O Diário da Escrava Amada
Capítulo 45 · Um filho?
Uma semana de folga, por conta do feriado estendido. Decidimos aproveitar em casa mesmo, porque algumas vezes uma viagem é mais cansativa do que se espera. Porém, não significa que ficamos em confinamento. Saímos para passear e fazer compras, visitamos os parentes, coisas assim. Os momentos de tédio em casa eram quebrados pelas sessões de leitura do diário.
Estou apenas no quarto dia de folga e passei de doze “capítulos” lidos no diário e esta é mais uma das leituras pré-sono, só que na sala, Kazuko e Takumi já estão dormindo. Eu fiquei para ver um filme e já acabou, contudo, estou sem sono. Então, por que não? Acomodei-me e abri o diário, com auxílio do marcador que uso para saber onde parei e comecei.
“Querido diário,
Hoje irei dormir com um pensamento e possível vontade na minha cabeça.
Teria sido um dia normal se não fosse visitar a Rin e a Namie. Fui ver o bebê delas que nasceu na semana passada. Não gosto de ir visitar recém-nascido, mas elas me convidaram. Neste caso, é diferente!
Nunca fui à casa delas, passaram-me o endereço e nem foi difícil de achar. Era uma casa relativamente grande e a única de cor amarela naquela rua. Toquei a campainha e Rin atendeu, dando um abraço receptivo e apertado.
– Aproveitando a folga? - indaguei
– Sim. Tanto ela quanto a Shoko. – sorriu – Venha! Elas estão na sala, só não faça muito barulho.
Caminhamos normalmente passando pelo portão, a entrada, a varanda e só então a porta da sala. E lá estava Namie com a bebezinha no colo, amamentando-a.
– Oi, Kazuko. – cochichou e fez um gesto para me aproximar
Minha reação foi espontânea.
– Oh, ela é tão linda! Tão pequenina.
– Quer segurar depois?
– Não, não. – respondi , com medo – Ela parece tão frágil.
– Tem medo de machucá-la? – Rin perguntou, eu assenti – Não precisa se preocupar. A gente te ensina a segurar direitinho.
Ficamos conversando um pouco, elas me contaram, com um pouco de detalhes demais, como foi o nascimento e notei o quanto estavam felizes. Admito que finalmente as enxerguei como uma família. Sim, eu já as via assim antes, só que agora tem algo mais: um novo membro. E não pude evitar de recordar da minha família, que também eram de três mulheres: eu, mamãe e vovó. Como eram tempos mais simples!
Foi uma tarde descontraída na casa de amigas. Conversamos, rimos, nos divertimos.
E bem, claro que teve o momento em que peguei a Shoko no colo. Não foi a primeira vez que segurei um bebê, afinal, tenho primos e primas mais novas que eu. Contudo, tive uma sensação diferente, totalmente atípica e desconhecida até então. Surgiu uma vontade de ter um bebê, simultaneamente com um medo. Sinceramente, era esquisito. Decidi não falar nada sobre isso, não com elas e nem por enquanto.
Cumprindo regras, cheguei antes do Sol do pôr. Keiko questionou assim que me viu:
– Então, como é a bebezinha?
– Linda, Keiko. E por falar nisso, preciso comprar um presente depois. Mas o que darei?
– Pode deixar que lhe ajudo a escolher. – voluntariou-se
– Oba! – me animei – Tanto tempo que não vamos às compras.
E ela riu.
Fui tomar banho e logo Makoto chegou. Não tardou muito e estávamos jantando. Claro que ele também me perguntou sobre a visita do dia e respondi a mesma coisa.
– Elas devem estar tão felizes. – comentou
– Estão sim. Tinha que ver o sorriso nos rostos delas.
E o assunto cessou ali. Nada demais aconteceu depois. Só vim trocar de roupa para dormir e aproveitei para escrever rapidinho. Makoto está me esperando para dormir.
Até!”
Estou com insônia hoje. Segui a leitura para a página seguinte.
“Diário precioso,
Sabe os pensamentos que lhe confessei ontem? Pois é, estão me afligindo. Continuo com eles apenas em mim. Acho que o passeio com Keiko hoje só os tornou ainda mais fortes.
A tarde, pouco após o almoço, saímos a fim de comprar um presente para a filhinha de Rin e Namie.
Passamos por diversas lojas com roupas, acessórios, tudo de coisas para bebês. Ambas determinadas a encontrar algum macacão para dar de presente. Keiko comentou comigo durante:
– Isso me dá tantas saudades de quando estava grávida e os meus filhos eram bebês. Adorava entrar em lojas assim e sempre saía com algo. Não resistia!
– Só fiz isso para dar de presente mesmo. – ri
– Um dia fará pensando em seus filhos, Kazuko. Se é que quer ter.
– Claro que sim, só não queria que eles fossem vendidos como eu fui.
– Te entendo perfeitamente. Foi por isso que minha mãe trabalhou e eu também trabalho: pelo bem deles.
– Vai dizer que é ruim trabalhar para o Makoto?
