Novembro, 9

Colleen Hoover · Capítulo 16 de 33

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Novembro, 9

Quarto

Eu poderia ir atrás do táxi e quando o carro parar, posso abrir a porta, puxá-la para meus braços e dizer que estou apaixonado por ela. Que terminei de me apaixonar por ela quase no mesmo instante que comecei, porque foi um mergulho lá do alto até o fundo. Um sibilo. Um instante. Um amor instantâneo.

Mas ela detesta amor instantâneo. Ao que parece, ela detesta amor semi-instantâneo, amor lento, amor em ritmo de lesma, amor em geral e...

— Merda!

Xingo a rua vazia, porque, pela primeira vez, recebo exatamente o que mereço.

Quarto

9 de novembro

No escuro dela, ela fica em silêncio.

No meu escuro, ela grita.

— BENTON JAMES KESSLER

Fallon

Nem na noite em que fui chamada para substituir uma atriz fiquei tão nervosa assim. Estou mais de uma hora adiantada, mas nossa mesa já estava ocupada quando cheguei aqui esta manhã, então escolho a mesa ao lado.

Tamborilo os dedos na mesa, meus olhos se voltando para a porta sempre que alguém entra ou sai.

Não faço ideia de como vou começar a conversa. Como digo a ele que assim que fui embora no ano passado, me dei conta de que tinha cometido o maior erro da minha vida? Como dizer que tomei aquela decisão de última hora pelo bem dele? Que achei que se eu dissesse que não queria me apaixonar por ele, eu o estaria ajudando de alguma forma? E, mais importante, como comentar que voltei para Los Angeles só por causa dele? Bom, não exatamente só por ele.

Minha vida profissional sofreu uma enorme mudança alguns meses atrás.

Quando eu estava no teatro comunitário, me pediam bastante ajuda com as falas porque as pessoas confiavam no meu talento. Acho que posso dizer que eu ensinei a atuar, de certo modo.

Não esqueci a alegria que senti com isso, e percebi que gostava de ajudar os atores com seus papéis mais do que gostava de ser atriz.

Demorei alguns meses para finalmente admitir que talvez meu objetivo não fosse mais ser atriz. As pessoas mudam. Elas crescem. As paixões evoluem e a minha evoluiu para querer ajudar os outros a desenvolver os próprios talentos.

Procurei escolas por todo o país, mas com minha mãe, Amber e, sim, Ben em Los Angeles, não é difícil deduzir qual cidade acabei escolhendo.

Por mais que eu questione minha decisão de não ter ficado com ele ano passado, sei que, a longo prazo, foi melhor assim. Nunca estive mais em paz com minha opção de carreira como agora e não tenho certeza se isso teria acontecido se Ben estivesse presente. Então, por mais que erros tenham sido cometidos, não tenho nenhum arrependimento. Acho que as coisas estão saindo exatamente como deveriam.

Porém, como Ben e eu provavelmente podemos provar, muita coisa pode mudar em um ano, por isso estou morrendo de medo de que ele tenha mudado de ideia. Talvez ele nem mesmo queira estar comigo como queria ano passado. Talvez ainda esteja tão bravo que nem mesmo apareça.

Mas não é exatamente por isso que estou nervosa.

Estou nervosa porque sei que ele virá. Ele sempre aparece. Mas, este ano, não sei em que pé estamos. Nós nos separamos de um jeito bem ruim no ano passado e assumo toda a culpa, mas ele precisa entender que teria feito o mesmo por mim, se estivesse no meu lugar. Se eu tivesse feito toda aquela declaração no meio de tanto sofrimento, ele teria reconhecido que talvez eu não estivesse em condições de tomar uma decisão que mudaria tanto a minha vida. E com

certeza ele não pode me culpar por encorajá-lo a ficar e ajudar a família. Seu irmão tinha acabado de falecer. A cunhada precisava dele. O sobrinho precisaria dele. Era a coisa certa a fazer. Ele teria agido da mesma forma por mim. Ben só teve dificuldade para aceitar porque já estava passando por uma semana cheia de emoções.

Quase acho que foi uma má ideia aparecer sem avisar no ano passado. Sinto que o tempo que passei lá causou mais mal do que bem.

