Novembro, 9

Colleen Hoover · Capítulo 33 de 33

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Novembro, 9

Último

Ben

Último

9 de novembro

Se as mentiras fossem escritas, eu as apagaria

Mas são faladas; gravadas por dentro

Com uma verdade convalescida, grito minha penitência

Que eu possa me arrepender em sua pele.

— BENTON JAMES KESSLER

Ben

Eram 83.456 palavras no manuscrito que deixei na porta da casa dela na noite passada. Eram aproximadamente 23 mil palavras nos cinco primeiros capítulos, antes de ela chegar ao bilhete.

Ela pode tranquilamente ter lido 23 mil palavras em três horas. Se ela começasse a leitura logo depois que deixei o manuscrito, teria terminado a primeira parte às três da manhã.

Mas é quase meia-noite. Faz quase 24 horas que a vi pegar o manuscrito e fechar a porta. O

que significa que ela teve 21 horas de sobra e ainda não está aqui.

O que significa, evidentemente, que ela não vem.

A maior parte de mim acreditava que ela não apareceria hoje, mas uma pequena parte ainda tinha esperanças. Não posso dizer que a decisão dela partiu meu coração, porque isto significaria que meu coração ainda estaria inteiro para ser partido.

Faz um ano inteiro que estou com o coração partido, então o fato de ela não vir é tão debilitante quanto os últimos 365 dias que passaram.

Estou surpreso que o restaurante tenha me deixado esperar aqui, a esta mesa, por tanto tempo.

Estou aqui desde o amanhecer, na esperança de que ela tenha ficado acordada lendo o manuscrito na noite passada. Agora é quase meia-noite, já passei umas boas dezoito horas ocupando esta mesa. Esta será uma gorjeta das grandes.

Às 11h55h da noite, deixo a gorjeta. Não quero estar aqui quando o relógio indicar que é dia 10 de novembro. Prefiro esperar os últimos cinco minutos em meu carro.

Quando abro a porta para sair do restaurante, a garçonete me olha com pena. Tenho certeza de que ela nunca viu ninguém esperar por tanto tempo e levar bolo, mas pelo menos isso vai dar a ela uma boa história para contar.

São 11h56h quando chego ao estacionamento.

São 11h56h quando a vejo abrir a porta e sair do carro.

Ainda são 11h56h quando entrelaço as mãos na nuca e inspiro o ar frio de novembro só para conferir se meus pulmões estão funcionando.

Ela está parada perto do carro, o vento soprando mechas do seu cabelo pelo rosto enquanto ela olha para mim do outro lado do estacionamento. Fico com a impressão de que se eu der um passo na direção dela, a terra vai esfarelar sob meus pés com o peso do meu coração. Nós dois ficamos imóveis por vários segundos demorados.

Ela olha para o celular nas suas mãos, depois de volta para mim.

— São 11h57, Ben. Só temos três minutos para fazer isso.

Eu a encaro, me perguntando o que ela quer dizer com isso. Ela vai embora daqui a três minutos? Só está me dando três minutos para argumentar a meu favor? As perguntas ficam rodando em minha cabeça quando vejo o canto de sua boca se erguer em um sorriso.

Ela está sorrindo.

Assim que percebo isso, saio correndo. Atravesso o estacionamento em questão de segundos.

Passo os braços em volta dela e a puxo para mim. Quando sinto seus braços me envolverem, faço a coisa mais antialfa que poderia.

Choro feito um bebê, porra.

Meus braços a apertam com força, minhas mãos envolvem sua nuca, meu rosto está em seu cabelo. Eu a abraço por tanto tempo que não sei se ainda é 9 de novembro ou se já é dia 10.

Mas a data não importa, porque vou amá-la cada dia.

Ela afrouxa o abraço e se afasta do meu ombro para me olhar. Agora nós dois estamos sorrindo e nem acredito que esta garota encontrou em seu coração motivo para me perdoar. Mas foi o que aconteceu, posso ver em todo seu rosto. Vejo em seus olhos, no sorriso, no jeito que se comporta. E sinto em seus dedos tocando meu rosto, enxugando minhas lágrimas.

— Namorados fictícios choram tanto quanto eu? — pergunto a ela, que ri.

— Só os realmente bons.

Encosto a testa na dela e fecho os olhos com força. Quero absorver este momento pelo máximo de tempo que conseguir. Só porque ela está aqui e só porque me perdoou, não significa que esteja aqui para me amar para sempre. E preciso estar preparado para aceitar isso.

— Ben, tem uma coisa que quero dizer.

Eu me afasto e olho para ela. Agora há lágrimas nos olhos dela, então não me sinto tão ridículo. Ela estica as mãos e toca meu rosto, acariciando gentilmente minha bochecha.

— Não vim aqui para te perdoar.

Sinto meu queixo endurecer, mas tento relaxar. Eu sabia que esta possibilidade existia. E

preciso respeitar sua decisão, por mais difícil que seja para mim.

— Você tinha 16 anos — diz ela. — Tinha passado por uma das piores coisas que uma criança poderia enfrentar. Seus atos naquela noite não aconteceram porque você era má pessoa, Ben. Foi porque você era um adolescente assustado e às vezes as pessoas cometem erros. Você carregou culpa demais pelo que fez, e por tempo demais. Não pode pedir meu perdão, porque não há o que perdoar. Na verdade, estou aqui para ter o seu perdão. Porque conheço seu coração, Ben, e seu coração só é capaz de amar. Eu devia ter reconhecido isso ano passado, quando duvidei de você. Eu devia ter te dado a chance de se explicar. Se tivesse simplesmente escutado você, talvez evitássemos um ano inteiro de sofrimento. Então, por isso... me desculpe.

Sinto muito. E espero que você possa me perdoar.

Ela me olha com uma esperança verdadeira, como se sinceramente acreditasse que tem parte da culpa por qualquer coisa que tenhamos passado.

— Você não tem o direito de pedir desculpa para mim, Fallon.

Ela solta o ar e assente.

— Então você não tem o direito de pedir desculpa para mim.

— Ótimo — digo. — Eu perdoo a mim mesmo.

Ela ri.

— E eu perdoo a mim mesma.

Ela leva as mãos ao meu cabelo e passa os dedos, sorrindo para mim. Meus olhos se fixam em um curativo em seu pulso esquerdo e ela percebe.

— Ah. Quase me esqueci da parte mais importante. Por isso cheguei tão atrasada. — Ela começa a retirar o curativo do pulso. — Fiz uma tatuagem. — Ela ergue o pulso e vejo a

pequena tatuagem de um livro aberto. Cada uma das duas páginas traz a máscara da comédia e da tragédia. — Livros e teatro — diz ela, explicando o desenho da tatuagem. — Minhas duas coisas preferidas. Fiz duas horas atrás, quando percebi como estou altruisticamente apaixonada por você.

Ela volta a meu encarar, com brilho nos olhos.

Solto o ar rapidamente, segurando seu pulso. Levanto-o e o beijo.

— Fallon. Venha para casa comigo. Quero fazer amor com você e dormir ao seu lado.

Depois, de manhã, quero preparar para você o café da manhã que prometi no ano passado.

Bacon bem-passado e ovo estrelado.

Ela sorri, mas não concorda com o café da manhã.

— Na verdade, vou tomar café com meu pai amanhã.

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