Novembro, 9
Ben
E nada disso incluía o que fiquei sabendo dez minutos atrás. De jeito nenhum ele pode se mudar para Nova York, quando sua família precisa dele mais do que nunca. Jordyn vai precisar dele aqui muito mais do que preciso dele em Nova York. Ben e Ian precisarão estar aqui por ela e me recuso a ser a pessoa que vai convencê-lo a abandoná-la num momento como esse.
Pego meu celular e peço um táxi antes de mudar de ideia.
Ben
Fecho a porta do quarto de Jordyn quando ouço os passos de Fallon descendo a escada. Viro no corredor para encontrá-la e ela arqueja, levando a mão ao coração.
— Você me assustou — diz ela, chegando ao último degrau. — Como Jordyn está?
Olho pelo corredor na direção do quarto de Jordyn.
— Melhor — digo. — Acho que a pizza ajudou.
Fallon sorri, feliz.
— Não foi a pizza que a fez se sentir melhor, Ben.
Ela dá mais dois passos, desta vez na direção da porta da frente. Finalmente noto a bolsa em seu ombro e os sapatos nos pés. Ela está preparada para ir embora.
Fallon se remexe, jogando o peso do corpo em um pé só. Dá de ombros, como se eu tivesse feito uma pergunta, e volta a olhar para mim.
— Mais cedo...
— Fallon — interrompo. — Por favor, não mude de ideia.
Ela estremece, olhando para cima e para a direita, como se estivesse tentando conter as lágrimas. Ela não está mudando de ideia. Não consegue. Corro até ela e seguro suas mãos.
— Por favor. Podemos fazer isso. Talvez eu não consiga me mudar agora, mas eu vou.
Primeiro as coisas precisam se ajeitar por aqui.
Ela aperta minhas mãos e suspira.
— Jordyn me disse que você arranjou um agente. — Sua voz parece um tanto ofendida e ela tem esse direito.
Eu devia ter contado antes que ela descobrisse por outra pessoa, mas andei um pouco preocupado hoje.
Concordo com a cabeça.
— É, uns dois meses atrás. Apresentei a ideia do livro a alguns agentes e um realmente gostou. — Percebo aonde isso vai dar, então balanço a cabeça. — Não importa, Fallon. Posso escrever outra coisa.
Um raio de luz atinge as paredes e ela olha por cima do ombro. Seu táxi chegou.
— Por favor — imploro. — Pelo menos me dê o número do seu telefone. Ligo para você amanhã e vamos resolver tudo, está bem? — Estou tentando manter um tom de voz tranquilizador e esperançoso, mas é difícil esconder o pânico que cresce no meu peito.
Ela me olha com uma expressão de quem parece sentir pena.
— Foram dois dias de muita emoção, Ben. Não é justo eu deixar que você tome uma decisão como essa agora.
Ela me dá um beijo na bochecha e se vira para a porta. Eu a sigo para fora, determinado a não permitir que ela mude de ideia assim.
Quando ela alcança o táxi, se vira para mim com um olhar decidido.
— Eu nunca me perdoaria se não estimulasse você a ir atrás dos seus sonhos, como você me estimulou com os meus. Por favor, não me peça para ser o motivo da sua desistência. Isso não é justo.
Sinto o apelo desesperado em suas palavras e isto empurra tudo que tenho a dizer de volta pela minha garganta. Ela me abraça, apoiando o rosto em meu pescoço. Eu a abraço com força, torcendo para ela mudar de ideia, se sentir o quanto preciso que fique comigo. Mas isso não acontece. Ela me solta e abre a porta do táxi.
Nunca quis usar força física com uma garota, mas sinto vontade de empurrá-la no chão e prendê-la ali até que o táxi vá embora.
— Volto aqui ano que vem — diz ela. — Quero conhecer seu sobrinho. Vamos nos encontrar no restaurante de novo, está bem? Mesma hora, mesmo lugar?
O quê?
Será que tivemos a mesma experiência nas últimas oito horas?
Ela caiu da escada e bateu a cabeça?
Não, não vou concordar com isso. Ela está louca se acha que vou cumprimentá-la animadamente e dizer que a verei daqui a um ano. Balanço a cabeça, inflexível, e fecho a porta do táxi, me recusando a permitir que ela entre.
— Não, Fallon. Você não pode concordar que me ama e depois voltar atrás porque acha que não é o melhor para mim. Não é assim que funciona.
Ela se assusta com as minhas palavras. Acho que estava esperando que eu a deixasse ir embora sem brigar, mas ela não é o tipo de garota por quem você escolhe lutar. É do tipo de garota por quem você luta até a morte.
Ela se recosta no táxi e cruza os braços. Seus olhos estão fixos no chão, mas os meus se concentram nela.
— Ben. — A voz dela mal passa de um sussurro. — Você não precisa ir para Nova York.
Precisa ficar aqui. Vou ser só uma distração e você nunca vai terminar o livro. São só mais três anos. Se estamos destinados a ficar juntos, três anos não significam nada.
Rio, mas é uma risada breve e sem nenhum humor.
— Destinados a ficar juntos? Você ouviu o que acabou de dizer? Este não é um dos seus contos de fada, Fallon. É a vida real, e no mundo real você tem de dar duro para ter o felizes para sempre! — Ponho a mão na nuca e recuo um passo, tentando controlar minha frustração e reprimi-la, mas o sentimento transborda de mim sempre que penso na facilidade com que Fallon consegue entrar nesse táxi, sabendo que não vai me ver por um ano inteiro. — Quando encontrar o amor, deve agarrá-lo. Você o agarra com as mãos e faz o possível para não soltar. Não pode simplesmente se afastar dele e esperar que dure até que você esteja preparada.
