O Diário da Escrava Amada

Anelise Vaz · Capítulo 47 de 56

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O Diário da Escrava Amada

Capítulo 51 · Perdida na solidão

 

Com a loucura do aniversário de Takumi finalmente ter passado, a vida voltou ao normal. Tá tudo mais tranquilo! É tão bom chegar em casa, depois do longo dia de trabalho e ser recebido por esposa e filho que estavam doidos para rever.

Lembro-me que antes da Kazuko eu não valorizava tanto a família assim. Tive relações ruins até minha idade adulta. Brigava mesmo com meu pai quando mais jovem, porém a coisa melhorou. E Kazuko me ensinou que devemos sim ser próximos da nossa família, sem eles não somos praticamente nada. Apenas um ser solitário e vagante no mundo!

Sei que alguns não a têm ou tem uma parte dela faltando. Só que família não é só parente consanguíneo, é quem a gente escolhe para fazer parte dela, como os amigos ou até o nosso grande amor. E Foi o que aconteceu comigo!

Alias, após descobrir sobre o diário que Kazuko manteve durante a época da escravidão, peguei-me pensando o quanto ela não se sentia sozinha em alguns momentos, como: quando a deixei trancada depois do incidente do meu aniversário – quando ela jogou suco na cabeça da Yoko –; quando perdeu o primeiro bebê; enquanto namorava a Kana; quando demos um tempo; e claro, quando ela via o insucesso em conseguir engravidar. Talvez seja por isso que ela manteve fielmente o hábito de escrever o diário e falava com ele como se fosse alguém, um confidente para os segredos mais profundos.

Nunca fui de ter diário, mas acho que é mais isto que serve.

Aproveitei o tempo em família e depois fui manter o meu hábito de ler o diário, que deixa sempre a Kazuko enciumada. Acabo dando mais atenção a ele.

O trecho em questão era de um dia em que ela saiu sozinha para dar uma volta, espairecer, chamem como quiser. Ajeitei-me na cama e comecei.

“Olá Diário,

Estou me sentindo um pouco triste e cabisbaixa hoje.

Eu e Makoto tentamos ontem a noite novamente, como em todas as outras noites até então. Não que esteja ruim transar com ele. Não é isso! É que vejo tanto esforço por parte dele para que dê certo e eu, bem, só posso esperar. Eu tenho apenas uma chance ao mês.

Tentei esquecer um pouco sobre isso indo dar uma volta na parte central da cidade. Não havia outro lugar que me ajudava a melhorar meu humor que o shopping. Comprar algumas coisas para mim, mudar até o corte de cabelo, sei lá, qualquer motivo. Porém, meus olhos só batiam em mulheres grávidas, bebês e crianças. Nunca tinha notado haver tantas assim. Ou talvez seja que nunca tivesse prestado atenção nisso antes.”

Uma coisa é verdade: Quando estamos com o pensamento em algo, vamos apenas ver sobre isso, ai vem a impressão de que há muito mais daquilo que imaginávamos. Ficamos com um foco naquilo e por observamos mais essa coisa.

“E eu pensei se estaria igual a elas em alguns meses ou em quanto tempo mais. Na verdade, meu maior medo é não poder dar ao Makoto – e nem a mim mesma – o que mais queremos: um filho.

Pode parecer bobo, mas isso tem me dado longos momentos de reflexão. Sei que tem pouco mais de um mês que tentamos e não é razão para tal. Só que eu realmente gostaria de dividir estes sentimentos com Makoto, mas não sei se consigo, então, o faço com você, diário.

Descobri com a minha escravidão o quanto a gente acaba sofrendo sozinha e do quão horrível isso é. Deixar sentimentos guardados é uma péssima forma de passar os dias. Não nos sentimos realmente bem, não aproveitamos plenamente os momentos. Parece algo sempre preso na garganta, uma angústia interminável. Não gosto mesmo de me sentir assim!

Tentei o passeio, só que não adiantou, parece que fiquei até pior. Não tardou muito para que eu voltasse e a Keiko notou que havia algo estranho comigo:

– Kazuko, o que houve? Que cara é essa?

– Não é nada.

– Para com isso. Não minta para mim.

– É só que.. – desabafei tudo o que sentia para ela e estava um pouco mais leve depois

– Kazuko, não fique assim. Não se pressione. Você está fazendo o máximo que pode e logo o que você quer vai se realizar. Dê tempo ao tempo! – sorriu – Eu mesma demorei um pouco para engravidar do segundo filho. Quando achei que não ia mais... Surpresa!

