O Diário da Escrava Amada

Anelise Vaz · Capítulo 42 de 56

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O Diário da Escrava Amada

Capítulo 46 · Planejamento

 

Semanas se passaram e eu e Kazuko estamos nos preparativos do primeiro aniversário do Takumi. Parece que foi ontem que ele estava nascendo.

Estávamos no escritório, Kazuko no telefone, conversando com um Buffet, para ter uma ideia dos valores. Talvez façamos a festa na casa do meu pai mesmo, tem mais espaço do que a minha cobertura. Não queremos chamar muita gente também, queremos algo mais simples, mas especial. É só para não passar em branco. Afinal, é o primeiro neto do meu pai.

Distraído, acabei olhando para uma das fotos que ficam na mesa, que é minha e de Takumi, quando o segurei pela primeira vez. Kazuko tirou a foto com o seu celular sem que eu percebesse e acabou saindo algo natural. Bem, dá para ver minha ver minha lágrima escorrendo pelo rosto na foto. Eu me lembro do quanto esse filho não planejado trouxe felicidade para a minha vida. Mudou-a completamente!

O que é exatamente o contrário lá no passado, na minha leitura do diário. Kazuko e eu conversamos muito sobre ter um filho. Percebemos tanto o medo, quanto a vontade dentro de nós. Mas admito que era mais por parte dela do que minha. Levamos um tempo para decidir que íamos começar o tratamento para ela engravidar. Como já estava no período dela fazer os exames de rotina, iria com ela na consulta com a Rin para conversar sobre isso.

De volta ao presente, estou com Takumi no colo batendo as pequenas mãozinhas na mesa e Kazuko me pedindo para segurá-lo, pois o barulho não a deixava ouvir. Sai do escritório e fui até o quarto, onde ficam seus brinquedos. Ainda vamos transformar o antigo quarto de hóspedes, que era o de Kazuko, no quarto dele.

Coloquei-o no chão e logo se entreteve com algo. Peguei o diário na mesa de cabeceira e aproveitei para ler.

“Olá Diário,

Tem pouco tempo que eu e Makoto voltamos da consulta com a Rin. Apesar de ser minha consulta de rotina, aproveitamos para conversar sobre minha possível futura gravidez.

Era até que um dia vazio no consultório, fui atendida na hora marcada.

– Como vai, Kazuko? – me cumprimentou

– Bem. – sorri

– Ah, que bom lhe ver, Makoto. – ela disse – Não sabia que viriam juntos.

– Temos algo importante. – soltei

Ela nos mandou sentar, o fizemos nas duas cadeiras de um lado da mesa e Rin ficou na do outro lado.

– Então, podem falar. Sou toda ouvidos!

– Bem, – Makoto começou – estamos pensando em ter um filho.

– Entendi. – foi profissional – Olha, não posso avaliar se será o momento certo para vocês. Mas, Kazuko está completamente saudável e apta a engravidar. Só suspendermos o tratamento anticoncepcional e iniciarmos outro que a ajuda a engravidar. Enfim, é algo que vocês podem conversar sobre – deu uma leve pausa, nos olhamos – Kazuko, pode ir se trocar.

Então, fiz conforme ela falou.”

Quando Kazuko saiu, Rin comentou para eu pensar nisso com muito cuidado. Porque ela percebia no meu olhar que aquilo não era tanto a minha vontade, que sabia que eu era uma pessoa boa e que não fizesse a Kazuko sofrer.

– Ela não é só sua namorada, mas ainda é sua escrava também. Esse detalhe muda muita coisa entre vocês.

E saiu, me deixando com meus pensamentos.

“Fui até a sala ao lado, tirei minhas roupas e vesti o avental. Sai por outra porta atrás de mim, onde fica aquela cama onde sempre faço meus exames periódicos, semestralmente. Enquanto me examinava, Rin questionou:

– O que aconteceu para vocês tomarem uma decisão dessas?

– Estamos pensando ainda, Rin. Conversamos bastante sobre isso.

– Não se esqueça que você ainda é escrava dele, Kazuko.

– Eu sei. Mas acho que será um passo importante para nós.

– Sei que sim, porém deve ser tomado com cautela. Relaxe! – disse quando abri as pernas – Mas, você se sente mesmo pronta para ter um filho? É uma responsabilidade enorme. – longos minutos de silêncio – Terminamos!

– Ainda lembro daquele bebê que perdi. – sentei novamente – Tenho um pouco de medo ainda.

– Medo é totalmente normal. – olhou para mim – Serei sincera. Acho que vocês podiam sim ter um filho, só que eu sinto que ele tem medo de te machucar com isso.

– Percebi isso. Ele está receoso.

– Ele tem mais medo que você. Ele não quer que sofra daquela forma de novo.

– Talvez com o tempo...

– Talvez ele precise aceitar a ideia. – me interrompeu

– E minha saúde? – mudei um pouco de assunto

– Pelo que vi, tudo normal. Só vou mandar para análise mesmo. Vá se trocar, temos que conversar sobre seu tratamento para engravidar.

Rin saiu e eu me vesti novamente, voltando à companhia de Makoto e Rin.

– Tudo certo com a Kazuko.

