O Diário da Escrava Amada
Capítulo 56 · Loucura de aniversário
Só consegui pensar em continuar a leitura quando voltei do trabalho na segunda. A semana mal começou e já tá uma loucura no trabalho. Cheguei me arrastando e minha esposa logo perguntou:
– Tudo bem, querido?
– Sim. É só cansaço. Preciso de um bom banho e um pouco de tempo com você – respondi, dando um beijo nela
– Então vá lá e tira essa roupa suja e volte cheiroso para mim, afinal, ainda temos alguns episódios para assistir.
Assenti e pouco depois estava na sala. Todos nós, incluindo Keiko, ficamos em frente à televisão assistindo, vidrados.
Só fui pegar no diário antes de dormir, com Kazuko comemorando eu estar quase no final.
– Agora os dias estão bem mais aleatórios. – ela comentou – Eu escrevi só quando tinha algo muito “uau”!
– Já deu para perceber, Kazuko. A começar pelo seu 20º aniversário.
– Por que as coisas sempre acontecem nos aniversários?
E rimos. Foi uma observação interessante e muito verdadeira.
Takumi já estava dormindo. Ela se deitou ao meu lado e pegou um livro. Tinha muito tempo que não a via ler. Ela não costuma ler a noite como eu. Kazuko abriu seu livro e eu, o diário.
“Nem sei o porquê de escrever de novo aqui neste caderno. O objetivo desse diário já se cumpriu, mais eu preciso contar a alguém, ou melhor, registrar o que aconteceu.
Ontem, foi o meu 20º aniversário. A comemoração foi em minha casa mesmo, bem cedo, por causa de parentes que ainda vão aos centros de escravos.
Tem pouco mais de dois meses que eu voltei a morar no bairro em que vivi maior parte da minha vida. Nesse meio tempo procurei começar a faculdade novamente. Fiz a prova para uma bolsa na semana passada, vamos ver qual será o resultado.
Bem, eu tenho pensado em Makoto todos os dias. Sempre tem algo que faz nossas memórias ficarem surgindo em minha mente. Ninguém nunca mais me perguntou dele desde que voltei, o que lhes interessa é que estou livre e não como meu ex-dono está. Mas minha relação com Makoto foi bem além de dono e escrava, fomos também amigos e namorados. Um amor recíproco e quase impossível se for levar em conta a diferença de classe entre nós.
Só que ontem, quando todos foram embora, veio uma saudade que não pude controlar. Eu queria vê-lo, saber como ele estava. Não pensei duas vezes. Falei com minha mãe que iria sair e não sabia a que horas voltava. Ela não falou nada, só pediu para que tomasse cuidado e não ficasse incomunicável. Afinal, sempre saia com o celular que Makoto me dera. Assenti e sai. Peguei o primeiro transporte que ia para lá, num misto de “estou louca fazendo isso” e “ainda tenho uma coisa a fazer neste aniversário”.
Apesar de não andar mais tanto por aqueles lados, ainda me lembro onde é o prédio de Makoto. Falei com o porteiro, que me deixou subir por me conhecer. Bati a porta, com meu coração quase na boca. Como será que ele estava? Como ele reagiria ao me ver?”
Eu estava em casa, sentado no sofá, sem camisa e sozinho, a Keiko já tinha voltado para casa.
Eu só vivia um dia de cada vez, sofrendo um pouco pela separação.
Estranhei batidas na porta sem terem anunciado ninguém, porém, fui abrir mesmo assim.
“Não demorou muito e o próprio Makoto atendeu. Ele ficou perplexo e soltou, quase se embolando nas palavras:
– Kazuko, o que está fazendo aqui?
