Novembro, 9

Colleen Hoover · Capítulo 6 de 33

Páginas do PDF

Novembro, 9

Segundo

— Vou aceitar. Mas, no ano que vem, será 11. Prometo.

Ele me beija na testa e me solta. Começa a andar de costas e tenho noção de que todos ali em volta estão nos olhando, mas tudo o que posso é não ligar para isso. Pouco antes de chegar à porta giratória, ele coloca as mãos em concha na boca e grita:

— Espero que todo o estado de Nova York ria de você!

Acho que nunca abri um sorriso tão largo. Ergo a mão e aceno uma despedida enquanto ele desaparece.

Na verdade, foi um 10.

Segundo

9 de novembro

Suas lágrimas em minha alma, elas têm vidas paralelas.

Corra, doa, queime.

Repita.

Suas lágrimas em minha alma, elas têm vidas paralelas.

— BENTON JAMES KESSLER

Ben

Quando você se joga em uma lembrança

Tão sombria e distante

É pego por um mistério

Que o guia pelo dia.

Mesmo que esteja fraco

E não saiba como agir

Eu sempre estarei lá

Para quando você cair.

Escrevi esta merda de poema quando estava no terceiro ano. Foi a primeira coisa que mostrei a alguém.

Na verdade, acho que não cheguei a mostrar a alguém. Minha mãe encontrou no meu quarto e foi assim que passei a respeitar a beleza da privacidade. Ela mostrou para toda a minha família e me fez nunca mais querer partilhar meu trabalho.

Agora percebo que minha mãe não estava tentando me constranger. Só estava orgulhosa de mim. Mas continuo não mostrando a ninguém as coisas que escrevo. É quase como dizer cada pensamento em voz alta. Algumas coisas não são para consumo público.

E não sei como explicar isso a Fallon. Ela supõe, com base no nosso acordo do ano passado, que estou escrevendo um romance que ela vai ler um dia. E, por mais que ela alegue que é ficção, cada frase que escrevi no ano passado é mais verídica do que qualquer coisa que eu admitiria em voz alta. Espero que depois de hoje eu consiga começar a reescrever para dar a ela algo para ler, mas, ano passado, escrever sobre minha vida fodida foi um pouco terapêutico.

E embora eu estivesse ocupado com a faculdade e com o que agora chamo de minha “terapia da escrita”, ainda encontro tempo para fazer o dever de casa que ela me passou. E mais ainda.

Li 26 romances, sendo que cinco foram recomendados por Fallon. O que ela deixou de me dizer é que dois romances que ela sugeriu eram os primeiros de uma série, então é claro que tive que ler todos os volumes.

Até então, em minha “pesquisa”, concluí que Fallon tem toda razão. Os beijos nos livros e os beijos na vida real não são idênticos. E toda vez que leio um desses romances, eu me encolho quando penso nas poucas vezes em que beijei Fallon no ano passado. Não foram, de maneira nenhuma, dignos de um livro e, embora eu tenha lido muito neste ano que passou, ainda não sei bem o que torna um beijo digno de um livro. Mas sei que ela merecia mais do que lhe dei.

Eu estaria mentindo se dissesse que não beijei ninguém desde Fallon em novembro passado.

Saí com algumas meninas poucas vezes desde então, e quando Fallon disse de brincadeira que

queria que eu comparasse cada garota com ela, seu desejo foi realizado. Porque foi exatamente o que aconteceu com as duas meninas que beijei. Uma delas não era nem de longe tão divertida quanto Fallon. A outra só pensava nela mesma. E nenhuma das duas tinha bom gosto para música, mas isto não conta, porque não faço ideia de qual seja o gosto de Fallon para música.

Sem dúvida, é algo que venho pretendendo descobrir hoje. Eu tinha uma lista de coisas que precisava saber para trabalhar no romance real que prometi a ela. No entanto, parece que essa lista vai ficar sem resposta, e ano passado inteiro estudando romances e escrevendo sobre nosso primeiro 9 de novembro juntos foi à toa.

Porque ela não apareceu.

Olho o relógio de novo para ter certeza de que marcava a mesma hora do meu celular. Sim.

Peguei a folha do dever de casa para me certificar de estava com a hora certa. Sim.

Olho em volta mais uma vez para ter certeza de que é o mesmo restaurante onde nos encontramos ano passado. Sim. Sei disso, porque o restaurante mudou de dono recentemente e ganhou um nome diferente.

