Novembro, 9
Romance de Ben — CAPÍTULO UM
— Você amava ele? — pergunta ela.
Não faço nada por alguns segundos. Minha garganta parece queimar, então, em vez de dizer sim, simplesmente assinto.
A boca da minha mãe se retorce e ela pisca depressa, duas vezes, como estivesse tentando não chorar. Ainda está passando o polegar na minha bochecha. Seus olhos desviam dos meus e ela percorre as cicatrizes em meu rosto e no pescoço.
— Não vou fingir que sei o que você passou. Mas depois de ler essas páginas, posso lhe garantir que você não foi a única que ficou marcada naquele incêndio. Só porque ele decidiu não mostrar a você as cicatrizes que tem, não quer dizer que não existam. — Ela pega a caixa e a coloca em meu colo. — Aqui estão elas. Ben colocou as cicatrizes dele expostas para você, e você precisa mostrar o respeito que ele lhe mostrou, sem desviar delas.
A primeira lágrima do dia escorre dos meus olhos. Eu devia saber que não me livraria do choro hoje.
Ela se levanta e pega suas coisas. Então sai do meu apartamento sem dizer mais nada.
Abro a caixa, porque ela é minha mãe, eu a amo e, por algum motivo, embora eu tenha 23
anos, ainda faço o que ela manda.
Dou uma olhada no prólogo que li ano passado. Nada mudou. Abro no primeiro capítulo e começo pelo início.
Romance de Ben — CAPÍTULO UM
9 de novembro
Aos 16 Anos
“Rompa no sol até que o sol se ponha, e a morte perderá seu domínio.”
— Dylan Thomas
A maioria das pessoas não sabe o som que a morte tem.
Eu sei.
O som da morte é o da ausência de passos no corredor. Tem o som de um banho matinal que não é tomado. O som da morte é como a falta da voz que deveria gritar meu nome da cozinha, me mandando sair da cama. O som da morte é a ausência da batida em minha porta que, em geral, ocorre minutos antes do meu despertador tocar.
Algumas pessoas dizem ter uma sensação na boca do estômago quando têm a premonição de que algo ruim está prestes a acontecer.
Não estou com essa sensação na boca do estômago agora.
Tenho essa sensação em todo o meu maldito corpo, dos pelos nos meus braços à minha pele, entrando nos ossos. E a cada segundo que passa sem um único som vindo do lado de fora da porta do meu quarto, a sensação fica ainda mais forte e aos poucos começa a penetrar minha alma.
Fico deitado na minha cama por mais alguns minutos, esperando ouvir algum armário na cozinha batendo ou a música que ela sempre ligava, vindo da televisão na sala de estar. Nada acontece, nem depois que o meu despertador toca.
Estendo o braço para desligá-lo, meus dedos tremem enquanto tento me lembrar de como silenciar a droga do despertador, sendo que fazia isso com facilidade desde que o ganhei de Natal dois anos atrás. Quando a estridência cessa, me obrigo a me vestir. Pego meu celular na cômoda, mas só tenho uma mensagem de texto de Abitha.
Treino da torcida depois da escola. Vejo você às cinco?
Enfio o telefone no bolso, mas volto a pegá-lo e o seguro nas mãos. Não me pergunte como eu sei, mas posso precisar dele. E o tempo que demora para tirar o celular do bolso pode ser um tempo precioso desperdiçado.
O quarto dela fica no andar de baixo. Vou até lá e paro diante da porta. Escuto com atenção, mas só ouço silêncio. O silêncio mais alto que se pode ouvir.
Engulo o medo alojado na minha garganta. Digo a mim mesmo que vou rir disso daqui a alguns minutos. Depois que eu abrir a porta do seu quarto e descobrir que ela já saiu para trabalhar. Ela pode ter sido convocada cedo e não quis me acordar.
Gotas de suor cobrem minha testa. Eu as enxugo com a manga da camisa.
Ergo a mão e bato à porta, mas minha mão já está na maçaneta antes que eu espere que ela
responda.
Mas ela não pode me responder. Quando abro a porta, ela não está ali.
Ela se foi.
A única coisa que encontro é seu corpo sem vida deitado no chão do quarto, o sangue formando uma poça em torno da sua cabeça.
Mas ela não está ali.
Não. Minha mãe se foi.
***
Passaram-se três horas do momento em que a encontrei ao momento em que eles saíram da casa com o seu corpo. Eles tiveram que fazer muita coisa, de fotografar tudo no quarto dela, do lado de fora do quarto e na casa toda a me interrogar e procurar provas entre os pertences dela.