Ele estava sem camisa, só com a calça social e descalço, a barba estava por fazer, os cabelos desarrumados. Mesmo assim, minha alma se iluminou ao vê-lo e eu não consegui tecer palavras para responder, só pulei no pescoço dele e o beijo, como tinha semanas que eu queria. Para minha surpresa, ele correspondeu, me puxando pela cintura. Quando nos desvencilhamos, ele fechou a porta e segurou a minha mão, sorrindo para mim. Senti naquele momento que fiz a coisa certa.
Sem falar nada, ele me levou até o quarto e continuamos de onde paramos. Beijos atrás de beijos, peças de roupas espalhadas pelos cantos do cômodo. Nossos corpos atracados e unidos por um magnetismo que nada poderia separar. Gemidos e suspiros, além do suor. Tudo isso era eu e Makoto matando a saudade um do outro.
Todo esse fervor durou poucos minutos, quando nós dois estávamos estirados na cama, olhando para o teto, tentando recuperar o fôlego. E foi só ai que sentimos a necessidade – e tivemos energia – para conversar:
– Feliz aniversário, Kazuko! – ele falou primeiro – Se eu soubesse que vinha, tinha comprado um presente.
– Obrigada! – e ri em relação da segunda frase – E não precisa de presente.
– Afinal, por que veio aqui? – ele indagou tão curioso quanto eu para descobrir o motivo, já que nem tinha entendido direito
– Acho que... Queria ver você! – falei, virando-me para ele
– Sério? – colocou uma mecha de cabelo minha atrás da orelha – Eu também queria te ver. Penso em você todo dia!
Então por que deixamos tudo entre nós acabar da forma que acabou? Foi isso o que pensei.
Tanto tempo sem se ver, sem conversar e claro, sem compartilhar a mesma cama. Diferente de antes o silêncio era constrangedor, havia uma lacuna entre nós que meses atrás não havia. Era a distância, essa maldita.
– O que tem feito? – ele quebrou o gelo
– Reorganizando a vida. Procurando recomeçar a faculdade, ou melhor, entrar nela de novo. Na primeira vez... – não completei
– Eu sei disso e fico mal de ter atrapalhado seus estudos. Já fez alguma prova?
– Na última semana. Estou esperando o resultado para ver se consigo uma bolsa completa.
– E se não conseguir?
– Não tenho como pagar. Terei que tentar até pegar uma que cubra todos os custos.
– Eu pago para você. – ele soltou, me assustando
– Makoto, não precisa. De verdade!
– Eu faço questão!
Não sabia o que dizer. Onde enfiar a minha cara então? Como responder a isso? Só sorri e agradeci mesmo.
Depois disso veio a vergonha e a consciência da loucura que cometi atravessando até o outro lado da cidade. Dei uma desculpa esfarrapada para sair dali.
– Eu preciso ir, tenho que voltar para casa. – levantei abruptamente, recolhendo minha calcinha e vestindo-a
– Está tarde para você voltar agora. – Makoto retrucou, me chamando atenção – Deixa que eu levo você.
Quantos favores ele queria me fazer? Foram dois em menos de cinco minutos. Eu já estava ficando encabulada com aquilo.
– Não precisa, Makoto. Posso voltar sozinha.
E assim como eu, ele percebeu que havia algo estranho ali. Saiu da cama e pegou em meu braço para perguntar:
– O que há com você? Está evasiva!
– Eu não devia ter vindo. – desabafei
– Mas você está aqui e tem um motivo para isso.
– Eu... Eu... – não consegui completar
– Fica aqui comigo, só essa noite. – suplicou – Amanhã te levo para casa.
Não era uma ordem, era um pedido. Seus olhos carregados de uma tristeza que só vira quando cheguei à primeira vez naquela casa, quando fui comprada. Ele tinha me deixado ir e eu voltara. Só que ele não conseguiu esconder a solidão que sentia. Lembrei-me de mim enquanto morava ali e em todas as noites que passei sozinha escrevendo um diário, por não ter com quem contar. Pode parecer que foi pena, mas estava diante da pessoa que povoou meus pensamentos nos últimos meses. Eu sinto algo por ele e por isso, decidi ficar.