Mas ainda fica no mesmo prédio, no mesmo endereço, e tem a mesma comida.

Então... Onde é que você se meteu, Fallon?

Ela está quase duas horas atrasada. A garçonete já me deu refil de bebida quatro vezes. E

cinco copos de água em duas horas é muito para minha bexiga, mas estou me dando meia hora antes de ir ao banheiro, porque tenho medo de não estar sentado aqui quando ela entrar, e pensar que eu não apareci e ir embora.

— Com licença.

Os batimentos do meu coração se aceleram de imediato com as palavras dela e ergo a cabeça. Mas... ela não é Fallon.

No mesmo instante, fico decepcionado.

— Você se chama Ben? — pergunta a garota.

Ela está usando um crachá. Tallie. Tallie tem um crachá da Pinkberry. Como é que ela sabe meu nome?

— É. Meu nome é Ben.

Ela suspira e aponta para o crachá.

— Eu trabalho aqui na rua. Tem uma garota no telefone lá dizendo que é uma emergência.

Fallon!

Fico impressionado com a rapidez com que saio da mesa e passo pela porta. Saio correndo pela rua até chegar à Pinkberry e abro a porta. O cara atrás do balcão me olha estranho e recua um passo. Estou sem fôlego e ofegante, mas aponto para o telefone atrás dele.

— Tem alguém me aguardando na linha?

Ele pega o aparelho, aperta um botão e me entrega.

— Alô? Fallon? Você está bem?

Não ouço logo sua voz, mas sei que é ela, só pelo suspiro.

— Ben! Ah, graças a Deus você ainda estava lá. Desculpe mesmo. Meu voo atrasou e tentei ligar para o restaurante, mas o número deles foi cortado, depois tive de embarcar. Consegui finalmente o número quando pousei e tentei ligar várias vezes, mas só dava ocupado, então eu não sabia mais o que fazer. Agora estou num táxi e peço desculpas de verdade por estar tão atrasada, mas não tive como entrar em contato com você.

Eu não sabia que meus pulmões conseguiam prender tanto ar. Exalo, aliviado e decepcionado por ela, mas completamente eufórico que tenha vindo mesmo. Ela se lembrou, veio e vamos fazer isto de verdade. Pouco importa que agora ela saiba que passei as últimas duas horas esperando no restaurante.

— Ben?

— Estou aqui — digo. — Está tudo bem, que bom que você conseguiu. Mas deve ser mais rápido você me encontrar na minha casa. O trânsito está um pesadelo por aqui.

Ela pede o endereço e eu dou.

— Tudo bem. — Ela parece nervosa. — Vejo você daqui a pouco.

— Tá, estarei lá.

— Ah, espere! Ben? Hum... Eu meio que disse à garota que atendeu ao telefone que você pagaria vinte pratas se ela desse o recado. Desculpe por isso. Ela me passou a impressão de que não ia fazer, então tive que subornar.

Eu rio.

— Não tem problema. Vejo você daqui a pouco.

Ela se despede de mim e entrego o telefone a Tallie, que agora está atrás da caixa registradora. Ela estende a mão para os vinte dólares. Pego a carteira e entrego a nota.

— Eu poderia pagar dez vezes mais pelo telefonema dela.

• • •

Ando de um lado para outro na entrada.

O que estou fazendo?

Tem tanta coisa errada nisso. Sequer conheço essa garota direito. Passei algumas horas com ela e estou me comprometendo a escrever um livro sobre ela? Sobre nós? E se desta vez nem mesmo tivermos alguma sintonia? Talvez eu estivesse num período tarado no ano passado e estava apenas num estado de espírito excepcionalmente receptivo e generoso. Talvez ela nem seja engraçada. Pode ser uma escrota. Pode estar estressada por causa do voo atrasado e talvez nem queira estar aqui.

Quer dizer, quem faz uma coisa dessas? Que pessoa em sã consciência atravessa o país de avião para ver alguém por um dia, alguém que mal conhece?

Provavelmente não muitas pessoas. Mas hoje eu pegaria um avião sem hesitar, se tivéssemos combinado de nos encontrar em Nova York.

Estou esfregando as mãos no rosto quando um táxi vira a esquina. Tento me fazer acreditar que isto é totalmente normal. Não é loucura. Não é compromisso. Somos amigos. Amigos que atravessam o país de avião para ficarem juntos.