Não sei de onde isso está vindo. Nunca tinha ficado bravo com ela, mas estou puto da vida, porque isso magoa. Dói saber que acabamos de compartilhar o que fizemos no meu quarto e depois de pensar um pouco, ela conclui que não significa porra nenhuma para ela. Que eu não significo porra nenhuma para ela.
Seus olhos se arregalaram e ela me observa sofrer com cada emoção que um cara pode sentir.
Esta semana foi cheia delas. Começando pela morte de Kyle, por ter de telefonar para Fallon ontem de manhã, vê-la na minha porta, ter um colapso em cima dela na minha cama, fazer amor
com ela ali mesmo. Se eu tivesse que colocar as emoções dessa semana em um gráfico, pareceria um maremoto.
Noto que ela olha para o táxi como se considerasse sua decisão. Dou um passo à frente e coloco as mãos em seus ombros, obrigando-a a voltar sua atenção para mim.
— Não fuja disto.
Seus ombros baixam com um suspiro. Ela balança de leve a cabeça.
— Ben, não estou fugindo disso. Não estou fazendo nada de diferente do que concordamos no dia em que nos conhecemos. Sou eu que estou me atendo às regras aqui. Concordamos com cinco anos. E, sim, tivemos um leve lapso lá em cima quando quase cedemos e...
Eu a interrompo.
— Um lapso? — Aponto para a casa. — Você está se referindo a nós dois concordando em começar a namorar como um... lapso?
No mesmo instante, ela faz uma expressão de quem pede desculpas, mas não quero ouvir um pedido de desculpas. É óbvio que estou errado aqui, porque quando fiz amor com ela eu sabia que o que estava acontecendo entre nós era algo que a maioria das pessoas nem mesmo sabe que existe. E se ela, ainda que remotamente, sentisse o mesmo, de jeito nenhum estaria dizendo essas coisas.
Meu estômago se revira e sinto vontade de me curvar de dor. Em vez disso, fico firme e lhe dou uma última chance de me provar que o dia inteiro que passou não foi completamente unilateral.
Seguro seu rosto até que meus dedos envolvam sua nuca. Passo os polegares em suas bochechas e a encorajo a olhar para mim. Eu a toco com suavidade... da forma mais gentil que meus dedos conseguem. Ela engole em seco e percebo que minha mudança de atitude a deixa nervosa.
— Fallon — digo, mantendo a voz calma e sincera. — Não me importo com o livro. Nem mesmo quero terminá-lo. Só me importo com você. Em ficar com você todo dia. Ver você todo dia. Ainda não terminei de me apaixonar por você. Mas se não quer terminar de se apaixonar por mim, então precisa me dizer agora. Você quer que eu faça parte da sua vida mais do que só no dia 9 de novembro? Se disser não, vou virar as costas e entrar em casa, e as coisas podem voltar a ser como eram antes de você ter aparecido aqui ontem. Vou continuar trabalhando no livro e nos encontramos ano que vem. Mas se você disser sim... Se disser que quer passar cada dia do calendário deste ano se apaixonando por mim, então vou te beijar. E prometo que será um beijo nota 11. E vou passar cada dia depois de hoje provando a você que tomou a decisão certa.
Minhas mãos permanecem firmes em seu rosto. Os olhos dela se fixam nos meus.
Até que uma lágrima começa lentamente a tomar forma e escorre por seu rosto. Ela balança a cabeça.
— Ben, você não pode...
— É sim ou não, Fallon. É só o que quero ouvir.
Por favor, diga sim. Por favor, me diga que ainda não terminou de se apaixonar por mim.
— Este ano, você precisa ficar aqui, por sua família. Sabe disso tão bem quanto eu, Ben. A última coisa de que precisamos é um namoro por telefone. E é exatamente o que vai acontecer, porque vamos passar cada segundo livre querendo falar um com o outro em vez de nos concentrar em nossos objetivos. Vamos alterar tudo ficando juntos, e não devia ser assim. Ainda
não. Precisamos terminar o que começamos.
Deixo que tudo isso entre por um ouvido e saia pelo outro, porque não é a resposta que quero.
Eu me abaixo até meus olhos ficarem na altura dos dela.
— Sim. Ou não.
Sua respiração sai trêmula. E, então, em um péssimo esforço para aparentar sinceridade, ela fala:
— Não. Não, Ben. Volte para dentro e termine seu livro.
Outra lágrima cai, mas desta vez é do meu olho.
Dou um passo para trás e a solto. Ela abre a janela ao se sentar no banco traseiro do táxi, mas não olho para seu rosto. Encaro o chão abaixo de meus pés, querendo ver se vai se dividir em dois e me engolir inteiro.
— O que quero mais do que tudo é que o mundo todo ria de você, Ben. — Ouço as lágrimas na voz dela. — E isto não vai acontecer se eu não fizer o que você fez por mim no dia em que nos conhecemos. Você me deixou livre. Você me encorajou a ser livre. E quero o mesmo para você. Quero que você siga sua paixão, e não seu coração.
O táxi começa a se afastar e por uma fração de segundo penso que talvez ela vá perceber que suas prioridades são estúpidas, porque minha paixão é ela. O livro é só uma desculpa.
Debato comigo mesmo se devo correr atrás dela, oferecendo uma performance digna de livro.