O Diário da Escrava Amada

Anelise Vaz · Capítulo 44 de 56

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O Diário da Escrava Amada

Capítulo 48 · Grande decisão

 

 

Voltei para casa depois da longa tarde de trabalho. Estava cansado e só queria me jogar no sofá, depois pensava em trocar de roupa ou tomar um banho. Mas, Kazuko, como a mãe que é – do Takumi, pelo menos –, mandou-me sair dali e ir logo pro chuveiro.

– Tira esse cheiro de escritório daqui. Vai logo!

Ela me mandou quase a pontapés para o banheiro. E foi até melhor, um pouco do desgaste foi embora com a água suja.

Retornei à sala e fiquei vendo um programa qualquer até o jantar. Só comi e cama. Apaguei em cinco segundos. Só que eu fui surpreendido por uma insônia por conta de um caso grande que peguei e passei a tarde analisando. Na esperança do sono dar as caras de novo foi prosseguir com a leitura do diário.

O trecho seguinte tratava-se da decisão que tomei acerca de ter um filho ou não com Kazuko.

“Querido diário,

Perdoe-me a demora. Estava muito animada para lhe contar tudo o que houve. Claro que é coisa boa!

Primeiro de tudo: logo de manhã, Makoto veio, tomou café comigo e com minha mãe e assim voltamos para casa.

Eu dei um abraço tão apertado quando ele chegou, ainda bem que correspondeu. Ainda tinha um medo de ele estar chateado comigo. (Pedido de tempo não é um bom sinal, convenhamos!) Mesmo com as conversas antes, sempre fica uma dúvida na gente. Ele disse que apenas conversaríamos em casa. Imagina o quanto isso não me deixou ainda mais aflita? Por pouco não tive um ataque! Tá, tô exagerando.

Chegamos e sentamos no sofá. Percebendo minha cara, ele nem se deu o trabalho de perguntar como foi a semana com mais detalhes, porque gosta de saber. Foi direto falando do que nos colocou nessa situação toda.

– Kazuko, sei bem do que quer saber: o que eu decidi sobre termos um filho ou não. Nesta semana pensei muito nisso. Sobre como afetaria nossa relação, a nossa com outras pessoas, fosse sua família ou a minha. Até pensei se te alforriava ou não. Mas o que mais martelava na minha cabeça era: não quero que ela seja obrigada e não sofra. Bem, eu sei que esta é sua maior vontade agora, mas fiquei com medo por você, por isso fiquei com o pé atrás. Lembrei de todas as conversas que tivemos antes e notei, no fundo, que é isso que eu quero. Pouco importa o que vão pensar ou dizer. Eu quero ter um filho com você!

Sorri e o abracei, de tanta felicidade por finalmente ele ter aceitado e já era uma coisa nossa, não mais minha.”

Realmente têm momentos assim em relacionamentos. Um tem uma vontade e o outro não. Isso acaba causando conflito, pelo menos até um acordo ou reconciliação.

Como advogado, percebo que muitos aspectos de nossas vidas se parecem com um tribunal. Apontando provas e argumentos a fim de que seu lado vença.

Só depois é que conseguimos evitar que este tipo de coisa aconteça. Um aprende a ceder pelo outro algumas vezes, só para vê-lo feliz. Porque a felicidade dele é a nossa também e deixamos essas brigas bobas e desgastantes de lado.

São coisas que só o amor ensina!

“E nesse momento o que prevaleceu foi a saudade que estávamos um do outro. Começamos a nos beijar desesperadamente, tentando acabar com uma carência que demoraria dias para passar.

Cada minuto que passava era uma peça de roupa a menos em nossos corpos e mais uma jogada no chão. Por fim, nós mesmos estávamos lá. Meio suados, ofegantes e constrangidos pelo estado em que ficamos em meros quinze minutos. Rimos iguais crianças e Makoto comentou:

– Acho que precisamos de um banho.