Espere. Somos amigos? Sequer mantemos contato, então provavelmente a gente nem se qualifique como conhecidos.

O táxi está encostando perto da entrada.

Porra, controle o nervosismo, Kessler.

O carro para.

A porta de trás se abre.

Eu devia recebê-la na porta. É esquisito ficar assim tão longe.

Vou andando até o táxi quando ela começa a sair do veículo.

Por favor, que seja a mesma Fallon que conheci ano passado.

Seguro a maçaneta e abro completamente a porta. Tento demonstrar tranquilidade, não transparecer o nervosismo. Ou pior, a animação. Estudei romances suficientes para saber que as garotas gostam quando os caras são um pouco indiferentes. Li em algum lugar que homens assim são chamados de machos alfa.

Seja um babaca, Kessler. Só um pouquinho. Você consegue.

Ela sai do carro e, ao fazer isso, é como nos filmes, onde tudo fica em câmera lenta. Nada parecido com minha versão da câmera lenta. Isto é muito mais elegante. O vento sopra algumas mechas de cabelo em seu rosto. Ela levanta a mão para afastar o cabelo e então noto o que um ano pode fazer.

Ela está diferente. O cabelo está mais curto. Está com franja. Usa uma blusa de manga curta, algo que ela confessou não fazer nunca antes do ano passado.

Está cheia de confiança, da cabeça aos pés.

É a coisa mais sexy que já vi.

— Oi — diz Fallon, enquanto estendo a mão por trás dela para fechar a porta.

Parece tão feliz em me ver que só isso me faz sorrir para ela.

Lá se foi a indiferença.

Literalmente durou zero segundo minha tentativa de colocar em prática o alter ego de macho alfa que andei praticando.

Solto o ar que contive por um ano, dou um passo para a frente e a puxo para o abraço mais verdadeiro que já dei em alguém. Envolvo sua nuca com a mão e a puxo para mim, sentindo o refrescante cheiro de inverno dela. No mesmo instante, ela me envolve com os braços e enterra o rosto em meu ombro. Sinto um suspiro escapar de Fallon e ficamos nessa posição até o táxi dar a ré na entrada da casa e desaparecer na esquina.

E, mesmo então, não nos soltamos.

Ela está agarrando as costas da minha camisa com os punhos cerrados e estou tentando não deixar evidente o fato de que talvez esteja um pouco obcecado com seu novo corte de cabelo. É

mais suave. Mais reto. Mais leve. Renovador e, porra, isso dói.

De novo.

Porque ela é a única que me faz estremecer assim? Ela suspira em meu pescoço e quase a afasto porque, droga, isso é demais. Não sei ao certo o que mais me incomoda. O fato de que parecemos ter recomeçado bem de onde paramos ano passado, ou o fato de que ano passado não foi um mero acaso. Para ser sincero, de algum modo acho que é a última hipótese. Porque, neste ano que passou, foi um inferno passar cada minuto do dia com ela na cabeça, sem saber se a veria de novo. E agora que sei que ela está comprometida com esse meu plano idiota de nos encontrarmos uma vez por ano, prevejo outro longo ano de agonia pela frente.

Já estou com medo do segundo em que ela se for, e Fallon acabou de chegar.

Ela ergue a cabeça do meu ombro e olha para mim. Afasto sua franja com a mão para ver melhor seu rosto. Apesar de ela ter ficado frenética ao telefone mais cedo, agora dá a impressão de estar totalmente tranquila.

— Oi, Fallon, a Transitória.

Seu sorriso se expande.

— Oi, Ben, o Escritor. Por que você parece estar sofrendo?

Tento sorrir, mas tenho certeza de que minha expressão não está nada atraente.

— Porque manter minha boca longe de você é muito sofrido.

Ela ri.

— Por mais que eu queira sua boca na minha, preciso avisar que um beijo de chegada provavelmente valerá um 6.

Prometi a ela um 11. Vou ter de esperar.

— Venha. Vamos entrar para que eu possa descobrir qual é a cor da calcinha que você está usando.

Ela dá aquele riso familiar enquanto seguro sua mão e entro com ela em casa. Já posso dizer que não tenho com o que me preocupar. Ela é a mesma Fallon de que me lembro do ano passado. Talvez até um pouco melhor.

Então... Quem sabe isto signifique que tenho tudo com que me preocupar.