Pensando bem, três horas não é muito tempo. Se eles achassem que houve algum crime, teriam isolado a casa. Teriam me avisado que eu precisava encontrar outro lugar para ficar enquanto realizavam a investigação. Eles teriam tratado isto com uma seriedade muito maior.
Afinal de contas, quando uma mulher é encontrada morta no chão do seu quarto com uma arma na mão e uma carta de suicídio na cama, três horas são o tempo necessário para determinar que a responsável foi ela mesma.
Kyle leva três horas e meia para vir do seu alojamento, então ele só vai chegar daqui a trinta minutos.
Trinta minutos é muito tempo para ficar sentado encarando a mancha de sangue que continua no carpete. Se eu virar a cabeça para a esquerda, parece um hipopótamo com a boca escancarada, prestes a devorar a presa. Mas se eu virar para a direita, fica parecendo uma foto policial de Gary Busey.
Será que ela ainda teria passado por isso se soubesse que sua mancha de sangue ficaria parecida com Gary Busey?
Não me demorei muito no quarto com o corpo dela. Só o tempo de ligar para a emergência e de os primeiros a responder chegarem, o que, apesar de ter parecido uma eternidade, deve ter demorado apenas alguns minutos. Mas nestes poucos minutos aprendi mais sobre minha mãe do que achei que seria possível em um intervalo de tempo tão curto.
Ela estava deitada de bruços quando a encontrei e usava uma camiseta que revelava as últimas palavras de uma tatuagem feita vários meses atrás. Eu sabia que era uma citação sobre amor, mas isso era tudo o que eu sabia. Provavelmente de Dylan Thomas, mas nunca perguntei a ela.
Afasto a bainha da sua blusa para ler a frase inteira.
Mesmo que se percam que Amam, o amor continuará.
Eu me levanto e recuo alguns passos, na esperança de que os arrepios passem com a mesma rapidez com que surgiram. Até agora, a citação nunca tinha significado nada. Quando ela fez a tatuagem, supus que quisesse dizer que só porque duas pessoas deixaram de se amar, não significava que o amor delas nunca tenha existido. Eu não me identificava com isso antes, mas agora parece que a tatuagem foi uma premonição. Como se ela a tivesse feito porque queria que eu visse que seu amor não morreu, por mais que ela tenha morrido.
E fico irritado por só ter entendido como relacionar essas palavras ao seu corpo quando ele não era nada além de um simples corpo.
Depois noto a tatuagem em seu pulso esquerdo, que estava ali desde antes do meu nascimento.
É a palavra poética escrita em uma pauta musical. Sei o significado por trás desta porque ela me explicou alguns anos atrás, quando estávamos juntos no carro. Conversávamos sobre amor e eu havia perguntado como é que se sabe quando se está realmente apaixonado por alguém. De início, ela deu a resposta vaga: “você simplesmente sabe.” Mas quando olhou para mim e percebeu que a resposta não tinha me deixado satisfeito, sua expressão ficou séria.
“Ah” , disse ela. “Desta vez está me perguntando para valer? Não como uma criança curiosa, mas como alguém que precisa de conselhos? Então, vou lhe dar a resposta verdadeira.” Senti meu rosto corar, porque eu não queria que ela soubesse que eu achava que podia estar apaixonado. Eu só tinha 13 anos e esses sentimentos eram novos para mim, mas eu tinha certeza de que Brynn Fellows seria minha primeira namorada de verdade.
Minha mãe voltou a olhar para a rua e reparei que ela abriu um sorriso. “Quando digo que você simplesmente sabe, é porque você vai saber. Não vai questionar. Não vai se perguntar se o que está sentindo é realmente amor, porque, quando for, você vai morrer de medo de sentir isso. E, quando acontecer, suas prioridades vão mudar. Você não vai pensar em si mesmo e na própria felicidade. Só vai pensar nessa pessoa, que você faria tudo para ver feliz. Mesmo que isto significasse se afastar dela e sacrificar a própria felicidade pela dela.”
Ela me olhou de soslaio. “Isto é amor, Ben. Amor é sacrifício.” Ela indicou com o dedo a tatuagem no seu pulso esquerdo, a que estava ali desde antes do meu nascimento. “Fiz essa tatuagem no dia que senti esse tipo de amor por seu pai. E a escolhi porque se eu tivesse que descrever o amor naquele dia, diria que parecia minhas duas coisas preferidas ampliadas e unidas. Como meu verso poético preferido misturado com a letra da minha música preferida.” Ela me olhou outra vez, mais séria. “Você vai saber, Ben. Quando estiver disposto a abrir mão das coisas que mais significam para você só para ver alguém feliz. Isto é amor de verdade.”