– Vai dizer que é ruim ser escrava do Makoto? – rebateu
Ambas gargalhamos e completou.
– Ainda existe gente de bem nesse mundo.
– Mesmo que não sejam perfeitas. – completei
Tudo isso ocorreu enquanto olhávamos as araras de roupa. Eis que Keiko encontrou algo.
– Que tal este, Kazuko? – disse mostrando um macacão amarelo, com alguns bichinhos estampados – Lindo né?
Assenti, concordando. Era aquele que iríamos levar. Seguimos para o caixa e Keiko parou no meio do caminho e pegou uns sapatinhos.
– Para que isso? – soltei
– Você.
– Eu? Por que?
– Presente adiantado para seu futuro filho.
– Obrigada. – respondi, um pouco sem graça
Era um sapatinho vermelho, que parecia até uma meia. Pagamos e voltamos. Deixei as bolsas no sofá e fui com ela fazer o jantar. Ficamos tão distraídas que a hora passou voando e Makoto abriu a porta da sala. Fui cumprimentà-lo com um beijo, como sempre. Ao deixar a maleta no sofá, viu a sacola e indagou:
– Compraram o presente hoje?
– Sim. – falei, indo em direção à cozinha
– Um macacão e sapatos?
– Só o macacão. Os sapatos são para mim.
Makoto andou igual a um foguete e me puxou pelo braço, me assustando.
– Você está grávida, Kazuko?
– Não, Makoto. Eu tomo remédio esqueceu?
– Ele também falha.
– Sei disso. – percebi uma certa apreensão em seu olhar – Mas não estou. Perdoe-me não ter explicado antes.
– Tudo bem. – sorriu amarelo – Vou tomar um banho e volto pro jantar.
Então, me soltou.”
Admito ter sido um susto. Não que eu não quisesse um filho, mas não me sentia preparado.
E outra notícia de gravidez repentina? Acho que os mesmos traumas do filho perdido também estavam em mim.
“Voltei à cozinha e Keiko, que ouvira tudo, comentou:
– Eita, que o clima ficou pesado agora.
– Verdade. – concordei – Se eu tomo remédio é porque Makoto não quer filhos. É normal ele agir dessa forma.
– Mas você quer um.
– Não necessariamente com o Makoto, porém ficaria feliz se fosse com ele.
– Eu sabia.
– Ai, Keiko, - confessei – eu ainda tenho medo por conta do que aconteceu antes. Só que quando segurei o bebê ontem, veio algo em mim que não sei explicar.
– Por que não conversa com Makoto sobre isso?
– Farei isso.
– Qualquer coisa, só falar comigo.
– Obrigada!
Logo jantamos e Keiko voltou para casa. Aproveitei que Makoto se distraiu com um programa e vim me banhar e lhe escrever. Pretendo conversar com ele como a Keiko aconselhou. Espero que corra tudo bem.
Eu sinceramente estou com medo, muito medo!”
Dei um bocejo, era o sono dando as caras, porém o pequeno tamanho do trecho seguinte me fez continuar. Só mais esse. Prometo!
“Diário,
Conversei com Makoto, pouco antes de dormimos. Estou um pouco mais aliviada agora.
Estávamos deitados, apenas com a luz dos abajures acesas. E por pouco minha voz não sai:
– Makoto, posso falar uma coisa?
– Claro, Kazuko!
– Depois que visitei a Rin e segurei a filha dela no colo, sabe, eu estou sentindo algo estranho.
– Estranho como?
– Não sei ao certo, talvez seja a vontade de ter filho também.
– Só porque elas tiveram?
– Não. Eu me pego pensando naquele bebê que perdi diversas vezes. Fica meio difícil não lembrar, ainda mais por ter acompanhando a gravidez da Namie todinha.
– Depois daquele susto que me deu quando cheguei, você me diz isso agora. – ele se sentou na cama, irritado
– Makoto...
– Olha, Kazuko, eu também penso em tudo o que passamos daquela vez. E não sei se seria bom para nós termos um filho agora. Bem, nos conhecemos tem mais de um ano, mas temos pouco tempo de relacionamento, como namorados. E, eu não me sinto pronto para isso ainda.
– Nem eu mesma sei se estou pronta também, mas eu sinto que esta vontade brotou em mim essa semana. – sorri, pensando em algo e falei – Imagina só um Makotinho ou Kazukozinha correndo pela casa.
– Ia querer que nosso fosse mais parecido com você. – disse olhando para mim – Olha, a gente pode pensar sobre isso melhor, conversar, amadurecer a ideia.
– Sim. – concordei – É que isto estava me afligindo, tinha que pôr para fora. Mas, sendo sincera, queria ter muito um filho com você, Makoto.
– Eu também, Kazuko. – e sorrimos, um para o outro – Agora vamos dormir, porque eu tenho que acordar cedo. – soltou, me dando um beijo de boa noite
Ele foi para o trabalho há pouco e estava ansiosa para dividir o que aconteceu. Agora tenho meus afazeres diários.
Até!”
E eu tenho que ir dormir.
Coloquei o diário na mesa de centro e fui ao quarto.