– Pode ser de banheira? – indaguei

– Sim. Tô precisando relaxar também.

Ele me ajudou a levantar e apostamos uma corrida pelados até o quarto. Claro que eu perdi! Depois disso entramos no banho.

– Ficou trabalhando essa semana?

– Só metade! A outra tirei folga, ou melhor, umas férias.

– Seu safado!

– Calma! Depois de amanhã, iremos viajar. Aproveitar bastante, temos um bebê para fazer.

– Não me diga que é na casa de praia.

– Não! – ele riu – Vamos ficar numa pousada, num lugar de clima mais frio.

– Já pensou em tudo né?

– Se quiser, eu desmarco! – falou sarcástico

– Nojento! – lhe dei um tapa

E ficou um silêncio, que é raro entre nós, já que sempre conversamos bastante. Diferente de outras vezes, não foi um do tipo ruim. Foi o momento que não demandava mais palavras. Era só necessário aproveitar o momento.

Ficamos um tempo apenas abraçados, deixando os dedos enrugarem por causa da água. Saímos, nos secamos, nos vestimos e ficamos apenas assistindo algo descompromissados na sala. Momentos bobos simples e que senti falta nesse período de distância.

Passaram algumas horas e Makoto se levantou dizendo:

– Tem jantar na casa do meu pai hoje. Ele nos convidou.

– É algo especial? Aniversário?

– Não. Só reunião de família mesmo. – depois riu – Acho que meu pai ficou com saudades de você.

– Talvez seja. Vou me arrumar.

Não tardou muito e saímos.

A recepção como sempre fora maravilhosa. O pai e as madrastas de Makoto já me adotaram para a família. E logo Koishiro me perguntou:

– Então, se resolveram?

– Pai, nós não brigamos. – Makoto se meteu

– Para você pode parecer que não, mas pode ter certeza que para ela foi.

– Seu pai tem razão. – olhei para Makoto e retornei a olhar Koishiro – Mas já estamos bem!

– Fico feliz em saber disso. Entrem, entrem. A mesa já está posta, estávamos esperando só vocês.

E qual não foi a minha surpresa ao ver Keiko e toda sua família. A definição de família do Koishiro é bem extensa. Na verdade, o pai de Makoto é um bom exemplo do quanto as pessoas podem mudar. O próprio Makoto já me contou diversas coisas terríveis que ele fazia com Minami, Minori e Shiori. Elas só não sofriam mais porque Makoto as defendia.

A própria relação deles era meio complicada uns anos atrás, porque o jovem Makoto tentava mudar a cabeça do pai, porém ele ainda mantinha seu pensamento retrógado e arcaico.

Só que tudo isso mudou quando ele se viu apaixonado pelas três. Nem ele mesmo entendia aquilo direito. Pensou ser pena ou talvez o que Makoto tanto lhe dizia finalmente entrara em sua cabeça. O tratamento com elas mudou drasticamente e consequentemente as três ex-escravas conheceram o lado bom dele. Em poucos meses, ele as libertou, não sendo uma forma de se redimir, mas provavelmente de se perdoar por todas as atrocidades que fez àquelas três jovens.

Contudo, passado um tempo, foram retornando, uma a uma. E o Koishiro triste, ressentido, frustrado e solitário ficou apenas em algum lugar perdido e distante do passado.

Atualmente diria até que ele é um pai exemplar e ele já me disse, algumas vezes, que se pudesse voltar seria este tipo de pai para o Makoto.

Só que é claro que só se pode alterar o que está por vir. O futuro é sempre incerto, mas nada nos impede de fazer que ele seja bom. Outra coisa é que se deve ter a consciência de que tudo que fomos ou fizemos culmina no nosso agora. Mesmo que odiemos o passado, ele faz parte de quem somos.

E como eu sei essa história toda e com tantos detalhes? Ora, já fui a reuniões familiares o suficiente para ter um dossiê completo.

