O Diário da Escrava Amada
Capítulo 53 · Para quando é o bebê?
Fui ler novamente durante a noite. Dessa vez sentei-me na sala mesmo, enquanto Kazuko brincava com Takumi. Assim que ela me viu sentado com o diário nas mãos, falou:
– Olha filho, o papai vai ler o diário da mamãe de novo. Ele não vai largar até terminar. Papai fofoqueiro!
Eu tive que rir. Ela queria me provocar jogando essa indireta ridícula. Na verdade, eu sei que ela estava brincando comigo. Mas, eu respondi:
– Fofoqueiro da própria vida: nunca vi.
E rimos. Nunca deixei de ficar com eles por causa da leitura.
E por falar nela. O trecho agora é de uns dos poucos dias depois do último, quando mais um ciclo da Kazuko começou, trazendo toda a mesma carga que meu eu do passado não suportava mais ver. Vou lhes explicar no decorrer.
“Diário,
Mais um mês se passa e nada. Eu não sei mais o que estou sentindo. Frustração? Tristeza? A única coisa certa é a vontade enorme de chorar. Eu fico decepcionada comigo mesma... Sempre! Sem exceção!
E o Makoto? Bem, ele está sempre do meu lado, dizendo que está tudo bem e não é o fim do mundo. Ele me abraça e me deixa chorar, entende que eu preciso disso.
Parece que eu passo por um luto todos os meses. Sofrendo por um bebê que não veio. Mais um filho que perdi!”
Pior que era assim mesmo, Kazuko sofria muito e até cada vez mais a cada mês. É aquela coisa de querer tentar algo e sofrer sempre que não consegue.
E eu sofria junto dela e até por ela. Vê-la daquele jeito me matava por dentro. Sentia-me responsável e até culpado por fazê-la passar por aquilo. Por impô-la a passar por isso, de ter que engravidar a todo custo, por pressão minha e dela. Se eu tivesse dito não, nada disso estaria acontecendo. Minha mente já estava com planos para livrar Kazuko deste sofrimento e era algo radical.
“Sei que houve a recente mudança do tratamento e não houve tempo hábil para funcionar.
Eu e Makoto estamos seguindo as outras recomendações de Rin. Porém, tudo isso não impede de ficar assim. Algo que quero tanto e parece que nunca será o dia que verei os dois tracinhos num exame de farmácia. Pego-me pensando em muitas coisas, especialmente sobre o que faremos se não conseguirmos. Makoto disse que podemos continuar tentando por quanto tempo for necessário. Eu não sei se aguento até lá.
E bem, hoje aconteceu algo que eu diria chato. Recebemos visitas hoje, o chefe e alguns colegas de trabalho. Eles levaram as esposas, só para eu ficar muito mais constrangida. Era um jantar só para fazer mesmo uma social, comemorar um grande caso resolvido no escritório.
Eles estavam sentados na sala, conversando e eu lá com a Keiko ajudando a terminar a comida. Não tenho assunto nenhum com eles. Só que é óbvio que Makoto queria que eu fosse lá. Ele me chamou na cozinha e me arrastou até a sala.
– Ah, olha ela aí. – falou Yuuki, chefe de Makoto – Quanto tempo não lhe vejo. Desde a confraternização do escritório.
Cumprimentei todos e me sentei ao lado de Makoto no sofá.
– Então, é verdade que estão juntos? – Yoko perguntou, debochada
Eu me livro de uma embuste e me aparece outra. O que eu fiz para merecer isso? Já não basta eu estar mal por tantas outras razões?
– Estamos sim! – respondi
– E querem ter um bebê? – indagou outra esposa
– Queremos.
– Isso é coisa demais para minha cabeça. – disse outra – Com a escrava que é namorada? – e sussurrou no ouvido do marido – Querido, vamos embora?
Eu simplesmente odeio o quanto as pessoas são preconceituosas na minha frente. Elas não fazem nem questão de disfarçar. Depois disso, minha língua queimava para retrucar. Makoto sabia disso e segurou a minha mão para me segurar e não falar nada.”
Se eu pudesse, teria a expulsado de lá, mas alguns momentos da vida simplesmente não permitem a gente ser grosso e mal-educado, só que dessa vez tive que dar uma resposta daquelas por nós dois.
“– Isso diz respeito apenas a mim e ela. – Makoto disse e se fosse possível, teria saído fogo da boca dele
– Nunca entendo esses pró-escravos. – ela esbravejou – Vocês atrasam nosso mundo sabia?
