Novembro, 9

Colleen Hoover · Capítulo 29 de 33

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Novembro, 9

Romance de Ben — CAPÍTULO TRÊS

Pego o celular no bolso e abro uma mensagem de texto para o meu pai.

Eu: Oi, pai. Quer tomar café da manhã amanhã? Saudade.

Depois que aperto “Enviar”, visto a blusa e volto para a sala. Olho para o manuscrito, me perguntando o quanto mais vou conseguir suportar. É tão difícil ler, nem consigo imaginar Ben e os irmãos tendo que passar por tudo isso.

Faço uma rápida oração pelos meninos Kessler, como se o que estou lendo estivesse acontecendo agora e Kyle continuasse aqui para ser parte de uma oração.

Depois continuo de onde parei.

Romance de Ben — CAPÍTULO TRÊS

Aos 16 Anos

“Grande é a mão que a todos domina com um nome rabiscado às pressas.”

— Dylan Thomas

Sabe o que é pior do que o dia em que sua mãe se mata?

O dia seguinte ao que sua mãe se mata.

Quando uma pessoa sente muita dor física — digamos que, por acaso, corte a mão —, o corpo humano produz endorfinas. As endorfinas agem de forma parecida com drogas como a morfina ou a codeína. Por isso, é normal não sentir muita dor logo depois de um acidente.

A dor emocional deve agir de maneira parecida, porque o dia de hoje está doendo muito mais do que o de ontem. Ontem eu estava numa espécie de estado onírico, como se minha consciência não me permitisse acreditar plenamente que ela de fato havia morrido. Em minha mente, eu me segurava naquele fio tênue de esperança de que o dia todo não estivesse acontecendo de verdade.

Esse fio sumiu, por mais que eu tente agarrá-lo.

Ela está morta.

E se eu tivesse dinheiro e relações pessoais, entorpeceria esta dor com qualquer droga que encontrasse.

Eu me recuso a sair da cama esta manhã. Ian e Kyle tentaram me obrigar a ir à funerária com eles, mas eu venci. Na verdade, estou vencendo o dia todo.

Coma alguma coisa, falou Kyle no almoço.

Não comi. Venci.

Tia Chele e tio Andrew estão aqui, disse Ian lá pelas duas da tarde.

Mas eles já foram embora e eu continuo na cama, então venci.

Ben, venha jantar. Tem muita coisa para comer, as pessoas trouxeram comida o dia todo, disse Kyle ao enfiar a cabeça pela porta do meu quarto lá pelas seis da tarde.

Mas decidi ficar na cama e não tocar naqueles ensopados feitos por compaixão, me fazendo vencedor mais uma vez.

Fale comigo, pediu Ian.

Eu gostaria de dizer que venci essa etapa, mas ele ainda está sentado na minha cama, se recusando a sair.

Tapo a cabeça com o cobertor. Ele puxa para baixo.

— Ben. Se você não sair da cama, vou exagerar. Você não quer me obrigar a procurar um psiquiatra, quer?

Meu Deus, mas que merda!

Eu me sento na cama e soco o travesseiro.

— Me deixe dormir, porra, Ian! Que merda!

Ele não reage a meus gritos. Apenas me olha com complacência.

— Eu tenho deixado você dormir. Há quase 24 horas. Você precisa sair da cama, escovar os dentes, ou tomar banho, comer, qualquer coisa.

Eu me deito de novo. Ian sai da cama e berra.

— Benton, olhe para mim!

Ian nunca grita comigo e este é o único motivo que me leva a tirar o cobertor da cabeça e olhar para ele.

— Você não é o único que está sofrendo, Ben! Temos merdas para resolver! Você tem 16 anos e não pode morar aqui sozinho, e se você não descer e provar para mim e para Kyle que você não está completamente fodido, é provável que a gente tome a decisão errada por você!

Seu maxilar se contorce, de tão zangado que está.

Penso nisso por um segundo. Que nenhum dos dois mora aqui. Ian está na escola de aviação.

Kyle acabou de entrar na faculdade. Minha mãe morreu.

Um deles terá de se mudar de volta para cá porque eu sou menor de idade.

— Acha que mamãe pensou nisso? — pergunto, me sentando na cama de novo.

Ian balança a cabeça, frustrado. Suas mãos se apoiam no quadril.

— Pensou no quê?