Meus pensamentos são interrompidos quando a mão de alguém toca meu ombro. Ergo a cabeça, esperando ver Ben de pé ali. E o vejo... mas não só ele. Ben e... um bebê.

O sobrinho dele.

Sei disso na mesma hora porque tem os olhos de Ben. Os olhos de Kyle.

Eu me dou conta de tudo isso rapidamente e tento processar cada coisa de uma vez. Primeiro, o fato de que Ben apareceu. E ele está sorrindo para mim enquanto me levanto para abraçá-lo, então isto basta para me fazer suspirar fundo de alívio.

Segundo, o braço dele está envolvendo este menino empoleirado em seu quadril, com a cabeça encostada no peito de Ben. Vê-lo com o sobrinho desse jeito confirma que nós dois tomamos a decisão certa ano passado, quer ele tenha concordado na época ou não.

Eu esperava conhecer o sobrinho dele em algum momento do dia de hoje, mas achei que teria a oportunidade de conversar com Ben primeiro, a sós, sobre como deixamos as coisas no ano passado. Mas posso me adaptar. Ainda mais por um bebê tão lindo como este.

Ele está sorrindo timidamente para mim e vejo muito de Jordyn nele. É quase tão parecido com Jordyn tanto com Kyle. Eu me pergunto como isto é para ela... Ver tanto de Kyle ao olhar para o filho.

Quando Ben me solta do abraço, sorri para o garotinho.

— Fallon, quero que conheça meu sobrinho, Oliver. — Ele segura o pequeno pulso de Oliver e o faz acenar para mim. — Oliver, esta é Fallon.

Levanto a mão e em seguida Oliver estende os braços para mim. Chocada, deixo que ele se aproxime de mim, puxando-o para perto e segurando-o da mesma forma que Ben. Já faz muito tempo que não seguro um bebê, mas ainda prefiro que o sobrinho de Ben queira que eu o segure, em vez de chorar se eu tentasse.

— Ele gosta de mulheres bonitas — diz Ben dando uma piscadela, soltando totalmente o bebê depois que eu o pego no colo. — Vou buscar uma cadeirinha alta.

Ben se afasta e eu me sento com Oliver, colocando-o na minha frente na mesa.

— Você é muito fofo — digo a ele.

E ele é. Parece um bebê muito feliz e fico contente por Jordyn. Ainda assim, me sinto triste ao pensar que Kyle jamais poderá conhecer o filho. Afasto esse pensamento quando Ben volta com uma cadeirinha.

Ele a empurra para a beira da mesa e coloca Oliver ali. Eu nem tinha notado a bolsa de fraldas que Ben carrega no ombro, só vi quando ele a retirou para se sentar. Ele vasculha a bolsa até encontrar um pote com lanche, depois coloca alguns Cheerios na frente de Oliver, mas, primeiro, limpa a mesa. O tempo todo, fala com Oliver de forma respeitosa, como se fossem iguais. Não fica falando feito criança e eu estaria mentindo se dissesse que não é lindo vê-lo interagir com um bebê como se os dois estivessem no mesmo nível.

Ben leva muito jeito com crianças. É impressionante. E... um pouco sexy.

— Que idade ele tem agora?

— Dez meses — diz Ben. — Ele nasceu no Ano-novo. Algumas semanas prematuro, mas ficou bem.

— Então, o mundo todo comemora o aniversário dele com fogos de artifício, como faz com o seu?

Ben sorri.

— Quer saber, eu nem tinha pensado nisso.

Oliver brinca com os Cheerios à sua frente, muito satisfeito por não ser o centro das atenções.

O que é um alívio, porque talvez Ben e eu possamos ter uma conversa séria, apesar da companhia do seu sobrinho.

Ben estende o braço na mesa e aperta minha mão, e meu peito se aquece com esse pequeno gesto.

— É muito bom te ver, Fallon — diz ele, roçando o polegar no meu. — É muito bom de verdade.

A sinceridade em seus olhos me dá vontade de me jogar por cima da mesa e beijá-lo ali mesmo. Ele não me odeia. Não está bravo comigo. Tenho a sensação de estar respirando ar puro pela primeira vez em um ano.

Viro a mão em cima da dele, mas assim que faço isso, Ben a retira para empurrar o lanche de Oliver para mais perto dele.

— Desculpe por ter tido que trazê-lo. Jordyn precisou trabalhar hoje e a babá cancelou em cima da hora.

