O Diário da Escrava Amada

Anelise Vaz · Capítulo 20 de 56

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O Diário da Escrava Amada

Capítulo 23 · Grande Trauma

 

Só pude ler novamente quando voltei do trabalho. Troquei de roupa, peguei o diário e me sentei no sofá. Li uma anotação bem semelhante à do dia anterior. Quando acabei, Kazuko se sentou ao meu lado e ligou a TV.

– Que parte você está lendo? – disse espiando – Ah, essa parte. Eu não gosto muito de lembrar desse dia.

Sabia bem a que dia ela se referia, pois eu dei uma espiada em algumas linhas lá embaixo. Comecei da linha que estava no topo da página.

“Diário,

Eu nem sei nem por onde começar a dizer tudo o que aconteceu ontem à noite. As lágrimas e a culpa não saem de mim.

Tive um dia bem normal e estava me sentindo ótima. Eu adormeci rápido a noite e foi então que este pesadelo começou. Na verdade, no início parecia um sonho como qualquer outro.

Colocava o bebê para dormir, carregava-o em meus braços. Os olhinhos dele abriam e fechavam, até que finalmente dormiu. Observei seu rosto sereno e uma coisa estranha aconteceu. Uma brisa soprou atrás de nós e o bebê começou a se desfazer, como se fosse areia.

Assustei-me e perplexa, o vi sumir diante de mim. E não pude fazer nada. Tentei gritar no sonho, mas aconteceu de eu acordar gritando. Foi tão forte que me secou a garganta. Makoto levantou num pulo e perguntou:

– Kazuko, o que houve? – então acendeu o abajur e pude ver uma expressão de aflição em seu rosto quanto olhou em direção as cobertas.

Foi aí que eu senti e vi. Uma sensação idêntica a quando minhas regras vêm e sangue. Apesar da pouca luz era possível para ver, nitidamente, que era sangue, os lençóis são claros.

O desespero veio, uma grande dor também e só consegui chorar. Makoto me chamou e falou, segurando em meus ombros:

– Temos que ir ao hospital agora. Se troque depressa e vamos.

Fiz conforme ele mandou. Coloquei um vestido simples e saímos. Nem as lágrimas e nem a dor paravam. Ele parou o carro, levantou meu rosto e me disse:

– Kazuko, tá tudo bem!

Assenti concordando e seguimos. Consegui controlar as emoções no caminho.”

Eu não queria pensar no pior nesse momento. Tinha esperanças de que ela não abortara. Também estava desesperado e nervoso, porém eu tinha que mostrar segurança e apoiar Kazuko.

“Por sorte, Rin estava no hospital, pois uma de suas pacientes encontrava-se em trabalho de parto. Durante a triagem, eles a chamaram para me atender.

– Boa noite, Kazuko, Makoto!

– Boa noite! – respondemos em uníssono

– E o que aconteceu? – indagou Rin, próxima de mim e me olhando

– Ela teve um sangramento. – ele quem respondeu

– Muito sangue? Pouco sangue?

– Bom, o lençol ficou razoavelmente sujo.

– Ok! Vamos ter que ir a máquina de ultrassom para ver se está tudo bem.

Fizemos conforme ela disse.

Eu me deitei na maca e ela pôs aquilo na minha vagina. Mexeu por um tempo e pude pressentir pelo olhar dela que vinha uma má notícia. Não tive coragem de perguntar, quem o fez foi Makoto:

– E então?

– Eu lamento. – ela virou-se para ele – Kazuko sofreu um aborto.

A única coisa que consegui fazer foi chorar, apenas uma lágrima solitária caiu. Rin discursou o resto dos procedimentos:

– Kazuko, vou te colocar em observação até amanhã. Vamos ver se seu corpo vai expulsar mais algo. Caso não, mandarei fazer a curetagem para tirar o que ainda estiver dentro de você e também para estancar esse sangramento. Com licença! – e saiu

Então desabei de novo. Makoto estava parado ao meu lado. Seu olhar parecia perdido e triste.”

Eu ainda estava em choque com a notícia repentina. Não sabia como reagir, só não queria era chorar diante dela. Eu sentia que ia piorar o estado dela por causa disso. E tanta coisa também se passava na minha cabeça.

“– Makoto! – chamei-o tocando em sua mão

– Oi, Kazuko. – falou sentando-se na maca e olhando para mim

– Me desculpa.

– Pelo quê?

– Por ter perdido o bebê.

– Kazuko, já te disse que está tudo bem. – apertou a minha mão – Estamos juntos nisso, lembra? – assenti – Então, não fiquei assim.

– Tentarei fazer o meu melhor. – sorri um pouco

– Sendo assim está bom.

E não falamos mais nada. Ficamos nos olhando, um clima meio desconfortável até chegarem para me levar ao quarto. Makoto me acompanhou até lá. Fiquei algumas horas em observação e nada aconteceu. Acabaram me levando para fazer a curetagem. Ele não pode ir comigo.”

Vi Kazuko sendo levada na maca. Sai dali e fui ao banheiro, era o único lugar onde poderia ficar sozinho.

