O Diário da Escrava Amada

Anelise Vaz · Capítulo 29 de 56

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O Diário da Escrava Amada

Capítulo 33 · Dono comprometido

 

Passaram alguns dias, diria até semanas. Eu não tive como ler tanto o diário, porque logo em seguida outro caso grande apareceu no escritório. Só não fiquei mais ocupado, pois estava apenas no apoio dessa vez. Mas, é outro caso que dará muito mérito a quem o ganhar, assim como aconteceu comigo semanas atrás.

Saí no meu horário e logo cheguei. Aproveitei o resto do dia com Kazuko e Takumi. Somente antes de dormir que eu peguei o diário para ler. Também passaram algumas semanas no tempo dele e as suposições de Kazuko estavam corretas: eu estava saindo com a Kana. E bem, essa nossa volta dera em algo. A passagem do diário é justamente sobre o dia em que contei sobre meu relacionamento com a Kana. Fiz um jantar em minha casa, como uma forma de anúncio a todos.

Assim começou o trecho:

“Querido diário,

Sinceramente, não sei o que pensar sobre tudo o que acabou de acontecer neste jantar surpresa que Makoto planejou e chamou a família inteira. O anúncio era muito importante. Entenda importante como mal para a Kazuko.

Tive que colocar uma roupa mais “arrumada” do que o pijama que uso normalmente a essa hora. Logo, chegaram Koishiro, Minami, Minori, Shiori, Kyosuke e Akira. Eu e Makoto os cumprimentamos.

Meu dono apresentava um sorriso de felicidade que já estava me dando nos nervos de não saber do que se tratava com exatidão. Então, a campainha tocou e lá foi ele atender o interfone. Minutos depois bateram a porta. Ao abrir, lá estava. Uma garota loira de cabelos compridos, acompanhada dos pais. Eu a conheço pelo nome de Kana. Então, ficou mais do que óbvio o motivo dele estar me evitando na maioria das noites. Inclusive comentei com a Rin sobre e ela cogitou exatamente isso.

A disposição da mesa me fez lembrar qual é o meu lugar. Estava afastada do centro, isolada no cantinho das escravas e crianças. Senti-me só mais uma naquela sala, enquanto as famílias estavam do outro lado. Makoto na cabeceira, Kana à direita, seguida dos pais. Koishiro à esquerda e as esposas depois. Só depois vínhamos eu e as crianças. Keiko nos serviu. Então, o que eu temia foi dito após comermos:

– Bem, pessoal, eu e Kana queremos dizer algo importante a vocês: oficialmente, estamos namorando.

Os pais de Kana quase saltaram de felicidade. Koishiro levantou-se, abraçou o filho e lhe desejou parabéns.

– Tem muito tempo já? – indagou a mãe dela

– Pouco mais de um mês.

– Isso é tão maravilhoso. – sorriu – Que bom que vocês reataram.

E depois, aquilo virou uma reunião de família e eu não fazia parte dela. Sou uma intrusa aqui. Senti-me sozinha, mesmo com as madrastas de Makoto conversando comigo. E não tardou para a família de Makoto partir e a de Kana, incluindo a própria também. Makoto fechou a porta e olhou para mim, soltando em seguida:

– Precisamos conversar!

E meu sangue gelou. O que pode vir após uma frase assim? Nunca se sabe.”

A bendita frase que deixa qualquer um aflito. Pode ser a coisa mais boba, mas quem escuta acaba levando mais a sério do que deveria. Eram “apenas” sobre as novas regras.

“– Sobre o quê exatamente? – foi a única coisa que consegui perguntar

– Novas regras. – sentou-se ao meu lado no sofá – Mas, primeiro, peço desculpas.

– Pelo quê? – olhei-o surpresa

– Por não ter contado sobre o meu namoro com a Kana antes. Eu tenho te tratado mal por conta disso. Te evitado, chegado tarde, mal falado com você.

Mas o que diabos foi isso? Eu não tenho um dono normal, definitivamente. Acabei ficando um pouco irritada e disse, incisiva:

– Sabe que não tem necessidade disso, Makoto.

– Eu sinto que sim, Kazuko.

– E as novas regras? – bufei

– Bem, como estou comprometido com a Kana, é melhor a gente ficar sem transar. Sinto que estou traindo-a ao dormir com você.

– Acabei de me tornar completamente inútil. – sussurrei

– O que disse?

– Nada!

– Mesmo? Parece irritada.

– Já disse que não é nada. – aumentei o tom – Eu vou pro meu quarto.

Porém, Makoto veio atrás, insistindo e me segurando pelo braço:

– Se não fosse nada, não estaria assim. Não me enrola! Fala logo!

– Ai, Makoto. – virei-me para ele – Não é óbvio? Qual será a minha função se não posso cumpri-la mais? Por que não me alforria de uma vez, esquece de mim e segue a sua vida?