— Tudo bem — digo. E, sinceramente, está. Adoro observá-lo interagir com Oliver.

Representa outro aspecto dele que eu ainda não havia testemunhado. — Como está Jordyn?

— Bem — responde ele, assentindo como se tentasse convencer a si mesmo também. —

Muito bem. Ela é ótima mãe. Kyle ficaria orgulhoso. — Ele diz esta última frase num tom mais baixo. — E você? Como está Nova York?

Não sei como responder a isso. Não sinto que agora seja o momento certo para tocar no assunto, então evito a pergunta.

— É sempre muito esquisito — digo. — Ver você pela primeira vez em um ano. Nunca sei o que dizer, nem o que fazer.

Estou mentindo. Nunca foi esquisito, mas, graças ao ano passado, hoje está muito estranho.

Ele estende o braço pela mesa e coloca a mão em meu pulso, apertando de leve.

— Também estou nervoso — diz ele num tom tranquilizador. Seus olhos se fixam em nossas mãos, depois retira a dele e pigarreia. É fofo como ele tenta ser respeitoso na frente de Oliver.

— Você já fez o pedido?

Ele pega o cardápio e fica um tempo olhando-o em silêncio, mas sei que não está lendo.

Está mais nervoso do que deveria, mas ano passado deixamos as coisas de um jeito estranho.

Fico preocupado que ele não esteja afetado pelo nervosismo, mas talvez por um pouco de amargura. Sei que o magoei no ano passado, mas certamente ele teve tempo para compreender por que fiz aquilo. E, com sorte, ele sabia que me afastar enquanto ele sofria tanto deve ter sido mais difícil para mim do que foi para ele. Passei todo este ano com o coração pesado, porque isso não saía da minha cabeça.

Nós dois pedimos algo para comer e ele não se esquece de pedir uma porção de purê de

batatas para Oliver, e acho isso fofo. Tento aliviar nosso nervosismo com uma conversa descontraída. Conto que decidi que meu novo objetivo na vida é abrir uma empresa de caça talentos. Ele sorriu e disse que eu não era mais “Fallon, a Transitória”. Perguntei a ele qual era meu novo nome, ele me olhou pensativamente e disse: “Fallon, a Mestra”. E adorei como soou.

Ele disse que se formou na faculdade em maio passado e fiquei triste por não ter estado lá, mas sei que haverá muitos marcos no futuro. Irei a sua cerimônia de formatura da pós-graduação quando ele concluir o curso, porque contou que é para isso que está se esforçando agora. Ele trabalha como freelancer para uma revista on-line e decidiu ampliar o currículo com um mestrado em redação técnica.

Durante um intervalo em nossa conversa, Ben serve uma porção de purê de batatas na boca de Oliver. O bebê esfrega os olhos e parece prestes a cochilar em cima da tigela.

— Ele ainda não fala nenhuma palavra?

Ben sorri para Oliver, passando a mão em sua pequena cabeça.

— Fala algumas. Mas tenho certeza de que ele fala por acaso, na maior parte do tempo só balbucia. — Ben ri e depois acrescenta: — Mas ele falou seu primeiro palavrão. Ouvimos pela babá eletrônica certa noite e na semana passada ele disse merda com muita clareza. Esse garotinho está começando cedo — diz ele, beliscando de brincadeira a bochecha de Oliver.

O bebê sorri para ele e, ao fazer isso, todas as fichas caem de uma vez só em mim.

Ben trata Oliver como um pai trata um filho.

Oliver olha para Ben como se fosse pai dele.

Ben se referiu a si mesmo e Jordyn com “nós”.

E ele fica com a babá eletrônica de Oliver à noite... O que significa que... eles dormem no mesmo quarto?

Inspiro no momento em que sinto todo o meu mundo virar em seu eixo. Agarro a mesa quando tudo fica claro.

Eu me sinto idiota.

No mesmo instante, Ben percebe minha mudança de atitude e quando meus olhos se fixam nos dele, ele começa a balançar lentamente a cabeça, percebendo que deu mole.

— Fallon — diz ele em voz baixa.

Mas não fala mais nada além do meu nome. Está claro que sei e ele não faz nada para me desmentir. Todo seu rosto assume a expressão de quem pede desculpas.

Ciúme instantâneo.