Novembro, 9

Colleen Hoover · Capítulo 19 de 33

Páginas do PDF

Novembro, 9

Ben

Ele passa o braço por meu ombro e me redireciona até seu carro. Abre a porta do carona para mim, mas, antes de entrar, pega meu rosto com as mãos em concha e encosta os lábios nos meus.

Quando se afasta, fico chocada com quanta emoção há em sua expressão depois do ridículo dos últimos quinze minutos.

— Não vai se arrepender disto, Fallon. Prometo.

Espero que não.

Ele me dá um beijo na bochecha e me espera entrar no carro.

As mãos de alguém agarram meus ombros por trás e o rosto de Glenn surge ao meu lado, no banco traseiro.

— Também prometo — diz ele, me dando um beijo estalado na bochecha.

Enquanto arrancamos do estacionamento, olho pela janela porque não quero que os três vejam as lágrimas em meus olhos.

Porque, sim, ouvir Theodore me insultar não só me magoou, como foi de longe um dos momentos mais constrangedores da minha vida. Mas saber que esses três me defenderam sem pensar quase fez a ofensa valer a pena.

Ben

Por pelo menos um quilômetro e meio, fica o maior silêncio depois que deixamos Glenn e Amber. Ela ficou olhando pela janela durante todo o percurso e eu queria que olhasse para mim.

Sei que o que a fiz passar ano passado a magoou mais do que posso imaginar e espero que ela perceba que vou fazer o que é certo. Nem que leve o resto da minha vida, vou fazer isso certo.

Estendo o braço e seguro a mão dela.

— Preciso pedir desculpas — digo a ela. — Eu não devia ter dito aquelas coisas...

Ela balança a cabeça, me interrompendo em silêncio.

— Não retire o que disse. Achei admirável você ter sido sincero com Theodore. A maioria dos homens seria covarde demais para dizer qualquer coisa e simplesmente roubaria a garota pelas costas do outro.

Ela não faz ideia sobre o que eu me estava me sentindo mal.

— Eu não estava pedindo desculpas por isso. Estou me desculpando porque eu nunca devia ter dito que estava apaixonado por você daquele jeito, quando não estava falando diretamente com você. Merece mais do que um eu te amo de segunda mão.

Ela me olha sem dizer nada e vira o rosto para a janela. Volto a olhar para a rua, depois dou outra olhada na direção dela. Percebo sua bochecha se erguer em um sorriso enquanto ela aperta minha mão.

— Talvez, se a explicação e a humilhação forem boas esta noite, você possa tentar um eu te amo outra vez, antes de preparar meu café da manhã.

Sorrio, porque sei, sem dúvida nenhuma, que a humilhação e o café serão moleza.

É da explicação que tenho medo. Ainda temos pelo menos 15 minutos dentro do carro, então decido começar já.

— Eu me mudei logo depois do Natal do ano passado. Ian e eu deixamos Jordyn e Oliver ficar com a casa.

Sinto a tensão da mão dela na minha só à menção do nome de Jordyn. Detesto isso. Detesto ter provocado isso e detesto que isso sempre vá estar no fundo da mente de Fallon, pelo resto da nossa vida. Porque, quer ela queira ou não, Jordyn é mãe de Oliver, que é como um filho para mim. Eles sempre estarão presentes na minha vida, independentemente de qualquer coisa.

— Você acreditaria em mim, se eu dissesse que as coisas estão ótimas entre nós? Entre mim e Jordyn?

Ela me olha de soslaio.

— Ótimas em que sentido?

Afasto a mão da dela e seguro o volante para apertar meu queixo com a outra mão, com o intuito de me livrar da tensão.

— Quero que você me escute antes de falar, está bem? Porque pode ser que eu diga algumas

coisas que você não quer ouvir, mas preciso que ouça.

Ela concorda suavemente com a cabeça, eu então puxo ar, procurando coragem.

— Dois anos atrás... quando fiz amor com você... dei tudo a você. Coração e alma. Mas, naquela noite, quando você decidiu passar um ano inteiro sem me ver de novo, não consegui entender o que tinha acontecido. Eu não entendia como eu podia ter sentido tudo aquilo e você não ter sentido nada. Doeu pra cacete, Fallon. Você foi embora, fiquei zangado, e nem sei dizer como aqueles meses foram difíceis. Eu não estava só sofrendo pela morte de Kyle, estava de luto por sua perda também.

Olho fixo para a frente, porque não quero ver o que minhas palavras provocam nela.