Adentrei em um dos boxes e, fora do meu controle, as lágrimas caíram em silêncio. Todo o choro que segurei na frente dela caiu naquele momento.

Também fiquei triste por ela ter perdido o bebê. Assim como ela, já estava imaginando a vida com ele. Nós dois ainda estávamos assimilando e acostumando a ideia de termos um filho juntos. Foi um choque ao descobrir e outro choque ao perder.

Todos esses sentimentos escorriam por meus olhos. Com certeza, isso foi um grande trauma para mim e para Kazuko. Ainda lembramo-nos deste bebê perdido, não com tanto carinho quanto gostaríamos, pois não tivemos muito tempo para amá-lo.

“Levaram-me para uma espécie de sala de cirurgia e a própria Rin estava lá me esperando. Ela veio me explicar o que faria:

– Kazuko, eu vou te anestesiar. Vai dormir uma meia hora. Talvez acorde um pouco dolorida, mas isso é normal. Alguma pergunta?

– Eu vou para o quarto depois disso?

– Sim!

Então, ela me deu a anestesia e eu apaguei.

Quando dei por mim já estava no quarto. Makoto e Rin conversavam, mas só ouvi uma fala da conversa:

– Quando a menstruação dela voltar, podemos retornar com o anticoncepcional.

Rin saiu

– Parece que acordou. – falou – Como se sente?

– Bem, apesar de meio sonolenta.

Ele se sentou na cama e eu perguntei:

– O que a Rin tava falando com você?

– Sobre o que aconteceu. Ela me disse que o bebê ainda estava dentro de você. Só que ele descolou na parede e foi parar no colo do seu útero.

– Por isso eu sangrei daquele jeito.

– É! Foi!

– Ela disse em quanto tempo eu posso me recuperar?

– Entre dois ou três meses.

Ele baixou o olhar e ficou acariciando a minha mão.

– Makoto, – soltei, ele levantou a face – se quiser, podemos tentar de novo.

Por que eu falei isso?

– Não precisa. Lembra que eu não quero filhos agora?

– Lembro sim. Mas, eu pensei que tivesse mudado de vontade.

– Eu só me conformei com o houve. Aceitei a ideia de ter um filho.

– Eu também!

– É melhor descansar, teve uma noite cansativa.

– Cansativa? Acabei de acordar de um cochilo.

Foi só nesse momento que eu notei, Makoto estava com os olhos vermelhos e também visualmente abatido. Não aparentava mesmo estar conformado com o ocorrido. Parecia que também havia chorado.

– E esses olhos vermelhos? – indaguei

– É só sono, só isso.

– Melhor descansar um pouco. – olhei as horas no relógio – E o seu trabalho?

– Eu falo com o meu chefe, você sabe que ele é bem compreensivo.

Apenas concordei. Makoto saiu em seguida e o ainda efeito da anestesia me fez dormir de novo.”

Eu liguei pro meu chefe na hora que costumo sair de casa para trabalhar e lhe contei toda a história. Ele se mostrou triste por mim, afinal, ele já passou por isso também, e depois me liberou para tirar uns dias de folga para cuidar da Kazuko.

“Acordei porque o Sol me incomodava. Ele já estava razoavelmente alto no céu, pelo que percebia. Cobri parte do rosto com a mão e olhei para o sofá ali perto. Makoto dormia sentado, com uma postura firme e braços cruzados.

A enfermeira entrou no quarto trazendo meu café da manhã. Sua voz acabou despertando-o abruptamente.

– Bom dia, Srta. Hirasawa.

– Bom dia. – respondi

Ele também respondeu, entre dois bocejos.

A enfermeira ajudou-me a me ajeitar na cama, posicionou a mesa e saiu. Foi então que Makoto se levantou e veio falar comigo.

– Dormiu bem?

– Sim. O efeito da anestesia ajudou um pouco. E você?

– Mais ou menos. Aquele sofá não é muito confortável.

Tentei um sorriso, mas não estava com tanto ânimo para tal. Minha mãe veio a minha cabeça.

– O que foi?

– Só queria a minha mãe aqui. Queria conversar com ela.

– Eu posso trazê-la aqui para te ver.

– Não, Makoto, não precisa. Eu não quero incomodá-la.

Comi após isso. Passei o resto do dia em observação, apenas para certificarem que eu não voltaria a sangrar. Sai quase amanhecendo de novo. Viemos direto para casa. Ao chegarmos, só me veio uma vontade de ficar sozinha. Fui a caminho do meu quarto, Makoto me interrompeu:

– Onde vai, Kazuko?

– Pro meu quarto. Eu só quero ficar sozinha!

Ele não disse nada e também não era para isso mesmo.

Eu já chorei bastante e ainda preciso chorar. Não faço ideia de como tirar essa tristeza e culpa de mim. Achei que desabafar aqui fosse melhorar, mesmo que um pouco, mas não adiantou.

Só espero que o tempo consiga curar esta ferida.”

Era o fim da anotação.

Eu permiti uma lágrima solitária cair, apenas por conta das lembranças. Deixei o diário de lado e a própria dona dele me consolou.