Agradeci. Sei que não falava só para me animar. Ela realmente sabia o que era estar no meu lugar. Diferente de Makoto. Sei que ele tem a melhor das intenções, mas ele nunca entenderia, a não que fosse mulher. E tem coisa que é assim mesmo, só sentindo na pele para saber.

De vez em quando recordo de tudo que passei na infância até hoje, especialmente por ser de uma classe mais baixa. E são esses detalhes que mudam nossas experiências e visão de mundo para melhor ou pior. São elas que nos colocam na nossa caixinha, no nosso lugar, nos categoriza como produto e nunca podemos deixar de ser este. Quando me pego pensando nisso, me sinto perdida e solitária em meio a tantos rótulos e nada mais.

Enfim, acho que estou divagando um pouco demais. Logo Makoto chega em casa do trabalho.

Até!

Olhei para o relógio e vi que dava tempo para mais um “capítulo” pelo menos. Era de uns dois dias depois, quando foi para mais um passeio de amigas com a Rin, Namie e a filha delas também.

“Diário precioso,

Acabei de retornar de mais um dos meus encontros rotineiros com Rin, Namie e agora a Shoko. A companhia dela deixa os passeios mais fofos. Agora ela já não é tão pequena e pode sair conosco.

E bem, bebê também era o assunto desse dia, o que a neném faz é tão bonitinho e mais algumas histórias divertidas sobre como a Rin e Namie estão aprendendo a serem mães. É claro que elas indagaram:

– E você e Makoto? Tentando?

– Todas as noites. Uma hora dá certo! E eu sei que período fértil ajuda, tô aprendendo a calculá-lo e percebê-lo ainda.

– O método natural leva mais tempo mesmo, com a maioria das minhas pacientes é assim – Rin comentou

– E quanto tempo vocês levaram para conseguir? – eu perguntei dessa vez

– Para nós foi rápido, menos de um mês, bem, no processo da Namie engravidar porque antes foram visitas e mais visitas ao médico, para exames, colher nossos óvulos, fazer a junção genética e a fecundação e aí sim, inseminar.

– Nossa! Não sabia que era complicado assim.

– Pois é! A gente queria tanto e não desistiu e olha quem está aqui agora. – disse Rin

– Sabe, estou meio chateada com isso há dias e vocês me deram um pouco de ânimo. Obrigada! – desabafei

– Sempre bom compartilhar nossas experiências com você. – sorriu Namie

– E eu compartilhar as minhas com vocês. – completei – Especialmente a época em que Makoto namorou a Kana.

– Outra coisa, Kazuko. – Rin, dessa vez – Sua mãe sabe disso tudo? Do namoro, do bebê?

– Sabe sim. Falei com ela quando estava na minha antiga casa com ela, expliquei tudo, praticamente desabafando. Até perguntou se eu estava mesmo certa daquilo, se era o que eu queria, coisas de mãe. – sorri – Ela achou um pouco estranho, mas me apoiou.

– Isso é estranho para qualquer um que vê de fora. – Namie disparou – Se não te conhecesse e soubesse da sua relação com Makoto, diria que é uma ótima história inventada.

– É, eu sei. – concordei

– Mas se é o que querem... Façam! – ela completou

– Alias, eu e Namie queremos te pedir uma coisa. – Rin falou

– O que? – indaguei curiosa

– Que seja madrinha da Shoko. Aceita?

– Sério? – olhei para a pequena – Claro que aceito.

– Ai que bom! – Namie soltou – A gente nem ia saber o que fazer se não aceitasse. Não tinha outra pessoa em mente.

Rimos, porque nossos momentos sempre rendem boas gargalhadas. Era uma das formas que encontrei para esquecer um pouco das minhas preocupações e problemas. Acho que amigos servem para isso. Para ajudar nossa vida a ficar mais leve. Jogar conversa fora, desabafar, falar besteira, essas coisas. Para bons e maus momentos. E quem diria que minhas melhores amigas viriam depois de passar por um dos piores momentos da minha vida? A vida é muito irônica ás vezes, vou entender um dia.

Deixa eu ir agora, porque está na hora do Makoto chegar.

Beijinhos!”

Meu horário já tinha até extrapolado, mas tudo pelo bem da nossa curiosidade de conhecer o outro lado de uma história, especialmente quando é a nossa. Nunca sabemos plenamente o que o outro está pensando e muito menos sentindo, aprendi isso muito bem com o diário. Eu não tinha ideia de mais da metade das coisas que a Kazuko do passado sentia. Em muitos acontecimentos achei que estava tudo bem, mas para ela estava tudo uma bosta.

Enfim, está na hora de eu ir dormir, porque o dia amanhã vai ser muito longo no trabalho. Tem dia que eu chego lá querendo só minha cama. Triste realidade!