O Diário da Escrava Amada

Anelise Vaz · Capítulo 40 de 56

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O Diário da Escrava Amada

Capítulo 44 · Pequenos detalhes

 

Era o dia seguinte, sábado, durante a tarde, pós-almoço. Kazuko, Takumi e eu assistimos a um filme, longo o suficiente para termos fome ao final dele.

– Vou fazer um lanche para a gente. – ela disse, indo pra cozinha

Takumi ficou brincando no tapete e eu deixei, estrategicamente, o diário por perto. Pai camaleão: Um olho na leitura e outro no filho.

O trecho era um pouco distante de data em relação ao anterior. Acho que alguém estava muito ocupada com o namorado para escrever.

“Querido diário,

Perdoe-me não ter aparecido por estes dias. Fiquei muito ocupada.

Visitei minha mãe, Rin e a esposa dela. Aliás, o bebê delas está perto de nascer. Sem contar que eu e Makoto não desgrudamos desde o retorno da viagem. Estamos num momento de casal apaixonado. E acho que não estamos mantendo nosso segredo muito escondido. Tem como esconder felicidade? Eu acho que não!

As pessoas ao nosso redor estão notando algo diferente. Primeiro foi a Keiko, que tentou me sondar depois que Makoto saiu para o trabalho.

– Kazuko, está acontecendo algo entre você e o Makoto?

– Algo tipo? – escapando da pergunta com outra

– Namorando? – fez careta

– Claro que não! Não tem nada além de amizade, Keiko. – despistei

– Tudo bem. – pelo tom sei que ela só aceitou a minha resposta, mas não estava convencida

Depois disso, ela não tocou mais no assunto.

No dia seguinte foi a Rin e a Namie. E ela foram mais incisivas que a Keiko.

– Você está com uma atitude diferente, Kazuko. Não tem novidade para contar?

– Não. Nenhuma!

– Nem da tal viagem? – Namie jogou

– Foi uma viagem normal à praia. Nada demais!

– Kazuko, como escrava você é péssima atriz. Tem que haver alguma explicação para essa sua alegria. – Rin dessa vez

– Não tenho o direito de estar feliz? Acordei de bom humor.

– Ela não está dizendo isso, – Namie começou – mas tem mesmo uma razão.

– Não tem nada, já disse. – ratifiquei

– Quantas vezes reclamou do Makoto para a gente hoje? – Rin perguntou – Você sempre fala algo dele para nós. Até evitou tocar nesse assunto hoje.

Rin me pegou. Que droga! Namie questionou:

– Então vocês estão namorando?

– Informação confidencial. – engoli seco

Elas riram.

– Acho que isso foi um sim. – em uníssono”

Deve ficar muito na cara para os outros quando estamos apaixonados.

Naquela semana, referindo-me ao diário, é claro, muitos comentaram comigo que perceberam uma energia diferente vinda de mim. Até meu chefe, que me chamou para conversar com a sós, me perguntou o que havia ocorrido. E falou que não adiantava usar sexo como argumento, porque sabia bem que não era isso. Como Kazuko fez, eu neguei.

“E pronto, já não é mais segredo. Acabei contando. Parabéns, Kazuko!

Aliás, amanhã almoçaremos na casa do pai de Makoto. Meu sogro, melhor dizendo. E lá, com certeza, ainda mais após a viagem, eu e Makoto seremos interrogados. E bem, temos, supostamente, um segredo acerca disso. A não ser que a gente queira contar logo de uma vez.

Enfim, lhe informo sobre apenas amanhã.”

Terminei o trecho e Kazuko veio da cozinha trazendo a comida que exalava um cheiro maravilhoso. E claro, estava uma delícia. Comemos assistindo outra coisa.

– Amor, lava a louça para mim? – ela perguntou

– Lavo sim.

– Então, vou dar um banho no Takumi – sorriu e se aproximou dele, fazendo voz fina – Vamos tomar banho, vamos?! Para o neném ficar cheiroso. – pegou-o no colo e saiu

Aproveitei logo para realizar a tarefa e continuar a leitura que, bem, a Kazuko do passado deixou claro do que se trata. Acomodei-me no sofá e abri o diário.

“Olá diário,

Acabei de voltar da casa de Koishiro. E até que não foi tão ruim assim. Mas, como sempre, vamos por ordem cronológica.

Uma bela manhã de sábado. Makoto e eu acordamos e tomamos café, depois só ficamos sentados no sofá mesmo, vendo alguma coisa. Perto da hora de saírmos, tomamos banho e nos arrumamos. Descemos, entramos no carro e saímos.

Koishiro estava tão ansioso que já ficara na porta nos esperando.

– Que bom que chegaram. – falou nos cumprimentando – A comida já está pronta, estávamos só esperando vocês.

E não fui devidamente informada de que era um almoço com todo mundo mesmo, incluindo Keiko e sua família. Era literalmente uma casa entupida. Fomos recebidos com um coro de alegria.