Foi um encontro muito divertido e onde eu e Makoto também contamos a nossa decisão.

– Quer dizer que futuramente serei avô?

– Sim, pai.

– Mas a Kazuko não toma remédio? – Minami questionou

– Sim. Só que a Rin já falou para eu parar. E bem, já o fiz.

– Nossa, então estão decididos mesmo. – Shiori comentou

– Nunca estive tão certo de algo em minha vida. – Makoto afirmou

Essa frase surpreendeu a mim e também a todos no recinto.

Após isto, o jantar seguiu normalmente, com as conversas, piadas e risadas. Tudo que uma reunião de família teria, acho eu. Nunca entendi muito dessas coisas.

Não tardou muito e logo voltamos para casa. No caminho, eu e Makoto conversávamos sobre os acontecimentos da noite. Especialmente as bobeiras que Koishiro fez.

– Seu pai é um palhaço. – ri

– A idade que está deixando ele assim e ter filhos pequenos também.

– Será que vai ser assim quando tiver o seu?

– Não sei, só tem uma maneira de saber.

– Eu fiquei surpresa com aquilo que disse no jantar. – confessei

– Você é a maior certeza da minha vida, Kazuko. Um filho só será algo mais.

– E acreditar que passei longos meses reprimindo meus sentimentos por você. Por puro medo! – olhei para a janela

– Agora não precisa haver mais medo. Mas, compreendo seus motivos para tal.

– Bem, apesar de tudo ainda há um “contrato”.

– Você se importa tanto assim com ele?

– Antes até que sim. Agora não.

– Posso cancelar de qualquer forma, se assim quiser.

– Não é necessário.

– De verdade?

– Sim! Já sonhei com minha liberdade, mas já a tenho, com você! – sorri para ele – Agora é só um pedaço de papel.

– Que prende você a mim. – riu, maléfica e ironicamente

– Talvez. Mais pelo amor do que qualquer outra coisa. Só que eu acho que o amor não prende, e sim, liberta. Foi o que aconteceu comigo.

– Belas palavras! – ele frisou

– Estou falando sério, Makoto.

– Não estou debochando. Concordo com você! O amor não nos limita, nos completa.

– De fato. – ri – Vamos parar com esse papo blasé?

– Não é de nosso feitio né?

– É! – falei – Preciso de água para tirar esse melado da boca.

– Uma noite ouvindo piada do meu pai e olha só.

– Eu aprendo rápido!

– Sei bem disso...

– Ei – dei um tapa nele

– Eu tô dirigindo! – reclamou

– Isso não te impede de fazer gracinha, seu puto.

– Não disse que era algo ruim.

Nesse momento chegávamos ao prédio. Makoto estacionou o carro e subimos.

– E precisamos marcar a consulta com a Rin. Eu já parei com o remédio. – comentei assim que entramos

– Já está marcado. Será daqui dois dias! E a viagem é no dia seguinte.

– Tudo realmente planejado minuciosamente né, Sr. Makoto?

– Quê que tem? – e riu

– Nada. Tô brincando com você só! – abracei e lhe dei um beijo

– Dorme comigo hoje? – perguntou com segundas intenções

– Sim, sempre. Mas, posso só desfazer a minha mala, tomar um banho e me arrumar?

– Está bem! Vou ficar vendo algo aqui. Quando estiver pronta, me chame.

– Pode deixar! – dei uma piscadinha

E cá estou, lhe escrevendo. Sempre usando essas desculpas assim.

Preciso fazer o que disse que ia fazer. Até!”

Eis que sinto duas mãos nos meus ombros e dou um pulo de susto.

– Porra, Kazuko. – bufei

– Eu não acredito, Makoto, que está lendo de madrugada.

– Tô sem sono. Vim para ver se ele aparecia, mas...

– Vem, volta pro quarto. Vou fazer carinho até dormir. – estendeu a mão

Deixei o diário na mesa de centro e segui com Kazuko e bem, eu dormi rapidinho.