— Quando Oliver nasceu, foi a primeira vez que me senti feliz desde o momento em que você apareceu de surpresa na minha porta. Foi a primeira vez que Jordyn sorriu desde a morte de Kyle. Então, nos meses seguintes, passamos cada minuto juntos com Oliver, porque ele era o único ponto luminoso em nossa vida. E quando duas pessoas amam tanto alguém como nós amamos ele, surge um vínculo que eu não consigo explicar. Nos meses seguintes, ela e Oliver foram capazes de preencher os imensos vazios que você e Kyle deixaram em meu coração. E

acho que, de certo modo, preenchi o vazio que Kyle deixou no coração dela. Quando as coisas evoluíram entre nós, eu nem mesmo sei se alguém pensou sobre isso antes que acontecesse. Mas aconteceu e ninguém estava lá para me dizer que um dia eu poderia me arrepender.

“Quer dizer... Até havia uma parte de mim que acreditava que você ficaria feliz por mim quando nos encontrássemos no próximo mês de novembro. Achei que talvez fosse o que você quisesse, que eu tocasse minha vida e parasse de me prender ao que você via como uma relação fictícia que criamos quando tínhamos 18 anos.

“Mas quando apareci naquele dia... a última coisa que eu esperava era que você ficasse tão magoada daquele jeito. E assim que você descobriu que eu estava com Jordyn, vi em seus olhos o quanto você realmente me ama e foi um dos piores momentos da minha vida, Fallon. Um dos piores momentos, porra, e ainda sinto as feridas que suas lágrimas deixaram em meu peito sempre que eu respiro.”

Agarro o volante e solto o ar com firmeza.

— Assim que Jordyn chegou em casa naquela noite, viu a mágoa em meu rosto. E ela sabia que não era a garota que havia causado isso. Surpreendentemente, ela nem ficou chateada.

Conversamos sobre o assunto por cerca de duas horas sem parar. Sobre o que eu sentia por você e o que ela sentia por Kyle, e que nós sabíamos que estávamos nos magoando mantendo um relacionamento que jamais seria igual àquele que tivemos com outra pessoa no passado. Então, terminamos. Naquele dia. Tirei minhas coisas do quarto dela naquela noite e voltei para o meu até encontrar uma casa nova.

Arrisco olhar na direção dela, mas Fallon continua olhando fixamente pela janela. Vejo que ela enxuga uma lágrima e estou torcendo para não ter deixado ela aborrecida.

— Não estou colocando a culpa de nada disso em você, Fallon. Está bem? Só falei sobre aquele ano em que você foi embora porque preciso que saiba que a dona do meu coração sempre foi você. E eu nunca teria deixado que outra pessoa o pegasse emprestado se soubesse que havia uma chance em um milhão de você querer de volta.

Vejo seus ombros se sacudindo e detesto que estou fazendo ela chorar. Odeio isso. Não quero que ela fique triste. Fallon me encara com os olhos cheios d’água.

— E Oliver? — pergunta ela. — Você não mora mais com ele? — Ela enxuga outra lágrima.

— Eu me sinto péssima, Ben. Parece que afastei você do seu filho.

Ela tapa o rosto com as mãos e começa a soluçar. Não suporto nem mais um segundo disso.

Paro o carro no acostamento e ligo o pisca-alerta. Solto o cinto de segurança e estendo o braço pelo banco para puxá-la para mim.

— Não, amor — sussurro. — Por favor, não chore por isso. Eu e Oliver... Está tudo perfeito.

Eu o vejo sempre que quero, quase todo dia. Não preciso morar com a mãe dele para amá-lo do mesmo jeito.

Passo as mãos por seu cabelo e beijo a lateral da sua cabeça.

— É bom. As coisas estão ótimas, Fallon. A única coisa que não está certa na minha vida é o fato de você não fazer parte dela todos os dias.

Ela se afasta do meu ombro e funga.

— Essa é única coisa que não está certa na minha vida, Ben. Todo o resto está perfeito.

Tenho dois dos melhores amigos do mundo. Adoro o que estudo. Adoro meu trabalho. Tenho uma ótima mãe e um ótimo meio pai. — Ela ri ao dizer esta última frase. — Mas a única coisa que me deixa triste... a maior delas... é que penso em você todo segundo de cada dia e não sei como te esquecer.

— Não esqueça — imploro. — Por favor, não me esqueça.

Ela dá de ombros com um sorriso indiferente.

— Não consigo. Tentei, mas acho que preciso de um AA ou coisa assim. Agora você já faz parte da minha composição química.

Rio, aliviado porque ela... simplesmente existe. E porque temos sorte suficiente de existir na mesma época, na mesma região do mundo, no mesmo estado. E depois de todos esses anos, surpreendentemente eu não mudaria nada do que, no fim das contas, nos uniu.

— Ben? Parece que você vai vomitar de novo.