A mesa de jantar era pequena para todos, então a mesa do lado de fora foi colocada para dentro, montando uma onde coubesse tudo. Apertado, mas coubesse.

Sentamos para a refeição. Makoto e eu estávamos lado a lado. Ele cochichou no meu ouvido uma pergunta:

– O que acha de anunciarmos nosso namoro hoje?

– Uma boa ideia. – assenti e sorri

– Atenção! – Makoto falou mais alto – Kazuko e eu temos algo importante a dizer. – um silêncio e olhares curiosos, Makoto segurou a minha mão – Estamos namorando!

Foi uma comemoração, digna de quando você está torcendo num jogo e seu time pontua. Makoto e eu só conseguimos rir da reação e demos um beijo só para pôr mais lenha na fogueira.

– Eu já sabia. – Keiko declarou – Tava na cara de vocês.

– Eles são ruins de esconder as coisas. – Koishiro falou – Percebi logo de entrarem de mãos dadas. Aliás, isso já era esperado após a viagem da semana passada.

– Pai... – Makoto reclamou – Por favor!

– Estou tão feliz por vocês. – Minori sorriu

Recebemos felicitações de todos os presentes, exceto Kyosuke e Akira, que ainda não tem compreensão disso direito. O assunto mudou e seguimos conversando e comendo. Depois sentamo-nos na sala e outros temas foram comentados.

As primeiras pessoas a irem embora foram Keiko, sua mãe e o resto da família delas, já que tinham outros compromissos. E claro, teve o interrogatório para saberem como foi a viagem e o pedido de namoro. Foi constrangedor na hora em que eu e ele descrevíamos os detalhes. É algo íntimo e pessoal nosso. Tudo bem que eles são a família dele, mas mesmo assim. Faltava apenas escrever um dossiê de tantas perguntas que fizeram.

Logo após isso, nos despedimos e no caminho de volta conversamos:

– Parece que nosso segredo não durou muito tempo. – ele começou

– Talvez seja difícil esconder felicidade. Os outros notam. Eu não contei, mas Keiko perguntou e Rin e Namie também. Disfarcei muito mal com elas.

– Meu chefe também percebeu. Somos péssimos atores, Kazuko.

Rimos e lembrei de uma coisa.

– Ainda tem alguém que não sabe.

– Quem?

– Minha mãe.

Um solavanco na sequência, era Makoto virando o volante bruscamente para pegar a saída para o outro lado da cidade.

– Pra que isso? – reclamei – Me assustei.

– Vamos contar para ela. – ele sorriu – E quase perdi a saída. Desculpe!

– Só tenho medo dela estar com visita.

– E qual o problema disso?

– As histórias se espalham rápido. Antes de pisarmos em casa, a vizinhança toda estará sabendo. E as pessoas julgam, ainda mais lá.

– Aguentarei essas críticas com você. – pegou em minha mão

Seguimos na via por uns minutos e logo chegamos. Bati a porta de minha mãe e ela atendeu:

– Filha, que saudade. Como foi de viagem? – me abraçou

– Foi bem. Na verdade, eu tenho uma novidade.

– Me deixou curiosa. – virou-se para Makoto, cumprimentando-o – Entrem, só não reparem a bagunça, estou costurando umas roupas.

Por sorte, ela estava sozinha. Entramos e vimos a mesa com a máquina de costura e alguns tecidos. Ela pegou um bolo de chocolate e suco, colocou na mesinha de centro e nos serviu. Puxou uma cadeira da mesa para perto do sofá e indagou:

– Então, o que tem para me contar?

Já havíamos combinado que eu falaria, era minha mãe afinal.

– Bem, mãe, nem sei muito bem como lhe falar isso. – apesar da intimidade havia vergonha, mas aqui tem coragem e soltei de uma vez – Makoto e eu estamos namorando.

– Sério? – ela abriu um enorme sorriso

– Sim!

– Finalmente. – ela comemorou – Estou tão feliz por vocês! Não tem ideia do tempo que esperei para ouvir isto.

E ela discursou sobre o quanto o que tinha para ser a pior coisa da minha vida estava sendo uma das melhores coisas. Apesar das dificuldades e problemas, eu estava feliz!

Ficamos lá por mais um tempo e voltamos para casa. Makoto comentou assim que entramos:

– Parece que tirei um peso das costas hoje.

– Por que será, não é mesmo? – ironizei – Mas estou feliz por isso.

Falei que ia tomar um banho e vim lhe escrever primeiro. Eu e Makoto combinamos de assistir a um filme. É a minha deixa!

Até!”

Kazuko retornou com Takumi e colocou no meu colo, fazendo a voz dele:

– Estou cheiroso, papai?

Dei uma fungada na bochecha dele, que riu por conta das cócegas. Peguei-o e continuei brincando, que era só risos e nem peguei mais no diário neste dia.