– Não te liberto porque não quero e não tenho certeza se essa relação dará certo.

– Ah é. A válvula de escape, a segunda opção, como sempre.

Desvencilhei-me da prisão dele, entrei e tranquei a porta. Ele tentou abrir, bateu, me chamou.

– Makoto, me deixa sozinha. – gritei e segurando o choro continuei – Por favor!

Ele deu um soco na porta antes de dar por vencido e disse:

– Tá bem! Boa noite.

Voltei ao local de escrava em apenas uma noite. Não sei nem o que pensar ou sentir sobre, a não ser as palavras usada e objetificada.”

A outra anotação era do dia seguinte, na primeira noite que Kana passou comigo em casa.

“Olá diário,

Estou escrevendo com sons perturbadores vindos do quarto a frente como fundo.

Makoto se mostrou preocupado comigo de manhã. Então, respondi assim:

– Só me senti isolada de tudo o que ocorreu ontem. Estava sentada do outro lado da mesa, praticamente alheia a tudo. Depois, fiquei mais excluída ainda, com todos conversando e eu sentada lá. Só isso!

– É verdade! Eu mal te vi ontem à noite.

– Claro. Tive que esticar o pescoço para te ver falar.

Ele sorriu.

– Te deixo perto de mim da próxima vez.

– Assim espero.

– Alias, Kana virá aqui hoje.

– E pela sua cara, ela vai passar a noite aqui também. Não se preocupe, preparei os tampões de ouvido para o caso dela ser escandalosa.

Makoto gargalhou. Admito, o que eu falei foi engraçado. Depois, me assustou:

– Não me diga que tem inveja dela.

– Por que eu teria, Makoto?

– Você sabe, Kazuko.

Senti meu coração acelerar. Espero que não seja pelo motivo que estou pensando. Isto durou um milissegundo, quando me defendi:

– Vocês instaurou as novas regras, quem sou eu para falar algo? Só devo me manter na minha posição de escrava e apenas concordar.

– Você só é minha escrava só quando lhe convém. Tipo agora!

– Você também só é meu dono quando lhe convém.

– Merda! – bufou, sentindo o “tapa”

– Já prestou atenção no quanto nossa relação é estranha, Makoto. Todo mundo se espanta com o jeito que me trata.

– Expliquei o porquê de fazer isso.

– Eu sei! É só que... – hesitei, pelo mesmo motivo: coração acelerado

– Fala. – disse, quase num sussurro

Ia falar “acabo ficando confusa”, mas isso seria declarar o que não queria. Então, fugi, falando outra coisa:

– Minhas amigas e parentes me chamam de sortuda. Só que não concordo com eles.

– E eu te trato tão mal assim?

– Não. Só não são “aquelas mil maravilhas” que muitos pensam.

Ele apenas assentiu e o assunto terminou. Foi ao trabalho e já retornou acompanhado. Ela sorriu ao cumprimentar Keiko e fez careta quando me viu sentada no sofá. Falou comigo por mera educação. Ficamos os três assistindo ao filme que escolhi. Kana reclamou o tempo inteiro. Em seguida, fomos jantar. Os outros dois conversavam com tanto entusiasmo que nem cogitei entrar na conversa. O telefone os interrompeu. Enquanto Makoto foi atender, Kana resolveu me atacar:

– Querida, o que você está fazendo aqui?

– Jantando. – respondi, irônica

– Engraçadinha. Estou falando sobre estar fora do seu quarto.

– Só vou a meu quarto para dormir, assim como vocês.

– Aposto que manipulou o Makoto para ter essa liberdade. Também sei que pode sair durante o dia.

– Eu nunca pedi nada a ele. Que isto fique bem claro!

– Então por que ele trataria bem uma escrava pobre como você?

– Porque ele quer assim, são as regras dele. Conforme ele diz: Você é humana também.

– Não admito isso! Não é agradável jantar com alguém como você. Mandarei Makoto proibi-la de sentar a mesa conosco.

– Eu devo estar atrapalhando tanto o seu jantar romântico. Por isso está tão enfezada!

– Não fale comigo assim.

– Ora, mas quem começou?

– O que está acontecendo? – Makoto voltara

– Nada, querido. Só estamos conversando.

E o assunto que falavam antes retornara.

Quando terminamos de comer, Kana foi para o quarto na frente. Makoto e eu tiramos a mesa e arrumamos tudo, já que Keiko nos serviu e voltou para casa. Seguimos juntos pelo corredor e nos despedimos na porta dos quartos.

– Boa noite, Makoto. – disse indo beijá-lo, mas ele me impediu

– As novas regras valem para os beijos também, Kazuko. – deu-me um beijo na testa – Boa noite. – e entrou

E cá estou agora com aqueles sons que já citei. Só me resta dormir. Boa Noite!”

A mim também. Só resta o sono e preguiça.

Fechei o diário, apaguei o abajur e fui dormir.