— Que a decisão dela de se matar obrigaria um de vocês a abrir mão do seu sonho? Que vocês teriam de se mudar para cá para cuidar de um irmão?

Ian balança a cabeça, confuso.

— É claro que ela pensou nisso.

Eu rio.

— Não, ela não pensou. Ela é uma vadia egoísta de merda.

Seu maxilar enrijece.

— Pare com isso.

— Odeio ela, Ian. Estou feliz por ela ter morrido. E fico feliz por ter sido eu quem a encontrou, porque agora sempre terei a imagem do buraco preto no rosto dela combinando com o buraco preto em seu coração.

Ele diminui a distância entre nós e me agarra pela gola da camisa, me jogando na cama.

Aproxima o rosto do meu e fala entre dentes:

— Cale a merda da sua boca, Ben. Ela amava você. Foi uma boa mãe para nós e você vai respeitá-la, está me ouvindo? Não me importo se ela está vendo você agora ou não, você vai respeitá-la nesta casa até o dia que morrer.

Meus olhos se enchem de lágrimas e estou sufocando de ódio. Como ele pode defendê-la?

Acho que é fácil quando a lembrança que ele tem dela não está maculada pela visão que tive quando entrei em seu quarto.

Uma lágrima cai do olho de Ian na minha bochecha.

Ele afrouxa o aperto em volta do meu pescoço e se vira, enfiando a cabeça nas mãos.

— Desculpe — diz ele, com a voz chorosa. — Sinto muito, Ben.

Eu não.

Ele se vira e olha para mim, sem sequer tentar esconder suas lágrimas.

— Eu só... Como você pode dizer isso? Sabendo pelo que ela estava passando...

Rio baixinho.

— Ela terminou com o namorado, Ian. Mal dá para considerar isso um sofrimento.

Ele se vira na cama até ficar de frente para mim. Depois inclina a cabeça.

— Ben... você não leu?

Dou de ombros.

— Não li o quê?

Ele suspira fundo e se levanta.

— O bilhete dela. Você não leu a carta que ela deixou antes de a polícia levar?

Engulo em seco. Eu sabia que foi lá que ele esteve ontem. Eu sabia.

Ele passa as mãos no cabelo.

— Ai, meu Deus. Achei que você tivesse lido. — Ele sai do meu quarto. — Volto em meia hora.

Ele não mentiu. Em exatos trinta minutos, ele entra novamente no meu quarto. Fico o tempo todo me perguntando o que poderia haver nesta carta que faria a diferença entre eu odiá-la e Ian sentir pena dela.

Meu irmão tira um papel do bolso.

— Eles ainda não podem liberar a carta verdadeira. Tiraram uma foto e imprimiram, mas ainda dá para ler.

Ele me entrega o papel. Então sai do meu quarto e fecha a porta.

Eu me recosto na cama e leio as últimas palavras que minha mãe jamais dirá a mim.

Aos meus meninos,

Passei a vida toda estudando a escrita. Nenhum curso de redação... nenhuma faculdade...

nenhuma experiência de vida poderia preparar uma pessoa para escrever um bilhete de suicídio adequado para os filhos. Mas vou tentar mesmo assim.

Primeiro, quero explicar por que fiz isso. Sei que vocês não entendem. E, Ben, provavelmente você é o primeiro que está lendo isto, porque tenho certeza de que foi você o primeiro a me encontrar. Então, por favor, leia esta carta inteira antes de decidir me odiar.

Quatro meses atrás, descobri que tenho câncer de ovário. Brutal, intratável, um câncer silencioso que se espalhou antes mesmo que eu tenha desenvolvido sintomas. E antes que vocês fiquem zangados e digam que eu desisti, esta é a última coisa que eu faria. Se minha doença fosse algo que eu pudesse combater, vocês sabem que eu teria lutado com tudo o que tenho. Mas este é o problema do câncer. Chamam de luta, como se o mais forte vencesse e o mais fraco perdesse, mas não é assim.

O câncer não é um dos participantes do jogo. O câncer é o jogo.

Não importa quanta resistência você tenha. Não importa o quanto você tenha treinado. O

câncer é a quintessência do esporte, e só o que dá para fazer é aparecer no jogo com sua camisa. Porque nunca se sabe... você pode ser obrigado a ficar no banco durante toda a partida. Talvez sequer tenha a oportunidade de competir.

