança a cabeça.
— Era o nosso acordo. Era 9 de novembro.
Aperto ainda mais sua mão.
— Exatamente. Em geral, você vem direto do aeroporto quando nos encontramos. Por que você está de carro e não em um táxi?
Ela me encara, com um olhar de derrota. Solta o ar rapidamente e olha para o chão.
— Eu me mudei de volta para cá — diz ela, dando de ombros. — Surpresa.
Suas palavras cravam no meu peito e eu estremeço.
— Quando?
— Mês passado.
Eu me encosto no carro dela e tapo o rosto com as mãos, tentando manter a calma. Vim aqui hoje na esperança de esclarecer as coisas. Na esperança de que ver Fallon acabaria com a guerra que vem sendo travada dentro de mim desde que tudo começou com Jordyn.
E o que consigo é exatamente um esclarecimento. No segundo em que entrei no restaurante e pus os olhos nela, o sentimento voltou ao meu peito. Aquele que nunca tive por nenhuma garota.
O sentimento que me deixa tão apavorado a ponto de achar que meu coração está prestes a
explodir para fora de mim.
Nunca senti isso por ninguém, só por Fallon, mas ainda não sei se é o bastante para fazer diferença. Porque Fallon estava certa quando disse que não se trata do que eu quero. Trata-se do que é melhor para Oliver. Mas até mesmo isso não parece tão lógico quando estou bem diante da única mulher que já me fez sentir desse jeito.
Agora que Oliver está dormindo profundamente no carro ao nosso lado e não mais em meus braços, puxo Fallon para mim. Abraço-a com desespero, precisando senti-la junto de mim.
Fecho os olhos e tento pensar nas palavras que consertariam isso, mas as únicas que me vêm são todas as coisas que eu não deveria dizer.
— Como nós deixamos isto acontecer?
Assim que as palavras saem da minha boca sei que estou sendo injusto com Jordyn. Mas Jordyn também está sendo injusta comigo, porque ela nunca vai me amar como amou Kyle. E ela precisa saber que nunca sentirei por ela o que sinto por Fallon.
Fallon tenta se afastar, mas eu a abraço com força.
— Espere. Por favor, responda só a uma pergunta.
Ela cede e permanece em meus braços.
— Você voltou a Los Angeles por minha causa? Por nós?
Assim que faço a pergunta, sinto que ela murcha. Sinto meu coração despencar no peito. O
fato de ela não negar me obriga a apertá-la ainda mais.
— Fallon — sussurro. — Meu Deus, Fallon. — Ergo seu queixo e a obrigo a olhar para mim.
— Você me ama?
Seus olhos se arregalam de medo, como se ela não soubesse responder a essa pergunta. Ou talvez a pergunta a assuste porque ela sabe exatamente o que sente por mim, mas prefere não se sentir assim. Pergunto novamente. Desta vez, suplico a ela.
— Por favor. Não posso tomar essa decisão sem saber se só eu me sinto assim.
Ela me olha incisivamente nos olhos, negando de forma inflexível com a cabeça.
— Não vou competir com uma mulher que está criando um filho sozinha, Ben. Não vou tirar você dela, quando ela já passou por tanta coisa. Então, não se preocupe, você não precisa tomar decisão nenhuma. Acabei de tomar por você.
Ela tenta passar por mim, me empurrando, mas seguro seu rosto e começo a implorar a ela.
Vejo a determinação em seus olhos antes mesmo que eu fale algo.
— Por favor — sussurro. — De novo, não. Não vamos resolver isso se você for embora de novo.
Ela me olha contrariada.
– Desta vez você não me deu alternativa, Ben. Você apareceu apaixonado por outra. Você divide a cama com outra mulher. Suas mãos tocam alguém que não sou eu. Seus lábios fazem promessas numa pele que não é a minha. E não importa de quem seja a culpa por isso, se é minha por ter ido embora ano passado, ou sua por não saber que agi daquele jeito para seu próprio bem, nada disso muda as coisas. Elas são o que são. — Ela escapa de mim e abre a porta do carro, me olhando através dos seus cílios úmidos. — Eles têm sorte por ter você. Você é um ótimo pai para ele, Ben.
Ela entra no carro, sem saber que está prestes a arrancar com meu coração junto. Fico ali parado, paralisado, incapaz de impedi-la. Incapaz de falar. Incapaz de suplicar. Porque sei que
não há nada que eu possa dizer para mudar as coisas. Não hoje, de qualquer jeito. Não até que eu ajeite tudo nas outras áreas da minha vida.
Ela abre a janela, enxugando outra lágrima do rosto.
— Não vou voltar ano que vem. Desculpe se isto estragou seu livro, era a última coisa que eu queria. Mas simplesmente não posso mais fazer isso.