Dessa vez eu quem tive que apertar a mão dele porque senão ele ia dar muitos argumentos pró-escravos e aquela noite não terminaria bem. Alias, ela já estava indo tão bem assim.
– E tem quanto tempo que estão tentando? – dessa vez foi um dos colegas
– Alguns meses.
– Tudo isso? – Yoko de novo – E o poder da juventude, querida? Perdeu?
Respirei fundo e fui científica:
– O uso prolongado de remédio que está dificultando.
Então, elas, as esposas, resolveram fazer um interrogatório sobre o que eu tinha de errado para não ter engravidado ainda. Até porque escravas são conhecidas por conseguirem rápido.
Os homens trocaram de assunto, abrindo outra conversa, enquanto eu tinha que escutar especulações da minha vida por pessoas que não fazem diferença nela. E aquilo estava me irritando.
Eu poderia falar alguma coisa? Poderia! Mas, achei melhor não. Ficar quieta é melhor em algumas situações. Deixem-nas pensarem o que quiser de mim, já cheguei num ponto que não me importa mais. Pedi licença e voltei para ajudar a Keiko, que comentou sobre a conversa na sala.
– Elas sempre com a língua afiada, né?
– Pois é. Adoram falar mal de escravas. Nunca vi.
– Falta de amor, só pode. – Keiko e eu rimos – Mas, vamos esquecê-las. Prove! Veja se está bom.
Provei e estava uma delícia. Era hora de levar tudo para a mesa. Chegara a outra hora constrangedora: a do jantar.
Retornei a companhia de todos, maioria que nem que queria que estivesse. Se pudessem, elas mesmas me pegariam, me trancariam num quarto qualquer e jogariam a chave fora. Não é exagero!
E claro, elas notaram minha breve ausência e tiveram que comentar:
– Ora, não gostou do que falamos e foi ajudar a empregada?
– Ela foi ver como estava o jantar. – Makoto falou primeiro e eu agradeci, pois teria sido grossa, porque a paciência já estava no limite, quase acabando
Sentei ao lado de Makoto, que ficou na cabeceira da mesa. Ainda bem que o assunto da refeição foi dominado pelos homens, assim, as esposas ficaram quietas e não me perturbaram e eu tive desculpa para não falar nada.
Na minha vida, sempre notei uma coisa engraçada: o quanto mulheres não se apoiam. Existe uma rivalidade invisível e inútil, que só atrapalha nossas vidas. E parece que com as de classe mais alta isso é ainda mais evidente. Eu saio bastante e me pego ouvindo as conversas delas e não são nada agradáveis. Não as reproduzirei.
Depois, quando acontecem situações como as de hoje, eu percebo a falta enorme de empatia. Se fazem com as que são iguais a elas, imaginem com quem é inferior. Já ouvi tantas vezes quando visitei casas de amigos do Makoto, andando sozinha na rua. Acho que já acostumei, mesmo que me irrite um pouco de vez em quando. Só que elas realmente estão tocando na minha ferida ao falar sobre eu não ter engravidado. Por muito pouco, não deixei me abalar. Foi por isso que me dirigi até a cozinha. Elas falaram mais sobre mim até o final da noite.
Logo as visitas e Keiko foram embora e ficamos apenas eu e Makoto.
– Desculpe te fazer passar por isso, Kazuko.
– Você sabe que estou acostumada.
– Mesmo assim. Não gosto que fiquem falando assim na sua frente.
– Quer dizer que eles podem falar mal de mim?
– Poder podem. Porque não controlamos o que as pessoas pensam de nós, mas pelo menos o ser em questão precisa estar presente.
E rimos.
– Lembro que a Kana fazia a mesma coisa, só que não era na sua frente. Talvez elas façam isso para sentirem superiores.
– Talvez seja.
– Só não podiam ter jogado uma coisa na minha cara.
– É, eu sei. – ele sorriu, tentando me animar – Já não basta a pressão que coloca em si.
Então, ele disse para eu tomar banho enquanto ele arrumava a mesa e lavava a louça. Aproveitei para vir lhe escrever.
Vou dormir.
Até o mais breve possível!”
Fechei o diário e fui brincar com Takumi e Kazuko. Aproveitar o tempo em família, ao invés de ficar lendo interminavelmente um diário, de uma história que a gente já conhece, só para deixar a esposa com ciúmes e se divertir com isso.