– Então, quando podemos começar o tratamento? – ele perguntou

– Imediatamente, se assim quiserem. Por enquanto, é melhor apenas deixar esse ciclo passar. Kazuko então pode parar de tomar o anticoncepcional. Também vou pedir os exames de sempre e se tiver algo alterado, trataremos disso também. – falou enquanto preenchia os papéis

Assim nos despedimos e saímos. No caminho de volta, conversamos:

– Você tem certeza disso, Kazuko?

– Tenho. – já havia pensado muito sobre isso – Por que pergunta de novo?

– Sendo super protetor talvez. Perdoe-me. Eu só não quero que acabe se machucando.

– Não se preocupe, Makoto. Estamos juntos nisso, lembra?

Ele sorriu, assentindo.

Realmente ainda percebo um pouco de medo da parte dele. E ele não desmentiu nada quanto a isso. Acho que ele só precisa absorver e acostumar com a ideia.”

Tive que correr porque senão o Takumi ia enfiar o dedo na tomada. Peguei-o e falei, olhando para ele:

– Já falei que ali não pode.

Acabou que fui brincar com ele e perdi a noção do tempo. Até que Kazuko entrou e reclamou:

– Como é chata essa coisa de ficar pedindo orçamento. E nunca tem o que quero.

– Conseguiu escolher algum?

– Não. Terei que ligar para outros amanhã. – ela sentou ao meu lado, no chão – Essa coisa de festa de criança...

– Você que quis ter filho! – brinquei com ela

– Você não né, Makoto? – me deu um tapa – Ridículo!

E rimos. Mudou de assunto em seguida:

– Até que enfim depois de muito tempo, não te vejo lendo o diário.

– Quis ficar com Takumi um pouco.

Ela sorriu e me abraçou em seguida. Juntou-se a mim e a Takumi na brincadeira. Aproveitamos o resto do dia para dar um passeio, comprar algumas coisas da festa, jantar fora. Voltamos um pouco tarde. Kazuko e Takumi foram dormir e eu fui fazer a minha leitura pré-sono.

– Só não demore viu, amor? – ela disse, me dando um beijo de boa noite e virando para o outro lado, ficando de costas para mim na cama.

Abri o diário e prossegui do trecho seguinte:

”Bom dia diário,

Pela primeira vez em muito tempo dormi sozinha em meu quarto. Admito que dormi mal, porque fui pro quarto completamente chateada e até com raiva. Makoto e eu tivemos uma conversa séria, que resultou numa briga feia.

Depois do jantar, quando Keiko já tinha saído, nós sentamos para assistir a um filme. Ao fim, resolvemos retornar ao assunto de uma possível gravidez minha, num futuro próximo. Ele reforçou, novamente, o mesmo questionamento:

– Tem certeza disso, Kazuko? Mesmo?

– Eu tenho. É o que eu quero!

– Sendo sincero, não acho que dará certo.

– Por que diz isto?

– É muito cedo para tal. Como disse no outro dia. E ainda tem que... – ele parou

– Tem o que? – indaguei, pressentindo o que diria

– Ainda existe a hierarquia de dono e escrava entre nós. – falou sinceramente

– Sei disso também, mas acho que na atual circunstância não passa de um contrato.

– Não digo com relação a nós apenas, Kazuko, e sim com os de fora.

– Sempre isso do que eles vão achar, o que eles vão pensar. Não diz respeito a eles! Do que você tem tanto medo, Makoto?!

– Eu não sei! – respondeu

– E você acha que eu também não estou? – aumentei o tom – Eu quem devia ficar receosa, nervosa e pensar bem sobre tudo isso. Porque eu quem vai carregar esta criança, ouvir todas as críticas, sofrer se um dia você simplesmente decidir, como meu dono, que não posso mais vê-lo. Tudo isso corrói a minha mente de uma forma... Ser sua escrava faz isso comigo!

Makoto ia falar algo, mas só segurou a minha mão. Eu não queria consolo, então soltei e apenas sai, já que tinha falado aquilo que queria. Porém, ele veio atrás de mim, tentando argumentar:

– Kazuko, eu tenho medo por você. Porque te amo e não quero que passe por isso apenas por mim.

– Não é por você. – virei-me – Não entendeu? Depois de eu dizer várias vezes que é isso o que eu quero? Não importo mais com o que vai acontecer. É minha vontade e está duvidando dela.

– Ainda somos jovens, Kazuko.

– Makoto, posso ainda parecer adolescente, só que amadureci muito neste último ano, morando aqui. Não sou mais a Kazuko bobinha e inocente. Ser escrava me ensinou muito, a começar que tenho direito ao que eu quiser.

– Não enquanto estiver sob a escravidão.

– Eu entendi, advogado. Só que o Makoto, que tá em algum lugar por ai, me mostrou isso, que sou alguém e mereço respeito. – olhei para ele, segurando seu rosto – Sabe, nunca o vi tão cético, receoso, medroso. Não reconheço este seu lado, Makoto! Quero o de verdade de volta.

Entrei em meu quarto, bati a porta e me debulhei em lágrimas.

Agora estou lhe escrevendo e de verdade, eu não reconheço o Makoto, pelo menos não nessa situação. Ele, que sempre foi impulsivo, de não pensar muito, não se importar muito. Está cauteloso demais quanto a termos um filho, mesmo que lá no fundo eu sei bem que ele também quer.

Isso pode acabar fazendo mal ao nosso namoro. Estou ficando pensativa quanto a isso também.

Até, diário.”

Guardei o caderno, apaguei a luz do abajur, abracei a Kazuko e logo dormi.