Essa sou eu. Estou sendo obrigada a ficar no banco até que o jogo termine, porque não há mais nada que possa ser feito por mim. Eu poderia citar todos os detalhes, mas a realidade é que descobriram a doença tarde demais.

Então, agora vem a parte complicada.

Espero o câncer passar? Devo permitir que a doença lentamente roube de mim tudo que tenho? Meninos, vocês se lembram do vovô Dwight, de como o câncer o engoliu inteiro e por meses se recusou a cuspi-lo. A vovó teve de alterar toda sua vida para cuidar dele. Perdeu o emprego, as contas de home care se acumulavam e eles acabaram perdendo a casa. Ela foi despejada duas semanas depois de ele, enfim, morrer. Tudo porque o câncer levou o tempo precioso junto.

Não quero isso. Não suporto imaginar vocês tendo que cuidar de mim. Sei que se eu não der um fim a minha vida, talvez tenha a sorte de viver mais seis meses nesta terra. Talvez nove. Mas esses meses vão roubar de vocês a mãe que conheceram. Depois, quando minha dignidade e minhas células não bastarem para satisfazer a doença, o câncer vai levar todo o resto que puder. A casa. As economias. A poupança para a faculdade de vocês. Todas as lembranças felizes que compartilhamos juntos.

Sei que por mais que eu tente justificar minha decisão, ainda assim vai magoar vocês três mais do que nunca na vida. Mas sei que se eu conversasse com vocês sobre isto antes de agir, vocês me convenceriam a desistir.

Sinto muito especialmente por você, Ben. Meu menino, meu amor de menino. Sinto muito.

Sei que eu podia ter feito isso de um jeito melhor, porque nenhuma criança deveria ter que ver a mãe nessa condição. Mas sei que se eu não fizer isto esta noite, antes de você voltar para casa, talvez nunca faça. E, para mim, esta seria uma decisão ainda mais egoísta do que a que tomei. Sei que você vai me encontrar de manhã e sei que isto vai destruí-lo, porque acaba comigo só de pensar. De qualquer modo, estarei morta antes de você completar 17

anos. Pelo menos assim, vai ser rápido e fácil. Você pode ligar para a emergência, eles vão retirar meu corpo e estará acabado em algumas horas. Algumas horas para morrer e ser retirada de casa é muito melhor do que os vários meses que o câncer pode levar para fazer seu trabalho.

Sei que lidar com isso vai ser difícil para vocês, então tentei facilitar ao máximo. Alguém vai ter que limpar tudo depois de retirarem meu corpo, por isso deixei um cartão na bancada da cozinha para um de vocês telefonar. Tem bastante dinheiro na minha bolsa. Deixei na cozinha, em cima da bancada.

Se procurarem no meu escritório, na terceira gaveta à direita, vocês vão descobrir que preparei toda a papelada necessária para dar entrada no seguro da previdência. Tratem de fazer isto logo. Depois de darem entrada na papelada, vocês receberão um cheque em algumas semanas. Ainda tem a hipoteca da casa, mas vai sobrar o suficiente para pagar a faculdade de cada um de vocês. Organizei tudo isso por meio do nosso advogado.

Por favor, fiquem com a casa até que todos se tornem adultos e estejam com a vida ajeitada. É uma boa casa e, apesar deste detalhe, temos muitas lembranças boas aqui.

Saibam, por favor, que vocês três fizeram valer cada segundo da minha vida. E se pudesse me livrar deste câncer, faria isso. Eu seria muito egoísta e provavelmente o daria a alguém, para sofrer por mim, para que então eu pudesse ficar mais tempo com cada um de vocês. Amo vocês a esse ponto.

Por favor, me perdoem. Tenho duas alternativas ruins e não quero nenhuma delas. Escolhi fazer o que traria mais benefícios para todos nós no fim. Espero que um dia vocês consigam

entender. E espero que, ao escolher fazer isto, eu não estrague esta data para vocês. Dia 9 de novembro é importante para mim, pois foi neste mesmo dia que Dylan Thomas morreu. E

vocês, meninos, sabem o quanto a poesia dele significa para mim. Me ajudou a passar por muita coisa na vida, em especial a morte de seu pai. Mas minha esperança é que esta data se torne para vocês apenas um dia com pouco significado e poucos motivos para lamentar no futuro.

E, por favor, não se preocupem comigo. Meu sofrimento acabou. Nas sábias palavras de Dylan Thomas... Depois da primeira morte, não existe outra.