– Tudo bem, eu fico!
O rosto dele se iluminou num sorriso, o mais sincero que podia receber. Beijamo-nos de novo e voltamos para a cama. E eu me recordei as razões para ter ido lá, o arrependimento e medo passaram. Ele me recebeu tão assustado quanto eu, mas mesmo assim do jeito que me lembrava: gentil. Entregamo-nos um ao outro novamente e ambos sabíamos que podíamos fazer aquilo praticamente a noite toda.
Porém, havia um problema, só anoitecera e eu não comera nada além do almoço e bolo. A fome já me batia no estômago e tem sido assim desde que voltei para casa. A alimentação não me dá a mesma força que antes.
Depois de estarmos, mais uma vez, ofegantes e deitados, minha barriga resolveu informar a Makoto sobre minha fome. Ele riu e indagou:
– Quer comer algo?
– Não precisa. – outro som estomacal – OK! Podemos comer, mas depois de um banho.
– Ia falar a mesma coisa. – ele levantou – Vamos? – estendeu a mão
Nem tivemos que tirar roupa alguma, porque né...
A água caiu sob nossas cabeças, retirando o calor da parte externa do corpo, mas a interna não ia apagar tão cedo. Demos banho um no outro, especialmente esfregar as costas, que virou quase uma massagem. Secamo-nos e vestimos roupões.
Makoto foi até a cozinha e trouxe o jantar que Keiko deixou pronto antes de sair.
– Não é muito, mas deve dar para nós dois.
– Ainda é mais do que tem lá em casa.
– Eu imagino as condições precárias em que vivem. Lembro quando fiz a festa surpresa para você e observei como as pessoas não paravam de comer.
– Nunca se sabe quando se verá aquela quantidade de comida de novo.
– Você até emagreceu. – ele comentou
– Eu sei. Notei isso também. – então, mudei de assunto – E você, o que tem feito?
– Trabalhando apenas. Resolvi alguns casos grandes, outros pequenos.
– E amorosa? – quis ficar no lado mais amiga
– Nada. E nem quero. – pegou minha mão – Não enquanto estiver aqui.
– Achei que quisesse que fosse feliz.
– Quero. Mas ficaria mais feliz ainda se fosse ao meu lado.
– Podemos tentar de novo? Dessa vez sendo só eu e você, sem hierarquias?
– Mesmo? – ele sorriu – É o que mais quero. Eu me arrependo de ter te deixado ir.
– Você me mandou embora. Expulsou-me e terminou comigo. – permiti uma lágrima cair – Só sofri mais ainda.
– Eu sei. Eu sofri também. Será que podemos esquecer isso? Já passou!
– Tudo bem! Já te perdoei.
E ali estávamos nós, bobos e apaixonados de novo, oficialmente namorando de novo e fomos dormir. E conforme prometeu, ele me levou de volta para casa no dia seguinte. Tinha que ver a cara da minha mãe quando cheguei com ele. Cumprimentaram-se do jeito mais normal do mundo e Makoto foi para casa.
– Filha, o que foi fazer lá?
– Fui vê-lo, mãe. Não sei o que deu em mim.
– Talvez amor né? Quero com detalhes, não todos, mas suficientes.
Contei a ela, que ficou feliz de termos nos reconciliado. Não podia ter ficado tudo do jeito que terminou antes.
Acho que será melhor agora, seremos um casal “normal”, se é que isso existe entre nós.
Até, sei lá, quando quiser!”
Fechei o diário e olhei para Kazuko que estava tão concentrada na leitura quanto eu. Um casal unido também lê unido.
No diário, cheguei na parte mais crucial e importante para que o presente exista. Foi aí que começamos nosso caminho como casal. Diferentes e renovados, sem um contrato a nos prender.
Desejei boa noite a ela, que me deu um beijo.
Ironicamente, meu abajur não foi o último a apagar hoje.