Rio e balanço a cabeça.

— Não vou. Só preciso dizer que eu te amo, mas acho que devo te avisar antes de fazer isso.

— Tudo bem. Me avisar o quê?

— Que concordando em retribuir meu amor, você está assumindo uma responsabilidade enorme. Porque Oliver vai fazer parte da minha vida para sempre. E não estou falando como tio e sobrinho, mas como se ele fosse meu. Festas de aniversário, jogos de beisebol e...

Ela tapa minha boca com a mão para me calar.

— Amar alguém não inclui só a pessoa, Ben. Amar alguém significa aceitar todas as coisas e pessoas que esse alguém também ama. E vou aceitar. Prometo.

Eu realmente não a mereço. Mas a puxo para perto e a coloco entre mim e o volante. Puxo sua boca para a minha e falo:

— Eu te amo, Fallon. Mais do que poesia, mais do que palavras, mais do que música, mais do que seus peitos. Os dois. Faz ideia do quanto isto significa?

Ela ri e chora ao mesmo tempo e encosto meus lábios nos dela, querendo me lembrar deste beijo mais do que de qualquer outro que dei nela, por mais que só dure dois segundos, porque ela logo se afasta para dizer:

— Também te amo. E acho que foi uma explicação estelar. Uma explicação que sequer precisa de muita humilhação, então eu gostaria de ir para sua casa agora e fazer amor com você.

Dou-lhe um beijo rápido, depois a empurro para seu lado do carro enquanto me preparo para seguir pela rua. Ela coloca o cinto de segurança e fala:

— Mas ainda estou esperando o café amanhã.

• • •

— Então, tecnicamente, só passamos, no total, 28 horas juntos desde que nos conhecemos — diz ela.

Estamos na minha cama. Ela está jogada por cima de mim, passando os dedos em meu peito.

Assim que voltamos para o apartamento, fiz amor com ela. Duas vezes. E se ela não parar de me tocar desse jeito, estamos prestes a ter uma terceira.

— Isso é tempo mais do que suficiente para saber se você ama alguém — digo.

Andamos contando quanto tempo no total realmente passamos juntos ao longo de quatro anos.

Para ser sincero, achei que seria mais do que isso, porque parece mais, mas Fallon tinha razão quando disse que sequer daria um total de dois dias.

— Veja por este ângulo — começo, esmiuçando ainda mais. — Se tivéssemos um relacionamento tradicional, teríamos saído algumas vezes, talvez uma ou duas vezes por semana, por cerca de algumas horas. Isto dá uma média de apenas 12 horas no primeiro mês.

Digamos que tivéssemos dois encontros que duraram a noite toda no segundo mês. Os casais podem muito bem começar o terceiro mês de namoro na época em que eles passaram por 28

horas juntos no total. E o terceiro mês é quintessencial para o “eu te amo”. Então, tecnicamente, estamos no caminho certo.

Ela morde o lábio para conter o sorriso.

— Gosto da sua lógica. Você sabe como detesto amor instantâneo.

— Ah, mas ainda é amor instantâneo — digo a ela. — Só que o nosso é legítimo.

Ela se apoia no cotovelo, me olhando de cima.

— Quando você soube? Tipo, em que segundo teve certeza de que estava apaixonado por mim?

Eu nem hesito.

— Lembra quando nos beijamos na praia e eu me sentei e disse que queria fazer uma tatuagem?

Ela sorri.

— Foi uma coisa tão aleatória, como eu poderia esquecer?

— Foi por isso que fiz a tatuagem. Porque naquele instante eu soube que tinha me apaixonado por uma garota pela primeira vez. Tipo, amor verdadeiro. Amor altruísta. E minha mãe me disse uma vez que eu saberia no segundo em que encontrasse o amor altruísta, e que eu deveria fazer alguma coisa para me lembrar desse momento, porque não acontece com todo mundo.

Então... é isso.

Ela segura meu pulso e dá uma olhada na minha tatuagem. Acompanha o desenho com o indicador.

— Você fez isso por minha causa? — pergunta ela, olhando outra vez para mim. — Mas o que quer dizer? Por que você escolheu a palavra poética? E a pauta musical?

Observo minha tatuagem e me pergunto se realmente devo entrar em detalhes com ela sobre a

escolha que fiz. Mas esse momento do passado atrapalharia o atual e não quero isso.

— Motivos pessoais — respondo, com um sorriso forçado. — Um dia vou te contar, mas agora quero que você me beije de novo.

Não leva nem dez segundos para que eu a coloque de costas e esteja totalmente dentro dela.

Desta vez, faço amor lentamente, não na pressa louca, como fizemos nas duas vezes anteriores.