Fiquei um tempo olhando para a tatuagem, me perguntando se um dia eu poderia amar alguém assim. Eu não tinha certeza se queria abrir mão das coisas que mais amava, se isso significava que eu não receberia nada em troca. Eu achava Brynn Fellows bonita, mas nem sabia se daria a ela meu almoço, se eu estivesse com fome. Certamente não faria uma tatuagem por causa dela.
“Mas por que você fez a tatuagem?” , perguntei. “Para o meu pai saber que você o amava?”
Ela balançou a cabeça. “Não fiz pelo seu pai, nem por causa dele. Fiz principalmente por mim mesma, porque eu tinha certeza absoluta de que tinha aprendido a amar com altruísmo.
Foi a primeira vez que desejei mais felicidade para a pessoa que estava comigo do que para mim. E uma mistura das minhas duas coisas preferidas foi o único jeito em que pensei para descrever como era aquele amor que eu sentia. Eu queria me lembrar dele para sempre, caso nunca mais voltasse a sentir.”
Não consegui ler a carta de suicídio que ela deixou, mas fiquei curioso se ela havia mudado de ideia sobre o amor altruísta. Ou se talvez ela só tivesse amado meu pai com altruísmo, mas nunca os próprios filhos. Porque suicídio é a coisa mais egoísta que uma pessoa pode fazer.
Depois de encontrá-la, verifiquei se ela estava realmente morta, depois liguei para a emergência. Tive de ficar ao telefone com o atendente até a polícia chegar, então não tive a chance de procurar um bilhete de suicídio em seu quarto. A polícia o encontrou e o pegou com uma pinça, colocando-o em um saco que depois foi vedado. Depois que o lacraram como prova, não tive coragem de perguntar a eles se podia ler.
Um dos meus vizinhos, o Sr. Mitchell, estava aqui quando eles saíram. Disse ao policial que cuidaria de mim até meus irmãos chegarem, então fiquei aos cuidados dele. Mas assim que os policiais foram embora, falei para ele que ficaria bem e que precisava ligar para alguns parentes. Ele me disse que, de qualquer modo, precisava ir correndo aos correios e que mais tarde voltaria para verificar como eu estava.
Parecia que meu cachorrinho tinha morrido e ele queria me dizer que ia ficar tudo bem, que eu arrumaria um novo.
Eu teria um Yorkie, porque é exatamente o que parece a mancha de sangue se eu tapo o olho direito e estreito o outro.
Será que estou em choque? É por isso que não estou chorando? Minha mãe teria ficado irritada por eu não estar chorando. Tenho certeza de que a atenção pesou na decisão dela. Ela adorava atenção, mas não de um jeito ruim. Era só um fato. E não sei se estou dando atenção suficiente a sua morte, se nem estou chorando ainda.
Acho que estou principalmente confuso. Ela parecia feliz durante a maior parte da minha vida. É claro que havia dias em que estava triste. Relacionamentos que deram errado. Minha mãe amava amar e foi uma mulher atraente até estourar a própria cabeça. Muitos homens achavam.
Mas minha mãe também era inteligente. E embora um relacionamento que ela julgasse promissor tenha terminado alguns dias atrás, ela simplesmente não parecia ser do tipo que tiraria a própria vida para provar a um homem que ele devia ter ficado com ela. E ela jamais amou um homem a ponto de sentir que não podia viver sem ele. Esse tipo de amor não é real, aliás. Se pais conseguem sobreviver à perda dos filhos, então homens e mulheres podem muito bem conviver com o fim de um relacionamento.
Quinze minutos se passaram desde que comecei a refletir sobre o motivo que a levaria a fazer isto, e não estou mais perto de uma resposta do que antes.
Decido investigar. Eu me sinto um pouco culpado, porque ela é minha mãe e merece privacidade. Mas se uma pessoa tem tempo para escrever um bilhete de suicídio, certamente tem tempo para destruir coisas que nunca quis que os filhos encontrassem. Passo a meia hora seguinte (por que Kyle ainda não chegou aqui?) xeretando as coisas dela.
Vasculhei seu celular e o e-mail. Várias mensagens de texto e e-mails depois, estou convencido de que sei exatamente por que minha mãe se matou.
O nome dele é Donovan O’Neil.